terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

MOBILIZAÇÃO DE INTERNAUTAS E SÓCIOS DA HEBRAICA LEVA O CLUBE JUDAICO A DESCONVIDAR BOLSONARO

O deputado ultradireitista Jair Bolsonaro não mais fará uma palestra na sede paulistana do clube Hebraica em março; o convite foi retirado, em função da avalanche de protestos nas redes sociais e de um abaixo-assinado repudiando a iniciativa, entregue à diretoria do clube. 

Os 3.808 signatários alegaram que Bolsonaro:
"...explora e ataca as minorias entre as quais nós, judeus, nos encontramos. 
Ele é homofóbico, misógino, racista e antissemita por natureza e convicção. Idolatra a extrema direita neonazista e admira os torturadores da ditadura militar, a qual enaltece em todas as oportunidades. 
Por tudo isso, em nome da memória de Vladmir Herzog, Iara Iavelberg, Ana Rosa Kucinski, Gelson Reicher, Chael Charles Schreier e tantos outros judeus vítimas da ditadura, os abaixo-assinados pedem que a Hebraica – SP não permita ato com Jair Bosonaro na sede do clube".
A comunidade judaica mostrou, assim, ter consciência da importância dos simbolismos. 

A decisão pode até parecer um tanto hipócrita se lembrarmos, p. ex., as flagrantes semelhanças entre o gueto de Varsóvia e o gueto de Gaza, bem como entre as ocupações nazistas como um todo e as carnificinas e truculências que o estado judeu comete nos territórios palestinos por ele ocupados manu militari.

Mas a presença de Bolsonaro seria mesmo chocante ao extremo, daí os judeus haverem tido o bom senso de a evitar.
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NAU DOS INSENSATOS

Bom senso que faltou, p. ex., à ex-presidenta Dilma Rousseff, quando ela, em troca de um punhado de votos, andou associando a sua imagem à de personagens que sempre mereceram da esquerda brasileira a mais enfática rejeição, como Edir Macedo e José Maria Marin. 

Alguém poderá dizer que chuto cachorro morto, uma vez que Dilma está afastada da política. Mas, temos de manter sempre viva a lembrança de infâmias que jamais deveremos repetir, por motivo nenhum, muito menos por meras conveniências eleitoreiras.

Casos, além dos episódios citados, da promiscuidade de Luiz Carlos Prestes com Getúlio Vargas, subindo ao palanque do ditador que consentira na entrega aos nazistas de sua companheira Olga Benário, grávida de sua filha; e de Lula beijando a mão de Paulo Maluf para que este apoiasse Fernando Haddad na eleição municipal.

Temos pela frente um longo e árduo caminho, para recuperarmos a credibilidade da esquerda. É mais do que hora de decidirmos, de uma vez por todas, nunca mais darmos tais vexames. 

O povo só voltará a nos respeitar quando defendermos intransigentemente os valores corretos e agirmos em consonância com eles em todas e quaisquer circunstâncias.

COMO GANHAR NA LOTERIA?

Por Apollo Natali
Entre as tentativas sem fim de se ganhar na loteria, a melhor delas é a do governo. Ele é o banqueiro. Fica com quase toda a grana e não precisa arriscar um centavo.

D. Pedro II proibiu no ano de 1884, em todo o Império, a venda de bilhetes de loteria. Eram estrangeiros! 

Na ausência do imperador, os bilhetes voltaram. O Brasil nacionalizou os jogos de azar. E olha quantos filhotes já nasceram: loteria esportiva, quina, dupla-sena, mega-sena, lotomania, lotofácil, timemania, totobol, loteria federal, raspadinhas. Esqueci algum?

Os estados também trataram de se virar e criaram as próprias loterias para fazer receita, hoje extintas. Nossa, quantas suspeitas de roubalheira! 

A iniciativa privada também foi atrás desses ovos da galinha de ouro e criou seus próprios joguinhos. Veja-se a tele-sena do ex-camelô e depois riquíssimo Sílvio Santos. É a capitalização da esperteza. Você compra os números e, se não for sorteado, o Sílvio te devolve um pouquinho do que você gastou. Tem de esperar um ano. Não rende nada.

E observem essa tal de capitalização, vendida pelos bancos. Igualmente, não rende nada. O otário do comprador, quando vai resgatar, só recebe o valor gasto. O cretino capitaliza o banco enquanto ele mesmo e sua família ficam descapitalizados. É um jogo. Perde-se sempre.
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"Perde os três contos/ no conto da loteria"
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Tolerados e camuflados persistem os bingos, caça-niqueis, roletas, bacarás, vinte-e-um, bisca, pôquer.

Ah, o imortal jogo do bicho! Ilegal, oficialmente tolerado, arrecada ouro puro para os seus banqueiros. Sem impostos. O jogo do bicho é tido pela criatura popular como a única instituição que funciona bem neste país. É o jogo mais confiável. Código de honra da loteria zoológica: ganhou, recebeu.

Mas, o respeitável público já sabe de tudo isto. O que ele quer mesmo saber é como ganhar na loteria. Há mais de 40 anos o matemático Flávio Wagner Rodrigues, da Universidade de São Paulo, fez uma análise das chances de se acertar na antiga Sena. Chegou à conclusão de que naquele jogo só ganhava o governo. Aliás, como já se pode constatar nas primeiras linhas desta lenga-lenga.

O matemático advertia que havia uma única chance em 16 bilhões de se acertar os seis números. É preciso ter muita fé em Deus para ganhar, já rezava aquele guru dos números. 

Vai ter fé em Deus assim no meio do mato, deputado João Alves, chamado anão do orçamento, alusão a mais um escândalo de corrupção que rendeu CPI, esta em 1993. 

Tido como chefe do bando, ele renunciou antes de ser cassado] disse ter ganhado 125 vezes na loteria, com a ajuda de Deus. Apesar do cheiro de enxofre que empesteava o ar...

Anotem alguns sortilégios para ganhar: fé em Deus. Os números das idades ou datas de nascimento dos membros da família. Números dos RGs e CPFs. As idades das muitas namoradas (quem não teve muitas joga menos). Os números dos códigos de barra dos supermercados. Os números das casas pelas quais o pobre que mora de aluguel já passou (foi como um sujeito se tornou milionário nos EUA). 

Ponho em prática esses aplicativos desde o começo do século passado. Já com um pé na cova e outro na sepultura, não ganhei nada até hoje.
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Não desisto. Coloco três montinhos de açúcar na mesa. À medida em que as moscas pousam, marco as colunas na loteria esportiva. Atenção, mosca à esquerda, coluna um. À direita, coluna dois. No meio, empate. Meu bendito pai, só olhando. Balança a cabeça e lamenta: posso ficar louco um dia, nunca se sabe, mas não vai ser desse jeito

Inventei um piãozinho de madeira de seis faces, com as colunas um, do meio e dois nos lados. Aí meu pai fala que vai rezar em favor do meu equilíbrio mental.

Ah, me deixem falar sobre os ateus que ganham na loteria. Espertíssimos, não rezam. Fraudam resultados. Houve manipulação de sorteios de jogos de futebol na Alemanha, Itália, Brasil e outras louvadas democracias.
Há uns 40 anos o jornalista Juca Kfouri denunciou na revista Placar a manipulação dos jogos da loteria esportiva daqui. Pela justiça anglo-saxã, os finórios seriam presos. Cá na patriamada, não!

Menos tempo atrás, a TV Globo denunciou uma quadrilha de integrantes de alto coturno que fraudava nossa rica mega-sena. O programa foi exibido às 3  da madrugada (para não provocar ondas de indignação?). 

No Equador, também há um tempão, uma quadrilha fez sair no primeiro prêmio da loteria federal os números todos iguais. Tudo zero. Assim dá na vista, malandros! Deu prisão.

No mês de janeiro do Ano de Nosso Senhor de 2006, o jornal Agora, de São Paulo, noticiou, sem muito alarde, a desconfiança dos apostadores na lisura da mega-sena. 

Duas coisas. Primeira: perguntem a qualquer um na rua, em casa, no trabalho, no metrô, no ônibus, no táxi, se alguém acredita na honestidade da mega-sena. Tenho perguntado muito. A resposta é sempre não

Segundo: impressionantes os seguidos recordes nos resultados da mega-sena. A cada sorteio, centenas de milhões de perdedores.
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Ótimo filme sobre bicheiros, baseado em peça teatral de Dias Gomes.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

PORTA-VOZES DA 'NOVA DIREITA' QUEBRAM O PAU. QUE TAL DAR UMA UZI PARA CADA?

Toque do editor
Desde que deixei de trabalhar na grande imprensa, fiquei privado das informações de cocheira que os personagens bem situados nos escalões superiores dos Poderes sopram para jornalistas (sempre com segundas intenções, claro, mas o bom profissional consegue administrar tais situações sem transgredir seus princípios).

Lendo criticamente o noticiário e as análises relevantes, consigo ter uma boa noção das grandes coordenadas da política e da economia. Sobre os movimentos de bastidores, contudo, a coisa se torna bem mais difícil quando tentamos nos orientar às cegas.

Para que meus leitores também não fiquem às cegas, eu costumo disponibilizar-lhes textos de autores que têm acesso às informações necessárias para comporem um bom quadro de bastidores. 

Caso deste abaixo, que leva a assinatura de Celso Rocha de Barros, doutor em sociologia pela Universidade de Oxford e analista do Banco Central. 

Ele foi ao encontro de algo que já atraíra a minha atenção – a encarniçada disputa por mais influência que os porta-vozes da nova direita estão travando –, mas, por tratar-se de um universo antípoda do meu, eu não tinha como aquilatar o que está por trás do arranca-rabo. Via o efeito, mas não sabia a causa.
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BARRACO EXPÕE DISPUTA DENTRO DA 
DIREITA, QUE NÃO SE DECIDE SOBRE TEMER
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Celso Rocha de Barros
Como diria o comissário Gordon (*), não foi o debate de que precisávamos, mas talvez tenha sido o debate que merecíamos. Uma pequena guerra civil começou dentro da chamada nova direita brasileira: Reinaldo Azevedo, colunista da Folha, foi atacado por Joice Hasselmann, ex-veja, e por Rodrigo Constantino, ex-veja, por suas críticas à Lava Jato, e respondeu animadamente.

Intelectualmente, foi um daqueles jogos em que o compacto com os melhores momentos tem só o hino nacional e o apito final. Mas o barraco dos conservadores foi o canário na mina: é sinal de uma crise chegando, e de uma disputa real dentro da direita brasileira, que deve se tornar mais acirrada nos próximos meses.

A direita brasileira precisa se decidir sobre Temer; abandoná-lo é colocar em risco as reformas de mercado, apoiá-lo é colocar-se no centro do alvo da Lava Jato. Não será fácil.

Azevedo defende o governo Temer e, recentemente começou a fazer críticas à Lava Jato. Talvez o apoio e o timing das críticas não sejam completamente não relacionados. Ao contrário de Olavo de Carvalho ou Constantino, Azevedo tem trânsito na direita institucional brasileira; suas posições são mais ou menos próximas das do DEM, p. ex., ou da direita do PSDB. Esses setores investiram pesadamente no governo Temer. E todo mundo ali vai aparecer nas delações.
OC, Azevedo, Bolsonaro e Constantino: ambições à flor da pele

Para essa turma, o ideal é que a cruzada anticorrupção pare no PT, e o discurso Temer colocou o Brasil nos trilhos de novo tem de colar até a eleição de 2018. Se der certo, os governistas entram com boas chances na disputa presidencial.

Os adversários de Azevedo são recém-chegados buscando maior inserção institucional. Não se importariam se a política brasileira implodisse. No cenário de implosão, Azevedo os ameaça com Lula; mas eles sonham, aberta ou secretamente, com Bolsonaro. E, sobretudo, cada um deles sonha ser Steve Bannon, o assessor de extrema-direita de Trump.

Os movimentos anti-Dilma tentam se equilibrar no meio dessa tensão. Recentemente, convocaram uma passeata a favor da Lava Jato. Mas a convocação é uma piada: em vez de tentar atrair o maior público possível para defender a operação, o Movimento Brasil Livre incluiu na pauta dos protestos a reforma da Previdência e a revogação do Estatuto do Desarmamento. 

Fez isso para impedir que apareça qualquer um que se disponha a gritar Fora, Temer!. Isto é, o MBL apoia a Lava Jato desde que o seu lado continue no poder. Como diria o PT, assim até eu.
O sonho de alguns deles: ser o Steve Bannon do Bolsonaro  

Por sua vez, Ronaldo Caiado não disfarça a pretensão de ser candidato a presidente no ano que vem. Olhando com os olhos de 2018, Caiado já se apavorou com o que viu, e pediu a renúncia de Temer. 

Mas é difícil que arraste consigo sua base social ou o resto da direita, ao menos enquanto Temer estiver amarrado às reformas. E quem se converter ao Fora, Temer! tão perto de 2018 vai parecer oportunista (e o será).

A história não contada do impeachment de Dilma Rousseff é justamente sua origem na crise de liderança da direita brasileira depois da quarta derrota presidencial seguida do PSDB. Desde então, a direita brasileira foi liderada por quem gritasse mais alto. Agora a combinação de delações contra a direita e eleições presidenciais vai testar a competência política dos vencedores de 2016.
* personagem das história em quadrinhos do Batman

domingo, 26 de fevereiro de 2017

MARCHAS CARNAVALESCAS POLITICAMENTE INCORRETAS E FANIQUITOS AUTORITÁRIOS

Por Hélio Schwartsman
A MARCHA DA HISTÓRIA
Se parássemos de tocar canções com alusões racistas, sexistas etc., estaríamos sinalizando que a moral é absoluta e estática, isto é, que sempre foi errado escravizar pessoas, discriminar minorias, impor castigos físicos a crianças e outras mazelas que eram regra no passado. 

Além de historicamente insustentável, essa interpretação, bem ao gosto das religiões fundamentalistas, praticamente fecha as portas para a possibilidade da ampliação do círculo de solidariedade moral da humanidade, fenômeno que, na visão de alguns autores, estamos experimentando ao longo do último par de séculos.

Com efeito, antigamente, o homem ligava só para si e, por imperativos biológicos, para seus filhos. Com o decorrer do tempo e a melhora das condições materiais de vida, passou a preocupar-se (talvez mais em teoria que na prática) também com vizinhos, compatriotas, correligionários e, por fim, com todo o gênero humano e até com alguns animais.

Trocando em miúdos, militar para banir marchinhas ou impor outras formas de sanitização politicamente correta é, numa analogia pintada com tintas fortes, o equivalente intelectual de depredar museus ou queimar livros para apagar registros da história. 

Ouso até dizer que seria mais proveitoso para os militantes usar músicas e referências literárias para mostrar com clareza quão disseminado e naturalizado era o preconceito e quanto conseguimos melhorar nos últimos tempos, já que hoje a ideia de que todos devem ter os mesmos direitos independentemente de raça, cor, gênero, orientação sexual etc. está plenamente incorporada à visão de mundo ocidental.
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SOBRE O MESMO ASSUNTO, LEIA TAMBÉM (clique p/ abrir):
OS PATRULHEIROS CRICRIS ATACAM DE NOVO
O POLITICAMENTE CORRETO É UM PÉ NO SACO!

CARNAVAL: A FATIA DE TEMPO EM QUE A FELICIDADE NOS É CONSENTIDA.

"A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na 4ª feira"
(Vinícius de Moraes)
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A letra do poetinha na antológica música do maestro Tom Jobim nos mostra que vivemos sob a égide da temporalidade e de um modo sob o qual nos é determinado um breve momento para respirarmos felicidade, antes de voltarmos para a sofreguidão permanente do tempo-trabalho sufocante.

Não fazemos o que nos dá prazer, mas o que nos faz apenas sobreviver. Há um longo tempo todo para o sacrifício, e tempo quase nenhum para a vida.

Na grande avenida onde rolava o carnaval, uma militante um tanto entediada com qualquer coisa que dissesse respeito às dificuldades do difícil embate com as forças conservadoras, encontra-se com um bloco que fazia um escracho ao sistema produtor de mercadoria e de tudo que se lhe incorpora negativamente, e recrimina o uso do carnaval para fins contestatórios. Retruca pejorativamente dizendo: hoje eu quero apenas me divertir e ser feliz...

Mas o bloco contestatório estava justamente se divertindo, mas incluindo nessa diversão o escracho de uma vida que deveria ser plena de felicidade em todos os momentos.

Este episódio, aparentemente banal, revela-nos algo extremamente grave: já estamos condicionados a aceitar passivamente a determinação temporal dos momentos da vida como algo natural, dividindo-os em breves momentos aparentemente bons e outros necessaria e demoradamente maus. 

Ou seja, habituamo-nos de tal maneira à opressão temporal que a acatamos como se fosse uma norma de conduta e não uma forma de coerção que sofremos. Nem sequer nos damos mais conta do quanto estamos domesticados.
Tempo é dinheiro. Esta máxima, cunhada na modernidade (quando a riqueza abstrata assumiu uma forma temporal e abstrata em contraponto a uma forma material), corresponde ao resumo da destrutibilidade de uma vida que é mensurada sob o padrão métrico do tempo-valor.    

O carnaval, nascido num momento no qual aos súditos era permitida excepcionalmente a sátira aos monarcas déspotas e gordos com seus áulicos (daí o rei Momo desde os entrudos), representa, hoje, a grande catarse da negatividade de um fetiche social opressor num momento de extravasamento da alegria submetida temporalmente.
É dia de carnaval e hoje todos nós queremos nos divertir, mas sem termos de esquecer que essa diversão deve ser e pode ser extensiva a todos nós de modo atemporal. Para isto é necessário transformarmos o modo de ser de nossa vida e estabelecermos a alegria de viver como padrão linear para todos os nossos dias.
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RUMO À OCIOSIDADE PRODUTIVA
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O conceito moderno de tempo está estreitamente vinculado às relações de produção de mercadorias, e atinge negativamente todos os aspectos da vida. Assim, como não podia deixar de ser, estende-se, também, ao conceito de lazer, modificando-lhe a forma e o conteúdo.

No capitalismo o tempo se transformou numa mercadoria, posto que a mensuração do valor está condicionada ao tempo de trabalho exigido para o fabrico de uma determinada mercadoria dentro do processo de produção que lhe é inerente.
Em assim sendo, o tempo-mercadoria insere-se na lógica concorrencial de reprodução do valor, que implica a necessidade de aumento constante da produtividade per capita (maior extração de mais-valia relativa); passou a ser expropriado dos trabalhadores de modo violento, exigindo-se dos incluídos no processo de produção uma intensiva carga de trabalho (tempo-produtividade) que se torna massacrante.

Vivemos socialmente sob um modo sacrificante sob muitos aspectos (tempo de transporte de casa para o trabalho e do trabalho para casa, jornada com horas extras e salários cada vez menores em face de um processo inflacionário renitente, etc.) que corresponde a um monótono e repetitivo fazer no qual os poucos momentos de ação fora da ordem, como o carnaval, significa a catarse de uma vida sem sentido.

Agora, paradoxalmente, é esta mesma sociedade do tempo-valor quem exclui do processo produtivo um grande contingente humano, conhecido atualmente como vítima do desemprego estrutural, no qual ocorre uma ociosidade destrutiva e sem poder de compra, responsável em grande parte pelo aumento insuportável do aumento da violência urbana e da criminalidade. 
Para os supérfluos sociais ainda resta o bloco de sujos no carnaval ajudados pela cachacinha amiga, ofertada pelos eternos biriteiros solidários.

Na sociedade emancipada do futuro restará superado o conceito tempo-mercadoria, que é sinônimo de alienação; e o tempo de produção dos meios necessários à vida serão associados ao correto conceito de lazer, que significa simultaneamente tempo livre e diversão. Será a era prazerosa da ociosidade produtiva e do desenvolvimento das melhores virtudes humanas. (por Dalton Rosado)
Danilo Caymmi interpretando A felicidade

sábado, 25 de fevereiro de 2017

O CARNAVAL BRASILEIRO EM 5 FILMES INESQUECÍVEIS

ALÔ, ALÔ, CARNAVAL (1936)
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Como falar de Carnaval e não mencionar a nossa pequena notável Carmen Miranda? Se a atriz e cantora nascida em Portugal e ícone de Hollywood foi responsável por criar um imaginário internacional da baiana requebrante cheia de frutas na cabeça, muito disso se deve a sua presença em diversos filmes que estrelou na tela grande. 

E destes, o único que contou com sua participação no início da carreira – ou seja, ainda no Brasil e antes de sua ida para os Estados Unidos – é esta divertida comédia musical dirigida pelo veterano Adhemar Gonzaga (fundador da Cinédia, o primeiro estúdio de cinema brasileiro). 

Neste verdadeiro clássico, Carmen e sua irmã, Aurora Miranda, aparecem como vedetes da Rádio Nacional – a canção “Cantoras do Rádio” foi interpretada aqui, pela primeira vez, com as duas juntas – cantando populares marchinhas que iam além dos estúdios e faziam a festa de foliões por todo o país em pleno carnaval. 

Contando ainda com nomes como Oscarito e Lamartine Babo, o filme teve tamanho impacto nas bilheterias que três anos depois estrearia a continuação Banana da Terra (1939), desta vez com a brazilian bombshell como estrela absoluta! (por Robledo Milani, no site Papo de Cinema)
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CARNAVAL ATLÂNTIDA (1952)
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A Atlântida dominou a produção cinematográfica brasileira por mais de duas décadas, realizando um grande número de chanchadas e musicais muitas vezes ligados ao universo carnavalesco. 

Um dos mais populares exemplos da fórmula de sucesso do estúdio foi esta comédia dirigida por José Carlos Burle e Carlos Manga, cuja trama acompanha o renomado produtor de cinema Cecílio B. de Milho (Renato Restier), que deseja realizar uma suntuosa adaptação do clássico Helena de Troia e para isto contrata o professor Xenofontes (Oscarito), especialista em mitologia grega, como consultor da produção. 

Enquanto tenta dar início ao projeto, o produtor se vê às voltas com diversos personagens peculiares, como sua sobrinha cubana Lolita (Maria Antonieta Pons), o Conde Verdura (José Lewgoy) e a dupla de malandros Miro (Grande Otelo) e Piro (Colé), que querem transformar o filme num musical de carnaval. 

Satirizando os épicos de Cecil B. DeMille, o filme apresenta cenas hilárias – o diálogo romântico entre Oscarito, como Helena de Troia, e Lewgoy, como o galã Paris, se tornou clássico – intercaladas com ótimos números musicais que utilizam famosas marchinhas (“Cachaça”, “Ninguém Me Ama”, “Quem Dá aos Pobres”) interpretadas por grandes artistas da época, como Dick Farney e Nora Ney. (por Leonardo Ribeiro, no site Papo de Cinema)
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ORFEU DO CARNAVAL (1959)
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vencedor da Palma de Ouro em Cannes, do Globo de Ouro e do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, este longa do francês Marcel Camus tornou-se um ícone da imagem idealizada da cultura brasileira exportada para o mundo através do cinema. 

Baseado na peça Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes, por sua vez inspirada na mitologia grega, o longa é ambientado no Rio de Janeiro durante a época do carnaval, onde Orfeu (o ex-jogador de futebol Breno Mello), condutor de bonde e músico adorado por todos na favela em que vive, se apaixona pela inocente Eurídice (Marpessa Dawn), que deixou seu lar no interior para fugir da Morte (papel do bicampeão olímpico do salto triplo Adhemar Ferreira da Silva). 

Mesmo premiado, recebeu críticas dentro e fora do país por seu retrato caricatural do Brasil como um lugar onde as pessoas vivem dançando em um eterno desfile carnavalesco. Apesar disto, é difícil negar a beleza estética da trágica história de amor apresentada por Camus, que concebe momentos verdadeiramente poéticos e que também ajudou a propagar a Bossa Nova, presente na magistral trilha de Tom Jobim e Luís Bonfá. (por Leonardo Ribeiro, no site Papo de Cinema)
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QUANDO O CARNAVAL CHEGAR (1972)
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Quando o Carnaval Chegar é um encontro com alguns dos grandes cantores de sua época e um presente do diretor Cacá Diegues para sua mulher, Nara Leão, que o acompanhara no exílio. 

Mas o filme será eternamente identificado a Chico Buarque de Hollanda, que compôs as canções da trilha sonora, incluindo a célebre faixa-título, que se sobrepõe à própria película no imaginário do público (também se encontram no filme grandes composições de Lamartine Babo, Braguinha, Joubert de Carvalho, Assis Valente, Nássara, Tom e Vinícius, etc.). 

Nara, Chico e Maria Bethânia são Mimi, Paulo e Rosa, um trio com todos com menos de trinta anos, que fazem parte de uma trupe de cantores de rádio que se apresentam pelo Brasil afora num ônibus multicolorido e fazendo a festa onde quer que estejam.

Mas há paixões, intrigas, dúvidas, discussões, incertezas e ciúmes. Os personagens refletem os artistas que os interpretam. Paulo é o ídolo popular e estrela do grupo, a principal referência pela qual a trupe é conhecida. Rosa é a mais brincalhona e a que se diverte com tudo e todos. Mimi representa o contraponto à alegria expressa pelo filme, que joga toda sensação de desamparo para cima da personagem de Nara Leão.

Completam o grupo o empresário Lourival (Hugo Carvana), e o motorista Cuíca (Antonio Pitanga), tocador do instrumento nas rodas de samba no morro de origem, sempre a espera de uma oportunidade no show. 

Destaque ainda para a parte do elenco que compõem o que seria os vilões de Quando o Carnaval Chegar: Elke Maravilha, como uma espectadora francesa que se envolve e ilude o personagem de Antonio Pitanga, além de José Lewgoy, de grande poder no mundo dos espetáculos, e seu capanga interpretado por Wilson Grey ─ os dois últimos citados, monstros sagrados da chanchada, o que remete ainda mais aos áureos tempos das produções da Atlântida.

Trata-se de uma turma que batalha e sonha, sofre e se decepciona, sempre no aguardo de alguma grande chance (tanto no trabalho quanto no dia-a-dia e no amor), em meio as suas alegrias e canções, e à expectativa de quando o carnaval chegar. (trechos da crítica de Vlademir Lazo no site Revista Zingu)
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Ó, PAI, Ó (2007)
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Baseado na peça musical homônima levada aos palcos em 1992 pelo Bando Olodum, este filme dirigido por Monique Gardenberg oferece um curioso painel sobre o fervor carnavalesco em Salvador, cidade que é sinônimo de folia em todo o país. 

A trama não é única e formada por tipos diversos, representantes das diversas facções envolvidas na festa. Lázaro Ramos (talvez o mais à vontade) divide suas preocupações entre conquistar uma namorada e o desfile do bloco do Araketu. 

Stênio Garcia é o comerciante em busca de turistas, enquanto que Wagner Moura empresta seu talento a um tipo repugnante, o playboy racista e preconceituoso. Há ainda a beata dona de um cortiço, a mãe-de-santo, o taxista e a mulher especializada em abortos. 

Os conflitos entre estes tantos personagens vão se sucedendo, e o mais interessante não é o desenlace individual de cada um, mas o pulsante e colorido cenário que oferecem no todo. 

E no meio de tanta confusão, reflete com precisão o retrato de um Brasil que, mesmo diante das situações mais adversas, sempre encontra fôlego para jogar tudo para cima e dançar até cair. Ou ao menos até a 4ª feira de cinzas. (por Robledo Milani, no site Papo de Cinema)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

ADONIRAN BARBOSA, SEM RETOQUES.

Era a fase em que eu ganhava meu pão escrevendo sobre música; mais precisamente, o ano sem graça de 1980, quando a ditadura já perdera as garras mas teimava em não morrer. 

Conheci o Adoniran num escritoriozinho que a gravadora Odeon mantinha na rua Bento Freitas, centro velho de São Paulo. Eram só dois funcionários, que guardavam os malotes, distribuíam o material vindo da matriz e recolhiam outros tantos volumes para despachar de volta.

Eu costumava passar lá para apanhar os lançamentos do mês. E sempre encontrava o Adoniran paradão, ouvindo o papo dos outros, cochilando.

Às vezes o pessoal saía e deixava o Adoniran tomando conta. E ele pacientemente esperava que alguém voltasse.

Tal escritório fechou quando a Odeon abriu uma representação à altura em São Paulo. Mas Adoniran continuou tendo seu itinerário particular, que cumpria com a pontualidade de um empregado-modelo.
Passar a manhã na rádio Eldorado, até a hora do almoço.

Sair para almoçar com qualquer conhecido de lá, talvez o amigo Nogueira, um divulgador.

Ficar meio triste quando todo mundo estava compromissado e ele tinha de ir comer sozinho. Mas disfarçar; e recusar se surgisse o convite de um estranho.

[Meu caso. Ele balançou a cabeça e disse: "Eu vou sair por aí, na direção do Arouche. Não sei nem se vou almoçar ou comer um sanduíche. Fica para outra vez".] 

Comparecer todas as tardes no La Barca, um boteco onde esperava encontrar outro amigo, o  Talismã, líder do conjunto que o acompanhava nas raras vezes em que ainda se apresentava.

E assim por diante.

[Lembro-me do meu sogro, notívago e bom papo, que sempre sonhava com o que iria fazer quando se aposentasse: pescar, passear, comprar uma granja e plantar sua horta, assistir aos filmes de TV que passavam à meia-noite. Afinal chegou o dia. E, na manhã seguinte, lá estava ele de novo na repartição, no horário de sempre, para 
bater uma caixa com os amigos e irem juntos para o bar...]


"VOCÊ ACHA QUE EU ESTOU COM UM PÉ NA COVA?"
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As homenagens que lhe prestaram ao comemorar 70 anos naquele mês de agosto, tiraram Adoniran de sua tranquila rotina, incomodando-o um pouco.

Chegou até a dizer que não as merecia, "afinal não sou nenhum João Paulo 2º, nenhum Chaplin ou presidente da República".

E, de qualquer forma, não foram suficientes para compensar anos e anos de esquecimento.

Homem às antigas, Adoniran não se conformava em ser notícia em tempo de efeméride e voltar ao limbo logo depois.

As entrevistas o cansavam: "O que mais posso dizer da minha vida? Já disse tudo, para todo mundo".

E não conseguiu conter o desabafo de quem teve de lutar demais para obter um reconhecimento tardio e meio superficial. "Por que não me procuraram há 20 anos atrás?"

Mas, em geral, esforçou-se para corresponder ao clima festivo.

Perguntei-lhe se ainda espera alguma coisa da vida. "Por que, você acha que eu estou com um pé na cova?"

Expliquei-me melhor: faltava-lhe realizar algum sonho, uma grande meta?

Aí ele deu um sorriso e mostrou que continuava atento ao linguajar das ruas. Sabia até a gíria da meninada: "O que vier, eu traço. Tudo bem!".

"UM BOÊMIO POBRE. FILANTE. BICÃO"

Efeméride é a palavra-chave. Era preciso comemorar condignamente os 70 anos de Adoniran, nem que para isso se-lhe romantizasse o passado, transformando-o numa imagem ao gosto do público de 1980.

E, já que o folclore paulistano nem de longe se comparava ao da Lapa carioca ou de Vila Isabel, que tal promover Adoniran a algo assim como o estereótipo do boêmio do Bexiga?

Com um pouco de boa vontade e puxando por sua veia saudosista, conseguiram extrair de Adoniran declarações na medida para colocá-lo dentro do figurino pretendido:
"Fui na Bela Vista procurar o Bexiga e não achei. Antes o pessoal sentava na calçada, agora as coisas por lá andam muito diferentes, cheias de viaduto.
O Brás eu também não encontrei, as casas baixas foram embora. A Rangel Pestana também não está mais lá. O Largo da Concórdia ficou cheio de banquinhas de camelô. A Celso Garcia, onde havia o melhor carnaval do Brás, também já não existe.
No Belém não achei o Largo São José, com seus casarões e suas árvores. 
Nem a Lapa, onde não há nem sinal da calma de bairro de antes.

O Largo da Sé, acho que venderam..." (Jornal da Tarde, 09/08/80)
A matéria falava também de um bar boêmio da av. São João e de um bonde  boêmio  que rodava a noite inteira.
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Adoniran, você foi mesmo esse boêmio que estão pintando?
"Fui mas é um boêmio pobre, que ia de bar em bar, de boteco em boteco, sem dinheiro, filando bebida dos amigos. Um boêmio bicão."
"SÓ DE SAMBA NINGUÉM VIVIA"
Adoniran era capaz de registrar impressões acerca da cidade com alma de artista. É o grande cronista de São Paulo. Mas, suas andanças não foram despreocupadas como as dos sambistas cariocas e sua história está longe de ser a de um boêmio.

Mesmo porque seu amor pela cidade não era correspondido: São Paulo rejeitava seu samba, só queria saber de serenatas, valsas, modinhas, boleros e tangos.

Nesta cidade de imigrantes, ciosa de suas raízes culturais europeias, não havia espaço para os ritmos, costumes e tradições realmente brasileiras. Adoniran foi testemunha:
"Só de samba ninguém vivia, em São Paulo. Era pouquíssimo executado. Os sambistas daqui, como a Isaura Garcia e o Vassourinha, eram obrigados a irem lá no Rio gravar composições de autores cariocas".
Daí o orgulho que tinha, de haver sido o grande divulgador do samba paulista.
"Não o iniciador, porque já existiam o Raul Torres, o Nestor Amaral, o Cacique. Mas o Rio só veio a saber que se fazia samba em São Paulo quando os meus entraram lá. E aí a coisa se estendeu para todo o Brasil."
Até que chegasse esse reconhecimento (e mesmo depois dele), a vida de Adoniran foi tipicamente paulistana, mas num aspecto pouco romântico, que as matérias louvaminhas esqueceram de registrar: o trabalho.
Carreira sacrificada, árdua, difícil. E não foi por acaso que o pão nosso saía mais de suas atuações como rádio-ator que da da música.

O clássico "Trem das Onze", p. ex., não veio de impressões deixadas por agradáveis noitadas boemias, mas sim de observações feitas quando ia no Circo do Batista, lá no Jaçanã, interpretar ao vivo os tipos que faziam sucesso no programa de rádio História das Malocas.
"Aliás, o trem nunca foi das onze; era das oito, eu me lembro muito bem."
"NÃO PARAVA EM
EMPREGO NENHUM"

Adoniran Barbosa, na verdade, era João Rubinato, um dos seis filhos (três homens e três mulheres) de um casal italiano que se estabelecera em Valinhos.

Tinha 14 anos quando o pai, empregado em olarias, descobriu que seria rendoso trabalhar perto da Capital, onde, de quebra, os filhos homens encontrariam colocação. Assim, em 1924 a família se mudou para Santo André.

Adoniran conservava boas lembranças da infância, "pobrinha, mas tranquila":
"Uma infância comum. Não miserável. Tinha tudo. Boa comidinha em casa. Com minha mãe, meu pai, tudo".
Fez até o 3º ano primário, entregou marmitas.

Já em São Paulo, passou por uma variedade enorme de empregos, sem se dar bem. Foi operário de fábrica de tecidos, serralheiro, pintor de parede, ferragista, encanador, balconista, metalúrgico, garçom.
"Não parava em emprego nenhum. Fui tanta coisa que nem me lembro".
Nas horas de folga, gostava de assistir aos ensaios das bandas de música. Até que um dia faltou o tocador de caixa e ele se ofereceu para substituir.
"Isso lá por 1926, 28, mais ou menos. Então eu gostei tanto da coisa que comecei a estudar música. Comprei um flautim, passei a tocar o danadinho também".
"NO BARALHO TEM UM ÁS DE OURO.
NA RÁDIO SÃO PAULO TEM TRÊS"

Em 1932 ele veio morar sozinho em São Paulo. Logo começou a frequentar as rádios, cantando sambas em programas de calouros.

No do animador Jorge Amaral, na rádio Cruzeiro do Sul, ganhou um 1º prêmio interpretando "Filosofia", de Noel Rosa, apropriada para sua voz rouquenha. Recebeu 25 mil réis e um contrato, pois teve a sorte de ser notado pelo Paraguaçu, diretor do programa.

Adotou um nome artístico que homenageava dois amigos: o funcionário do correio Adoniran e o sambista carioca Luiz Barbosa.
Cantou músicas alheias, com regional, nas rádios Cosmo (depois América), São Paulo, Difusora.

Em 1935, inscreveu "Dona Boa" (composição sua, em parceria com o pianista carioca J. Aymberê) no concurso para o carnaval oficial da Prefeitura paulista. Ganhou o 1º prêmio: 500 mil réis.

O cheque foi descontado na Praça da Sé e o dinheiro mal deu para a farra que Adoniran e os amigos aprontaram. Ele acabou voltando a pé para casa.

Nesse mesmo concurso, o 2º lugar ficou com outro novato, o Ranchinho. E Adoniran se encontraria com a notável dupla caipira Alvarenga e Ranchinho no cast da rádio São Paulo, ainda em 1935.

Foi quando saiu a primeira matéria sobre ele em jornal, com um título que 45 anos depois ainda repetia de memória:
"No baralho tem um ás de ouro. Na Rádio São Paulo tem três: Adoniran Barbosa, Ranchinho e Alvarenga".
"EU FALANDO JÁ ERA UMA PIADA"

Um dia, o Blota Jr. e o Vicente Leporace resolveram fazer uma experiência e colocaram o Adoniran num programa humorístico que eles tinham na rádio Cruzeiro do Sul. O auditório entrou em delírio.

E, a partir daí, a carreira de rádio-ator passou a ser sua principal ocupação, deixando a música em segundo plano até 1969, quando ele se aposentou.

Transferiu-se para a rádio Record em 1942, chamado pelo Otávio Gabus Mendes. Os programas foram se sucedendo:
  • Palmolive no Palco;
  • Escolinha Risonha e Franca (ele era o  Barbosinha Maleducado da Silva);
  • Casa da Sogra (interpretava vários tipos: o galã de cinema francês Jean Rubinet, o professor de inglês Richard, o cobrador de prestações Moisés Rabinovichi, o chofer de táxi do Largo do Paissandu  Perna Fina);
  • Zé Conversa e Catarina ("o   Zé Conversa  era um crioulo folgado da Barra Funda que vestia a roupa do patrão para conquistar as empregadinhas");
  • O Crime Não Compensa (este já era sério e o Adoniran fazia sempre o criminoso).
Mas, o grande sucesso foi mesmo o História das Malocas, escrito por Osvaldo Molles (o Adoniran, com seu sotaque italiano, o chama de  Molichi...) e inspirado no sucesso da música "Saudosa Maloca".

A galeria de tipos é inesquecível: a Teresoca, o TrabucãoPanela de PressãoPafunça. E o principal deles, "um preto da favela, vagabundo, que não faz nada", marcaria época, interpretado por Adoniran: o  Charutinho.
[Trata-se de mais um dos personagens curiosos em parte inspirados no carismático ex-presidente do Corinthians, Alfredo Ignácio Trindade. Outro deles é o político populista vivido por José Lewgoy no filme Terra em Transe, de Glauber Rocha.]

História das Malocas ficou no ar de 1954 a 1968, em dois horários: domingo às 12h e sexta-feira às 21h. Adoniran diz que ele foi o programa humorístico de maior audiência do rádio brasileiro, graças ao talento de Molles ("igual a esse não apareceu mais nenhum e nem vai aparecer").

Pergunto se ele próprio, Adoniran, chegava a criar alguma piada.
"Eu não. E nem precisava, que eu falando já era uma piada."
A CONSAGRAÇÃO NA CAPITAL DO SAMBA
"Antigamente era difícil entrar e mais difícil ainda fazer sucesso. Ninguém queria nada com a gente. O elevador vazio, para artista sem nome, estava sempre lotado. E a gente tinha ficar dando em cima das gravadoras, dos cantores, dos locutores, dos diretores artísticos."
A confissão de Adoniran explica bem porque compôs de forma tão descontínua: "Joga a Chave", "Malvina" e "Iracema", em 1943; pausa até 1950, ano de "Saudosa Maloca", "Samba do Arnesto" e "Os Mimoso Colibri"; novo lapso até 1956, quando suas composições antigos fazem sucesso na interpretação dos Demônios da Garoa e ele se anima a uma parceria com Vinícius de Moraes, "Bom Dia Tristeza", que Aracy de Almeida gravou.

Finalmente, em 1964, o grande sucesso: "Trem das Onze", que, sem ser música carnavalesca, acabou se tornando um dos cinco sambas mais executados no carnaval do centenário do Rio de Janeiro, valendo a Adoniran 2 mil cruzeiros de prêmio e um troféu que ele exibe até hoje, com a inscrição "Adoniran Barbosa, campeão carioca do carnaval".

Era o coroamento de sua carreira de compositor paulista, consagrar-se na capital do samba!

E depois? O justo reconhecimento, a possibilidade de gravar seu próprio LP, a aceitação de seus sambas originais, falando de tipos esquecidos do cotidiano em seu linguajar simples e cheio de erros de português?

Nada disso. Mais um período obscuro, de vacas magras. E ele , que já atuara no cinema (inclusive em O Cangaceiro), chega ao fim dos anos 60 fazendo pontas em novelas da TV Tupi, como Mulheres de Areia e Ovelha Negra.

ARNESTO E A CENSURA ORTOGRÁFICA

Foi então que o produtor musical João Carlos Botezelli, o Pelão, tornou-se seu amigo e começou a corrigir as injustiças de toda uma vida.

Levou Adoniran para se apresentar no teatro Treze de Maio, foi um tremendo êxito.

Conseguiu que ele gravasse o primeiro LP na Odeon, em 1975. Dá-se o episódio pitoresco da impossibilidade de colocar nesse disco, que reuniu seus grandes sucessos, o "Samba do Arnesto", porque um decreto oficial proibia o mau uso do vernáculo nos veículos de comunicação.

O professor Antônio Cândido sai em defesa de Adoniran, na contracapa:
"Já tenho lido que ele usa uma linguagem misturada de italiano e português. Não concordo. 
Da mistura, que é o sal de nossa terra, Adoniran colheu a flor e produziu uma obra radicalmente brasileira, em que as melhores cadências do samba e da canção, alimentadas inclusive pelo terreno fértil das Escolas, se aliaram com naturalidade às deformações normais de português brasileiro, onde Ernesto vira Arnesto, em cuja casa nóis fumo e não encontremo ninguém, exatamente como por todo esse País".
"NÓIS GANHA POCO, MAIS NÓIS SI DIVERTI"
.
Mais um LP em 1976. E um novo hiato hiato até 1980, quando saiu o disco comemorativo de seus 70 anos, em meio a todas as festividades programadas pela Emi-Odeon. Foi uma produção das mais caprichadas, trazendo convidados com o peso artístico de Clementina de Jesus, Clara Nunes, Carlinhos Vergueiro, Djavan, Elis Regina, Gonzaguinha, MPB-4, etc.

E depois? Aquele que era um dos mais sensíveis e humanos retratistas do cotidiano brasileiro teve um verdadeiro apogeu?

Infelizmente, não. Mas Adoniran seguiu mantendo seus rituais diários, resistindo obstinadamente à velhice e à acomodação.

Continuou se apresentado pela periferia e pelo Interior, em faculdades, escolas, prefeituras, entusiasmado com o algum (não muito) público jovem que conquistou. "Até a criançada já me conhece!" – afirmava, orgulhoso.

Voltava dessas excursões exausto, para desabar na cama e permanecer um bom tempo recuperando as forças.

E para quem lhe perguntasse se gostava da vida que levou, respondia que sim, às vezes acrescentando sua frase célebre:

E para quem lhe perguntasse se gostava da vida que levou, respondia que sim, às vezes acrescentando sua frase célebre:

"Nóis ganha poco, mais nóis si diverti!"

Obs.: presumivelmente, depois de toda aquela onda do 70º aniversário, Adoniran voltou a ser esquecido pela mídia, que só se ocupou dele de novo ao publicar-lhe o necrológio, dois anos mais tarde (morreu em  novembro de 1982, aos 72 anos). Relendo hoje esta entrevista, percebi um pequeno senão: ela deixa a impressão que Adoniran compôs bem menos do que a centena de canções das quais foi autor, inclusive outras que mereciam ser citadas, como  "Tiro ao Álvaro" e "Prova de carinho". 
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