quarta-feira, 30 de setembro de 2015

BERNARDO MELLO FRANCO: "PELO TELEFONE".

Na última quinta, o petista Arthur Chioro fez um apelo patético a jornalistas que o entrevistavam: "Eu sou ministro da Saúde, não me demitam!". Chioro ainda estava no cargo, mas até os ascensoristas do ministério sabia que ele não mandava mais nada. Sua cadeira estava prestes a ser entregue ao PMDB por um punhado de votos na Câmara.

Nesta terça, o telefone de Chioro tocou. Do outro lado da linha estava Dilma Rousseff, que usou poucas palavras para consumar a demissão anunciada. A presidente tem pressa. Nas próximas horas, terá que dispensar outros aliados para concluir o que chama de reforma ministerial.

O jogo do poder é bruto. Onze anos atrás, Lula também usou o telefone para demitir Cristovam Buarque do Ministério da Educação. A atitude foi muito criticada, mas o presidente tinha uma desculpa esfarrapada. Estava insatisfeito com o desempenho do auxiliar, a notícia vazou nos jornais, e Cristovam estava em Portugal.

Dilma não tem o mesmo álibi. Chioro estava em Brasília, e sua agenda não previa atividades fora do ministério. Bastava um chamado para que ele chegasse em alguns minutos ao Planalto. A presidente preferiu dispensá-lo pelo telefone, sem o trabalho de um aperto de mão.

A pasta da Saúde é valiosa, mas não saciará o apetite dos deputados do PMDB. O líder da sigla na Câmara avisou que só fecha negócio se a bancada ganhar mais um ministério. O pleito criou novo problema com o senador Renan Calheiros e o vice-presidente Michel Temer, que não aceitam perder seus lotes na Esplanada.

Os peemedebistas querem tudo, mas não garantem nada à presidente, rendida ao jogo de pressões no Congresso. "Enquanto o governo ficar se submetendo a chantagem, vai ser refém o tempo todo", protestou o deputado petista Jorge Solla, irritado com a demissão sumária de Chioro.

A queixa não sensibilizou o Planalto. Nesta terça, Dilma foi aconselhada a elevar para sete o número de ministérios que dará ao PMDB.

(Bernardo Mello Franco, jornalista, em 30/09/2015 -- leia também o post de ontem deste blogue)

terça-feira, 29 de setembro de 2015

PELO TELEFONE, SEM UM MÍNIMO DE CONSIDERAÇÃO E CIVILIDADE, DILMA DEMITE MINISTRO DA SAÚDE.

Todos nós sabemos que o ministério da Dilma é de péssima qualidade e não inspira respeito. Mas, noblesse oblige, pelo menos a dita cuja deveria simular o mínimo de consideração por seus ministros,  como o tal Arthur Chioro, da Saúde, demitido pelo telefone, numa ligação que durou míseros dois minutos. Algo assim:
"Alô! Aqui é a Dilma. Estou falando com o Chioro? Como vai, tudo certo? Que ótimo! Então, não vou ficar com remorsos por estar te exonerando agora. Afinal, a saúde e a família são o que realmente importa, não é mesmo? Passar bem!" 
Tomara que também lhe comuniquem o impeachment pelo telefone. Ela merece!

Telefone é para o chefe da Polícia informar aos malandros onde tem roleta funcionando, não para demitir ministros.

Ainda mais um não-cheira-nem-fede sem qualquer culpa grave no cartório, que está saindo apenas a fim de abrir vaga para as barganhas da politicalha imunda.

Quanta falta de civilidade! Que contribuição poderá dar à causa dos humilhados e ofendidos quem demonstra tanta arrogância e tamanho desprezo pelos subalternos?!

E, como fiz acima uma alusão ao nosso primeiro samba, que em 2016 completará 100 anos, vou fechar este artiguete com uma lufada de ar fresco, para espantar o fedor nauseabundo da política: um vídeo raríssimo de Chico Buarque cantando "Pelo telefone" com o autor, Donga, em 1966.

Ele mal entrado nos 22 anos e o velho pioneiro surpreendentemente jovial aos 76. De arrepiar!

O FIM DOS HOMENS...

...é dos mais melancólicos. 

Organizei a minha vida de uma forma que me permite esquecer durante quase todo o tempo que já sou um idoso. Tenho ideais, uma esposa mais jovem, uma filha adolescente e outra ainda criança, a memória não me falha nem me falta o pique quando necessário.

Mas, os amigos estão aí para me recordarem a triste realidade.

Três se foram quando, com meu otimismo de sempre, cogitava visitá-los mas ia adiando, como se o futuro ainda fosse uma alameda florida.

Dois eram companheiros e amigos do movimento secundarista e depois da VPR. Dos oito jovens que em abril de 1969 assumimos o desafio precoce da luta armada, tombaram o Eremias e o Gerson sob os tiros da repressão, mais o Gilson e o Mané em passado recente, por doenças.

Cheguei a rever o Gilson duas vezes e ficamos de nos encontrar outras, mas acabou não acontecendo. Sua morte inesperada  doeu demais.

Com o Mané troquei algumas mensagens por e-mail, mas percebi que algumas lembranças ainda eram traumáticas demais para ele. 

O jovem que cantava como o Vandré teve sina de sofredor tal qual o ídolo. Ironias do destino.

E houve o caso do meu ex-colega de escola secundária, que trabalhava na USP quando cursei a ECA e teve presença marcante na minha fase de loucos sonhos dourados. Consegui seu telefone, liguei para ele depois de muito tempo, conversamos animadamente... mas omitiu que estava nas últimas, com câncer. Ficamos de nos ver brevemente e ele sabia que era uma quimera. Duas semanas depois morreu.

Hoje, procuro não me distanciar muito dos velhos amigos, para não ter mais tais surpresas e tais remorsos.

Fui visitar um que está prestes a tornar-se octogenário; saí arrasado.

Pois percebi que está com alzheimer e evita admitir. Esquecido de episódios que nos envolveram, tentou sutilmente fazer com que eu falasse sobre eles, reavivando-lhe a memória. Fingi ignorar qual era a jogada e fiz sua vontade. 

Pior ainda foi a contagem dos mortos. Parece inescapável nos idosos a compulsão de enumerarem quantos conhecidos e amigos morreram ou estão pela bola sete

Não sei se nos outros provoca algum alívio, eles se foram e eu continuo aqui. A mim só causa pesar. Lembro deles como eram outrora e fico me indagando: quem os recordará depois? 

O fim não me incomoda tanto quanto a suspeita de que não legarei a minhas filhas um mundo melhor do que eu recebi.

Ainda conservo uma tênue esperança de que haja alguma evolução positiva nos anos  que me restam (indeterminados, não paira nenhuma ameaça imediata sobre mim).

Isto aumenta minha ansiedade por ver as pedras voltarem a rolar. Quando já não se tem tanto tempo pela frente, é exasperante atravessar uma fase de estagnação como a atual, em que o passado teima em não dar passagem para o presente e o futuro fica encruado.

Vem-me à mente o "Réquiem para Matraga", do Vandré:
"Tanta vida pra viver,
tanta vida a se acabar.
Com tanto pra se fazer,
com tanto pra se salvar.
Você que não me entendeu,
não perde por esperar!" 

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

AJUSTE DO LEVY DEFENDE GRANDES BANCOS E FUNDOS DE INVESTIMENTO. PALAVRA DO PT.

Centro de estudos criado e mantido pelo PT, a Fundação Perseu abramo lança hoje (2ª feira, 28) uma verdadeira catilinária contra a política econômica do governo de Dilma Rousseff.

Trata-se do volume inicial do estudo "Por Um Brasil Justo e Democrático", que é assinado também por outras cinco entidades e expressa de forma contundente o repúdio da cúpula dirigente do PT à opção neoliberal de Dilma, como se constata nestes trechos:
"A lógica que preside a condução do ajuste [ou seja, o arrocho fiscal do Joaquim Levy] é a defesa dos interesses dos grandes bancos e fundos de investimento. Eles querem capturar o Estado e submetê-lo a seu estrito controle, privatizar bens públicos, apropriar-se da receita pública, baratear o custo da força de trabalho e fazer regredir o sistema de proteção social"
"O ajuste fiscal em curso está jogando o país numa recessão, promove a deterioração das contas públicas e a redução da capacidade de atuação do Estado em prol do desenvolvimento. Mais grave é a regressão no emprego, salários, no poder aquisitivos e nas políticas sociais".
O documento também acusa o pacote fiscal de deteriorar o ambiente econômico social, enfraquecendo o governo e amplificando "a crise política e as ações antidemocráticas e golpistas em curso", daí a premência de se "retirar o país da desastrada austeridade econômica".

É evidente que o fogo amigo não ajudará a salvar o agonizante governo de Dilma. Então, presumo que o partido esteja fazendo uma opção por sua sobrevivência, independentemente da sobrevivência ou não de Dilma.2.

Pegaria mal mandá-la às urtigas, mas o PT deixa claro que não avaliza o abandono de suas bandeiras históricas e conversão oportunista à ortodoxia econômica do capitalismo. 

Pois, pior do que a destituição de Dilma será seu defenestramento como uma reles neoliberal. Aí o prejuízo será total e enorme a dificuldade para o PT juntar os cacos no day after.

Portanto, o partido --com visível anuência, ou até instigação, por parte do Lula-- está definindo os limites do seu apoio à Dilma.

O recado nas entrelinhas é: se quer nosso apoio incondicional, livre-se do Levy e mude a política econômica; caso contrário, só vai ter apoio parcial e caberá a nossos seguidores a avaliação de se compensa suarem sangue para salvar um governo que prioriza "a defesa dos grandes bancos e fundos de investimento".

Para quem já está com a popularidade na casa de um dígito, é mais um empurrão ladeira abaixo.

Merecido: a teimosia de Dilma é tão exacerbada quanto sua incompetência. Empacou na ingênua presunção de que os Setúbals & Trabucos da vida evitarão sua degola e vai manter tal aposta desastrosa contra todas as evidências, até o mais amargo fim.

sábado, 26 de setembro de 2015

PODE ESTAR VINDO CHUMBO GROSSO DA OPERAÇÃO LAVA-JATO

Desde que muitos esquerdistas caíram na besteira de tomarem partido por uma das gangues empresariais que disputavam um nicho extremamente promissor do mercado da telefonia, na Operação Satiagraha (saiba aqui como foi desmascarada por uma das lendas vivas da resistência jornalística à ditadura militar), insisto que o combate à corrupção é bandeira da direita

Considero a corrupção intrínseca ao capitalismo e impossível de ser totalmente extirpada enquanto os seres humanos forem tangidos para a busca compulsiva de fortuna, status e poder como objetivos supremos da existência, o que os coloca numa competição permanente, canibalesca, com outros seres humanos, no curso da qual haverá sempre quem acabe recorrendo a atalhos para levar vantagem, com a desgraça de uns só servindo para abrir espaços que outros logo ocuparão. No fundo, os Sérgios Moros da vida apenas enxugam gelo.

Meu sentimento em relação ao mensalão e ao petrolão, bem como às investigações que os desnudam, têm sido sempre o de pesar por ver que companheiros desceram tão baixo, igualando-se aos políticos convencionais e dando à direita trunfos propagandísticos para nos atacarem a todos, mesmo aos que nunca participamos de maracutaia nenhuma e acreditamos que os revolucionários devam preservar-se como os modelos vivos do almejado homem novo.

Então, é apenas a título de informação que chamo a atenção dos leitores deste blogue para a matéria de capa da revista mais reacionária do Brasil: ex-deputado Pedro Corrêa, do PP de Pernambuco, teria negociado uma delação premiada-bomba.

A nefanda revista garante que Corrêa vai acusar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de haver capitaneado no Palácio do Planalto reuniões em que o esquema de corrupção na Petrobras era urdido; e que a presidenta Dilma Rousseff também estaria ciente da existência do petrolão, tendo ambos, Lula e Dilma, agido pessoalmente para mantê-lo em funcionamento.

Caso tal delação se confirme e seja este mesmo seu teor, chegaremos à situação para a qual sempre pareceu que tal partida conduzia: a rainha colocada en garde e o rei, em xeque. 

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

FHC PROPÕE RENÚNCIA NEGOCIADA DE DILMA. FUNCIONARIA?

"Aprovado esse pacto, em um ano ela renunciaria"
Numa situação tão calamitosa como a que nosso país vive, todas as escapatórias possíveis devem, ao menos, ser consideradas. O que não podemos é continuar no rumo atual, pois conduz diretamente a uma depressão econômica e a sofrimentos inimagináveis para o povo brasileiro

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso propõe a renúncia negociada de Dilma Rousseff:
"Ela teria uma saída histórica. Apresentar-se como coordenadora de um verdadeiro pacto. Em que não estivesse pensando em vantagens para seu grupo político, só no futuro do país, e propondo que o conjunto das forças políticas se unisse para fazer algumas coisas. Modificar o sistema eleitoral. Conter a expansão do gasto público. Reformar a Previdência. E ofereceria o seguinte: aprovado esse pacto, em um ano ela renunciaria...
"O tempo dela está se esgotando"
O tempo dela está se esgotando. Ela tem que olhar para a história. Não convém ficar marcada como a presidente que não conseguiu governar. Ou que vendeu a alma ao diabo para governar.
Agora ofereceu cinco ministérios ao  PMDB. Vai governar como? Não vai. Vai ser governada. (...) Vai fazer pacto com o demônio o tempo todo. Vai ter que ceder cada vez mais. E o governo ficará mais contraditório".
O velho sociólogo é convincente, mas temo que esta hipótese já tenha sido superada pela evolução da crise. Serviria, talvez, no semestre passado.

"Vai fazer pacto com o demônio o tempo todo"
Agora todos os cenários pioraram demais e a esperança não será devolvido ao povo por qualquer entendimento a que os grandes empresários e os políticos cheguem sob Dilma. Justa ou injustamente, ela se tornou o símbolo de tudo que deu errado. Pulverizará a credibilidade de qualquer arranjo político.

Então, o pacto pode até dar certo, mas desde que estabeleça a saída imediata de Dilma. O Brasil explodiria antes de completar mais um ano com ela.

O EVANGELHO SEGUNDO DILMA: "VINDE A MIM OS FISIOLÓGICOS!".

Quando alguém se antecipa a mim, escrevendo o que já estava engatilhado na minha mente, eu humildemente reconheço que não vale a pena ficar chovendo no molhado; aplaudo 
e publico o artigo alheio, já que ele cumpre a função de comunicar aquilo que quero passar para o meu público.

Então, diante da patética insistência da presidenta Dilma Rousseff em defender o seu mandato, só o seu mandato e nada além do seu mandato, pouco importando o preço a pagar e os princípios a pisotear, eu já me preparava 
para lançar-lhe uma catilinária, enojado com o oferecimento por atacado
de Ministérios ao PMDB, na esperança de que este nefasto partido 
salve a cabeça dela. Vinde a mim os fisiológicos, 
pois deles é o poder de evitar que eu seja
chutada do reino dos céus...

O jornalista Vinícius Mota chegou antes, com um artigo que, simplesmente, 
pegou no breu. A ele, pois:
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BRASÍLIA VIROU AS COSTAS PARA O BRASIL
Por Vinícius Mota
Governos fracos se desconectam da realidade. A desconexão da realidade enfraquece ainda mais os governos. Essa lei de ferro das crises políticas está em franca vigência no Brasil.

A presidente Dilma Rousseff, sequestrada pelo ex-presidente Lula, dedica-se à tarefa errada. Desperdiça o seu precioso tempo em costuras quixotescas com a raia miúda da política nacional, obcecada com a ideia de contar votos na Câmara para evitar o impeachment.

Enquanto isso, na planície, a economia e as finanças entraram em espiral demoníaca. Os juros para cidadãos e empresas comuns estão explodindo a um ritmo que, se for mantido, vai causar estragos gigantescos em pouquíssimo tempo. Em dias. Muitos negócios vão simplesmente parar por falta de oxigênio em suas artérias. Vamos nos deparar com esqueletos que nem sabemos que existem. Vamos criar outros que não precisariam ser fabricados.

Os agentes econômicos necessitam de uma resposta política imediata para essa ameaça iminente. Não para frear o impeachment.

Os políticos não entenderam o tamanho do problema diante dos olhos. As finanças públicas estão quebradas. O que acontece no Rio Grande do Sul, falta de dinheiro para pagar salários de servidores, vai se alastrar para outros Estados e municípios se nada for feito rapidamente.

Uma presidente dedicada obsessivamente a salvar a própria pele neste momento prediz muita desgraça logo à frente, e não apenas para ela. Deputados e senadores tranquilos, que deveriam estar reunidos em sessões emergenciais extenuantes para produzir resposta rápida à ameaça de descalabro, completam a cena de um grupo dirigente que virou as costas para a população. Ai de nós.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

PT CONTRA PT. COMO PODERIA DAR CERTO?

Thomas Traumann, que já foi ministro da Comunicação Social do governo Dilma, veio ao encontro do que venho escrevendo há meses:
"São conhecidos os males que alimentam a ameaça de impeachment: articulação política inábil, comunicação desastrosa, paralisia administrativa e a sinalização mercurial dos rumos do governo. Porém, mais que o avanço das investigações da Operação Lava Jato, dos julgamentos do Tribunal de Contas da União e do Tribunal Superior Eleitoral e das idas e vindas do PMDB, o ritmo do processo do impeachment será dado pelo bolso do cidadão. 
São os índices de desemprego, inflação e queda no consumo que podem derrubar o governo, que podem levar milhões às ruas, gerar pânico no mercado financeiro e esfarinhar de vez a base governista".
Daí a minha certeza de que Dilma tem os dias contados, pois não conseguirá viabilizar o arrocho fiscal tendo contra si grande parte do eleitorado e da base de sustentação política de... Dilma! 

Foi o paradoxo que também derrubou João Goulart: por mais que quisesse ajustar a economia com receituário de direita, o seu genro Leonel Brizola impedia e implodia tudo.

O Guilherme Boulos, com toda razão, leva o MTST a invadir o Ministério da Fazenda para protestar contra Joaquim Levy.

João Pedro Stedile, os movimentos sociais, os petistas que não viraram neoliberais, até o recém-constituído Conselho Consultivo do PT, todos fazem tudo para deter Levy. 

E boa parte do empresariado também, pois a exumação da recessiva CPMF só convém aos bancos e desagrada em cheio à indústria e ao comércio. 

Se for rejeitada pelos parlamentares, outras agências de risco colocarão o Brasil no vermelho, o dólar subirá ainda mais, a crise econômica realimentará a política, etc. 

Tenho suficiente familiaridade com o xadrez para perceber que a partida já está mais do que decidida. Se fosse um pouquinho melhor, diria quantos lances faltam para o xeque-mate...

Será por não conseguir tirar o Brasil da recessão --mais provável é tornar-se depressão-- que Dilma vai cair.

E cairá, acima de tudo, porque tentou o impossível: depois de eleger-se com retórica de esquerda, quis socar-nos goela adentro as mais antipopulares medidas de austeridade.

Isto quem fazia direitinho eram Thatcher, Reagan, Pinochet e que tais. A Dilma deveria ter deixado o serviço sujo para a direita, pois a desumanidade é requisito prévio para a função. Ao assumir o mico em nome do PT, ela mergulhou o Brasil numa crise gravíssima e destruiu o partido.

Um elefante em loja de cristais não faria pior. E a sua passagem pelo poder terá sido como uma praga de gafanhotos, pois vai deixar atrás de si uma terra arrasada.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

POR QUE ALGUÉM COLOCARIA DILMA EM CIMA DE UMA ÁRVORE?

Estamos numa situação tão desalentadora que só nos resta rir para não chorarmos. E são poucos os que têm talento para nos arrancar boas risadas em meio aos desastres nossos de cada dia. Um deles é Ruy Castro, fera do saudoso Pasquim, mestre da ironia e mordacidade. 

Ele tenta explicar o que todos nos indagamos: como viemos parar no cenário apocalíptico atual, com o País convertido numa nau sem rumo, em que cada intervenção de quem 
deveria comandar só serve para piorar as coisas? 

Quanto à parábola do jabuti em cima da árvore, outra versão alude a uma vaca: não sabemos como chegou lá e a única certeza é a de que ela vai cair.

Descartado o uso grosseiro da palavra vaca, do qual o Ruy Castro provavelmente 
quis fugir, creio que a comparação com a ruminante seja a mais pertinente
neste caso, pois não resta nenhuma dúvida de que a Dilma está 
prestes a cair, caso não tenha a dignidade de saltar do 
galho por iniciativa própria enquanto é tempo.

O HOMEM ERRADO
Por Ruy Castro
Todos sabemos: se você encontrar um jabuti em cima da árvore, não queira saber como ele subiu até lá –foi alguém que o colocou. E por que alguém colocaria um jabuti em cima da árvore? Para preencher um tempo morto, já que um jabuti em cima da árvore não serve para nada. Ou para manter a árvore ocupada até chegar a hora de tirá-lo.

Em 2011, Lula colocou Dilma em cima da árvore, contando com que ela lhe devolveria o galho em 2015. Mas Dilma gostou do que viu lá de cima e quis continuar por mais quatro anos. Já aconteceu mil vezes: a criatura apaixona-se por si mesma, descobre que tem vontade própria e dá uma banana para seu criador. É elementar. Espanta que Lula não tenha previsto essa possibilidade.

Há outros espantos. Lula vendeu Dilma como uma grande gerente, uma executiva, uma administradora. Hoje sabemos que é exatamente o que ela não é –seu governo ficará como o mais incompetente da história. Se Lula achava que Dilma fosse aquilo tudo, revelou-se péssimo avaliador de material humano. Se sabia que ela não era, e a bancou assim mesmo, ele deve explicações ao seu pessoal.

Dizem que Lula escalou Dilma como sua sucessora porque Dirceu e Palocci foram abatidos no mensalão. Duvido –Lula os temia porque eram espertos e ambiciosos demais, poderiam crescer e engoli-lo. O ideal para Lula era mesmo Dilma, que o PT não queria, mas teve de digerir. 

Essa é uma característica do grande líder: quando ele erra, obriga todo mundo a errar com ele. Lula deve ter vendido Dilma como dócil, maternal e obediente. Ela se revelou voluntarista, grossa e incontrolável –além de politicamente desastrosa. Como se pode errar tanto?

Lula pôs o jabuti em cima da árvore. Isso é comum na política. Mas errou de árvore ou errou de jabuti. Em compensação, acertou um tiro no pé.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

GOVERNO DILMA: O ÚLTIMO A SAIR APAGA A LUZ.

Eis um apropriado registro dos estertores do governo Dilma, de autoria de um dos maiores jornalistas da minha geração: Ricardo Kotscho, quatro vezes vencedor do Prêmio Esso. Ele foi também secretário de Imprensa e Divulgação  durante o Governo Lula.

E há uma evolução mais recente do quadro, que se acrescenta ao que o Kotscho relatou e eu reproduzo abaixo: o PSB, depois de abandonar o governo e assumir posição independente, acaba de efetuar outra correção de 
rumo. Aderiu à oposição. (Celso Lungaretti)

PMDB LAVA AS MÃOS, PT CRITICA 
E APOIO A DILMA SE ESVAI.
.
Por Ricardo Kotscho
O jogo político vai ficando cada vez mais complicado e imprevisível. De um lado, o mesmo PMDB, que passou o ano todo defendendo a redução do número de ministérios na Esplanada, na hora de discutir os nomes de quem fica e quem sai resolveu lavar as mãos e deixou a presidente Dilma Rousseff falando sozinha. De outro, o PT reuniu pela primeira vez seu Conselho Consultivo, montado a pedido do ex-presidente Lula, em que foram feitas severas críticas às medidas anunciadas no pacote fiscal apresentado pelo governo na semana passada.

Nesta segunda-feira, os dois principais partidos do que restou da base aliada do governo deram fortes sinais de que preparam o desembarque. Ao mesmo tempo, as maiores entidades empresariais do país, Fiesp e Firjan, que há poucas semanas divulgaram um manifesto em defesa da governabilidade, ficaram contrariadas com o corte de verbas do "Sistema S" e agora se colocam francamente ao lado das oposições. Movimentos sociais e sindicatos de servidores públicos organizam manifestações contra os cortes nos programas sociais e o adiamento do reajuste do funcionalismo. Como pano de fundo, a Operação Lava Jato continua a pleno vapor.

Para onde se olha, o apoio ao governo Dilma está se esvaindo rapidamente e crescendo a onda de protestos. A reforma ministerial e administrativa, que a presidente pretendia anunciar na quarta-feira, está ameaçada. Na quinta, está marcada a viagem de Dilma para participar da abertura da Assembléia Geral da ONU, em Nova York, mas agora não se tem mais certeza de nada. No mesmo dia, serão anunciados pelo IBGE os novos números do desemprego.

No Congresso, estão pendentes as votações dos vetos da presidente aos projetos que aumentam as despesas públicas e ainda nem entrou em discussão o pacote fiscal, que vem sendo bombardeado por todos os lados.

Temer, Renan, Cunha, um após outro, os três grandes caciques do PMDB  simplesmente se recusaram a discutir nomes para a nova equipe ministerial. Estão tirando o time de campo e já não se sabe ao certo quem, afinal, cuida da articulação política do governo com o Congresso e a sociedade, depois que o vice Michel Temer devolveu a missão a Dilma.

Lula anunciou na semana passada que vai correr o país em defesa do governo, mas até agora não saiu do seu instituto, em São Paulo, onde promove reuniões fechadas à imprensa. Nas inserções de rádio e TV do PT previstas para a próxima semana, o ex-presidente será o personagem central mas, até ontem, a participação de Dilma não estava prevista.

Estes foram apenas os primeiros lances de uma semana que promete fortes emoções.

EM TEMPO DE GUERRA, MENTIRA (E MANIPULAÇÃO) COMO TERRA.

Carlos Ayres Britto, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, foi quem, no momento decisivo, salvou Cesare Battisti da perseguição inquisitorial encabeçada pelos reacionários Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski, juntamente com o carola Cezar Peluso.

(Abro um parêntesis: se você só se informa --ou desinforma-- nos espaços petistas, talvez estranhe a inclusão de Lewandowski nessa lista. Mas, caso tivesse, como eu, acompanhado cada segundo das quatro longas sessões em que se decidiu o destino de Battisti, perceberia que se trata de um inimigo figadal da verdadeira esquerda, a revolucionária, tendo várias vezes externado seus preconceitos. Perseguiu encarniçadamente o Cesare e votou sempre contra ele, tanto quanto os outros dois mastins.

O Lewandowski haver se tornado queridinho dos blogueiros e articulistas chapa-branca só demonstra o quanto o PT decaiu. Hoje não passa de mais um partido da ordem e do status quo.)

Parêntesis fechado, vamos ao que viemos: a manipulação desmedida que ora grassa na internet e até na mídia.

Sempre ponderado e imparcial, Ayres Britto concedeu à Folha de S. Paulo entrevista na qual avaliou inexistir, por enquanto, crime de responsabilidade que respaldasse o impeachment de Dilma Rousseff. Mas, disse muitas outras coisas e fez as mais contundentes críticas à presidenta.

O que interessava aos desesperados em salvar a cabeça da Dilma foi trombeteado no título e no abre da matéria; o resto, suprimido ou minimizado.

Então, se você não ficar esperto, será feito de tolo, manipulado sem dó nem pudor. Como pode constatar em seguida:

"A crise econômica se agudiza e passa a manter com a instabilidade política uma relação de causa e efeito, de retroalimentação. Aí, é natural que se pense numa alternativa de direção para o país. Não vejo nisto uma tentativa de golpe, desde que esta preocupação com a governabilidade não desborde, no plano já das providências, do esquadro constitucional. Tudo é válido, todos os antídotos para debelação da crise são válidos, desde que residentes na Constituição. A busca do fundamento jurídico para implementar esta intenção, este propósito, não é golpe.

O impeachment é um tema que não está imune à discussão. A presidente não pode ter a pretensão de excluir o substantivo impedimento da pauta, da agenda de preocupação nacional. Outra coisa é ela dizer: 'Não dei motivos para meu impedimento, não há fundamento jurídico'. Corretíssimo ela dizer isto. A outra pergunta é por que se chegou a este estado de coisa. Porque, por mais que se simpatize com ela, não se pode tapar o sol com a peneira.

O que é o chefe de um Poder Executivo? É uma autoridade pública eletiva que é chefe da administração pública, é chefe do governo e é chefe de Estado. E o fato é que ela vai mal nas três chefias. É uma opinião generalizada, e isso coloca o país numa situação delicada. Se o chefe do Poder Executivo vai mal nas três dimensões elementares, ele abre os flancos para que a nação discuta até a possibilidade do seu impeachment. (...) A situação factual pode chegar a um ponto tal de insustentabilidade da permanência da presidente." (OU SEJA, DISCUTIR E PROPOR O IMPEACHMENT DA DILMA, RESPEITADO O TEXTO CONSTITUCIONAL, NÃO É NEM NUNCA FOI GOLPISMO, AO CONTRÁRIO DO QUE ELA FANTASIOSAMENTE AFIRMA)

"Há uma ação de impugnação de mandato na Justiça Eleitoral. Seria uma via de desinvestidura da presidente da República... Isto (...) levaria de roldão a candidatura do vice-presidente também. Em noventa dias teríamos novas eleições." (OU SEJA, POR ENQUANTO BRITTO NÃO VÊ DILMA COMO PASSÍVEL DE IMPEACHMENT POR PARTICIPAÇÃO OU CUMPLICIDADE EM ESQUEMAS DE CORRUPÇÃO. MAS POR CRIME ELEITORAL, SIM)

"Ela não foi denunciada, ela está formalmente fora do petrolão. Se viesse a lume, neste caso, poderia ser até no mandato passado." (OU SEJA, BRITTO NÃO DESCARTA QUE, COM O SURGIMENTO DE NOVAS REVELAÇÕES DA OPERAÇÃO LAVA-JATO, VENHAM A EXISTIR MOTIVOS PARA O IMPEACHMENT, MESMO QUE OS DELITOS IMPUTADOS A DILMA SEJAM RELATIVOS À SUA GESTÃO ANTERIOR)

Resumo da opereta: ao contrário da imagem que foi vendida aos incautos, a entrevista do Ayres Britto foi muito mais negativa para, do que favorável a, Dilma.

Não que eu o considere um farol que ilumina o Brasil, longe disto. Apenas me irrita acompanhar o exercício cotidiano de tendenciosidade e primarismo por parte desses Goebbels em miniatura.

DENÚNCIA IMPORTANTÍSSIMA: DESVIO DE RECURSOS PÚBLICOS DEBILITOU SEGURANÇA DE ANGRA 3!!!

Nunca magnifiquei as denúncias de corrupção, por considerar que se trata de um mal inerente ao capitalismo, daí a impossibilidade de erradicá-lo enquanto não dermos um fim à exploração do homem pelo homem e à ganância desmedida que ela desencadeia (até lá, cruzadas como a do juiz Sérgio Moro enxugarão gelo, fazendo apenas a incidência do delito diminuir momentaneamente); e por jamais perder de vista que, na ponta do lápis, o sistema capitalista em si é muito mais prejudicial aos trabalhadores do que os mensalões, petrolões e eletrolões já desmascarados e todos os outros que sabemos existirem.

Mas, a coisa muda de figura se, por causa da corrupção, milhões de brasileiros estiverem sendo ameaçados de morte terrível. 

Então, peço que todos leiam com máxima atenção a denúncia abaixo de Chico Whitaker, membro da Comissão Brasileira Justiça e Paz, da Coalizão por um Brasil Livre de Usinas Nucleares e detentor do  "Prêmio Nobel Alternativo" da Right Livewood Award, que lhe foi conferido pelo Parlamento Sueco em 2006.

Com um adendo: vazou material radioativo da usina de Angra 2 em 15 de maio de 2009, mas a população só ficou sabendo 11 DIAS DEPOIS (!!!), tempo necessário para a situação ser recolocada sob controle. É como se administram tais crises por aqui: para que não sejam prejudicados os negócios, fazem-se apostas temerárias com a vida dos brasileiros, deixando-se de evacuar as vítimas potenciais!

MISTURA EXPLOSIVA
.
Por Chico Whitaker
A prisão do presidente licenciado da Eletronuclear, Othon Luiz Pinheiro da Silva, lançou novas luzes sobre a corrupção. Nas usinas nucleares, ela é um delito maior que o desvio de recursos públicos. Em Angra 3, p. ex., a caixa-preta da obra nos diz que, para desviá-los, esqueceu-se a exigência fundamental da segurança.

Essa tecnologia para obter eletricidade se apoia em três mitos, sempre repetidos: é a mais limpa, a mais barata e a mais segura.

Os dois primeiros são facilmente desmontáveis. É limpa uma tecnologia que cria enormes quantidades de lixo radioativo, a ser "escondido" por milhares de anos? É barata se forem somados os custos dos depósitos de lixo, do desmantelamento das usinas ao final da sua validade, das sempre novas exigências de segurança? Custa pouco a assistência às vítimas de acidentes?

O terceiro mito é perigoso. Não existe obra humana 100% segura. Falhas de projeto, de material, dos operadores e interferências externas provocam acidentes de gravidade variável. Há os chamados acidentes severos, com derretimento do reator e explosão da usina, que dispersam no meio ambiente toneladas de partículas radioativas (como o césio-137, 19 gramas do qual apavoraram Goiânia em 1987).

Quem defende o nuclear diz que sua probabilidade é mínima, pois são muitos os cuidados tomados. Mas podemos afirmar que, se ocorrerem, serão catastróficos –haja vista Chernobil, em 1986, e Fukushima, em 2011. A caixa-preta de Angra 3 revelou que lá tais cuidados não foram tomados, mas sim empurrados para o lado.

O projeto de sua construção (o mesmo de Angra 2) é dos anos 1970. Não foi atualizado com as normas de segurança da Agência Internacional de Energia Atômica após os acidentes de Three Mile Island, nos EUA, em 1979, e de Chernobil, sete anos depois, na União Soviética.

Engenheiros da Comissão Nacional de Energia Nuclear deram o alerta, mas foram calados. Seu parecer técnico foi desconsiderado. O Ministério Público Federal soube disso e fez exigências. Essas dúvidas imporiam uma revisão do projeto, atrasando e talvez até inviabilizando a obra. A resposta foi quase cínica: atenderiam às exigências, mas depois de terminada a obra.

Em maio de 2010, Angra 3 foi licenciada e conseguiu-se arquivar uma Ação Civil Pública do Ministério Público Federal que pedia a sua nulidade. Propinas tinham sido pagas desde 2009, antes mesmo da licença. Qual punição merecem os autores de tão tenebroso conluio?

Os jornais criariam pânico se dessem a esse escândalo mais espaço do que a simples notícia de corrupção? Pode ser. Mas os turistas e moradores da região, do vale do Paraíba, do sul de Minas, do Rio e de São Paulo ignoram o perigo de uma explosão das usinas, com ventos levando partículas radioativas a suas casas. Como em Chernobil, quando uma nuvem cobriu a Europa.

Não seria melhor se os potenciais atingidos tomassem consciência disso e agissem para evitá-lo? Em vez de esconder a ameaça, deveríamos parar Angra 3, rever seu projeto e desmontar Angra 2. A usina de Grafenrheinfeld, na Alemanha, referência de ambas, está sendo desmontada, como todas daquele país.

A segurança nuclear é uma exigência ética. Ninguém tem o direito de ignorar os riscos da manipulação do átomo.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

BRASIL: PÁTRIA OU VALHACOUTO?

Paulo Maluf é o brasileiro famoso que há 
mais tempo (cinco anos) consta da 
lista de procurados pela Interpol, contratempo que o levou a descobrir 
as delícias do turismo interno, não 
botando mais os pés fora daqui.

Marco Polo Del Nero é o mais ridículo: ao tomar conhecimento da prisão do seu comparsa José Maria Marin, abandonou sofregamente uma reunião da Fifa na 
Suíça, saindo em desabalada 
corrida para o aeroporto.

Desde então está confinado no Brasil.   

Já gazeteou três encontros do Comitê Executivo da Fifa, deixando nosso país sem representante quando se elegiam diretorias e se decidiam os rumos do futebol mundial. 

E não atuou nos bastidores como deveria, para evitar que Neymar perdesse os dois primeiros jogos do Brasil nas eliminatórias 
do Mundial 2018 por suspensão.

Nesta semana repetirá a dose e dirigentes da entidade já cogitam submeter seu caso 
ao Conselho de Ética.

A ambos dedico a marchinha "Daqui não saio, daqui ninguém me tira", composta por Paquito e Romeu Gentil, que fez sucesso no 
carnaval de 1949, gravada pelos Vocalistas Tropicais.

Lamentando que o Brasil seja pátria para nós e mero valhacouto para eles.
.

DOS ATLETAS SÓ SE PERDE O BERRO

Num mesmo domingo (ontem, 20/09), dois exemplos da mentalidade escravocrata dos dirigentes esportivos brasileiros.

No futebol, dirigido sabe-se lá por quem enquanto o presidente da CBF se ocupa de evitar as grades, estão se marcando partidas do Brasileirão para as 11 horas de domingo.

Isto significou, para os atletas de Corinthians e Santos, serem submetidos a uma sensação térmica de 38ºC; para os de Goiás e Joinville, de 45ºC.

É um horário melhor para o público e faz aumentar as arrecadações? Dane-se! Porque, como bem disse o Geraldo Vandré, "gado a gente marca,/ tange, ferra, engorda e mata,/ mas com gente é diferente". Estão esperando algum jogador morrer para acabarem com esta desumanidade?

No tênis, o Brasil amargou o vexame de ser rebaixado para a segunda divisão da Copa Davis jogando em casa, embora a Croácia, sem seu nº 1 Marin Cilic, não fosse nenhum bicho papão. 

A derrota se consumou quando, inferiorizados por 2x1 na contagem geral e também no placar da quarta partida, tivemos nosso melhor tenista, Thomas Bellucci, deixando melancolicamente a quadra: perdia o quarto set por 4/0 e mal conseguia se movimentar, de tantas dores na região lombar.

Ocorre que a quadra lentíssima de Florianópolis foi uma escolha ruim para João Souza Feijão e péssima para Bellucci, que costuma se ressentir fisicamente quando é obrigado a disputar partidas longas. Neste domingo, desabou depois de 3h11.

Para os dois seria melhor uma quadra rápida. Por que a opção por Floripa, então? Para que o jovem croata Borna Coric, no esplendor de seus 18 anos, passasse como um trator por cima de ambos?

Fernando Meligeni, o guerreiro Fininho, foi capitão da equipe brasileira na Davis em 2005/2006, depois de pendurar a raquete. E conta:
"...pedimos para jogar no nível do mar e, se possível, no calor do Nordeste. Por motivos políticos, ganhamos Belo Horizonte. Sem poder debater e reclamar, tive de aceitar e (...) deixei o cargo após esse confronto"
Desta vez foi ainda pior, com Bellucci nem sequer conseguindo lutar até o fim. Houve quem apupasse, mas a maioria dos torcedores compreendeu e aplaudiu seu esforço.

Quanto aos dirigentes, esses só merecem vaias. No mínimo, são parasitas desastrados. E, dados os escândalos que pipocam em tantas áreas, não podemos descartar a possibilidade de existirem outro$ fatore$ envolvido$.

Nem afirmar, claro. Mas, alguém tem de vir a público prestar os esclarecimentos devidos. Se continuarmos aceitando passivamente o autoritarismo e as decisões incongruentes, vamos nos tornar perdedores contumazes.

Quantas humilhações equivalentes aos 7x1 do Mundial da Fifa estarão à nossa espera nos Jogos Olímpicos de 2016?

domingo, 20 de setembro de 2015

O DESABAFO DE OUTRO VELHO COMPANHEIRO DO LULA

Antônio Tito Costa é outro nonagenário inconformado com a trajetória negativa cumprida por Lula e o PT, que começaram desafiando o patronato e hoje dão seu aval a pacotes econômicos antipopulares, fazendo uma opção preferencial pelos banqueiros em detrimento dos trabalhadores e do povo brasileiro. 

Sua carta aberta resume o que muitos petistas de outrora sentimos. Compartilhamos o mesmo sonho e amargamos a mesma decepção, amarga como fel.

"Quem te viu, quem te vê/ Quem não o conhece, não pode mais ver pra crer/ Quem jamais o 
esquece, não pode reconhecer..."

Hoje, quando Lula se dispõe a percorrer o Brasil defendendo o neoliberalismo, é dos mais 
oportunos o desabafo do Tito Costa, 
daí eu publicá-lo na íntegra.

CARTA ABERTA A LULA
Tito Costa (*)
Meu caro Lula, permito-me escrever-lhe publicamente diante da impossibilidade de nos falarmos em pessoa, com a franqueza dos tempos de nossos seguidos contatos –você na presidência do Sindicato dos Metalúrgicos e eu prefeito de São Bernardo do Campo.

Não vou falar das greves que ocorreram de 1979 a 1981, que projetaram seu nome no Brasil e no exterior. Não quero lembrar os dias angustiantes da intervenção no sindicato pelo ministro do Trabalho, em março de 1979, e da violência que se seguiu com prisões, processos e a sua detenção pelo Dops.

Todos esses fatos sempre foram acompanhados por mim juntamente ao senador Teotônio Vilela, a Ulysses Guimarães e a numerosos políticos do então MDB.

Na véspera da intervenção no sindicato, você ligou no meu gabinete me pedindo ajuda para retirar estoques de alimentos ali guardados. Enviei caminhões da prefeitura para retirá-los e o material foi depositado na igreja matriz da cidade.

Não falo das reuniões, madrugadas adentro, em meu apartamento em São Bernardo, com figuras expressivas do mundo político e também de outras esferas, como dom Cláudio Hummes, nosso amigo, então bispo de Santo André, hoje pessoa de confiança do papa Francisco, em Roma. Éramos todos preocupados com a sua sorte, a do sindicato e também a das nossas instituições em pleno regime militar.

Prefiro não falar dos dias em que o acolhi em minha chácara na pequena cidade de Torrinha, no interior de São Paulo, acobertando-o de perseguições do poder militar da época: você, Marisa, os filhos pequenos, vivendo horas de aflição e preocupantes expectativas.

Nem quero me lembrar das assembleias do sindicato, depois da intervenção no estádio de Vila Euclides, cedido pela Prefeitura de São Bernardo, fornecendo os aparatos possíveis de segurança.

Eram os primórdios de uma carreira vitoriosa como líder operário que chegou à Presidência da República por um partido político que prometia seriedade no manejo da coisa pública e logo decepcionou a todos pelos desvios de comportamento e de abusos na condução da máquina administrativa do Estado.

E aqui começa o seu desvio de uma carreira política que poderia tê-lo consagrado como autêntico líder para um país ainda em busca de desenvolvimento. Você deixou escapar-lhe das mãos a oportunidade histórica de liderar a implantação de urgentes mudanças estruturais na máquina do poder público.

Como bem lembrou Frei Betto, seu amigo e colaborador, você, liderando o Partido dos Trabalhadores, abandonou um projeto de Brasil para dedicar-se tão somente a um ambicioso e impatriótico projeto de poder, acomodando-se aos vícios da política tradicional.

Assim, seu partido, em seus alargados anos de governo, com indissimulada arrogância, optou por embrenhar-se na busca incessante, impatriótica e irresponsável do aparelhamento do Estado em favor de sua causa que não é a do país.

Enganou-se você com a pretensão equivocada de implantar uma era de bonança artificial pela via perversa do paternalismo e do consumismo em favor das classes menos favorecidas, levando-as ao engano do qual agora se apercebem com natural desapontamento.

Por isso, meu caro Lula, segundo penso, você perdeu a oportunidade histórica de se tornar o verdadeiro líder de um país que ainda busca um caminho de prosperidade, igualdade e solidariedade para todos. Alguma coisa que poderia beirar a utopia, mas perfeitamente factível pelo poder político que você e seu partido detiveram por largo tempo.

Agora, perdido o ensejo de sua consagração como grande liderança de nossa história republicana recente, o operário-estadista, resta à população brasileira o desconsolo de esperar por uma era de dificuldades e incertezas.

Seu amigo, Tito Costa.

* Antonio Tito Costa, 92 anos, era prefeito de São Bernardo do Campo quando das célebres greves de metalúrgicos lideradas por Lula. Foi também deputado federal constituinte.

sábado, 19 de setembro de 2015

OS GOVERNOS SOB O CAPITALISMO NÃO PASSAM DE MEIOS PARA ATINGIRMOS NOSSO FIM: A REVOLUÇÃO!!!

Este morreu por não se prostrar aos inimigos de classe...
Em 1967, aos 16 anos, fiz minha opção definitiva pelos ideais de esquerda, que eu então identificava somente com o marxismo.

Ideologicamente, desde então a única mudança importante nas minhas convicções foi ter saído dos cárceres da ditadura convencido de que nada, absolutamente nada, justificava o esmagamento do indivíduo pelo Estado, que eu e meus companheiros sofrêramos na pele. 

Passei a colocar em plano de absoluta igualdade os objetivos revolucionários e o respeito aos direitos humanos. Ou seja, encaro ditaduras, permanentes ou transitórias, como incompatíveis com a dignidade do ser humano e também com a própria integridade da revolução, pois a desvirtuam irremediavelmente, favorecendo a imposição da vontade de nomenklaturas sobre os trabalhadores.

A revolução deve transferir o poder ao povo, não entronizar novos privilegiados.

Coerentemente, deixei de me considerar apenas marxista. No que tange à ditadura do proletariado, os anarquistas é que sempre estiveram certos. Se fossem ouvidos, a revolução soviética não frustraria as enormes esperanças que despertou, a ponto de tornar-se exemplo negativo que o capitalismo utilizou para dissuadir os trabalhadores de outros países de também lutarem por sua emancipação.
...ao contrário da dona Dilma e seus dois banqueiros.

Hoje enxergo pontos válidos no marxismo, no anarquismo, no trotskismo e em muitas bandeiras específicas da geração 68. Se a humanidade vier a ser libertada (há, infelizmente, a possibilidade de o capitalismo a conduzir ao extermínio antes disto), será pelo que de melhor tais vertentes produziram. É essencial que estejam unidas nos momentos decisivos.

A revolução também não se confunde com capitalismo de estado, nem é necessariamente alavancada pela estatização da economia. Por tal caminho se chega mais facilmente ao fascismo do que ao reino da liberdade, para além da necessidade.

Fui dos primeiros a entrevistar o Lula na campanha eleitoral de 1989. Perguntei-lhe como faria para evitar que as estatais continuassem a serviço da politicalha. Ele respondeu que as colocaria sob a tutela de conselhos de trabalhadores.

Quando finalmente chegou à Presidência da República, não moveu uma palha neste sentido. Nem lhe foi cobrado, infelizmente. De 1989 a 2002, a esquerda não avançou, retrocedeu. E continua até hoje andando para trás, como os caranguejos.
Antes o impeachment do que esta abominação!

Eu não mudei um milímetro: ainda exijo a entrega das estatais aos trabalhadores organizados, na esperança de que estes as mantenham nos trilhos, evitando que sejam saqueadas e destruídas pelos políticos profissionais ou em seu benefício, como ocorreu com a Petrobrás. 

É patética a obsessão pelo poder sob o capitalismo que contagiou a maior parte da esquerda brasileira. Da Presidência da República à vereança, os cargos eletivos na democracia burguesa sempre foram encarados pelos revolucionários como MEIOS para impulsionar a revolução, meras FERRAMENTAS da ação revolucionária, e não como fins em si. 

Hoje o PT incute em legiões de primários e fanáticos a noção maniqueísta de que vale tudo para preservar o mandato de uma presidenta desmoralizada e fracassada, inclusive apoiar-se em banqueiros e entregar a condução da política econômica a um neoliberal, ou seja, um INIMIGO DE CLASSE

Dizem que salvar Dilma Rousseff é ser de esquerda, independentemente de ela pisar o tempo todo nos ideais e bandeiras da esquerda; independentemente de sua práxis há muito ser a de uma gerentona atrabiliária e obtusa, não de uma companheira presidente; independentemente de em momento algum ela haver admitido que a guinada à direita foi um erro terrível e se disposto a corrigir o rumo, passando a honrar suas promessas de campanha. 

Repita comigo: L-U-C-R-O.
A revolução é infinitamente mais importante do que o governo de Dilma. Desmoralizar a revolução aos olhos dos trabalhadores, fazendo-os identificarem-na com tudo que há de ANTIPOPULAR e ANTIÉTICO, é destruir a esperança num futuro igualitário e livre, em troca da renovação da licença para o PT continuar gerenciando o capitalismo para os capitalistas, como vem fazendo há quase 13 anos.

Mais do que um governo nos estertores, cabe-nos salvar a semente de uma nova esquerda, para irrigá-la e fazer com que frutifique amanhã. Os erros cometidos nos últimos governos nos servirão como bússola: teremos de fazer tudo bem diferente, para que os frutos dos nossos árduos e abnegados esforços não nos escapem novamente dentre os dedos.

De resto, como dizia o Cristo, deixai os mortos enterrarem seus mortos.
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