sábado, 31 de janeiro de 2015

QUANTO MAIS O GOVERNO FUGIR DA BATALHA DO IMPEACHMENT, MAIS FORÇAS SEUS INIMIGOS ACUMULARÃO.

Ninguém me levou a sério quando escrevi que governar o Brasil no período 2015/2018 seria tarefa tão espinhosa que mais valia o PT deixar que uma adversária do campo da esquerda (Marina Silva) botasse a casa em ordem, amargando todo o desprestígio de ter de tomar decisões impopulares, para voltar triunfalmente ao poder na eleição seguinte, com Lula.

Ao final do primeiro mês do novo mandato, só mesmo os mais teimosos e/ou obtusos discordarão de mim.

Agora, vejo Dilma Rousseff contribuindo acentuadamente para o derretimento da Petrobrás porque não quer dar o braço a torcer quanto à necessidade de afastar Graças Foster. A companhia já perdeu bilhões de dólares em valor de mercado por insistir em não tomar a mais óbvia e indispensável medida para tentar reverter as expectativas. 

A Petrobrás só apaziguará os investidores quando tiver pessoas confiáveis à sua frente, produzindo balanços confiáveis. Graças é vista como pessoalmente honesta, mas incapaz de agir com independência no que tange aos deslizes cometidos ou consentidos pelo PT, além de incompetente para lidar com uma crise da envergadura atual. Está definitivamente queimada há meses; nem o Papa conseguiria restaurar seu prestígio.

Enquanto Dilma continuar adiando o inevitável, só fará aumentar o passivo da derrota final. Até o Ricardo Kotscho admite que a situação de Graças é insustentável. Chegamos a um ponto em que a bola de neve seguirá se avolumando até que ela e toda a diretoria atual sejam retiradas de cena. É simples assim.

O quadro, aliás, é o mesmo do impeachment de Dilma. Em vez de mover céus, terras, cargos e recursos públicos para evitar que a Câmara Federal tenha um presidente talvez simpático a ele, o PT deveria é travar logo essa batalha, que mais dia, menos dia, acabará mesmo ocorrendo.

A conjugação das crises econômica, hídrica e energética, do esfarelamento da Petrobrás e das revelações escabrosas da Operação Lava-Jato só fará crescer, dia a dia, a insatisfação com o governo. A pressão pelo impeachment não cessará de aumentar até que os parlamentares, por uma questão de sobrevivência política, acabem por libertar o gênio da garrafa. 

Então, como o governo não conseguirá escapar da contenda pelos próximos quatro longos anos, melhor fará se levantar a luva imediatamente, aceitando o desafio enquanto os inimigos ainda não estão suficientemente fortes para que o impedimento de Dilma possa ser dado como favas contadas.

Daqui para a frente, os partidários do impeachment acumularão forças incessantemente e o governo será cada vez mais abalado pelas más notícias em cascata e suas consequências no cotidiano dos brasileiros. 

Se nos próximos meses talvez ainda se safe (e, uma vez votado e rejeitado o impedimento, quebraria as pernas da oposição, ganhando um novo alento), eu chutaria em 99% as possibilidades de que, em 2016 ou 2017, perderá por goleada.

Mas, nada indica que terá o discernimento para escolher o melhor caminho, nestas circunstâncias que lhe são altamente desfavoráveis. O mais provável é que continue marchando passo a passo para o precipício, repetindo em escala maior o que já aconteceu com a Petrobrás. 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

FORÇAS ARMADAS VENEZUELANAS RECEBEM 'LICENÇA PARA MATAR' CIVIS

O Diário Oficial da Venezuela da última 3ª feira (27) publicou uma resolução do Ministério da Defesa liberando o "uso de força potencialmente mortal" (armas de fogo inclusas) para "evitar as desordens, apoiar a autoridade legitimamente constituída e rechaçar toda agressão, enfrentando-a de imediato e com os meios necessários".

Governo que manda atirar no seu povo é porque já passou de maduro, está caindo de podre. 

A permissão para matar só deve ser concedida quando se trata de responder ao fogo inimigo; se os manifestantes não utilizarem armas de fogo, os efetivos policiais também deverão delas prescindir. E a malfadada Resolução 008610 não impõe tal limite, portanto autoriza a responder pedradas com balaços.

Ademais, quando as Forças Armadas saem às ruas para fazer o trabalho da polícia civil, algo está muito errado. Elas existem para destruir inimigos, sua cultura é a de sempre prevalecerem sobre eles, seja por disporem de efetivo numericamente superior, seja por terem mais competência, seja apelando para o uso de violência maior. 

Se, ademais, recebem licença prévia para matar, as chances de massacre se tornam enormes. E conterrâneos civis não devem ser massacrados! NINGUÉM deve ser jamais massacrado!

Deixo registrado meu mais veemente protesto.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

OS 23 ATIVISTAS DO RJ SERÃO JULGADOS AMANHÃ POR "ASSOCIAÇÃO CRIMINOSA ARMADA", EMBORA NÃO HAJA ARMA, NEM CRIME, NEM ASSOCIAÇÃO!

Confesso que nunca havia ouvido o nome de Gregório Duvivier até a Folha de S. Paulo publicar nesta 5ª feira (29), na seção Tendências/Debates, seu emocionante artigo Eles lutavam por todos nós. Foi o título, claro, que chamou minha atenção.

Acabo de dar uma olhada na Wikipedia. Fiquei sabendo que se trata de "ator, humorista, escritor, roteirista e poeta brasileiro", "um dos criadores do canal Porta dos Fundos" (que não tenho a mínima ideia do que seja) e filho da cantora Olívia Byington (agora, sim!).

Em 1974, quando o cenário musical brasileiro (e tudo o mais...) parecia terra arrasada, fiquei sabendo de um grupo de rock acústico (!) carioca que tinha pontos de contato com o trabalho de Egberto Gismonti (!!) e acabara de lançar o disco de estréia. Apesar da capa ridícula, parecendo desenho de criança, comprei, escutei, gostei. Ouvi a faixa "Brilho da noite" até riscar o vinil.

Quatro anos mais tarde, A Barca do Sol lançou um excelente LP em conjunto com a Olívia. Seus trinados de soprano casaram-se às mil maravilhas com as canções sofisticadas dos barqueiros. É um cult para mim.

Mas, não foi só esta a lembrança que o texto do Duviviem me evocou. Sua indignação sincera e algo ingênua me fez recordar o primeiro artigo político que escrevi na vida.

Muito inferior ao do Duvivier, até porque ele tem 28 anos e eu tinha 16. Mas, com forte simbolismo para mim, por ser o passo inicial nas duas linhas-mestras da minha trajetória: a militância revolucionária e a profissão de jornalista.

Saudosismo à parte, sua publicação na íntegra se justifica por estar protestando contra uma terrível injustiça das otoridades policiais e judiciais do Rio de Janeiro, que são a negação viva dos brasileiros cordiais e tudo fazem para tornar horrorosa aquela que o mundo inteiro via como cidade maravilhosa

Trata-se de mais uma grotesquerie da extemporânea caça às bruxas que desencadearam quando a mocidade voltou em junho/2013 à praça que era do povo como o céu é do condor, mas agora é dos repressores do povo e os condores estão ameaçados de extinção.

Last but not least, CONCLAMO OS COMPANHEIROS DO RIO DE JANEIRO E OS CIDADÃOS COM ESPÍRITO DE JUSTIÇA A COMPARECEREM EM PESO AO JULGAMENTO, LEVANDO SUA SOLIDARIEDADE AOS PERSEGUIDOS POLÍTICOS E DEIXANDO CLARO QUE A CIDADANIA SE IMPORTA, SIM, COM O CERCEAMENTO DO DIREITO DE LIVRE MANIFESTAÇÃO

Será nesta sexta-feira (30), provavelmente a partir das 13 horas, na av. Erasmo Braga, 115 - sobreloja 712 - lam II, no Centro. Maiores detalhes com a Secretaria, pelo fone (21) 3133-3453, ramal 3453; ou pelo e-mail cap27vcri@tj.rj.gov.br.

Eis o artigo do Duvivier, que tem minha total aprovação: 

Ninguém está falando sobre isso, mas 23 ativistas estão sendo processados por associação criminosa armada –embora não haja arma, nem crime, nem associação. Além da ausência de antecedentes criminais, os ativistas têm em comum apenas o fato de terem participado das manifestações de junho e, no ano seguinte, dos protestos contra a Copa. Só. A maioria se conheceu na cadeia.
Duvivier qualifica o juiz Itabiana de "notável reacionário" 

Não se sabe qual o critério escolhido para prendê-los, já que milhões de pessoas protestaram entre junho de 2013 e junho de 2014 (dentre as quais eu), mas o critério parece ter sido o fato de serem, em sua maioria, professores.

Depois de meses de escuta telefônica em que até os advogados de defesa foram grampeados (isso, sim, é crime, senhor juiz) nada pode ser dito, de fato, contra os manifestantes.

Em um dos telefonemas, Camila Jourdan, professora da UERJ, pergunta se o amigo vai levar os "livros" e as "canetas". O código poderia ter passado desapercebido, mas a polícia fluminense, que anda vendo "Sherlock" demais na HBO, descobriu se tratar de uma mensagem cifrada. "Livros" seriam bombas e "canetas", armas.

Imediatamente após decriptar a intrincada linguagem anarquista, a polícia, sem mandado de busca e apreensão, invadiu e revistou a casa dos ativistas. Não encontrou nada.

Aliás, encontrou. Livros e canetas. Mas não só. As casas tinham uma quantidade suspeita de camisetas pretas. Em algumas, máscaras de gás e, em uma delas, encontraram uma garrafa de gasolina (aquele líquido usado para abastecer carros e geradores). Mesmo assim, sem flagrante, foram presos –para, algumas semanas depois, serem soltos.
Sininho, que os reaças do Rio adoram perseguir, é ré.

A mesma sorte não teve o único preso que é analfabeto, Rafael Braga. Ele está preso até hoje por ter sido encontrado portando uma garrafa de desinfetante Pinho Sol. Mesmo soltos, os manifestantes tiveram seus direitos políticos cassados. Enquanto aguardam julgamento, não podem participar de nenhuma reunião pública nem abandonar sua comarca.

O julgamento ocorre nesta sexta (30) e, apesar de não terem cometido crime algum previsto no Código Penal, tudo indica que os manifestantes serão condenados pelo juiz Flávio Itabaiana. Notável reacionário que se orgulha de nunca ter absolvido alguém, Itabaiana tem em mãos um processo de 7.000 páginas.

A grande peça no tabuleiro de Itabaiana é a opinião pública. A mesma mídia que condenou as manifestações e que logo depois passou a festejá-las, voltou-se novamente contra elas quando da morte trágica do cinegrafista Santiago Andrade. (Não há qualquer ligação entre os 23 processados e a morte de Santiago.)

Graças ao investimento de parte da mídia que queria a reeleição de um governador, manifestar virou sinônimo de matar cinegrafistas e eis que o gigante adormeceu –a golpes de reportagens tendenciosas e manchetes repulsivas. Resultado: a polícia desceu o pau, a classe média aplaudiu e o Brasil voltou a ser aquele país sem revolta.

A muita gente interessa a calmaria: na calada da noite de Ano Novo, aumentaram a passagem de ônibus em R$ 0,40. Se houve uma guerra, a máfia do ônibus saiu vitoriosa.

Vale tentar conscientizar de novo essa mesma opinião pública e lembrar que os 23 ativistas processados estavam lutando por nós. E querem continuar lutando –dando aulas, lendo livros, usando canetas. O aumento vertiginoso das passagens prova que a gente precisa deles, mais do que nunca.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

AS LIÇÕES DA GRÉCIA (OU: DILMA ESCOLHEU A HORA ERRADA PARA SER THATCHER NA VIDA)

Uma boa entrevista para entendemos o que ocorre na Grécia é a do novo ministro da Educação, Cultura e Religião, o septuagenário filósofo Aristides Baltas, um dos fundadores do Syriza --o qual, segundo ele, constitui-se numa "coalizão de várias organizações de esquerda, parte vinda do tradicional eurocomunismo". 

Ele próprio se inclui nesse grupo, pois provém do Partido Comunista, "que teve grande atuação em 1968". A diferença é que, lá, a esquerda optou pela união, ao invés da competição canibalesca por nacos de poder: 
"E se juntaram a isso trotskistas, maoistas e novas forças, como grupos feministas, de meio ambiente e antiglobalização. São grupos que sempre perderam eleições e reconheceram a necessidade de unir forças".
Sobre o temor que o exemplo grego inspira à Europa, ele explica:
"As principais forças, com a Alemanha capitalizando isso, empurram alguns países em direção à esquerda, como aqui, na Espanha e na Itália. Há uma atmosfera diferente na Europa. Forças estão se aliando em busca de uma negociação mais efetiva, com chances de implementar o que querem para seus países. 
Símbolo: Tsipras adota a saudação do Poder Negro...
[As medidas de austeridade fiscal] foram impostas pela Europa [à Grécia] sem levar em conta o que fazer se essas medidas dessem errado. O governo apenas seguiu essas ordens. Esse é o grande problema. Algo imposto de fora, que, no fundo, destruiu a Grécia. Esse programa tem sido um desastre".
Quanto à aliança com o partido Gregos Independentes para governar, ele ressalta tratar-se de um agrupamento "que tem sido consistente no discurso contra as medidas de austeridade", ao contrário de outras agremiações direitistas, que se colocam "absolutamente a favor da posição da Europa". 

Realmente, numa Grécia triturada pelo capital sem fronteiras, faz todo sentido os nacionalistas apoiarem um governo que se elegeu exatamente com a proposta de mudar tal estado de coisas. No que realmente importa, há convergência. 

A VITÓRIA DO SYRIZA É UM 
TRAILER DO QUE ESTÁ POR VIR

A comparação com o Brasil é inevitável. Focarei dois aspectos.

...e seus partidários também.
A enorme decepção em que hoje se constitui a presença da esquerda na Presidência da República começou a se desenhar em 1979, quando lulistas e brizolistas decidiram criar partidos separados, idem as forças menores, travando batalha encarniçada para imporem-se aos antagonistas do seu próprio campo.

O PT saiu vencedor, mas a que preço! Tem governado em aliança com direitistas e fisiológicos, o que lhe acarreta terrível desmoralização, pois precisa recorrer aos mensalões, petrolões e ao loteamento de cargos para recompensar seus pantagruélicos parceiros. Tão escandalosa quanto a roubalheira na Petrobrás é a existência de nada menos que 39 ministérios, cabides para se pendurarem todos os parasitas desocupados de uma miríade de partidecos constituídos ao sabor de apetites.

A solidão na qual se encontra no Planalto obriga o PT a escorar-se no poder econômico, submetendo-se repulsivamente às exigências do grande capital, como a de promover o ajuste recessivo atual.

Quando alertei os petistas de que não deveriam satanizar uma aliada natural como a Marina Silva, tinha exatamente isto em mente: face às dificuldades econômicas que atravessaríamos em 2015 (e ainda não dá para sabermos por quantos anos mais), seria fundamental contarmos com uma base sólida de esquerda.

A atitude mesquinha e inaceitável de hostilizar uma adversária do próprio campo como se fosse uma inimiga figadal do campo inimigo minou qualquer possibilidade de entendimento posterior. E Dilma, tendo a esquerda não fisiológica unida contra si, não está conseguindo resistir à força econômica e de mídia da burguesia, acabando por ceder até a seus meros caprichos (caso dos ministros sinistros que lhe enfiaram goela abaixo).

Mas, em sua capitulação incondicional à ortodoxia capitalista, a antiga guerrilheira não percebe um segundo aspecto: neste exato instante, os povos já foram saqueados e sacrificados demais por um sistema que, até o final deste ano, garantirá a 1% da população mundial a posse de 50% das riquezas produzidas pelo trabalho humano.

As tensões e mobilizações que vêm se avolumando ao longo da atual década desembocarão necessariamente numa fase de menos rigor e mais concessões à sociedade. A vitória do Syriza é um trailer do que está por vir.

Tem sido desde o final da II Guerra Mundial: alternam-se períodos de distensão e contração, de conquistas sociais e de austeridade rígida. Pois, se os povos fossem tratados durante todo o tempo como estavam sendo tratados os gregos, a revolução mundial seria inevitável.

Então, Dilma resolveu ser Thatcher na vida exatamente quando o espírito da dama de ferro está prestes a tirar férias. Por não ter aproveitado a passagem pela esquerda para aprender a decifrar a dinâmica da economia mundial, está engolindo desnecessariamente esse sapo descomunal chamado Joaquim Levy.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

HOJE EM DIA, SER BOM VASSALO O QUE É? É RESPALDAR O LEVY!

"Os ajustes que estamos fazendo, eles são necessários para manter o rumo, para ampliar as oportunidades, preservando as prioridades sociais e econômicas do governo que iniciamos há 12 anos atrás."

Assim a presidenta Dilma Rousseff justificou, nesta 3ª feira (27), o elenco de medidas recessivas, de inspiração neoliberal, com que seu ministro Joaquim Levy tenta enfiar goela dos explorados abaixo a conta do esfarelamento da economia brasileira na atual década. Dos bancos, grandes capitalistas, herdeiros das maiores fortunas e rentistas nenhuma quota de sacrifício se exigirá, como sempre.

Enquanto isto, o novo governo grego garante que a contabilidade perversa do capital não é razão suficiente para imporem-se rigores e penúria ao povo.

"Vai ser ruim para a comunidade econômica europeia e vai ser ruim para a Grécia num prazo mais longo", observa o signatário do AI-5 e milagreiro de araque Delfim Netto, ao mesmo tempo em que defende Levy, preferido por 11 entre 10 viúvas da ditadura, antigos serviçais dos milicos e cuervos que a direita troglodita criou.

No que é apoiado pelo porta-voz mais estridente do neofascismo tupiniquim, Reinaldo Azevedo: ele rasga seda para Levy e qualifica os novos governantes gregos de "porras-loucas do calote", augurando-lhes catástrofes e desgraças.

Para ambos, Alexis Tsipras é um desatinado e Dilma age com sabedoria ao bancar Levy.

Permito-me acrescentar que se trata daquela sabedoria sobre a qual discorreu o grande Brecht:
"Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria: 
manter-se afastado dos problemas do mundo
e sem medo passar o tempo que se tem para viver na terra; 
seguir seu caminho sem violência,
pagar o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, mas esquecê-los. 
Sabedoria é isso! 
Mas, eu não consigo agir assim".
E,  por falar em Brecht e brechtianos, ocorreu-me também que a situação presente tem tudo a ver com o trecho abaixo da magistral peça Arena conta Tiradentes, que é de 1968 mas continua atualíssima:
CORINGA
Ser bom vassalo o que é?
Me responda quem souber.

CORO
Ser bom vassalo é esquecer
aquilo que a gente quer.
Ser bom vassalo é morrer.
Ser bom vassalo, quem quer? 
Me responda quem quiser.

CORINGA
Só quer ser um bom vassalo,
quem vive seu bom viver,
quem explora e não é explorado,
quem tem tudo pra perder!

Em tempos idos, os bons vassalos defendiam apenas seus privilégios. Agora a coisa piorou: até os que deveriam ser contra os privilégios estão se tornando bons vassalos, pois temem que a governabilidade seja prejudicada se entrarem em atrito com o suserano.

Uma característica, contudo, permanece imutável: ser bom vassalo é esquecer aquilo que a gente quer. Aquilo pelo que um dia lutamos. Aquilo em nome do qual companheiros estimados morreram e sofreram.

O PT ESTÁ MORTO, VIVA O SYRIZA!

Em Eu, Claudius, imperador, o escritor Robert Graves coloca na boca do seu imperial personagem um primor de embromation: "Faltam-me as palavras, mas nada que eu pudesse dizer igualaria a intensidade dos meus sentimentos a este respeito".

Eu poderia dizer o mesmo a respeito do artigo Luzes, enfim, do filósofo Vladimir Safatle --mas não como uma saída pela tangente, e sim num exercício de humildade. Quando deparo com um texto que diz exatamente aquilo que eu pretendia dizer e da forma como me preparava para fazê-lo, opto sempre por arquivar meu projeto pessoal e apenas reproduzi-lo, prestando o merecido tributo a seu autor.

Talvez por um pouco de preguiça (ninguém é sexagenário impunemente...), talvez por um certo preciosismo de minha parte: havendo um similar perfeito, nunca me conformaria em produzir algo inferior. Então, se percebo tratar-se de tarefa quase impossível, dou a mão à palmatória: o importante é sempre oferecer o melhor aos leitores deste blogue, seja ou não da minha lavra.
Alexis Tsipras: um novo Allende?

E o texto do Saflate realmente acende luzes, permitindo-nos vislumbrar uma saída das trevas que se adensam na política brasileira. 

Parafraseando o bordão das monarquias, é hora de nós, esquerdistas que ainda honramos nossos ideais e nossos valores, proclamarmos: O PT está morto, viva o Syriza! 

Pois nunca isto ficou tão evidenciado quanto nas propostas ousadas de Alexis Tsipras, em contraposição à absoluta falta de propostas positivas de Dilma Rousseff. Um quer livrar seu povo da canga que o capitalismo putrefato lhe impôs, a outra dá carta branca a seu ministro neoliberal para maximizar a austeridade e agravar a penúria.

Eis Luzes, enfim, na íntegra:

"Uma das propostas do partido grego Syriza, que venceu as eleições gregas neste domingo, consiste em religar a luz das casas que tiveram a eletricidade cortada por falta de pagamento. Só entre janeiro e setembro de 2013, 240 mil residências tiveram sua eletricidade cortada. Hoje, 1 milhão estão com a conta de luz atrasada, ou seja, 10% da população da Grécia.

Esta é uma bela metáfora do que pode significar a vitória do primeiro partido de esquerda radical na história a governar um país da Comunidade Europeia.

A dita racionalidade econômica aplicada na crise grega levou boa parte da população de volta à era das trevas, isto enquanto a banca internacional aplaudia as "reformas" implementadas pelo antigo governo conservador de Antonis Samaras com sua taxa de 25% de desemprego.

Pouco importa se as políticas de "austeridade" e de "responsabilidade fiscal" jogam a população no breu e na fome, desde que as obrigações das dívidas sejam todas corretamente pagas aos bancos internacionais --os mesmos que costumam extorquir seus países quando entram em rota de falência.

Syriza será a primeira expressão, na forma de um governo, de um radical sentimento de recusa a este capitalismo de espoliação e acumulação rentista.

É fruto de um movimento de indignação que apareceu a partir de 2009, que passou pela Primavera Árabe e pelos Occupy.

Trata-se de um partido que não tem nenhuma semelhança com os partidos tradicionais de esquerda. Não é por acaso que o Partido Comunista Grego os odeia.

Sua lógica não é dirigista, nem centralista. Ela é uma frente multipolar composta por múltiplos grupos, de ecologistas a trotskistas, maoístas, nacionalistas e sociais-democratas radicais.

Se há algo na história da esquerda próximo à vitória grega é a experiência chilena de Allende com sua frente de Unidade Popular.

Quarenta anos depois, a história de um socialismo democrático e transformador será jogada novamente. Dessa vez, será aos pés do monte Olimpo.

Representante de uma nova geração política, Syriza tem neste momento a tarefa de sobreviver e ser bem-sucedido contra as tentativas de impedir que o fantasma do descontentamento que assombra a Europa saia de sua forma meramente espectral e ganhe, enfim, corpo político. Um corpo que poderá contaminar outros países e modificar o cenário de inanidade atual.

A favor dos gregos, há o espírito do tempo e o desejo de todos os que cansaram da escuridão, do medo e da miséria, seja miséria econômica, seja miséria de ideias".

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

METADE DA RIQUEZA MUNDIAL LOGO PERTENCERÁ A 1% DE PRIVILEGIADOS

A BBC noticia:
"Os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres, cada vez mais pobres.
Segundo a ONG Oxfam, até o final de 2015 metade de toda riqueza mundial estará nas mãos do 1% mais rico da população.
A Oxfam acredita que é preciso uma ação urgente para diminuir a distância existente entre a elite global e os 99% restantes da população mundial".
O Náufrago comenta:
"A única ação urgente capaz de reverter tal tendência atende pelo nome de revolução.
A lógica do capitalismo continua a mesmíssima dos tempos de Marx e de Lênin: leva à concentração incessante do capital, até que as contradições explodam, seja com a eclosão das mais devastadoras crises econômicas, seja com o desencadeamento de revoluções.
As primeiras conduzem ao caos e à penúria.
As segundas são a esperança que resta de salvação da humanidade, cada vez mais ameaçada de extinção como consequência da ganância capitalista"

GRÉCIA DÁ UM BICO NA AUSTERIDADE. O BRASIL ESPERA O CARNAVAL CHEGAR.


Eu morria de inveja do passado dos gregos, o povo mais civilizado da Antiguidade.

Mas, nem de longe imaginava que iria morrer de inveja do presente dos gregos. 

Eis que, neste início de 2015, eles se tornaram os primeiros da zona do euro a darem um bico na ortodoxia neoliberal que desgraça o mundo, maximizando as injustiças e a desigualdade social.

Que seu exemplo inspire os explorados de todos os quadrantes!

Que o povo brasileiro desperte e vá às ruas repudiar o pacotaço de maldades do Chicago boy Joaquim Levy!

domingo, 25 de janeiro de 2015

LEONARDO BOFF AGORA REPUDIA O "TERRORISMO" E DIZ QUE A CHACINA DO CHARLIE HEBDO FOI "ABOMINÁVEL"

No momento seguinte à chacina do Charlie Hebdo, o teólogo Leonardo Boff acendeu sua vela para Iblis (o correlato islâmico de Lúcifer) ao escrever este artigo que deu farta munição a quem queria atenuar a rejeição aos autores do atentado covarde, bestial e desatinado, numa relativização que equivaleu a esmaecer a distinção entre civilização e barbárie.

Como me esforço sempre para pensar o melhor das pessoas, quero acreditar que ele tenha efetuado uma profunda reflexão e percebido quão inadequada e inoportuna fora sua intervenção, pois o momento era de prantear as vítimas, não de justificar os algozes. 

Então, em novo texto, Boff acaba de enfatizar muito do que deixara em segundo plano no anterior. Pena que a posição serena vá atingir um universo bem menor de leitores, seja porque o assunto não está mais na crista da onda, seja porque quem tudo fez para que o primeiro artigo repercutisse, provavelmente tudo fará para que o segundo não repercuta.

Boff agora veio ao encontro de uma posição que, por ter familiaridade bem maior com o assunto, fui um dos poucos a assumir: a de que a matança não resultara de nenhuma reação emotiva de religiosos ultrajados em sua crença, mas havia sido, isto sim, uma premeditada e calculista demonstração de força; um ato de terrorismo clássico, comparável ao assassinato que desencadeou a 1ª Guerra Mundial e ao atentado contra o czar que valeu ao irmão do Lênin a condenação à morte.

Recomendo a todos a leitura do artigo Para se entender o terrorismo contra o Charlie Hebdo de Paris (cuja íntegra está aqui), a vela que Boff acendeu, desta vez, para Alah. 

Eis os trechos principais:

"...o ato terrorista que dizimou os melhores chargistas franceses (...) trata-se de ato abominável e criminoso, impossível de ser apoiado por quem quer que seja.

...Na França vivem alguns milhões de muçulmanos, a maioria nas periferias em condições precárias. Muitos, mesmo nascidos na França, são altamente discriminados a ponto de surgir uma verdadeira islamofobia... 

[Deve-se] superar o espírito de vingança e renunciar à estratégia de enfrentar a violência com mais violência ainda. Ela cria uma espiral de violência interminável, fazendo vítimas sem conta, a maioria delas inocentes. E nunca se chegará à paz. Se queres a paz prepara meios de paz, fruto do diálogo e da convivência respeitosa entre todos.

...O que os USA e aliados ocidentais fizeram no Iraque e no Afeganistão foi uma guerra moderna com uma mortandade de civis incontável. (...) Tal violência deixou um rastro de raiva, de ódio e  de vontade de vingança em muitos muçulmanos vivendo em seus países ou pelo mundo afora.

A partir deste transfundo, se pode entender que o atentado abominável em Paris é resultado desta violência primeira e não causa originária. Nem por isso se justifica.

O efeito deste atentado é instalar um medo generalizado. Esse efeito é visado pelo terrorismo: ocupar as mentes das pessoas e mantê-las reféns do medo. O significado principal do terrorismo não é ocupar territórios, como o fizeram os ocidentais no Afeganistão e no Iraque, mas ocupar as mentes.         

A profecia do autor intelectual dos atentados de 11 de setembro, Osama Bin Laden, feita no dia  8 de outubro de 2001, infelizmente, se realizou: 'Os EUA nunca mais terão segurança, nunca mais terão paz'. Ocupar as mentes das pessoas, mantê-las desestabilizadas emocionalmente, obrigá-las a desconfiar de qualquer gesto ou de pessoas estranhas, eis o objetivo essencial do terrorismo.

Para alcançar seu objetivo de dominação das mentes, o terrorismo persegue a seguinte estratégia:       
  1. os atos de terror têm de ser espetaculares, caso contrário, não causam comoção generalizada;
  2. os atos, apesar de odiados, devem provocar admiração pela sagacidade empregada;
  3. os atos devem sugerir que foram minuciosamente preparados;
  4. os atos devem ser imprevistos para darem a impressão de serem incontroláveis;
  5. os atos devem ficar no anonimato dos autores (usar máscaras) porque quanto mais suspeitos, maior é o medo;
  6. os atos devem provocar permanente medo;
  7. os atos devem distorcer a percepção da realidade: qualquer coisa diferente pode configurar o terror. Basta ver alguns rolezinhos entrando nos shoppings e já se projeta a imagem de um assaltante potencial.
Formalizemos um conceito do terrorismo: é toda  violência espetacular, praticada com o propósito de ocupar as mentes com  medo e pavor.

O importante não é a violência em si,  mas seu caráter de espetáculo, capaz de dominar as mentes de todos.

Um dos efeitos mais lamentáveis do terrorismo foi ter suscitado o Estado terrorista que são hoje os EUA...

Oxalá não predomine no mundo, especialmente, no Ocidente, este espírito. Aí sim, iremos ao encontro do pior. Somente meios pacíficos têm a força secreta de vencer a violência e as guerras".

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

BOBBIO: PENA DE MORTE É "HOMICÍDIO LEGALIZADO, PERPETRADO A SANGUE FRIO, PREMEDITADO".

"...o indivíduo tem o direito de matar em legítima defesa, enquanto a coletividade não o tem? Responde-se: a coletividade não tem esse direito porque a legítima defesa nasce e se justifica somente como resposta imediata numa situação na qual seja impossível agir de outro modo; a resposta da coletividade é mediatizada através de um processo, por vezes até mesmo longo, no qual se conflitam argumentos pró e contra. 

Em outras palavras, a condenação à morte depois de um processo não é mais um homicídio em legítima defesa, mas um homicídio legalizado, perpetrado a sangue frio, premeditado. Um homicídio que requer executores, ou seja, pessoas autorizadas a matar. 

...o Estado não pode colocar-se no mesmo plano do indivíduo singular. O indivíduo age por raiva, por paixão, por interesse, em defesa própria. O Estado responde de modo mediato, reflexivo, racional. Também ele tem o dever de se defender. Mas é muito mais forte do que o indivíduo singular e, por isso, não tem necessidade de tirar a vida desse indivíduo para se defender. O Estado tem o privilégio e o benefício do monopólio da força. Deve sentir toda a responsabilidade desse privilégio e desse beneficio. 

...busquemos dar uma razão para nossa repugnância frente à pena de morte. A razão é uma só: o mandamento de não matar. (...) Dostoiévski o disse magnificamente, quando pôs na boca do Príncipe Michkin as seguintes palavras: 'Foi dito: Não matarás. E, então, se alguém matou, por que se tem de matá-lo também? Matar quem matou é um castigo incomparavelmente maior do que o próprio crime. O assassinato legal é incomparavelmente mais horrendo do que o assassinato criminoso'.

...acreditamos firmemente que o desaparecimento total da pena de morte do teatro da história estará destinada a representar um sinal indiscutível do progresso civil. Esse conceito foi muito bem expresso por John Stuart Mill (...): 'Toda a história do progresso humano foi uma série de transições por meio das quais costumes e instituições, umas após outras, foram deixando de ser consideradas necessárias à existência social e passaram para a categoria de injustiças universalmente condenadas'.

Estou convencido de que esse será também o destino da pena de morte. Se me perguntarem quando se cumprirá esse destino, direi que não sei. Sei apenas que o seu cumprimento será um sinal indiscutível do progresso moral." (Norberto Bobbio, um dos maiores pensadores do século 20)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

ALGUNS LEMBRETES À EXMA. MARIA DO ROSÁRIO

Prezada deputada,

sou da geração 68 e comecei minha trajetória nos duros embates da política estudantil de então. Foi quando aprendi lições valiosíssimas para a minha militância revolucionária, que sigo até hoje.

Uma delas: a rua é sempre de mão dupla. Os adversários ou inimigos não esquecem o que dissemos em episódios passados e, quando mudamos nosso posicionamento ao sabor das circunstâncias, atiram isto triunfalmente na nossa cara.

O jeito é mantermo-nos fiéis a nossos princípios, por mais que isto desagrade aos companheiros mais simplistas ou simplórios.

Então, quando os pugilistas cubanos foram despachados a toque de caixa para Cuba, sem se levarem em conta os procedimentos que deveriam ter sido adotado num caso daqueles, protestei antes mesmo do Suplicy. Não tinha simpatia nenhuma por tais boxeadores que consideravam os euros mais importantes do que o país de nascença, mas, ainda assim, era um péssimo precedente que estava sendo aberto. Poderia mais tarde ser usado por um presidente de direita para entregar um companheiro valoroso a seus algozes. a rua é sempre de mão dupla

Houve quem me apedrejasse, claro, mas recebi meu prêmio adiante. Defendendo Cesare Battisti em textos e em eventos vários, frequentemente os antagonistas, desinformados, me acusavam de não haver agido da mesma maneira no caso dos cubanos. Tomavam-me pelo esquerdista atual típico. 

Quando eu informava que havia sido o primeiro a me posicionar contra a repatriação forçada, quebrava a perna deles. Alguns até perderam o rebolado e se tornaram presas fáceis no resto do debate.

Então, nunca se esqueça, minha cara Rosário: a rua é sempre de mão dupla.

Também não escreva bobagens como a de que pouco importam para onde vão as cinzas do brasileiro executado pelo abominável governo da Indonésia, pois as viúvas da ditadura retrucarão que, então, pouco importam igualmente as cinzas dos resistentes exterminados no Araguaia e em outros palcos das chacinas dos anos Médici

Reinaldo Azevedo já o fez. E é constrangedor ter de admitir que, desta vez, ele está com a razão.

Afora o fato de que uma ex-ministra dos Direitos Humanos jamais poderia ter enfatizado, de forma tão antipática quanto inoportuna, que Marco Archer era um traficante e não um herói. Antigamente éramos os primeiros a proclamar que traficantes deveriam ter julgamentos justos, ao invés de serem executados na calada da noite pelo Esquadrão da Morte.

Aliás, cá entre nós, as autoridades da Indonésia lembram muito a turminha do delegado Sérgio Fleury. E ainda querem ser respeitados! Pena de morte e barbaridades afins não merecem o respeito de homem civilizado nenhum! 

Com meus protestos de respeito e consideração,

Celso lungaretti

SER OU NÃO SER CHARLIE? SER OU NÃO SER CIVILIZADO?

"...assim, mal dividido,
esse mundo anda errado:
que a Terra é do homem,
não é de Deus nem do diabo"
(Sérgio Ricardo, sertão vai virar mar)

Apollo Natali, meu amigo há décadas e ex-colega de redação na Agência Estado, é um dos grandes jornalistas e dos melhores seres humanos que conheço. Sua opinião terá sempre lugar e vai ser sempre respeitada neste blogue, daí eu ter imediatamente concordado com seu pedido de espaço para publicação do artigo Não sou Charlie (acesse aqui), expressando seu descontentamento, como religioso, com filmes e publicações que lhe parecem inconvenientes.

Também tenho, claro, algumas palavras a dizer. Não se nega aos crentes o direito de sentirem-se ofendidos, mas vale lembrar que nenhum deles é obrigado a ler o Charlie Hebdo ou ver A última tentação de Cristo. Os que o fizeram, provavelmente, foi em função do falatório e das polêmicas, para verificarem se era ou não verdade o que se dizia a respeito de ambos --já predispostos, portanto, à indignação.

No Ocidente, com a separação entre Igreja e estado, sua única iniciativa possível contra a fita era recorrerem aos tribunais. Felizmente, países contemporâneos à própria época não censuram filmes por atentarem contra a imagem de personagens históricos que alguns consideram sagrados, outros não. E já vão longe os tempos em que católicos queimavam bruxas e lançavam cruzadas sanguinárias contra os infiéis, então nenhuma besta-fera foi encher de balas o diretor Martin Scorcese ou o ator Willem Dafoe (que interpretou Cristo)

Os responsáveis pelo semanário, por sua vez, jamais fizeram o que seria, realmente, uma provocação: providenciar traduções e lançar edições direcionadas para países e contingentes humanos que vivem no século 21, mas continuam com a cabeça no século 6.  

A quais maometanos antes incomodavam, de verdade, os 60 mil exemplares do Charlie Hebdo comercializados semanalmente na Europa? Pouquíssimos, decerto. O que houve não foi nenhuma reação furibunda de indivíduos emocionalmente primitivos que estariam sentindo-se agredidos em sua fé, mas sim uma sanguinária e calculista demonstração de força de terroristas clássicos (aqueles que, como francos-atiradores dissociados das massas e sem estarem contribuindo para nenhum ascenso revolucionário, utilizam a violência apenas para punirem e intimidarem seus inimigos), os quais garimparam diligentemente, até encontrarem, um alvo condizente com a mensagem que queriam passar.

Terroristas clássicos obtêm muitos holofotes, mas sua pirotecnia quase sempre levanta a bola para o inimigo marcar pontos, além de eventualmente ter consequências catastróficas. No primeiro caso está, p. ex., a tentativa de matarem o czar Alexandre III em 1897, que redundou na execução do irmão do Lênin, Alexandre Ulianov, e de quatro de seus companheiros, além, é claro, de um previsível agravamento da repressão política.

E no segundo, tanto o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando por parte do mão negra Gravilo Princip em 1914, que conduziu aos horrores da 1ª Guerra  Mundial; quanto o atentado ao WTC em 2011, responsável pela pior escalada global de estupro dos direitos humanos e perseguição a inocentes que os cidadãos de origem árabe já sofreram.

Marxistas e anarquistas há muito descartaram e se dissociaram do terrorismo clássico. Nos últimos tempos, contudo, contingentes desnorteados de esquerda, trocando a coerência com seu amadurecimento político que já haviam atingido pela mais tacanha realpolotik, vêm cometendo uma dupla heresia (este termo retrô cai como uma luva no atual contexto...):
  • a de defenderem fundamentalistas religiosos que não querem, de maneira nenhuma, fazer a humanidade avançar para além do capitalismo, mas sim fazê-la retroceder para antes do capitalismo, ou seja, para as trevas medievais; e
  • a de defenderem terroristas clássicos e seus monumentais tiros pela culatra, tornando-se parceiros dessas derrotas e associando estupidamente sua imagem a carnificinas que qualquer cidadão isento repudia.
Caem no vazio suas tentativas de relativização de um episódio que foi, isto sim, totalmente bestial e absolutamente condenável. Quando alguém é chacinado por dá-lá-aquela-palha, buscar justificativas para o crime soa hipócrita e aberrante. Uma das diferenças entre nós e os animais é que, ao contrário dos touros, não temos nenhuma compulsão irresistível de destruir um semelhante apenas porque veste vermelho.

Reconheço e até admiro a boa fé de religiosos como o Apollo Natali, mas não perdoo os esquerdistas que abdicam do seu compromisso fundamental com a civilização, passando a raciocinar como simplórios torcedores de futebol ("Se é contra os EUA, a Europa e Israel, vale tudo, até gol de mão nos acréscimos, em posição de impedimento"...).

Por último: religiosos de ocasião e por conveniência à parte, como fica a questão das pessoas devotas que, sinceramente, sentirem-se insultadas em sua fé?

Ora, sendo nosso estado laico, homens tidos como santos são encarados, por quem não é religioso, como personagens históricos (ou fictícios) iguais a quaisquer outros. Não cabe nenhuma forma de censura ou perseguição dos poderes públicos a quem trata Cristo ou Maomé da mesma forma que, digamos, Vlad Dracul e Hitler (os quais, aliás, têm lá seus defensores, mas 99,9% do que aparece sobre eles em filmes e semanários é extremamente negativo).

E, como a ninguém é dado o direito de fazer justiça com as próprias mãos no Brasil do século 21, só resta aos ofendidos o caminho dos tribunais e de iniciativas visando ao convencimento da opinião pública (desde anúncios pagos até campanhas virtuais incentivando o boicote aos blasfemos).

No fundo, o que os religiosos pretendem é que se conceda um tratamento diferenciado para quem eles consideram diferente. Mas, agnósticos, ateus e mesmo religiosos de outras confissões podem discordar (um neopentecostal admitiria, p. ex., Oxalá como similar a Jesus Cristo?). Então, não faz nenhum sentido, em termos legais ou morais, pretender que a imprensa não os ridicularize como ridiculariza outros personagens históricos do passado e do presente.

Podemos até achar que a irreverência é exagerada no seu todo, que a nossa imprensa pega pesado demais com Paulo Maluf e Jair Bolsonaro, ou que a francesa pega pesado demais com Jean-Marie Le Pen e Maomé. O que não podemos é aceitar como válidos os piores achincalhes a Bolsonaro, Maluf e Le Pen e, ao mesmo tempo, não admitir a mais inofensiva irreverência com Maomé.

Caso contrário, para que terão servido, afinal, 1945 e 1985 aqui, o iluminismo e a grande revolução lá? E de que valeu tantos resistentes morrerem lutando contra os nazistóides daqui e contra os nazistas de lá? Pois eram todos expressões da intolerância, fanatismo e autoritarismo inseparáveis da tese da intocabilidade dos homens santos...

Além do mau humor e dos maus bofes, claro!

APOLLO NATALI: "NÃO SOU CHARLIE".

Com toda a razão, católicos de todo o mundo se sentiram agredidos em sua fé com a depreciação da figura de Jesus no filme A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorcese.  Sou espírita, o espiritismo é cristão, não vou me converter ao islamismo e muito menos assino embaixo de qualquer atentado. Mas a pergunta que não cala é se mulçumanos de todo o mundo igualmente não se sentem agora agredidos em sua fé com o jornalismo panfletário praticado mediante a já antiga produção semanal de cartuns a depreciar humoristicamente o fundador de sua religião.

É honesto, sou repetitivo, sim, o mundo se perguntar agora a que ponto se sentem agredidos em sua fé mulçumanos de todo o planeta, acreditados como pacíficos, vendo o criador de sua religião ridicularizado persistentemente diante da produção semanal de cartuns de uma imprensa merecedora de ser chamada panfletária, do tipo do primeiro império no Brasil, de liberdade total para injuriar, caluniar, difamar, provocar e a liberar violência física e mortes entre ofensores e ofendidos.

A liberdade de expressão tem limite, evidentemente que tem. Numa democracia, esse orgulho do Ocidente e profissão de fé dos visionárias da liberdade, da justiça, da paz , sabemos todos, esse limite é não ultrapassar as fronteiras da lei, da ordem, da ética. O limite da liberdade de imprensa é o respeito ao próximo. Simples assim.

Mas é ingenuidade delirar preceitos jornalísticos universais sabendo-se que por trás da produção de cartuns ignominiosos a Maomé, se trava um confronto entre povos. Os cartuns panfletários do semanário Charlie Hebdo configuram uma prática de guerra destinada a desmoralizar inimigos e não se resguardam em qualquer valor ético para reclamar atentado à liberdade de imprensa. Com o fim de desmoralizar inimigos, Charlie desfere injúria contra amigos, inimigos, religião, seres humanos.

É hora de separar: de um lado, a imprensa. Do outro, essa guerra contemporânea, ideológica e econômica, cuja gênese pode ser encontrada na natureza tenebrosa da espécie humana. Reclamar que o injustificável, embora explicável, atentado à revista Charlie Hebdo  foi um tranco na liberdade de expressão, como fazem até alguns  considerados ícones entre os jornalistas, é jogar no lixo o que a humanidade aprendeu até agora sobre imprensa.

Pois é o que está em jogo, o papel da imprensa.           

As palavras que a seguir saem da minha boca não são uma vaidosa aula de jornalismo e sim meu modo de dizer porque não sou Charlie, essa expressão que assume ao mesmo tempo a conotação de cooptação a atentados psicológicos à pessoa humana praticados por um semanário e de condenação, justificável, de atentados terroristas com mortes. Hebdomadário quer dizer semanal, explica a já minha presunçosa aula.

Portanto, crianças, imaginemo-nos em sala de aula sobre comunicação. Diz-nos no Brasil o professor José Marques de Mello que a charge é gênero jornalístico opinativo. Há também, ensina ele, os informativos - notas e notícias, e os interpretativos - a entrevista, a reportagem, o livro-reportagem.

Pois bem, charge é gênero jornalístico e, como tal, necessariamente impregnado de seus limites morais. O que surpreende, e o quanto surpreende, é que mesmo jornalistas-mito, escudados numa desvairada liberdade de imprensa tipo lesa-humanidade, defendam a afronta que o manuseio de um lápis comete contra todo um imenso povo, sua religião, seu líder.

Não sou Charlie.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

EIS UM ÓTIMO ACESSO PARA AS 16 PÁGINAS DA EDIÇÃO HISTÓRICA DA CHARLIE HEBDO

Para os interessados em conhecerem a histórica primeira edição da Charlie Hebdo depois que a revista foi barbarizada pelas bestas-feras do fanatismo religioso no último dia 7, uma ótima pedida é o site francês Kebekmac, dedicado principalmente ao cinema. Basta clicar aqui que as 16 páginas aparecem imediatamente, bastando usar a seta do mouse para ir movimentando a coluna para baixo. 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

QUEM NÃO ESTAVA NO BANQUETE É QUE PAGARÁ A CONTA. COMO SEMPRE.

Nunca permiti que meus leitores fossem enganados: quando Dilma Rousseff atribuía aos seus adversários a intenção de imporem rigores ao povo em conformidade com o figurino neoliberal, jurando de pés juntos que não procederia da mesmíssima maneira, cansei de alertar que, sem uma ruptura com a ortodoxia capitalista, nenhum dos principais presidenciáveis (ela, Aécio Neves e Marina Silva) teria como escapar da inglória tarefa de promover um ajuste recessivo na nossa economia, cuja perda de dinamismo e competitividade saltava aos olhos.

E, com a perspicácia que Marx me deu, cantei a bola de que esses três personagens jamais ousariam optar pela ruptura, portanto podíamos dar o aperto dos cintos em 2015 como favas contadas. 

Não ousei ir além, acrescentando que também Dilma atiraria todo o peso desse ajuste nas costas dos trabalhadores e dos pobres, pois ainda nutria a secreta esperança de que ela tentasse fazer com que os capitalistas e os ricos pagassem um tantinho da conta.

Infelizmente, minha esperança era vã, conforme constata o veterano jornalista Jânio de Freitas em sua coluna na Folha de S. Paulo (acesse a íntegra aqui): 
"Joaquim Levy ofereceu um café da manhã a jornalistas para anunciar-lhes (...) quem vai pagar mais imposto.
Não é o sistema bancário, merecedor do título de mais lucrativo do mundo. Tão rentável que bancos estrangeiros vêm buscar aqui o lucro que lá fora virou perda.
Não são os cartões de crédito, com seus juros sem nada semelhante no mundo, 258%, ou 40 vezes a inflação.
Nem vai o aumento de imposto incidir sobre a especulação financeira, sobre a remessa de lucros para o exterior, ou sobre ganhos no mero jogo de Bolsa.
O aumento de imposto vai cair em cima de quem trabalha e vive do que ganha com o trabalho, para tanto registrado como se em sua pessoa existisse uma empresa. O que chamam de 'pessoa jurídica'.
Para que não haja a suposição de uma incidência apenas ocasional sobre o lado mais fraco, horas depois da gentileza de Joaquim Levy o governo expeliu outra criação de sua índole: os juros da Caixa Econômica Federal vão aumentar. A Caixa tem muitas linhas de financiamento mas só uma terá os juros elevados. A de financiamento da casa própria, aquela via salvadora dos que só alcançam a sonhada casa própria com os juros da Caixa..."
Dá a impressão de que o último pleito foi uma perda de tempo: elegêssemos quem elegêssemos, seríamos governados por Marina Neves Rousseff...   

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

NOS BONS TEMPOS, O HUMOR DO CARNAVAL NÃO POUPAVA ALÁ E MAOMÉ...

Um dos maiores sucessos carnavalescos de todos os tempos, a marchinha Allah-la-ô (1940), embora creditada apenas a Haroldo Lobo e Antônio Nássara, teve dois outros pais, o jornalista David Nasser e o grande Pixinguinha.

Os versos originais de Nasser eram estes:

"Chegou a nossa caravana
À frente vem Maomé
Atravessamos o deserto
Sem pão e sem banana
Sem água pra fazer café
Allah-lá-ô ô ô ô ô ô ô
Mas que calor ô ô ô ô ô ô"  

Haroldo Lobo, autor da música, não gostou e pediu a Nássara que os melhorasse. Este levou a música e a nova letra para Pixinguinha fazer o arranjo. O maestro, no entanto, reescreveu tudo (prerrogativa dos gênios!). Entregou prontinha para o cantor Carlos Galhardo gravar, deste jeito:

"Allah-la-ô, ô ô ô ô ô ô
Mas que calor, ô ô ô ô ô ô
Atravessamos o deserto do Saara
O sol estava quente
Queimou a nossa cara

Viemos do Egito
E muitas vezes
Nós tivemos que rezar
Allah! Allah! Allah, meu bom Allah!
Mande água pra Ioiô
Mande água pra Iaiá

Allah! Meu bom Allah!"

Hoje, Haroldo Lobo, Antônio Nássara, David Nasser, Pixinguinha e Carlos Galhardo correriam o risco de serem transformados em peneiras pelos sinistros e sisudos jihadistas, com apoio implícito dos fundamentalistas de ocasião, que não admitem zombarias com as religiões convenientes.

Fazem-me lembrar aquela frase célebre atribuída ao presidente estadunidense Franklin Delano Roosevelt, sobre o então ditador da Nicarágua: "Somoza pode ser um filho da puta, mas é nosso filho da puta". 

Como o mundo piorou! Como Allah e Maomé pioraram! Como a esquerda piorou!

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