quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

UM ANO QUE COMEÇARÁ NO LADO SOMBRIO DO FIO DA NAVALHA

Vale também para a passagem 2015/2016
Feliz ano novo 
no lar ou na lama....

...na luta indigesta...

...no lado sombrio 
do fio da navalha...

...com os ratos nas tocas rondando os navios!

É mais um ano que começará sob augúrios os mais funestos, com:
  • uma recessão econômica que se agrava cada vez mais e tende a virar depressão; 
  • um governo que há muito perdeu o controle da situação e está totalmente à deriva; 
  • a perspectiva de uma escalada de turbulências políticas depois do carnaval e durante as Olimpíadas, possivelmente levadas ao paroxismo pela penúria e o desemprego, e
  • uma presidente que não tem nem recuperará a credibilidade, mas vai arrastar-se até o mais amargo fim, pois lhe falta inclusive humildade para reconhecer que já passou da hora de renunciar.
Então, com 2016 antecipadamente perdido, meus votos são de que a ele sobrevivamos tão ilesos quanto possível, para, talvez, começarmos a sair do buraco em 2017.)


A ferina canção de Egberto Gismonti da qual extraí os versos do topo

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

PRESIDENTE DO PT TAMBÉM COBRA MUDANÇA DA POLÍTICA ECONÔMICA

"Entre o final de 2015 e o início de 2016, o governo da presidente Dilma Rousseff precisa se concentrar na construção de uma pauta econômica que devolva à população a confiança perdida após a frustração dos primeiros atos de governo.

...é hora de apresentar propostas capazes de retomar o crescimento econômico, de garantir o emprego, preservar a renda e os salários, controlar a inflação, investir, assegurar os direitos duramente conquistados pelo povo.

Chega de altas de juros e de cortes em investimentos...

Sabemos da competência, habilidade e capacidade de diálogo dos novos ministros...

Confiamos em que eles deem conta da tarefa, mudando com responsabilidade e ousadia a política econômica."
(Rui Falcão, presidente do PT)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

STEDILE RUGE: "NENHUM DESEMPREGADO A MAIS", "SE MEXER NA APOSENTADORIA RURAL HAVERÁ UMA REVOLTA NO CAMPO".

"Haverá uma revolta no campo. Estou avisando"
Acabou a paciência da esquerda com a presidente Dilma Rousseff. É o que se depreende do tom, contundente ao extremo, que João Pedro Stedile utilizou na longa entrevista concedida a Bruno Pavan, do Brasil de Fato

Vale reconhecer: o líder dos sem-terra disse o que havia mesmo para ser dito, depois de todas as trapalhadas e abandono de princípios que caracterizaram a atuação governamental no desastroso ano que se encerra.

Eis os trechos principais (os grifos são todos meus):

"2015 foi um ano perdido para os trabalhadores brasileiros. Um ano no qual a mediocridade política imperou. A maioria do povo brasileiro, com seus 54 milhões de votos, reelegeu a presidenta Dilma. Porém, setores das classes dominantes e os partidos mais conservadores não se deram por vencidos e quiseram retomar o comando do Executivo no tapetão. (...) O governo federal se assustou, montou um ministério medíocre, que não representa as forças que elegeram a presidenta. E passou o ano se defendendo, gerando uma situação de disputa e de manobras apenas em torno da pequena política.
"É preciso mudar a política econômica, não apenas o gerente"

"A economia brasileira vive uma grave crise, fruto de sua dependência do capitalismo internacional e do controle hegemônico dos bancos e das empresas transnacionais. Terminamos o ano com queda de 4% no PIB. Caíram os investimentos produtivos, seja por parte do governo e empresas estatais, seja por parte dos empresários. O governo cometeu vários erros que agravaram a crise. Primeiro, trouxe um neoliberal para o Ministério da Fazenda, que certamente teria sido ministro da chapa Aécio Neves. As medidas neoliberais de aumento da taxa de juros de 7 para 14,15%, os cortes nos gastos sociais, o tal ajuste fiscal, só produziram mais problemas para o povo e para a economia. A inflação atingiu os 10% ao ano e o desemprego alcançou a média de 8,9% da população trabalhadora.  O Tesouro Nacional pagou R$ 484 bilhões em juros e amortização aos bancos. Usaram dinheiro público para garantir o rentismo da especulação financeira, em vez de investir na solução de problemas e no investimento produtivo. Felizmente, o ministro caiu. Deixou, porém, um ano perdido. É preciso mudar a política econômica, não apenas o gerente.

"Entregou a Agricultura ao que tem de pior na política brasileira"
"Também foi um ano perdido para os sem terra e para a agricultura familiar. O governo escalou uma boa equipe no Ministério do Desenvolvimento Agrário e no Incra, porém entregou o Ministério da Agricultura para o que tem de pior na política brasileira. E com os cortes do ajustes fiscal neoliberal, atingiu em cheio a reforma agrária. As poucas conquistas que ocorreram foram fruto de muita mobilização e pressão social. (...) Espero que o governo pare de se iludir com o agronegócio, que se locupleta com o lucro das exportações de commodities pelas empresas transnacionais, mas não representa nenhum ganho para a sociedade.

"Se o governo não der sinais que vai mudar, que vai assumir o que defendeu na campanha, será um governo que se auto-condenará ao fracasso.  Pois não tem confiança das elites, que tentaram derrubá-lo, e ao mesmo tempo não toma medidas para a imensa base social, que é 85% da população brasileira. Espero que o governo tenha um mínimo de visão política para escolher o lado certo.

"...a reforma trabalhista, para desmanchar a CLT..."
"E os sinais que o sr. Barbosa esta dando na imprensa não são bons, ao retomar a agenda neoliberal-empresarial, da reforma da previdência, para aumentar a idade mínima, a reforma tributária, para consolidar as desonerações e a reforma trabalhista para desmanchar a CLT. A CUT já avisou que vai lutar contra. E nós também estaremos juntos com o movimento sindical. Se o governo mexer na idade mínima da aposentadoria rural, haverá uma revolta no campo, e contra o governo. Estou apenas avisando.

"Tenho escutado muitos economistas, empresários, pesquisadores e políticos nacionalistas. E todos têm propostas claras. O problema é que o governo é surdo e auto-suficiente. O governo precisa apresentar urgente um plano de retomada do crescimento da economia, e propôr um pacto entre trabalhadores e empresários que cesse o aumento do desemprego. Nenhum desempregado a mais, a partir de agora."

APOLLO NATALI: "ENSAIO SOBRE A BENIGNIDADE".

Por Apollo Natali
O amor, segundo Nietzsche: ajudar alguém "faz parte da mentalidade de escravo astutamente engendrada pela propaganda sacerdotal. Jamais alguém faz algo totalmente para os outros. Todas as ações são auto-dirigidas, todo serviço é auto-serviço, todo amor é amor-próprio. Cave mais profundamente e descobrirá que você não ama aqueles que pensa que ama. Ama, isso sim, as sensações agradáveis que tal amor produz em você". 

Com essas enredadoras palavras do controvertido filósofo alemão, invento este que chamo de breve ensaio para mostrar que a linguagem da religião pode ser traduzida com exatidão para a linguagem da ciência da psicologia. E vice-versa. Dizem o mesmo, as duas. 

A religião e a psicologia focam o comportamento. Tanto uma como outra dizem que o bom comportamento preserva nossas boas condições de saúde e equilíbrio. Até incontidos desvarios íntimos podem ser corrigidos por quem se deixa envolver pelo bem, prometem as duas.  Doutrina psicossomática, a da religião e a da psicologia.

Estarei a rodear todo o tempo essa palavra, comportamento. Pois não é o ensaio  aquele texto que fica a embaralhar todo o tempo determinado assunto sem nada informar?  Pretendo apenas vislumbrar semelhanças entre os dizeres religiosos de Jesus Cristo e os da ciência da psicologia.  

Eis as nossa motivações para ajudar o próximo, segundo Nietzsche:
"O bom comportamento é ótimo negócio, nos beneficia, e então lá vamos nós egoisticamente a ajudar o próximo, e dessa maneira a alimentar o nosso amor-próprio"
O pensador alemão –bobagem dizer pensador alemão, todos os pensadores são alemães- não acredita na sinceridade do bem-querer, desacredita do cristianismo e muito menos crê no amor fraternal dos religiosos. Para ele, amor é o mesmo que egoísmo. Quem ama escraviza o ser amado.  

Comparar não ofende: qual a primeira ação do psicólogo a quem levamos nossas crianças demasiadamente irrequietas? É mudar o comportamento. O mesmo que sugere o sacerdote ao ajoelhado fiel mal comportado. E também o preto-velho do terreiro a seu povo religioso.  

Não estou a inventar religião nenhuma. Sou avesso a qualquer religião organizada. Para mim, a verdadeira fé transcende o âmbito de qualquer religião.  Tenho Jesus Cristo como o maior psicólogo que já passou pela Terra, pés no chão, homem, uma alma doce e enérgica, carregada de desconhecido amor. Falava em termos religiosos ao povo hebreu, único na época a acreditar num Deus único. Faça isto: traduz cada preceito de Jesus para os termos acadêmicos da ciência da psicologia e terás que o sermão de ambos é pela melhoria de comportamento.   

O psicólogo da Terra tenta mudar o comportamento de uma criança levada. O psicólogo do Céu veio para mudar para melhor o comportamento de toda a espécie humana. E se Jesus Cristo não tivesse vindo com sua proposta de bom comportamento e amor, nosso planeta azul seria hoje definitivo caos.

A palavra-chave, tanto da ciência da Terra como a do Céu, é, pois, comportamento. Ambas insistem: doença ou saúde são conseqüências psicossomáticas do comportamento. 

Fiquem calmos, isto é apenas um tímido ensaio, não garante nada.

PIOR FOI AQUELA VEZ EM QUE O CHICO BUARQUE RECEBEU A MAIOR VAIA DA HISTÓRIA DOS FESTIVAIS...

Na madrugada de 29 de setembro de 1968, uma vaia de dez minutos foi dirigida, em pleno Maracanãzinho, contra dois dos maiores expoentes de nossa música popular em todos os tempos: Tom Jobim e Chico Buarque.

Mais do que o desfecho infeliz de um evento artístico, esse inesperado e contundente repúdio de 20 mil pessoas àqueles que eram, respectivamente, um dos  papas  da bossa-nova e a maior revelação da nova MPB, marcou o fim de uma época.

Dois meses e meio depois, no dia 13 de dezembro, desceriam sobre o País as trevas do Ato Institucional nº 5. E, com o esvaziamento imposto às artes, seria exatamente a canção favorita do público daquele festival que se imortalizaria como símbolo da resistência ao totalitarismo: "Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores" (ou, simplesmente, "Caminhando"), de Geraldo Vandré.

ESCALADA DE RADICALIZAÇÃO

Canto do cisne do período de maior efervescência musical que o País já conheceu, o III Festival Internacional da Canção, da Rede Globo, transcorreu em meio a passeatas que degeneravam em batalhas campais, mortes de opositores da ditadura, denúncias de torturas, ações armadas da esquerda, atentados dos grupos paramilitares de direita.

O mês já começara mal, pois, logo no dia 2, o deputado federal Márcio Moreira Alves, numa sessão quase deserta do Congresso, proferiu o fatídico discurso que acabaria sendo o pivô da decretação do AI-5.

O então influente Jornal da Tarde (SP), naquele final de 1968, dia após dia dedicava suas manchetes e principais matérias ao terrorismo, fazendo alarmismo para enlouquecer a classe média e favorecer a linha dura militar na luta interna em que se decidia o rumo do regime.

Este clima já se refletira na eliminatória paulista, que teve lugar no  Teatro da Universidade Católica de São Paulo, no dia 15 de setembro. Foi quando os baianos apresentaram composições que faziam uma correção de rumo no tropicalismo. Ao lançarem-no, no ano anterior, pareciam pregar o desengajamento dos jovens da política revolucionária, por que não?

modelo 1968, entretanto, veio fortemente influenciado pela Primavera de Paris, o movimento neo-anarquista que levou a França às portas da revolução.

Aliás, foi um slogan das barricadas parisienses o ponto-de-partida da composição inscrita por Caetano Veloso no III FIC: “É proibido proibir”. O estribilho já veio pronto, mas os versos que ele criou foram corrosivos, geniais: “Me dê um beijo, meu amor/ Eles estão nos esperando/ Os automóveis ardem em chamas/ Derrubar as prateleiras/ As estantes, as estátuas/ As vidraças, louças, livros, sim/ E eu digo sim/ Eu digo não ao não/ Eu digo, é proibido proibir”.

Gilberto Gil seguiu o mesmo diapasão em “Questão de Ordem”, enfocando situações vividas pelos contestadores agrupados nas comunidades alternativas da Europa: “Se eu ficar em casa/ Fico preparando/ Palavras-de-ordem/ Para os companheiros/ Que esperam nas ruas/ Pelo mundo inteiro/ Em nome do amor”.

"A JUVENTUDE QUE DIZ QUE QUER TOMAR O PODER"

A maior parte da esquerda brasileira, entretanto, via com desconfiança esse anarquismo de classe média do 1º mundo; e com franca hostilidade as roupas coloridas, os cabelos desgrenhados, a utilização das  sacrílegas  guitarras elétricas.

Preferia os ritmos nativos, do samba carioca à riqueza musical nordestina; e o visual bem comportado, com os intérpretes se apresentando discretamente para não atrapalharem a compreensão da mensagem que os versos transmitiam. Era esta a tendência majoritária na eliminatória paulista.

Quando da reapresentação das cinco escolhidas para a final da fase brasileira, marcada para o Rio de Janeiro, Caetano Veloso, que já estava indignado com a não-classificação da música de Gil, explodiu de vez, face às ensurdecedoras vaias que o impediam de reapresentar adequadamente “É Proibido Proibir”.

Então, enquanto os Mutantes continuavam tocando uma trilha musical improvisada, Caetano fez um longo discurso, que foi depois lançado em disco com o título de "Ambiente de Festival". Eis alguns trechos:
"Mas, é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês têm coragem de aplaudir este ano uma música, um tipo de música que não teriam coragem de aplaudir no ano passado. Vocês são a mesma juventude que vai sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem.
Quem teve a coragem de assumir a estrutura do festival e fazê-la explodir (...) foi o Gilberto Gil e fui eu. 
O problema é o seguinte: vocês estão querendo policiar a música brasileira.

Gilberto Gil está comigo pra nós acabarmos com o festival e com toda a imbecilidade que reina no Brasil. Nós, eu e ele, tivemos coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas estruturas. E vocês? Se vocês forem em política como são em estética, estamos feitos".
O JÚRI MAIS INCOMPETENTE DA HISTÓRIA DOS FESTIVAIS

A finalíssima, no Maracanãzinho, iniciada no sábado (28 de setembro) e seguindo pela madrugada de domingo adentro, apresentou algumas músicas de qualidade superior. 

Como “O Sonho”, estréia daquele que seria um dos maiores nomes da MPB na década seguinte. O Jornal da Tarde (SP) se referiria ao ”menino Egberto Gismonti” como “um talento”, destacando a letra de “O Sonho” como a melhor dentre as inscritas por compositores que não atuavam em São Paulo, além da “muito boa harmonia e um ótimo arranjo”.

Os Mutantes compareceram com um trabalho de qualidade e impacto, “O Caminhante Noturno”, um dos ápices do seu início de carreira, com Rita Lee se apresentando fantasiada de noiva grávida (Arnaldo Dias Baptista foi de cavaleiro medieval e seu Irmão Sérgio, de toureiro). O sexto lugar não lhes fez justiça.

Toquinho e Paulo Vanzolini foram prejudicados pelo clima de festival, com platéia e júri tomados por emoções fortes, sem paciência para apreciar a sutileza e cristalina beleza de “Na Boca da Noite” (“Cheguei na boca da noite, parti de madrugada/ Eu não disse que ficava, nem você perguntou nada/ Na hora que eu ia indo, dormia tão descansada/ Respiração tão macia, morena nem parecia/ Que a fronha estava molhada”).

Vista retrospectivamente, a sua classificação em oitavo lugar, atrás de “Andança” (Danilo Caymmi e Edmundo Souto, 3º), “Passacalha” (Edino Krieger, 4º), “Dia da Vitória” (Marcos e Paulo Sérgio Valle, 5º) e “Dança da Rosa” (Maranhão, 7º) nos dá um testemunho eloquente da incompetência do júri mais vaiado da história dos festivais.

Outras injustiçadas: “Canção do Amor Armado”, concepção grandiosa de Sérgio Ricardo, relegada a um irrisório nono lugar; “Oxalá”, ótima elaboração de uma história de capoeiristas, de autoria de Théo de Barros; e “América, América”, épico com que César Roldão Vieira reverenciou a figura mítica de Che Guevara.

CHICO E SEU SABIÁ INTEMPORAL

Bela e intemporal, "Sabiá" é de uma safra em que Chico Buarque parecia alheio ao ambiente nublado da política (há quem faça a leitura de que a canção aludia à futura volta dos exilados, mas tal interpretação parece meio forçada, fazendo mais sentido  a posteriori  do que no momento dos acontecimentos).

Após o sucesso estrondoso de "A Banda", ele insistiu na linha lírica e nostálgica, com "Carolina", "Bom Tempo" (para quem, cara-pálida?) e "Bem-Vinda", tornando-se, nos festivais, uma espécie de antítese da esquerda convencional e também da anarquia tropicalista.

Até Nelson Rodrigues, então o próprio arquétipo do reacionário, tinha palavras de elogio para Chico. Isto explica a vaia finalmente por ele recebida, depois de atravessar incólume vários festivais.

Não sem motivo, Chico Buarque se penitenciaria mais tarde, com a autocrítica “Agora Falando Sério” (“Agora falando sério/ Eu queria não mentir/ Não queria enganar/ Driblar, iludir/ Tanto desencanto/ E você que está me ouvindo/ Quer saber o que está havendo/ Com as flores do meu quintal?/ O amor-perfeito, traindo/ A sempre-viva, morrendo/ E a rosa, cheirando mal”).

De "Sabiá" sobrou este vídeo, já da fase internacional...

VANDRÉ E SUA PROFISSÃO DE FÉ

"Caminhando" foi composta numa fase terrível para Geraldo Vandré, que estava rompido com as emissoras de maior audiência junto ao público de MPB (TV Record e Rádio Jovem Pan), amargando uma desilusão amorosa, sendo hostilizado e  gelado  pelos estudantes de esquerda.

Fora-lhe muito danosa a publicação de uma foto no jornal Folha da Tarde (SP), na qual aparecia abraçado a Abreu Sodré, ajudando-o a escafeder-se do palco armado na praça da Sé, após ser apedrejado por manifestantes.

Governador de São Paulo por obra e graça da ditadura, Sodré tentara falar num ato comemorativo do 1º de maio, sendo surpreendido por uma reação organizada pelos movimentos operários do ABC e de Osasco, com o apoio dos estudantes.
Afora o vexame, Sodré saiu com um ferimento na testa.

Vandré era amigo do governador, que, inclusive, o esconderia mais tarde no próprio Palácio dos Bandeirantes, quando a repressão o perseguia. Mas, claro, preferia que essa ligação perigosa não se tornasse de domínio público. A mim e a alguns companheiros secundaristas, semanas depois, deu uma desculpa esfarrapada: “Estava bêbado. Não me lembro de nada do que fiz naquele dia”.

Devem-se às pressões que ele enfrentava, portanto, a comovente sinceridade com que reafirmou nessa canção os valores nos quais acreditava profundamente, à sua maneira romântica. Foi um Vandré machucado que subiu ao palco para cantar seu hino revolucionário, acompanhado apenas pelo próprio violão.

Talvez nem ele mesmo imaginasse o impacto que a "Caminhando" teria, acarretando-lhe tanta notoriedade quanto sofrimento. O certo é que, quando alguns já o davam como artisticamente morto, Vandré enfrentou e venceu o maior desafio de sua carreira. Por conta disto, passou definitivamente à condição de mito, mas foi destruído como pessoa.

"A VIDA NÃO SE RESUME EM FESTIVAIS" 

“Sabiá”, de Tom Jobim e Chico, na interpretação de Cynara e Cybele, foi a surpreendente vencedora.

O grande repórter Walter Silva, que  esquecera  um gravador ligado na sala de deliberação, revelou depois na Folha da Tarde (SP) que o presidente do júri, Donatelo Grieco, pressionou os demais jurados, advertindo-os de que os militares não aceitariam a vitória de “músicas que fazem propaganda da guerrilha”, como “Caminhando” e “América, América”.

A ameaça podia ser exagerada, mas o mal-estar causado na caserna por "Caminhando" foi bem real, por causa da estrofe "há soldados armados, amados ou não,/ quase todos perdidos, de armas na mão./ Nos quartéis lhes ensinam antigas lições,/ de morrer pela pátria e viver sem razões". 

Os militares chegaram a promover entre as tropas um concurso de versos que respondessem à "Caminhando", tendo Samuel Wainer sido pressionado (em troca de um favor recebido) a publicar no jornal Última Hora (SP) uma reportagem paparicando a medíocre poesia vencedora.

Quando a preferida do público foi anunciada em segundo lugar, o Maracanãzinho explodiu numa monumental vaia (a maior da história dos festivais), entremeada de gritos de “Vandré!” e “é marmelada!”. Tom depois comentou com Chico, que escapou da saia justa por estar em viagem pela Europa: "Foi como se o Corcovado tivesse caído sobre mim".

Mesmo distante, Chico sentiu duramente o golpe. Iniciava-se nesse momento a guinada que o levaria a tornar-se o principal expoente artístico da resistência à censura na década seguinte.

Havia motivo para a indignação da platéia. Reprimindo uma manifestação de rua, soldados tinham submetido estudantes a terríveis humilhações (chegaram a urinar sobre os jovens rendidos e a bolinar as moças).

Isto despertou indignação generalizada na cordialíssima cidade maravilhosa. O FIC aconteceu logo depois e os cariocas adotaram "Caminhando" como um desagravo. Vandré teve muito mais torcida lá do que em São Paulo.

Por mais que tentasse, ele não conseguiu convencer o público a respeitar Chico, Tom e as duas meninas do Quarteto em Cy, direcionando sua ira apenas contra o "júri que ali está". E, com clarividência, proferiu a frase célebre: “A vida não se resume em festivais”. Só não adivinhou que seria uma das primeiras vítimas da vida pós-festivais, quando os holofotes da arte não conseguiriam mais espantar as trevas.

Em alguns bairros da Zona Sul, as pessoas saíram às janelas quando Vandré bisava a “Caminhando” e cantaram junto, a plenos pulmões, descobrindo uma comunhão cimentada pela dor e revolta – que tão cedo não se repetiria, pois logo baixou sobre o País a paz dos cemitérios.

...mas de "Caminhando", todos os vídeos foram destruídos.

domingo, 27 de dezembro de 2015

FERREIRA GULLAR DISSECA O POPULISMO QUE FINGE SER DE ESQUERDA, MAS QUER APENAS ETERNIZAR-SE NO PODER.

De tudo que li neste domingo, 27, desde que retomei o leme desta nave que teima em aventurar-se por caminhos diferentes dos convencionais no campo da esquerda, o texto mais polêmico, disparado, foi este abaixo, do poeta Ferreira Gullar. 

Convido todos a lerem-no atentamente, não como a um oráculo que estaria sempre certo, mas como a um articulista que ousa levantar discussões interessantes, sem medo de tabus e de caras feias.

Eu discordo dele, p. ex., na equiparação de Brasil e Argentina à Venezuela e Bolívia; avalio esses processos históricos como bem diferentes, tanto que até houve tentativas para aproveitar nas grandes nações certas lições das duas pequenas --as quais, claro, fracassaram.


E concordo com ele quanto ao fato de estarmos assistindo ao ruir de muitos valores que vinham sendo cultivados pela esquerda; e de que temos de reinventar o futuro, se quisermos permanecer como vanguarda da sociedade.


Principalmente no Brasil: quando o PT ganha eleições na bacia das almas e graças, sobretudo, aos grotões; e quando conta com o Senado para evitar o impeachment de sua desastrosa presidente da República, ao preço de atropelar a autonomia da Câmara Federal, algo de muito errado está acontecendo.


Pois grotões e Senado sempre foram os últimos bastiões dos governos impopulares e reacionários, prestes a serem varridos para a lixeira da História. Assim se deu nos estertores da ditadura militar e é para o mesmo final inglório que marcha o petismo, mais uma estrela que se apagou no céu da revolução. 

Por Ferreira Gullar
FIM DE UMA ETAPA 

Para que se possa entender o que se passa no Brasil, política e economicamente, creio ser necessário levar em conta o tipo de populismo que aqui se implantou, a partir do governo Lula, e se agravou com o governo Dilma.

O populismo não é uma novidade, nem aqui nem em outros países latino-americanos, mas, de algumas décadas para cá, implantou-se em alguns deles um tipo especial de populismo que, para distingui-lo do anterior, costumo chamá-lo de "populismo de esquerda".

Claro que de esquerda mesmo ele não é. Trata-se, na verdade, de uma esperteza ideológica que manipulou as aspirações revolucionárias, surgidas na região a partir da Revolução Cubana, após a década de 1960. 

Essas aventuras guerrilheiras contribuíram involuntariamente para as ditaduras militares que se espalharam pelo continente. O fim dessas ditaduras, por sua vez, abriu caminho para esse novo populismo, que se apresentou como o oposto dos regimes militares, anticomunistas por definição.

Sucede que o final daquelas ditaduras coincidiu com a derrocada dos regimes comunistas, tornando anacrônica a pregação do revolucionarismo marxista. Em seu lugar, inventou-se o socialismo bolivariano, um dos nomes desse populismo, que já não pregava a ditadura do proletariado e, sim, o resgate da pobreza por meio de programas assistencialistas. 
"Vivemos o fim de uma etapa da história latino-americana"

Não fala mais em revolução, porque se trata agora de uma aliança com parte do empresariado que só tem a lucrar com o assistencialismo oficial. Está aí a origem das licitações fajutas, dos contratos de gaveta, fontes de propinas bilionárias.

E claro que esse populismo tem particularidades específicas nos diferentes países onde se implantou. Na Argentina, por exemplo, tem raízes em certa ala do peronismo, enquanto na Venezuela inclui até as Forças Armadas. Já no Brasil, tendo como figura central um operário metalúrgico, esse populismo contou com o apoio de centrais sindicais e de parte da intelectualidade de esquerda, que ainda sonhava com um regime proletário.

Além disso, em cada um deles, adota procedimentos específicos de modo a ajustar-se às condições econômicas e sociais para alcançar seus objetivos. Não obstante, todos eles têm um mesmo propósito: usar o poder político –a máquina do Estado– para garantir o apoio dos setores menos favorecidos da sociedade e se manter para sempre no poder. 

Na Venezuela e na Bolívia, os governos populistas lograram mudar a Constituição do país para se reelegerem indefinidamente. No Brasil, como isso não seria possível, o populismo investiu pesadamente nos programas assistencialistas e num modelo econômico inviável que conduziu o país à situação crítica em que se encontra hoje.
Cristina Kirchner: a imagem da derrota.

A ascensão do populismo, como sucessor dos governos militares –e seu contrário–, conquistou a confiança de grande parte da opinião pública, inclusive por oferecer melhoria de vida a setores mais pobres da população. No Brasil, por exemplo, sobretudo no primeiro governo Lula, essa melhoria veio consubstanciar a sua popularidade, possibilitando sua própria reeleição e a eleição de sua sucessora.

Não obstante, também aqui o populismo, esgotadas as qualidades, caminha para encerrar sua aventura. Na Argentina, ao que tudo indica, isso já começou a acontecer com a derrota do kirchnerismo, que também empurrou o país para o impasse econômico, por contrariar as necessidades objetivas do contexto sócio-econômico. 

Aliás, um elemento comum a todos esses regimes é o antiamericanismo, que só contribuiu para agravar a situação deles. No mesmo caminho seguiu a Venezuela que, com a derrota recente de Maduro, começa a fazer água. No Brasil, Lula e Dilma têm seu discurso abafado pelas paneladas e, enquanto isso, Cuba estende a mão aos norte-americanos.

Não resta dúvida, portanto, de que vivemos o fim de uma etapa da história latino-americana, que coincide, em escala internacional, com o esgotamento da utopia socialista, iniciada na Revolução Russa de 1917. Se isso, por um lado, significou a sobrevivência do regime democrático na maioria dos países, por outro exige que reinventemos o futuro.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

A ÚNICA PROPOSTA CAPAZ DE UNIR O POVO BRASILEIRO: UMA NOVA ELEIÇÃO!!!

Cálculos mesquinhos e falta de grandeza de parte a parte deverão causar sofrimentos terríveis ao povo brasileiro em 2016 e sabe-se lá até mais quando.

De um lado temos um governo totalmente sem propostas, semeando ilusões como a de que ainda se possa fazer ajuste fiscal sem grandes sacrifícios, quando até as pedras da rua sabem que eles serão imensos e resta decidirmos quem pagará a parte maior da conta, se os explorados e excluídos ou os exploradores e parasitas. Joaquim Levy ia na primeira direção e nada do que foi dito nos últimos dias indica intenção de adotar-se  postura oposta, qual fosse a de ir atrás dos favorecidos de sempre.

A presidente está exaurida e desmoralizada, praticamente já não governa mas obstina-se em não ser derrubada, mesmo que para tanto recorra às práticas mais constrangedoras da politicalha fisiológica e arraste para a avacalhação total os outros poderes da República.

Do outro lado encontramos uma oposição que, discurseira à parte, está mais para outra face da mesma moeda (os antigos rivais hoje são ingredientes da mesmíssima geleia geral ou partes do mesmo saco de farinha, descaracterizados e cínicos). E só não dá o xeque-mate no governo agonizante porque está preocupada demais com os ganhos que obterá no day after.

Se esquecesse o impeachment e centrasse fogo na cassação da chapa presidencial pela Justiça Eleitoral, uniria o Brasil, criando uma onda irresistível em favor da alternância no poder. 

Boa parte dos que votaram em Dilma está ciente de haver sido lograda. Também, pudera! Foi o pior estelionato eleitoral da democracia brasileira em todos os tempos...

Detesta Dilma, adoraria vê-la pelas costas, mas desconfia muito de Temer; com inteira razão, nos dois casos. Daí a disparidade chocante entre o percentual de brasileiros que a rejeitam e o número dos que vão à rua protestar contra ela.

Isto e a tradicional passividade do nosso povo. Já propus certa vez que, na bandeira, o lema Ordem e progresso fosse substituído por Manda quem pode e obedece quem tem juízo...

Noves fora, a melhor solução para virarmos esta página deplorável da nossa História e termos uma chance de começar a sair da recessão em 2017 (o ano que vem está além de qualquer possibilidade de salvação, lamento!) seria uma nova eleição, caso Dilma e Temer perdessem o mandato.

Na qual o PT, tendo Lula como provável candidato, ficaria sabendo se ainda está na vanguarda do processo de transformação da sociedade brasileira ou dissociou-se do Brasil pujante. A última eleição fez suspeitar que esteja em franca decadência, encabrestando os grotões do atraso como fazia a ditadura militar em seus estertores.

Na qual o PSDB teria a sonhada chance de voltar ao poder e herdar... a inglória tarefa de ajustar as contas públicas, conforme exige o poder econômico. Tudo leva a crer que, assim procedendo, chegaria tão desgastado a 2018 como Dilma está agora. Com tendência a não voltar a ganhar eleições presidenciais por um bom tempo, como deverá acontecer doravante com o PT.

Na qual a Marina poderia fazer campanha sem ser falsamente acusada de cúmplice dos banqueiros, pois a promiscuidade de Dilma com Luís Carlos Trabuco, o presidente do Bradesco, foi simplesmente pornográfica para qualquer esquerdista. Se tiverem o mínimo de simancol, os propagandistas do PT doravante não voltarão a bater nessa tecla, nem com Marina, nem com ninguém...

Na qual, e isto é o mais importante, as políticas de direita tenderiam a ser defendidas pela direita, enquanto a esquerda teria de reassumir-se como esquerda, até por uma questão de sobrevivência.

Nós, os revolucionários, temos de reaprender a dar o justo peso à política oficial: a Presidência da República, sob a democracia burguesa, para nós tem eventualmente serventia tática, mas não é, nem de longe, nosso objetivo estratégico.

Se ajudar a alavancar a revolução, vale, sim, a pena obtê-la e tentar conservá-la... enquanto nos estiver sendo útil.

Se, pelo contrário, nos atrapalha em nossos objetivos maiores e coloca o povo contra nós, como está acontecendo neste instante, devemos abrir mão dela sem nenhum remorso, recuando para nos reagrupar. O velho um passo atrás para poder dar dois adiante do Lênin. 

Precisamos, isto sim, ter sempre povo ao nosso lado, pois nada seremos se estivermos representando apenas interesses mesquinhos, como fazem os políticos profissionais. Quanto aos palácios do governo, podemos sobreviver tranquilamente fora deles!

Isto, claro, no caso dos que ainda colocamos a revolução acima de tudo. Dos que estão aburguesados e hoje se agarram com furor desmedido aos privilégios e boquinhas, nada mais podemos esperar. Passaram para o outro lado, tenham ou não autocrítica suficiente para admitirem isto.

O NATAL COMO CELEBRAÇÃO DO TEMPLO E DE SEUS VENDILHÕES. E A ALTERNATIVA.

O que o mundo realmente celebra no Natal? A saga de um carpinteiro que trouxe esperança a pescadores e outras pessoas simples de um país subjugado ao maior império da época.

Os primeiros cristãos eram triplamente injustiçados: economicamente, porque pobres; socialmente, porque insignificantes; e politicamente, porque tiranizados.

Jesus Cristo nasceu três décadas depois da maior revolta de escravos enfrentada pelo Império Romano em toda a sua existência.

As mais de seis mil cruzes fincadas ao longo da Via Ápia foram o desfecho da epopeia de Spartacus, que, à sua maneira rústica, acenou com a única possibilidade então existente de revitalização do império: o fim da escravidão. Roma ganharia novo impulso caso passasse a alicerçar-se sobre o trabalho de homens livres, não sobre a conquista e o chicote.

Vencido Spartacus, não havia mais quem encarnasse (ou pudesse encarnar) a promessa de igualdade na Terra.
Spartacus morto, Roma decaiu.

Jesus Cristo a transferiu, portanto, para o plano místico: todos os seres humanos seriam iguais aos olhos de Deus, devendo receber a compensação por seus infortúnios num reino para além deste mundo.

Este foi o cristianismo das catacumbas: a resistência dos espíritos a uma realidade dilacerante, avivando o ideal da fraternidade entre os homens.

Hoje há enormes diferenças e uma grande semelhança com os tempos bíblicos: o império igualmente conseguiu neutralizar as forças que poderiam conduzir a humanidade a um estágio superior de civilização.

A revolução é mais necessária do que nunca, mas inexiste uma classe capaz de assumi-la e concretizá-la, como o fez a burguesia, ao estabelecer o capitalismo; e como se supunha que o proletariado industrial fizesse, edificando o socialismo.

AS AMEAÇAS DE CATÁSTROFES 
E O FANTASMA DO RETROCESSO

O fantasma a nos assombrar é o do fim do Império Romano: ou seja, o de que tal impasse nos faça retroceder a um estágio há muito superado em nosso processo evolutivo.

O capitalismo hoje produz legiões de excluídos que fazem lembrar os bárbaros que deram fim a Roma; não só os que vivem na periferia do progresso, mas também os miseráveis existentes nos próprios países abastados, vítimas do desemprego crônico.

E as agressões ao meio ambiente, decorrentes da ganância exacerbada, estão atraindo sobre nós a fúria dos elementos, com conseqüências avassaladoras. Décadas de catástrofes serão o preço de nossa incúria.

No entanto, como disse o grande jornalista Alberto Dines, “criaturas e nações cometem muitos desatinos, mas na beira do abismo recuam e escolhem viver”.

Se a combinação do progresso material com a influência mesmerizante da indústria cultural tornou o capitalismo avançado praticamente imune ao pensamento crítico e à gestação/concretização de projetos alternativos de organização da vida econômica, política e social, tudo muda durante as grandes crises, quando abrem-se brechas para evoluções históricas diferentes.

Temos pela frente não só a contagem regressiva até que as contradições insolúveis do capitalismo acabem desembocando numa depressão tão terrível como a da década de 1930, como a sucessão de emergências e mazelas que decorrerão das alterações climáticas.

O sofrimento e a devastação serão infinitamente maiores se os homens enfrentarem desunidos esses desafios. Caso as nações e os indivíduos prósperos venham a priorizar a si próprios, voltando as costas aos excluídos, estes morrerão como moscas.

O desprendimento, em lugar da ganância; a cooperação, substituindo a competição; e a solidariedade, ao invés do egoísmo, terão de dar a tônica do comportamento humano nas próximas décadas, se as criaturas e nações escolherem viver.

E há sempre a esperança de que os mutirões criados ao sabor dos acontecimentos acabem apontando um novo caminho para os cidadãos, com a constatação de que, mobilizando-se e organizando-se para o bem comum, eles aproveitam muito melhor as suas próprias potencialidades e os recursos finitos do planeta.

Então, para além deste Natal mercantilizado, que se tornou a própria celebração do templo e de seus vendilhões, vislumbra-se a possibilidade de outro. O verdadeiro: o Natal cristão, dos explorados, dos humilhados e ofendidos.

Se frutificarem os esforços dos homens de boa vontade.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

DEMOCRA$$IA À BRASILEIRA

Por Gregório Duvivier
FESTA ESTRANHA,
GENTE ESQUISITA
Você também já deve ter se perguntado: "Por que o Congresso brasileiro é tão conservador?". Eduardo Cunha costuma responder pra você e pra quem quiser ouvir que o Congresso foi eleito pelo povo, logo o conservadorismo do Congresso reflete o conservadorismo do povo. Imagino que ele só tenha enviado milhões não declarados para a Suíça porque é isso que todo brasileiro faz. A culpa é do povo, sempre.

Cunha: tira o povo dessa roubada. Se tem alguém que não está presente no Congresso nacional (além dos deputados que, de modo geral, preferem trabalhar de casa) é o povo brasileiro.

As mulheres são quase 52% da população. No entanto, você consegue encontrar mais mulheres jogando rúgbi do que na Câmara dos Deputados. O povo brasileiro se declara, em sua maioria, negro ou pardo (53%). O Senado brasileiro tem menos negros que o Senado da Suécia (não é uma expressão, é um fato). Quanto aos jovens, melhor procurar num jogo de bocha. Jovens com até 34 anos são 39% do eleitorado e 10% do Congresso.

O mesmo vale para os gays: apenas um deputado entre os 513 se declara gay. Já os transexuais e a população indígena não tem a mesma sorte. Nenhuma das duas minorias tem sequer um deputado federal ou senador. Em compensação, os empresários, apenas 4% da população, são 43% dos deputados. Sim: proporcionalmente, a Câmara dos Deputados tem dez vezes mais empresários do que o Brasil.

Muito se fala sobre a tal festa da democracia. Que festa estranha com gente esquisita!

O Congresso brasileiro está mais para o salão de jogos do Country Club: uma versão mais masculina, mais branca, mais hétero, mais velha e mais empresária do Brasil. Mas, por quê? Será que o brasileiro só confia em homem branco hétero velho empresário?

Uma rápida pesquisa revela que eleger um deputado custa, em média, R$ 6 milhões. Uma rápida pesquisa revela que quem tem R$ 6 milhões no Brasil é homem branco hétero velho empresário. O Congresso brasileiro não é a cara do Brasil. Ele é a cara da elite do Brasil. Não é o povo brasileiro que é conservador. É o dinheiro brasileiro que é conservador.

Pense no lado bom: talvez o Brasil não seja um país intrinsecamente corrupto ou reacionário. Ou talvez seja. Isso a gente ainda não sabe. Pra isso seria preciso uma coisa inédita: democracia. Por enquanto, pra participar da festa, só com pulseirinha VIP de R$ 6 milhões (mas relaxa que tem consumação). 

FELIZ ANO NOVO?! FALA SÉRIO...

Por Vinícius Mota
A BORDO DO TREM FANTASMA
No Planalto está a presidente mais fraca e inapta à costura política desde Collor. Chefia a Câmara um cadáver adiado que procria discórdia e cavilações. No Senado, um macunaíma das Alagoas imagina que dá as cartas, enquanto seus litígios penais só fazem aumentar.

A maioria no Supremo continua a fazer enxertos no sistema político, baseada numa estética simplória do que seria a arquitetura ideal da representação popular.

Papai STF aplica corretivos nos políticos há mais de uma década, quando Nelson Jobim quis harmonizar numa canetada as coligações partidárias no país continental. Não foi diferente na semana passada, com a proibição pela corte de chapas avulsas na comissão do impeachment.

O vice-presidente, de estilo epistolar, não assegura hegemonia nem sequer em seu partido, que dirá num alargado consórcio de forças, necessário para rebocar a economia do atoleiro. Extensa e poderosa parcela de empresários beneficiou-se do capitalismo estatal nos últimos anos. Alguns foram presos. A maioria está calada.

A oposição cometeu estelionato eleitoral reverso. Prometeu na campanha de 2014 austeridade na lida com o dinheiro público. Meses depois, no Congresso, tornou-se sócia de uma investida cavalar do Legislativo contra a responsabilidade fiscal.

Assim caminha o trem fantasma da República, no meio de uma recessão inflacionária que vai piorar e alongar-se. Será tão severa e duradoura quanto a que solapou o regime ditatorial no início dos anos 1980. Será severa e duradoura porque tem sido alimentada pela inépcia, pela pequenez e pelo egoísmo de lideranças políticas, institucionais e empresariais.

A locomotiva desgovernada arrasta a composição para o desastre. No desfecho apocalíptico, o despedaçamento do status quo dificilmente servirá de premissa para a reconstrução de um mundo melhor. Será garantia de mais sofrimento.

domingo, 20 de dezembro de 2015

A MÚSICA DO DIA EM YOKOHAMA: "DON'T CRY FOR ME ARGENTINA".

Foi mais um passeio do Barcelona. A conquista do Mundial de Clubes da Fifa, neste domingo (20) em Yokohama, não esteve ameaçada em momento algum. 3x0 foi pouco.

O River Plate caiu na besteira habitual de times que enfrentam o Barça: armou uma retranca brava e ficou rezando para que um lance salvador caísse do céu. 

O Barcelona, como sempre, buscou o jogo, pois quem procura tem muito mais chance de achar. Foi trocando bolas no ataque até encontrar uma brecha para seus cracaços fazerem a diferença.

Aconteceu aos 35' do 1º tempo. Daniel Alves levantou para Neymar disputar com um zagueiro, o brasileiro subiu muito e espanou a bola para Messi matá-la e dar um toque mágico, acrobático, fazendo-a a passar por um espaço mínimo entre os três defensores. Se ainda havia alguma dúvida sobre quem receberá a Bola de Ouro da Fifa, Messi a dissipou de vez.

O pobre River foi obrigado a correr o risco que tentava evitar. Voltou do intervalo com uma postura ofensiva e o melhor time do mundo não perdoou: logo aos 4' Busquets lançou Suárez em profundidade, este chegou na cara de Barovero e arrematou entre as pernas do goleiro argentino.

Daí até o final a equipe catalã fez o River de gato e sapato, desperdiçando uma meia-dúzia de gols, pois Neymar e Messi andaram algo dispersivos nos momentos agudos.

Suárez queria mais: aos 22' recebeu um passe perfeito de Neymar pelo alto e cabeceou colocado.

Vi muita coisa no futebol, mas nunca uma concentração tão exuberante de talentos ofensivos como a do tridente sul-americano do Barça, ainda mais tendo a apoiá-lo o extraordinário Andrés Iniesta.

Decidem mesmo quando estão não estão num dia dos mais inspirados. Suárez fez os dois gols que liquidaram o River, mas perdeu outros dois. Messi tirou coelho da cartola quando era mais necessário, depois vacilou em situações até melhores. Neymar às vezes foi fominha, mas compensou com as duas assistências que acabaram nas redes. 

A coisa anda tão desequilibrada que, mesmo impedido de reforçar-se nesta temporada por uma decisão esdrúxula da Fifa, o Barcelona termina 2015 como vencedor das três principais competições que disputou (o Mundial de Clubes, a Liga dos Campeões e o campeonato espanhol) e de duas menores (a Copa do Rei e a Supercopa da Uefa). Só ficou faltando a Supercopa da Espanha, na qual, voltando das férias, foi surpreendido pelo Athletic Bilbao.

O melhor de tudo é que o predomínio do Barça de 2005 para cá vem sendo o carro-chefe de um novo apogeu do futebol-arte, quando pensávamos estar condenados ao defensivismo, à truculência e excesso de faltas, às ligações diretas, aos chutões pra todo lado e aos gols resultantes de bolas paradas. 



Aliás, ultimamente se evidenciou bem, por aqui, a diferença entre o presente e o passado: o Corinthians conquistou o Campeonato Brasileiro com um futebol tão bonito quanto eficiente, superior em todos os quesitos, enquanto o Palmeiras foi buscar uma Copa do Brasil na bacia das almas dos pênaltis, aos trancos e barrancos, sem jamais convencer de que era mesmo a melhor equipe que sobrara (o Corinthians e o Atlético Mineiro, visivelmente, deram um jeito de ser eliminados depressa para se dedicarem apenas ao Brasileirão).

Há quem torça o nariz para as competições que premiam a constância e a qualidade, preferindo as emoções baratas dos mata-matas, que nivelam os competidores por baixo e dão chance para que equipes guerreiras em jornadas afortunadas surpreendam os melhores.

Mas, pelo visto nos últimos Mundiais de seleções e de clubes, não é por aí que voltaremos aos nossos anos de ouro, reconquistando a hegemonia perdida.

sábado, 19 de dezembro de 2015

VISÕES DA CRISE: APROFUNDAR O AUSTERICÍDIO OU BUSCAR CAMINHOS POPULARES PARA SAIR DA RECESSÃO?

Por Guilherme Boulos
VAI TARDE
A saída de Joaquim Levy do Ministério da Fazenda é uma boa notícia. Levy entrou há um ano prometendo ajustar as contas, que hoje estão ainda mais desajustadas. Prometeu também uma "travessia para o crescimento", mas afundou o país em uma recessão histórica. Era o fiador do "grau de investimento". Este também se foi.

A questão agora é se a política econômica vai junto com o ministro. De nada adianta crucificar Levy e esquecer que foi Dilma quem o colocou e o manteve até agora. De nada adianta tirá-lo do cargo e deixar intocada a política suicida de austeridade (*). Seria trocar seis por meia dúzia.

O ajuste fiscal de Dilma e Levy –além de desastroso para os trabalhadores– jogou a economia num ciclo vicioso, alavancado pela redução do investimento público, a retração do consumo e o aumento dos juros.

O desestímulo à atividade produtiva e ao consumo popular reduziu consideravelmente a arrecadação. Em outubro, caiu 11,3% em relação ao ano anterior. A queda acumulada de 2015 chega próxima a 4%, levando à pior arrecadação em cinco anos. Redução da arrecadação significa desajuste fiscal.

Outro disparate foi o aumento galopante dos juros. Das eleições de 2014 para cá, a taxa Selic foi elevada em 3,25%. Segundo cálculo do economista João Luis Mascolo, realizado para a BBC, cada meio ponto percentual de aumento dos juros representa um ônus de até R$ 10 bilhões por ano para a União com o pagamento da dívida pública. Ou seja, R$ 65 bilhões de acréscimo com juros apenas em 2015. Novo desajuste fiscal.

Por isso, este ajuste não é apenas antipopular. Além de atacar direitos trabalhistas, cortar investimentos em programas sociais e produzir recessão e desemprego, nem sequer ajustou as contas. Ao contrário, ampliou o rombo.

Para manter o pacto com a elite financeira, Dilma reforçou a ideia do senso comum midiático de que as dificuldades fiscais remetiam a gastos sociais elevados. Argumento falacioso de quem tem preguiça de ver os números. Muito mais do que programas sociais, o que pressiona o Orçamento são as desonerações fiscais e subsídios pelo BNDES –o Bolsa Empresárioe principalmente os escorchantes juros da dívida pública –o Bolsa Banqueiro.

Neste ano, estima-se a perda de R$ 104 bilhões em desonerações e R$ 25,5 bilhões em empréstimos subsidiados, que, aliás, foram ambos "compensados" pelos empresários com retração de investimentos e com demissões. O gasto com juros da dívida ultrapassou R$ 277 bilhões. A previsão para o Orçamento de 2016 é de R$ 304 bilhões, sem contar a amortização.

Já o investimento com o Bolsa Família foi de R$ 27 bilhões neste ano. Com o Fies de R$ 12 bilhões. O Minha Casa, Minha Vida foi praticamente paralisado em 2015. O ajuste fechou a torneira no andar de baixo e a manteve escancarada no andar de cima.

Essa política fracassou. Conseguiu de uma só vez agravar a recessão, retrair a indústria, ampliar o desemprego e atacar duramente os mais pobres. Só os bancos comemoram novo aumento de seus ganhos.

Levy vai tarde e não deixará saudades. Nelson Barbosa, o novo ministro, cumprirá as ordens da chefe. Resta saber quais serão elas. Afundar o país de vez na política de austeridade ou apontar caminhos populares para o enfrentamento da crise.

Por tudo o que temos visto, é difícil acreditar na segunda opção, mas talvez seja esta a última chance de Dilma Rousseff.
* os grifos são todos meus

VISÕES DA CRISE: O LULISMO VOLTA AOS TRILHOS, MAS O GOVERNO RESPIRA POR APARELHOS.

Por André Singer
ANTES TARDE
Após um ano trágico, a presidente Dilma Rousseff corrige o dramático erro que cometeu ao optar por Joaquim Levy e coloca no Ministério da Fazenda aquele que deveria ter sido o escolhido desde o início. Diante das opções moderadas que a correlação de forças provavelmente impunha naquele distante novembro de 2014, o economista Nelson Barbosa era a melhor escolha. Vamos ver o que conseguirá fazer agora que o país rola no despenhadeiro do austericídio.

As condições em que Barbosa assume são das mais difíceis. No entanto, chega ao comando da economia quando novo pacto de classe aponta no horizonte. Depois do fracasso do ensaio desenvolvimentista apoiado na coalizão entre trabalho e capital formalizada em maio de 2011, houve reagrupamento da burguesia em torno do ajuste recessivo. De 2013 em diante, a frente produtivista se desfez.

Opção por Joaquim Levy foi um "dramático erro"
Foi necessário que, em 2015, uma das mais graves retrações em décadas ameaçasse não só as conquistas recentes dos empregados, mas igualmente a sobrevivência dos capitalistas, para que a unidade do setor produtivo começasse a se restabelecer. Na terça passada, representantes da CUT, da Força Sindical e de outras quatro centrais, junto a relevantes associações de empresários, entre elas a Confederação Nacional da Indústria (CNI), entregaram a Dilma documento sob o título "Compromisso pelo desenvolvimento".

De acordo com Clemente Ganz Lúcio, diretor do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), a proposta, destinada a propiciar transição rápida para o crescimento, sugere a retomada do investimento público e privado em infraestrutura, em particular nos setores de petróleo e gás; o destravamento da área da construção; o incentivo à exportação industrial; a ampliação do capital de giro para as empresas e o fortalecimento do mercado interno.

"A missão do novo ministro é quase impossível"
A adesão do capital a essa agenda não é completa, como o demonstra a significativa ausência da Fiesp entre os signatários. Dada a fragilidade política do governo, a tarefa número um do novo ministro seria a de negociar o apoio dos até aqui recalcitrantes. Contudo, há sinais de que mesmo o setor financeiro estava insatisfeito com a política seguida por Levy, o que poderia facilitar em algo a tarefa de unificar a sociedade em torno de um horizonte construtivo.

Dada a profundidade do buraco econômico em que caímos e a gravidade da crise política, a missão do novo ministro é quase impossível. Mas depois de ter tomado caminho por completo equivocado, o lulismo volta aos próprios trilhos. Pode ser tarde demais para salvar paciente que respira por aparelhos, mas ao menos o médico intensivista quer fazê-lo. O anterior exalava evidente antipatia pelo doente.
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