quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

FURO DE REPORTAGEM: AS PRIMEIRAS IMAGENS DA POSSE.


A CHEGADA DA PRESIDENTA

REELEITA, QUE CONTINUA 


OLHANDO PARA A ESQUERDA


QUANDO PRECISA DE VOTOS, 


MAS RUMANDO PARA A DIREITA


NA HORA DE GOVERNAR...


...E OS EXMOS. MINISTROS 

DE ESTADO POSANDO PARA

A POSTERIDADE, APÓS 

UMA ÚLTIMA CHECAGEM 

DOS SEUS NOMES NOS

ARQUIVOS POLICIAIS.

(IN) FELIZ ANO NOVO...

Vale também para 2014/2015
...na luta indigesta...

...no lado sombrio 
do fio da navalha...

...com os ratos nas tocas rondando os navios!

(Faz muito tempo que um ano não começa sob augúrios tão terríveis: recessão econômica inevitável e que poderá  virar depressão, a quase certeza de que ocorrerão turbulências políticas e a posse do pior Ministério brasileiro de todos os tempos, períodos ditatoriais excluídos. Então, não iludirei ninguém: 2015 está, de antemão, perdido. Meus votos são de que a ele sobrevivamos tão ilesos quanto possível, para, talvez, começarmos a sair do buraco em 2016.)


A ferina canção de Egberto Gismonti da qual extraí os 3 versos acima

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

NOVO MINISTRO QUER CLAREAR AOS POUQUINHOS, SUAVEMENTE, A ÁGUA ENSANGUENTADA DA DITADURA...

De Jobim para Wagner: "Eu sou você amanhã!".
Futuro ministro da Defesa, o governador baiano Jaques Wagner ameaça se tornar o novo Nelson Jobim. 

Aquele, vencendo a luta interna que foi travada no Ministério de Lula entre agosto e setembro de 2007, deu o principal passo para a impunidade eterna dos torturadores da ditadura militar, ao convencer seus pares e seu presidente de que o governo federal deveria lavar as mãos nesta questão, atirando o abacaxi no colo dos togados. 

Como consequência, já lá se vão mais de sete anos que patinamos sem sair do lugar, com as eventuais vitórias judiciais sendo anuladas pelas instâncias superiores e o Supremo Tribunal Federal se mostrando convicto defensor da prerrogativa dos tiranos, de anistiarem a si próprios e a seus esbirros em plena vigência do arbítrio. 

É chocante que a grande imprensa e as forças conservadoras impinjam até agora a lorota do pacto de pacificação nacional, quando salta aos olhos que ocorreu apenas e tão somente a imposição da vontade do mais forte sobre o mais fraco! 

De Wagner para Jobim: "Ué, pensei que já fosse hoje".
Temos de repetir mil vezes que os presos políticos e os exilados serviram como reféns para os fardados enfiarem tal simulacro de anistia goela dos oposicionistas adentro, condicionando a libertação dos primeiros e a permissão de volta dos segundos ao endosso parlamentar que fosse dado àquela patética farsa de meados de 1979!

E que os assassinos seriais da repressão política, os executores de prisioneiros rendidos, os torturadores, os estupradores e os ocultadores de cadáveres receberam de imediato seu habeas corpus preventivo, enquanto resistentes que justificadamente pegaram em armas contra o despotismo não foram incluídos na Lei da Anistia, permanecendo presos até que os tribunais militares os liberassem a conta-gotas, sob vários pretextos legais. 

Ou seja, os algozes puderam dormir ainda mais tranquilos e as vítimas, depois de barbarizadas e de amargarem longos anos de cativeiro, foram colocadas sorrateiramente nas ruas, como se tudo não passasse de um ato (meio envergonhado) de clemência dos usurpadores do poder!  

O exemplo de Jobim parece inspirar Wagner: ele defende que a responsabilização dos culpados pelo festival de horrores dos anos de chumbo se faça em "movimentos suaves" e que a "água suja" da ditadura não seja despejada o quanto antes no esgoto a que pertence, mas sim clareada aos pouquinhos, com "cuidado e parcimônia", à medida que a ela se adicione água limpa (sua inglória e abastardada entrevista pode ser acessada aqui). 

Senhor futuro ministro, o que V. Exª sugere é, de novo, um tratamento desigual, além de uma solução inadequada, pois: 
  • não eram suaves os movimentos dos que me espancaram a ponto de estourarem meu tímpano e que giravam com furiosa sofreguidão a manivela do dispositivo de aplicar choques, quase me fazendo enfartar aos 19 anos de idade.
  • intocáveis há quatro décadas, quantos desses ogros sobreviverão (a maioria já morreu) até que os movimentos suaves da Justiça terrena os alcancem?  Pelo andar da carruagem, a celestial chegará muito antes...
  • as tentativas de se purificar a água suja, ao invés de removê-la até a última gota, não deram certo nem com o mensalão, nem com o petrolão (talvez o apropriado seja outro lugar comum, aquele sobre certas matérias que, quanto mais são mexidas, mais fedem), portanto os precedentes desaconselham esta forma de se lidar com líquidos pútridos, ainda mais quando se trata da água ensanguentada pela bestialidade do homem contra o homem!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O LANÇAMENTO MAIS ARREPIANTE DE 2015: "O MINISTÉRIO DE FRANKENSTEIN"!!!

Depois de A alma de Frankenstein (dirigido por Erle C. Kenton, 1942),  A mansão de Frankenstein (d. Erle C. Kenton, 1944),  A maldição de Frankenstein (d. Terence Fisher, 1957), O castelo de Frankenstein (d. Howard W. Koch, 1958), Orlak, o inferno de Frankenstein (d. Rafael Baledón, 1960), O horror de Frankenstein (d. Jimmy Sangster, 1970), A ilha de Frankenstein (d. Jerry Warren, 1981) e O exército de Frankenstein (d. Richard Raaphorst, 2013), será agora lançado o mais nauseabundo e repulsivo filme da série: O ministério de Frankenstein (d. Dilma Rousseff, 2015).

O dado novo é que as partes de cadáveres (políticos) das quais foi formado o monstro FEDEM horrivelmente. Pior do que matadouro e depósito de lixo. 

Uma tem a catinga do agronegócio, outras o bodum da banca, há miasma de florestas queimadas e, inclusive, a morrinha enjoativa da exploração da fé.

Se tivesse sido utilizada a técnica do smellit (dispositivo que emite odores na platéia durante a projeção do filme), a debandada dos espectadores seria pior que estouro da boiada. 

É o monstro mais abominável que já vimos. Afugentaria até a Mary Shelley.

domingo, 28 de dezembro de 2014

DARIO ARGENTO E SEU CULT SOBRE A BRUXA DOS SUSPIROS

Um dos diretores italianos que mais aproximam o gênero de terror do grande cinema é Dario Argento, com seu visual requintadíssimo e as magníficas trilhas sonoras, puxadas para a ópera e para o rock. 

O artesanato de som e imagem, contudo, não costuma encontrar equivalência nos roteiros; geralmente, fico imaginando quão longe ele iria com textos melhores nas mãos... 

E olhem que foi como roteirista que ele iniciou a carreira! Mas, seu único trabalho memorável, Era uma vez no Oeste (d. Sergio Leone, 1966), foi uma coautoria da história original, criada por ele, Bernardo Bertolucci e o próprio Leone.

Apesar dos pesares, ele tem ao menos duas obras-primas no currículo: o filme para ver no blogue abaixo disponibilizado, o cult Suspiria (1977); e A mansão do inferno (1980), que particularmente considero melhor, na contramão da maioria dos críticos cinematográficos.

Fazem parte da chamada trilogia das três mães, sobre poderosas bruxas que viriam exercendo poderosa influência maligna através dos séculos: a mãe dos suspiros, a mãe das trevas e a mãe das lágrimas

Antes, ele fizera uma trilogia de animais, bem inferior (o gênero giallo, com seus assassinos seriais e sua sanguinolência oportunista, é um pé no saco!): O pássaro das plumas de cristal (1970), O gato de nove caudas (1971) e Quatro moscas sobre veludo cinza (1971).

Infelizmente, Argento fechou o ciclo das más mães já decadente, com uma produção extemporânea e de parcos recursos, O retorno da maldição (2007), dando a impressão de que apenas quis faturar mais algum aproveitando o volume morto da sua represa...

Suspiria, sobre estranhos acontecimentos numa escola de danças em regime de internato, é uma de suas obras em que fica mais evidente a influência de Alfred Hitchcock. Trata-se, basicamente, de um thriller que se encaminha para um desfecho sobrenatural. No elenco inexpressivo (outra marca registrada dos filmes de Argento, que investe mais na direção de atores do que na contratação de atores...), destaque para a presença do cantor Miguel Bosé. 

Infelizmente, os cães de guarda dos direitos autorais 
retiraram do ar a versão legendada deste filme. Tão logo
surja alguma, eu a colocarei no lugar desta, falada em italiano.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

APOLO NATALI QUER QUE BAURU TENHA UMA AVENIDA PELÉ. VEJA COMO AJUDAR.

O veterano jornalista Apollo Natali ficou estarrecido ao saber que a cidade paulista de Bauru, onde cresceu Edson Arantes do Nascimento, está em dúvida sobre se deve ou não batizar uma de suas vias públicas com o nome de Avenida Pelé.

Quem concordar com o Apollo, poderá enviar aos vereadores de Bauru (cujos e-mails estão no pé desta matéria) a sua eloquente carta aberta, abaixo reproduzida. É só copiar e colar. 

Quanto ao prefeito Rodrigo Antônio de Agostinho Mendonça e ao secretário de Gabinete Arnaldo Ribeiro Pinto, só podem ser contatados pelo PABX (14) 3235-1000.

CARTA ABERTA À CIDADE, ÀS 
AUTORIDADES E AO POVO DE BAURU

Até hoje continua sendo sua a coroa de rei do futebol
Boa gente de Bauru, ouçam-me todos!
   
Permitam-me que me apresente: já perto dos 80, sou jornalista da imprensa escrita há 50 anos, com a particularidade de ter acompanhado a vida de Pelé em coberturas dos seus jogos e nas redações de O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde desde que ele chegou ao Santos Futebol Clube, ainda um adolescente. 

O mundo inteiro chorou, eu chorei, em meio ao clima de velório daquele triste momento em que esse ser negro fantástico, que já pertence à História do Brasil, parou de jogar. Foi enorme a minha emoção quando escrevi uma crônica para a Agência Estado, em 1974, no momento em que os campos de futebol ficaram órfãos de Pelé. Republicada (vide aqui) num blogue do meu amigo e antigo companheiro de redação na AE, Celso Lungaretti , ela voltou a rodar o mundo em 2014 e está prestes a se tornar parte do acervo do Museu Pelé, em Santos. 

Recordem nesse meu texto choroso a grandeza desse jogador de futebol que levou o nome do Brasil a todos os cantos do planeta, quando nosso país era conhecido como uma terra de onças e de bananas, cuja capital seria Buenos Aires...
Pelé sendo homenageado em Bauru. O que mudou?

Pois bem. Correm boatos de que Bauru não gosta de Pelé. Vejam só! Bauru, a Terra Prometida, o solo sagrado onde o iluminado começou nos campinhos de várzea a desenvolver a sua majestade no futebol! 

Ele veio de Três Corações, em Minas Gerais, todos sabem, e chegou a Bauru com três anos de idade. De lá para cá mudou o futebol com seus dribles, gestos e gols pelo mundo afora. 

Quando Pelé surgiu, a espécie humana se apressou em abrir mapas para localizar o país do menino que chegou a parar uma guerra na África porque amigos e inimigos queriam vê-lo em campo.

O que me angustia, querido povo de Bauru, é o seguinte: dizem os meus amigos que vocês repudiam nomear uma avenida da cidade com o nome de Pelé: Avenida Pelé. Que me perdoem os outros merecedores candidatos a nome de uma avenida que está prestes a ser batizada, mas reconhecimento a Pelé por parte de Bauru é fundamental. 

Sem poder entrevistar cada morador para perguntar por que estão prestes a arremessar Pelé no lixo da história da grande, querida e próspera cidade paulista que ele tornou em museu mundial do futebol, fui beber nos livros que falam da filosofia da História. Pelé é História. Nome de rua é História. Afinal, qual a utilidade da História, se é que ela tem alguma? Será a História um contraponto à fragilidade da memória humana?
Já famoso, posa relembrando os tempos de menino pobre.

Nas minhas procuras, encontrei o historiador Marc Bloch (1866-1944), que trabalhou incansavelmente em defesa de uma História ampla e mais humana. Pensando nos boatos e nos juízos críticos sobre Pelé que varrem Bauru, aprendi com esse historiador que, para descobrir como boatos e juízos ganham crédito, devemos examinar a consciência coletiva de um povo. Para Marc Bloch, os juízos críticos são lentes de aumento por meio dos quais vemos obscuramente a consciência coletiva. Por que a consciência coletiva de Bauru, berço de um milagroso futebol, rejeita Pelé? Por que Bauru não quer uma avenida com seu nome?

Fosse eu pintor, gravaria em tinta para os pósteros a criação dos desconhecidos porém mais fascinantes gols de Pelé: a maneira como ele guardava a bola em casa quando criança. Todo o dia, depois de horas suando nos campinhos de terra da brasileiríssima Bauru, Pelé chutava a bola de longe, lá da rua, e assim de maneira certeira, estufava as redes imaginárias do portão estreito de sua casa, igualzinha às outras da vizinhança.
Muita água passou debaixo da ponte desde então...

Fica a obra e esquece-se o autor, diz a glória da literatura brasileira, o escritor  Machado de Assis. No entanto, numa histórica inauguração da Avenida Pelé, a cidade de Bauru não só vai eternizar a obra do gênio do futebol como não vai esquecer seu autor, pois deixará gravada em bronze, para a eternidade, estas palavras
"Pelé, rei do futebol. Como jogador, Pelé conquistou tudo e mais um pouco. Em 21 anos como profissional participou de 1.375 partidas e marcou incríveis 1.285 gols. Uma espetacular média de 0,93 por jogo. Além disso, Pelé conquistou mais de 50 títulos em sua carreira, entre eles três Copas do Mundo, em 1958, 1962 e 1970, duas Copas Libertadores e dois mundiais interclubes com a camisa do Santos, em 1962 e 1963. Em 1980 o craque foi eleito o Atleta do Século, pelo jornal francês L'Equipe".    
Viva a Avenida Pelé!
E-MAILS DOS VEREADORES DE BAURU

sandrobussola@bauru.sp.leg.br;farianeto@bauru.sp.leg.br;limajunior@bauru.sp.leg.br;fabianomariano@bauru.sp.leg.br;fabiomanfrinato@bauru.sp.leg.br;mantovani@bauru.sp.leg.br;carlaodogas@bauru.sp.leg.br;carlinhosdops@bauru.sp.leg.br;markinho@bauru.sp.leg.br;moisesrossi@bauru.sp.leg.br;natalinodapousada@bauru.sp.leg.br;drpaulo@bauru.sp.leg.br;drraulpaula@bauru.sp.leg.br;purini@bauru.sp.leg.br;sakai@bauru.sp.leg.br;roque@bauru.sp.leg.br;dra.telmagobbi@bauru.sp.leg.br 

O MINISTÉRIO DA DILMA É DE FIM DE FEIRA OU É O FIM DA PICADA?

Há pouco mais de um mês, quando o Brasil, perplexo, tomava conhecimento das primeiras escolhas para a nova equipe ministerial, comentei:
"Segundo mandato presidencial no Brasil costuma ser fim de feira, mas Dilma Rousseff não precisava exagerar. Os nomes que vão sendo definidos para o seu novo Ministério parece que conseguirão o impossível: fazer-nos sentir saudades do anterior..."
Na verdade, a relação de feios, sujos e malvados supera os piores augúrios. É um pesadelo.

Vou pegar carona em textos de dois brilhantes colegas, para não ter o desprazer de avaliar pessoalmente figuras tão repulsivas.

Para o blogueiro Leonardo Sakamoto, se 2014 não terminar logo a Dilma acabará convidando até o Tiririca. Eis como ele vê alguns dos nomes já definidos:
"Você pode escolher, o estelionato eleitoral (Joaquim Levy controlando a economia), a afronta (Kátia Abreu à frente da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), a provocação (Gilberto Kassab, no Ministério das Cidades) ou o-professor-tem-que-trabalhar-por-amor-não-por-dinheiro (Cid Gomes, na Educação).
Ou um comunista (Aldo Rebelo), que afirmou que não acredita que o ser humano é responsável pelo processo de aquecimento global, no Ministério da CIÊNCIA e Tecnologia.
Teve até espaço para as velhas tradições, como a família Barbalho (Helder, na Pesca). Sem contar o Ministério do Esporte, que foi entregue a Deus".
Quanto aos antecedentes do agora ministro do Esporte, o Juca Kfouri informa que, em julho de 2007, o tal George Hilton "foi expulso do PFL por ter sido flagrado no aeroporto de Belo Horizonte com malas de dinheiro que seriam provenientes de doações de membros da Igreja Universal do Reino de Deus".

A Polícia Federal o surpreendeu com algo em torno de R$ 600 mil em dinheiro e cheques, distribuídos por 11 caixas de papelão. Provavelmente, ele supôs que sua condição de deputado estadual o livraria de apuros.

Até quando os presidentes da República lotearão cargos com tal impudor, aceitando cegamente as indicações dos crapulosos partidos que lhes dão apoio no Congresso?

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

CENSURA A "CAÇADAS DE PEDRINHO": PATRULHEIROS CRICRIS DERROTADOS!

Os patrulheiros cricris, aqueles adeptos fanáticos do politicamente correto, querem porque querem impor à sociedade brasileira seu preconceito boçal contra Monteiro Lobato, o maior escritor de literatura infanto-juvenil que o País já produziu. E, merecidamente, colhem derrota após derrota.

Tudo começou quando um analfabeto funcional do Conselho Nacional de Educação não compreendeu o que qualquer menino de 10 anos poderia ter-lhe explicado: que a personagem Emília, ao disparar insultos como "macaca de carvão" contra a Tia Nastácia, jamais expressou a opinião do autor. 

A boneca de pano é sempre caracterizada como petulante e desaforada, daí repetir grosserias que naquele tempo eram realmente assacadas contra os negros --e que Lobato sempre repudiou com máxima indignação! Quem vocaliza as convicções e valores de Lobato, qualquer leitor sabe, são a Dona Benta e o Visconde de Sabugosa.

Então, o tacanho burocrata propôs que o livro Caçadas de Pedrinho fosse emasculado com a inclusão de uma delirante nota explicativa sobre racismo ao ser distribuído pelo governo federal, no âmbito do Programa Nacional Biblioteca na Escola. Nossos melhores intelectuais, em uníssono, detonaram a pretensão asnática e seu viés inquisitorial.

Como a censura artística havia acabado ainda na ditadura militar, sem deixar saudade nenhuma, o Ministério da Educação rechaçou a proposta indecente. Para todos os efeitos, a pendenga estava encerrada.

Os sucedâneos da dona Solange (*), contudo, não se deram por vencidos, entrando com mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal.

O ministro Luiz Fux o rejeitou na sexta-feira passada (19). Afinal, o art. 5º da Constituição Federal estabelece com máxima clareza que "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença". Quem tenta introduzir uma forma velada de censura está, simplesmente, afrontando a Constituição.

Os herdeiros de Torquemada anunciaram que nem desta vez se curvarão à evidência dos fatos. Pretendem submeter o assunto ao plenário do STF e, em seguida, recorrerem aos tribunais internacionais.

Você não entendeu errado, eles já dão a próxima batalha como perdida e fazem planos para as posteriores...

Finalizando:
  1. Pelo andar da carruagem, lá por 2090 eles certamente estarão acionando os tribunais galáticos;
  2. talvez almejem o estrelato cinematográfico, pois sua faina inglória poderá inspirar uma sequência da comédia Muito barulho por nada;
  3. vão ser chatos e pirracentos na ponte que partiu!
* Solange Teixeira Hernandes, diretora do Departamento de Censura Federal no período1980/84, acabou simbolizando toda a corja dos censores.

HOJE O NATAL É DO TEMPLO E SEUS VENDILHÕES. UM DIA SERÁ DOS EXPLORADOS, HUMILHADOS E OFENDIDOS.

"Oh! no eres tu mi cantar.
No puedo cantar, ni quiero,
a esse Jesus del madero,
sino al que anduvo en la mar"
(Antonio Machado)

O que o mundo realmente celebra no Natal? A saga de um carpinteiro que trouxe esperança a pescadores e outras pessoas simples de um país subjugado ao maior império da época.

Os primeiros cristãos eram triplamente injustiçados: economicamente, porque pobres; socialmente, porque insignificantes; e politicamente, porque tiranizados.

Jesus Cristo nasceu três décadas depois da maior revolta de escravos enfrentada pelo Império Romano em toda a sua existência.

As mais de 6 mil cruzes fincadas ao longo da Via Ápia foram o desfecho da epopeia de Spartacus, que, à sua maneira rústica, acenou com a única possibilidade então existente de revitalização do império: o fim da escravidão. Roma ganharia novo impulso caso passasse a alicerçar-se sobre o trabalho de homens livres, não sobre a conquista e o chicote.

Vencido Spartacus, não havia mais quem encarnasse (ou pudesse encarnar) a promessa de igualdade na Terra.
Spartacus, o gladiador.

Jesus Cristo a transferiu, portanto, para o plano místico: todos os seres humanos seriam iguais aos olhos de Deus, devendo receber a compensação por seus infortúnios num reino para além deste mundo.

Este foi o cristianismo das catacumbas: a resistência dos espíritos a uma realidade dilacerante, avivando o ideal da fraternidade entre os homens.

Hoje há enormes diferenças e uma grande semelhança com os tempos bíblicos: o império igualmente conseguiu neutralizar as forças que poderiam conduzir a humanidade a um estágio superior de civilização.

A revolução é mais necessária do que nunca, mas inexiste uma classe capaz de assumi-la e concretizá-la, como o fez a burguesia, ao estabelecer o capitalismo; e como se supunha que o proletariado industrial fizesse, edificando o socialismo.

AS AMEAÇAS DE CATÁSTROFES E O FANTASMA DO RETROCESSO

O fantasma a nos assombrar é o de que ocorra algo semelhante ao fim do Império Romano: ou seja, que tal impasse nos faça retroceder a um estágio há muito superado em nosso processo evolutivo.

O capitalismo hoje produz legiões de excluídos que fazem lembrar os bárbaros que deram fim a Roma; não só os que vivem na periferia do progresso, mas também os miseráveis existentes nos próprios países abastados, vítimas do desemprego crônico.

E as agressões ao meio ambiente, decorrentes da ganância exacerbada, estão atraindo sobre nós a fúria dos elementos, com conseqüências avassaladoras. Décadas de catástrofes serão o preço de nossa incúria.

No entanto, como disse o grande jornalista Alberto Dines, “criaturas e nações cometem muitos desatinos, mas na beira do abismo recuam e escolhem viver”.

Se a combinação do progresso material com a influência mesmerizante da indústria cultural tornou o capitalismo avançado praticamente imune ao pensamento crítico e à gestação/concretização de projetos alternativos de organização da vida econômica, política e social, tudo muda durante as grandes crises, quando abrem-se brechas para evoluções históricas diferentes.

Temos pela frente não só a contagem regressiva até que as contradições insolúveis do capitalismo acabem desembocando numa depressão tão terrível como a da década de 1930, como a sucessão de emergências e mazelas que decorrerão das alterações climáticas.

O sofrimento e a devastação serão infinitamente maiores se os homens enfrentarem desunidos esses desafios. Caso as nações e os indivíduos prósperos venham a priorizar a si próprios, voltando as costas aos excluídos, estes morrerão como moscas.

O desprendimento, substituindo a ganância; a cooperação, em lugar da competição; e a solidariedade, ao invés do egoísmo, terão de dar a tônica do comportamento humano nas próximas décadas, se as criaturas e nações escolherem viver.

E há sempre a esperança de que os mutirões criados ao sabor dos acontecimentos acabem apontando um novo caminho para os cidadãos, com a constatação de que, mobilizando-se e organizando-se para o bem comum, eles aproveitam muito melhor as suas próprias potencialidades e os recursos finitos do planeta.

Então, para além deste Natal mercantilizado, que se tornou a própria celebração do templo e de seus vendilhões, vislumbra-se a possibilidade de outro. O verdadeiro: o Natal cristão, dos explorados, dos humilhados e ofendidos.

Se frutificarem os esforços dos homens de boa vontade.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

COMO JOE COCKER MERECE SER LEMBRADO

Não consigo imaginar um Joe Cocker septuagenário  e combalido, morrendo de câncer no pulmão. Nem quero. 

No que depender de mim, ele estará sempre num palco de sonhos, chapadíssimo, a dedilhar sua guitarra imaginária. 

E eu dele me lembrarei como o herdeiro de Ray Charles, o inglês de voz rouquenha e interpretação pungente, que cantou o blues como branco nenhum e poucos negros foram capazes. 

E como o responsável por dois dos momentos musicais mais luminosos que tive a felicidade de presenciar (só nas telas, infelizmente): a performance de arrepiar no Festival paz & amor de Woodstock e os números finais do filme Joe Cocker, Mad Dogs & Englishmen.

Um dos quais encontrei em boas condições e estou disponibilizando abaixo, pois é assim que o Joe merece ser lembrado, na plenitude do seu vigor e de sua arte.



OU DILMA SALVA GRAÇAS, OU SALVA A PETROBRÁS. AMBAS, NÃO DÁ.

Não precisaremos esperar até janeiro de 2016 para assistirmos ao Missão Impossível 5, ainda em fase de produção. Algo bem parecido, só que mais inverossímil ainda, acaba de ser visto no Brasil.

Foi no café da manhã no Palácio do Planalto desta 2ª feira (22), quando a presidenta Dilma Rousseff mostrou acreditar que ainda seja possível salvar a chefona da Petrobrás, Graças Foster, ao afirmar que sua demissão "não é necessária". 

Foi algo tão estapafúrdio como se o comandante do Titanic, depois do navio chocar-se com o iceberg, tivesse dito que a evacuação dos passageiros era dispensável...

Só nos vossos sonhos, presidenta. No mundo real, trata-se do primeiro e fundamental passo para o governo deter o derretimento da Petrobrás. Esta ficha já deveria ter caído para V. Exa. há muito tempo. 

Tanto que, nesta altura do campeonato, não tem mais a menor importância a honestidade ou não da vossa protegida. Podemos até admitir que ela haja deixado de tomar as providências indispensáveis contra a corrupção explícita na estatal porque havia obstáculos políticos intransponíveis, do tipo herança maldita

E daí? O certo é que se conformou com uma situação inaceitável e o elástico, de tanto ser esticado, arrebentou na cara dela. Agora, Graças está além de qualquer possibilidade (não catastrófica) de salvação.

Ou seja, a alternativa que resta para Dilma é exonerá-la o quanto antes ou impor ao Brasil um prejuízo de bilhões e bilhões de dólares, pois a Petrobrás perde valor de mercado a cada dia que passa.

Os investidores só acreditarão que há chance de recuperação se a direção for mudada; caso contrário, a sangria continuará até o mais amargo fim. É simples assim.

Quem quer participar da política oficial, tem de aceitar as regras do jogo. Quando eu percebi que não me passariam pela goela as concessões inerentes, desisti para sempre, optando pela integridade.

No caso da Dilma, contudo, é tarde demais, comprometeu-se até 2018. Então, só lhe resta seguir adiante no rumo livremente escolhido; e, portanto, deve agir conforme o seu cargo impõe, doa o quanto lhe doer.

Um paradoxo: por mais que se esforçassem, os privatizantes nunca conseguiram afundar tanto a Petrobrás quanto os últimos governos, ideologicamente simpáticos à estatal. O caminho do inferno está pavimentado de boas intenções.

O FILME DE TERROR POLÍTICO DO CRIADOR DE FREDDY KRUEGER

Embora não seja um grande filme de terror, resolvi postar aqui A maldição dos mortos-vivos (1988) por um detalhe pitoresco: o pano de fundo político sobre o qual o diretor Wes Craven projetou sua fantasia sobrenatural.

Um misto de aventureiro e investigador de campo a serviço da ciência, Dennis Alan (Bill Pullman) é enviado por uma multinacional farmacêutica ao Haiti, com a missão de surrupiar a droga utilizada para transformar pessoas em zumbis. O motivo: averiguar se seu princípio ativo pode entrar na fórmula de anestésicos.

Presumivelmente para dar respeitabilidade ao que não passa de entretenimento, aparece na tela a afirmação de que o filme seria baseado numa história real. Talvez tenha existido mesmo algum interesse dos tubarões da química nas substâncias empregadas nos rituais do vudu (a macumba haitiana). Ou o que há de verídico seja a queda da ditadura do Baby Doc Duvalier. Não consegui esclarecer; o certo é que a inverossimilhança marca 99% do enredo.

O tal Alan (obviamente inspirado no Indiana Jones de Spielberg) se choca com a  determinação das autoridades em protegerem as riquezas nativas da cobiça do Império. Chega até a ser zumbificado, mas se recupera bem a tempo de mandar para o inferno o chefe dos terríveis tonton macoutes (a polícia política do regime), aproveitando a confusão reinante quando da derrubada do filho do Papa Doc. O fim da tirania é simbolizado pela desdita do Ustra macumbeiro de lá.

Dos principais cineastas do gênero terror nas últimas décadas, Craven é o menos brilhante, ficando vários pontos abaixo de Dario Argento, George A. Romero e John Carpenter. Acertou na loteria ao roteirizar e dirigir  A hora do pesadelo (1984), o primeiro título da interminável série do Freddy Kruger, mas nunca repetiu a dose, pelo menos em termos qualitativos (para encher seus bolsos a franquia Pânico também serviu, mas não passava de terrir caça-niqueis...). 

domingo, 21 de dezembro de 2014

A BELA VENINA E AS FERAS DO PODER

Um dos meus artigos mais controversos de todos os tempos foi Combate à corrupção é bandeira da direita (vide íntegra aqui), que lancei em abril de 2009, alguns meses depois que parte da esquerda pateticamente tomou partido numa guerra de gangsteres pelo mercado de telecomunicações, travada bem no centro dos podres poderes.  Enojara-me sobremaneira o endeusamento a um delegado metido a Quixote, mas que não passava do laranja de uma das facções mafiosas.

Como a sucessão de escândalos na política e na economia parecia não ter mais fim (dura até hoje, por sinal...), resolvi recolocar em circulação a tese corretíssima do Paulo Francis, de que só à direita convém manter a opinião pública mesmerizada por esses roubos menores, intrínsecos ao capitalismo, enquanto é levada a passar batido pelo maior de todos os roubos: a propriedade privada dos meios de produção.

Assim, quando a lama novamente inundava o noticiário, escrevi estas verdades:
"...a desproporção entre o dano causado ao cidadão comum pelos ladrões de galinha da política e as atividades corriqueiras dos capitalistas é incomensurável.
O capitalismo nos acarreta:
* emergências ecológicas como as alterações climáticas que ameaçam a própria sobrevivência da nossa espécie; 
* recessões desnecessárias como a atual (que ainda não se sabe se evoluirá ou não para depressão);
* a condenação de parcela considerável da humanidade a vegetar em condições subumanas;
* o desperdício criminoso do potencial ora existente para assegurar-se a cada habitante deste sofrido planeta o mínimo condizente com uma sobrevivência digna;
* a mobilização permanente dos homens para atividades improdutivas e desnecessárias ao invés da redução da jornada de trabalho para que todos possam desenvolver-se plenamente como seres humanos; 
* etc. (muitos, muitos etcéteras!).
 ...interessa aos defensores do capitalismo fazer a patuléia acreditar que a razão maior de seus apuros econômicos são os impostos, que estes acabam sendo em grande parte desviados pelos políticos e que isto, só isto, impediria nosso país de deslanchar.
Ademais, as intermináveis denúncias de corrupção acabam minando as esperanças do cidadão comum na transformação da realidade por meio da ação política. Se tudo não passa de um lodaçal, as pessoas de bem devem mesmo é cuidar de sua vida...
De quebra, fornecem pretextos para quarteladas, sempre que os meios de controle democráticos das massas não estão funcionando a contento..."
Coerentemente, escândalos como o do mensalão e o do petrolão só entram nos meus textos em função de suas consequências políticas. Pouco me importariam as investigações da Polícia Federal e a miséria moral dos delatores premiados, se as revelações bombásticas não parecessem estar pavimentando o caminho para uma tentativa de impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Afinal, acusações de corrupção já derrubaram um presidente (Fernando Collor) e ajudaram a derrubar outros três (Washington Luís, Getúlio Vargas e João Goulart).

Jamais poderia, contudo, ignorar uma das escaramuças da batalha de opinião que se trava entre acusadores e defensores da direção da Petrobrás: as tentativas de desqualificação da ex-gerente Venina Velosa da Fonseca, uma Francenildo de saias, que certamente seria aclamada pelo PT dos velhos e bons tempos.  Como a perspectiva dos companheiros mudou depois da chegada ao poder!

Nem sequer se dão conta de que os relatos de Venina convencem por estarem vindo ao encontro do que todo cidadão minimamente perspicaz já terá percebido. Os ataques a ela, além de sórdidos, são contraproducentes, autênticos tiros pela culatra.

Quando um partido dos trabalhadores começa a satanizar caseiros e funcionários para livrar a cara de ministros e presidentas de empresas, é hora de refletir seriamente sobre se sua sigla não virou propaganda enganosa.

O assassinato de reputações é uma das práticas mais odiosas da nossa vil política. 

sábado, 20 de dezembro de 2014

UM FILME DE TRIBUNAL INESQUECÍVEL: "12 HOMENS E UMA SENTENÇA".


12 homens e uma sentença (1957), que escolhi a dedo para retomar a disponibilização de filmes para ver no blogue, é uma obra-prima do cinema humanista. Marcou a estréia do fundamental diretor Sidney Lumet na tela grande, depois de cinco anos desperdiçando talento com tralhas televisivas.  

O roteirista Reginald Rose estava inspiradíssimo ao criar esta história tão fora do padrão estadunidense: a ação se passa inteiramente na sala de deliberações de um júri. Parece teatro filmado, mas não é. E Lumet soube evitar uma possível monotonia ao criar um clima de tensão crescente, absorvente, não deixando a peteca cair em momento algum.

Além do tema fascinante, dos diálogos memoráveis e da excelência do trabalho de Lumet, um filmes desses depende em muito da escolha dos atores certos e da qualidade dos seus desempenhos. Foi outra bola dentro: nenhum destoou.

Num dia muito quente, no qual a ventilação (para piorar) não está funcionando, o que os jurados mais querem é um rápido desfecho, com a condenação a toque de caixa de um jovem porto-riquenho acusado de parricídio. 

Mas, a sentença precisa ser unânime e um deles (Henry Fonda, magnífico!) começa a levantar dúvidas e mais dúvidas, alegando que o advogado de ofício o defendera pessimamente. Vai desmontando a acusação e trazendo um a um para seu lado.

Outros atores superlativos: E. G. Marshall, Jack Warden, Lee J. Cobb e Martin Balsam.

Foi o pontapé inicial de uma carreira cinematográfica das mais consistentes do século passado. Lumet fez outro dos melhores filmes de tribunal de todos os tempos (O Veredicto, 1982) e tem no seu currículo preciosidades como O homem do prego (1964), A colina dos homens perdidos (1965), Até os deuses erram (1972), Rede de intrigas (1976) e O príncipe da cidade (1981).

A mesma história seria depois refilmada três vezes: 12 Homens e uma Sentença (d. William Friedkin, 1997), 12 (d. Nikita Mikhalkov, 2007) e Douze hommes en colère (d. Dominique Thiel, 2010). Nenhuma chega perto desta aqui. A picaretagem russa não credita a ideia original a Reginald Rose, embora salte aos olhos que a inspiração veio dela.

Por último: considero simplesmente grotesca a prática brasileira de impedir qualquer discussão entre os jurados, relegando a sua participação a entrarem mudos, a tudo assistirem sem dar um pio, preencherem um reles questionariozinho e saírem calados. Nossa formação é elitista e autoritária (em sentido amplo) a ponto de sequer admitir que os membros do júri troquem idéias entre si e, talvez, cheguem a conclusões diferentes das que promotores e advogados lhes propõem. Este filme mostra quão melhor seria se eles fossem encarados como adultos e seres pensantes...


Se as legendas não aparecerem, clique no 4º ícone da dir. p/ a esq.

O MELHOR DO NÁUFRAGO: "VARIAÇÕES SOBRE UMA POESIA DE BRECHT".

AOS QUE VIRÃO DEPOIS DE NÓS
Bertold Brecht

Eu vivo em tempos sombrios.
Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez,
uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ri, é porque
ainda não recebeu a terrível notícia.

Que tempos são esses, quando
falar de flores é quase um crime,
pois significa silenciar sobre tanta injustiça?

Aquele que cruza tranqüilamente a rua
já está, então, inacessível aos amigos
que se encontram necessitados?

É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas, acreditem: é por mero acaso.
Nada do que eu faço
me dá o direito de comer quando tenho fome.
Por acaso venho sendo poupado.
Se a minha sorte me abandona, estou perdido!

Dizem-me: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas, como é que posso comer e beber,
se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
Se o copo de água que bebo, faz falta a quem tem sede?
Mas, mesmo assim, eu continuo comendo e bebendo.

Eu queria ser um sábio.
Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:
manter-se afastado dos problemas do mundo
e sem medo passar o tempo
que se tem para viver na terra.

Seguir seu caminho sem violência,
pagar o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
Sabedoria é isso!
Mas, eu não consigo agir assim.
É verdade, eu vivo em tempos sombrios!

Eu vim para a cidade no tempo da desordem,
quando a fome reinava.
Eu vim para o convívio dos homens
no tempo da revolta
e me revoltei ao lado deles.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a Terra.

Eu comi o meu pão no meio das batalhas,
deitei-me entre os assassinos para dormir,
fiz amor sem muita atenção
e não tive paciência com a natureza.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a Terra.

Vocês, que vão emergir das ondas
em que nós perecemos, pensem,
quando falarem das nossas fraquezas,
nos tempos sombrios
de que tiveram a sorte de escapar.

Nós existíamos através da luta de classes,
mudando mais seguidamente de países
que de sapatos, desesperados!
Quando só havia injustiça e não havia revolta.

Nós sabemos:
o ódio contra a baixeza
também endurece os rostos!
A cólera contra a injustiça
faz a voz ficar rouca!
Infelizmente, nós,
que queríamos preparar
o caminho para a amizade,
não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.

Mas vocês, quando chegar o tempo
em que o homem seja amigo do homem,
pensem em nós com um pouco de compreensão.

EU VIVO NUM TEMPO DE GUERRA

Boal e Guarnieri (Arena conta Zumbi)

Eu vivo num tempo de guerra. Eu vivo num tempo sem sol.

Só quem não sabe das coisas é um homem capaz de rir. Ah, triste tempo presente, em que falar de amor e flor é esquecer que tanta gente está sofrendo tanta dor!

Todo mundo me diz que eu devo comer e beber. Mas, como é que eu posso comer? Mas, como é que eu posso beber? Se eu sei que estou tirando o que vou comer e beber de um irmão que está com fome, de um irmão que está com sede, de um irmão...

Mas, mesmo assim, eu como e bebo. Mas, mesmo assim: esta é a verdade!

Dizem crenças antigas que viver não é lutar. Que sábio é o que consegue ao mal com o bem pagar. Quem esquece a própria vontade, quem aceita não ter seu desejo, é tido por todos um sábio. É isso que eu sempre vejo. É a isso que eu digo NÃO!

Eu sei que é preciso vencer
Eu sei que é preciso brigar
Eu sei que é preciso morrer
Eu sei que é preciso matar

É um tempo de guerra
É um tempo sem sol
É um tempo de guerra
É um tempo sem sol

Sem sol, sem sol, tem dó!
Sem sol, sem sol, tem dó!

Ah, eu vivi na cidade no tempo das desordens, eu vivi no meio da gente minha no tempo da revolta, assim passei os tempos que me deram pra viver!

E você que me prossegue
E vai ver feliz a Terra
Lembre bem do nosso tempo
Desse tempo que é de guerra

Veja bem que preparando
O caminho da amizade
Não podemos ser amigos, ao mau
Ao mau vamos dar maldade

Se você chegar a ver
Essa terra da amizade
Onde o homem ajuda ao homem
Pense em nós só com bondade


AOS QUE VIERAM DEPOIS DE NÓS

(minha saudação aos jovens que 
reerguiam o movimento estudantil)

Jovens companheiros,

recebam o abraço de um náufrago da utopia de 1968, quando os melhores brasileiros, muitos deles tão novos como vocês, percorreram esses mesmos caminhos de idealismo e esperança, sem conseguirem levar a bom termo a jornada.

Eram tempos sem sol, em que só tinham testas sem rugas os indiferentes e só se davam ao luxo de rir aqueles que ainda não haviam recebido a terrível notícia.

Num país de tão gritante desigualdade social, eu e meus amigos chegávamos a ser tidos como privilegiados. E, tanto quanto a vocês, os reacionários empedernidos e os eternos conformistas nos diziam: “Come e bebe! Fica feliz por teres o que tens!”.

Da mesma forma que vocês agora, um dia percebemos que nada do que fazíamos nos dava o direito de comer quando tínhamos fome. Por acaso, estávamos sendo poupados – ao preço de silenciarmos sobre tanta injustiça.

E cada um de nós se perguntou: “Como é que eu posso comer e beber, se a comida que eu como, eu tiro a quem tem fome? Se o copo de água que eu bebo, faz falta a quem tem sede?”.

Escolhemos o caminho árduo dos que têm espírito solidário e senso de justiça.

Poderíamos, é claro, nos manter afastados dos problemas do mundo e sem medo passarmos o tempo que se tem para viver na terra. Mas, não conseguíamos agir assim. Viéramos para o convívio dos homens no tempo da revolta e nos revoltamos ao lado deles.

Foi uma luta desigual e trágica. Muitos daqueles com quem contávamos preferiram a “sabedoria” de seguir seu caminho sem violência, não satisfazendo seus melhores anseios, mas esquecendo-os. E se tornaram inacessíveis aos amigos que se encontravam necessitados.

No final, desesperados, trocávamos mais de refúgios do que de sapatos, pois só havia injustiça e não havia mais revolta.

Os que sobrevivemos, ainda amargamos a incompreensão dos que se puseram a falar sobre nossas fraquezas, sem pensarem nos tempos sem sol de que tiveram a sorte de escapar.

E assim transcorreram anos e décadas. Só nos restava confiar em que o ódio contra a vilania acabaria endurecendo novos rostos e que a cólera contra a injustiça um dia ainda faria outras vozes ficarem roucas.

A espera chegou ao fim. Saudamos esse movimento que vocês iniciaram e estão sustentando contra todas as incompreensões e calúnias, como o renascer da nossa utopia.

Nós, que tentamos e não conseguimos preparar o terreno para a amizade, temos agora a certeza de que a luta prosseguirá. E a esperança de que vocês vejam chegar o tempo em que o homem será, para sempre, amigo do homem.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

SAIBA POR QUE A "FOLHA" FICOU TÃO INCOMODADA COM O RELATÓRIO DA CNV

Despertando imensa indignação em 2009
Quem conhece o viés conservador/reacionário dos jornalões brasileiros, não se surpreendeu com a defesa incondicional que os três principais (O Estado de S. Paulo, a Folha  de S. Paulo e O Globo) fizeram da indefensável anistia de 1979, cuja revisão acaba de ser recomendada por alguns integrantes da Comissão Nacional da Verdade e por dois ministros do Supremo Tribunal Federal.

Ao defenderem-na, tais tentáculos da indústria cultural omitem que ela não passou de um mostrengo jurídico, a mera imposição da lei do mais forte sobre uma oposição expurgada (por frequentes cassações dos mandatos de seus parlamentares) e chantageada (a libertação de centenas de presos políticos e a permissão de volta dos exilados dependiam de sua anuência a tal grotesquerie). 

Assim como a presidenta Dilma Rousseff, entoam em uníssono a cantilena do respeito aos "pactos e acordos que levaram o país à redemocratização", sem jamais esclarecerem que o pacto se deu entre Fausto e Mefistófeles, e que o acordo foi selado por quem mantinha reféns com quem ansiava por vê-los livres.

A ONU, a OEA e o Direito internacional desconsideram quaisquer simulacros de anistias gestados em plena vigência do arbítrio, com o objetivo de fornecerem uma espécie de habeas corpus preventivo para agentes do Estado que estupraram os direitos humanos (e para os seus mandantes).

Semeando a confusão em 1964
Também não causa surpresa nenhuma o fato de que, dos três, seja o mais envolvido com as atrocidades da ditadura quem mais se esforce para desacreditar o relatório final da CNV.

Assim, em editorial de 12/12/2014, Página virada (vide íntegra aqui), a Folha sustentou uma tese das mais estapafúrdias e ofensivas para os brasileiros, qual seja a de que o axiomático para os países civilizados não vige nestes tristes trópicos:
"Não é sensato nem desejável que compromissos internacionais assumidos pelo Brasil, determinando que a tortura é crime imprescritível, possam sobrepor-se à soberania jurídica nacional quando se trata das próprias fundações do Estado de Direito entre nós"
Ou seja, o editorialista quis fazer-nos crer que apurarmos a responsabilidade por crimes hediondos e punirmos os culpados abalaria as "próprias fundações do Estado de Direito entre nós". Quem mais estaremos impedidos de submeter à Justiça? Os grandes traficantes? Os exploradores da pornografia infantil? Os assassinos seriais?

Será que este disparate provém do mesmo profissional que, em 17/02/2009 (vide aqui), qualificou de ditabranda o despotismo vigente no Brasil entre 1964 e 1985?

Para que a Folha do último dia 12 tivesse jeitão de sexta-feira 13, não poderia faltar a contribuição do Vlad Dracul do colunismo político, Reinaldo Azevedo. Em Comissão Nacional da Farsa (vide aqui), ele repetiu a falácia predileta dos ogros da ditadura e dos cuervos por eles criados, a de que algozes e vítimas são equiparáveis:
"Os assassinatos cometidos por terroristas não ocuparam o tempo dos donos da verdade. Segundo eles, são 434 os mortos e desaparecidos. As 120 pessoas eliminadas pelo terrorismo viraram esqueletos descarnados também de memória".
Colaborando com a repressão em 1970
Quais terroristas, cara pálida? Os inventados nos anos de chumbo pelos serviços de Guerra Psicológica das Forças Armadas, ao aplicarem um rótulo descabido a quem justificadamente pegou em armas contra uma ditadura?

Tratou-se de uma ignominiosa manipulação, que visava a efeitos meramente propagandísticos. Até as pedras sabem que os resistentes jamais pretenderam insuflar o terror, mas sim libertar o País de tiranos --os quais, eles sim, recorreram desmedidamente ao terrorismo (de estado) para manter o povo brasileiro amedrontado e subjugado.

Vale repetir: a resistência à tirania é um direito inalienável dos cidadãos, que remonta à Antiguidade e hoje ninguém mais contesta no mundo civilizado. Então, não é o caso de, simplesmente, compararmos atos de violência com outros atos de violência, como se fossem grandezas equivalentes.

A violência perpetrada por agentes do Estado, visando à perpetuação de um governo ilegítimo (pois resultante de uma quartelada), tem uma caracterização jurídica diametralmente oposta à da violência praticada por civis que, em condições de extrema inferioridade de forças, resistiam a tal despotismo.

Ademais, a violência dos agentes do Estado foi relevada, estimulada e acobertada, permanecendo impune até hoje, enquanto a violência dos resistentes já foi punida nos anos de chumbo --da forma mais arbitrária e com rigor extremo, quase sempre descambando para a bestialidade.

RA deveria estar-se mirando no espelho, quando escreveu que "esse relatório é um lixo moral"...

Por último, é alogiável que a Folha de 15/12/2014, ao dar voz aos familiares de vítimas da esquerda (vide aqui), tenha apresentado os dois lados do caso do empresário Henning Albert Boilesen:
Retaliada pelos resistentes em 1971
  • o compreensível desabafo do filho (segundo quem se tratava de "um pai de família que, certo dia, despediu-se da mulher, saiu para trabalhar e levou 25 tiros na cabeça de terroristas de esquerda"); 
  • e também a informação de que "o relatório da Comissão Nacional da Verdade afirma que Boilesen era um empresário que arrecadava recursos para o aparato de repressão e que chegou a importar um aparelho de choques e a assistir a sessões de tortura".

Poderia explicar melhor, claro. Boilesen não foi um financiador da repressão qualquer, mas sim o principal deles. Ao criarem a Operação Bandeirantes, as Forças Armadas não assumiram de imediato a paternidade do monstro, deixando que permanecesse durante o segundo semestre inteiro de 1969 na semiclandestinidade: não tinha existência legal, mas mandava mais do que o Deops, ao qual institucionalmente competia a repressão aos subversivos.

Então, foi uma vaquinha organizada por Boilesen junto a seus amigos (empresários fascistas) que bancou o funcionamento da Oban, pois, naquele tempo, era menos usual o desvio de recursos orçamentários para outras finalidades. Esta situação persistiu até 1970, quando os militares instituíram o DOI-Codi (que absorveu a Oban, legalizando-a...).

E foi também graças aos esforços de Boilesen que os órgãos de repressão passaram a contar com generosas doações para premiarem os torturadores que capturassem ou matassem os membros da resistência. Havia até uma tabelinha de preços por cabeça, à maneira dos cartazes de procurado vivo ou morto que vemos nos filmes de faroeste.

Qual movimento de resistência de qualquer país e de qualquer época que não justiçaria alguém como Boilesen, o homem que alimentava e açulava os pitbulls responsáveis por tantas mortes e torturas de seus quadros?
Manifestação diante da delegacia que sediou a Oban

De qualquer forma, a Folha pelo menos fez constar, ainda que sucintamente, o outro lado referente ao Boilesen. Só esqueceu do outro lado referente a si própria, pois, no mesmíssimo capítulo referente ao Boilesen, o relatório final da CNV também a cita:
"Ficou conhecido o banquete organizado pelo ministro Delfim Netto no Clube São Paulo, antiga residência da senhora Viridiana Prado, durante o qual cada banqueiro, como Amador Aguiar (Bradesco) e Gastão Eduardo de Bueno Vidigal (Banco Mercantil de São Paulo), entre outros, doou o montante de 110 mil dólares para reforçar o caixa da Oban.
Ao lado dos banqueiros, diversas multinacionais financiaram a formação da Oban, como os grupos Ultra, Ford, General Motors, Camargo Corrêa, Objetivo e Folha (grifo meu)".
E, mais adiante:
"...a pesquisadora Beatriz Kushnir constatou a presença ativa do Grupo Folha no apoio à Oban, seja no apoio editorial explícito no noticiário do jornal Folha da Tarde, seja no uso de caminhonetes da Folha para o cerco e a captura de opositores do regime".
Vale lembrar, ainda, que a Folha foi o grande jornal mais tímido no repúdio ao sórdido papel histórico que desempenhara nos anos de chumbo.

A família proprietária do Estadão jamais escondeu sua participação no golpe de 1964, mas se distanciou dos militares quando estes descumpriram a promessa de devolver o poder saneado aos civis e, ao invés disto, radicalizaram a ditadura. A partir de então, O Estado de S. Paulo e o Jornal da Tarde mantiveram postura exemplar, denunciando o arbítrio e se tornando alvos preferenciais da censura. 

Os Mesquitas mostraram até coragem pessoal em algumas situações, como quando orientaram os seguranças da casa a impedirem que os agentes do DOI-Codi sequestrassem um jornalista no ambiente de trabalho  (o dito cujo acabou saindo do prédio no porta-malas do carro do patrão e sendo oculto no sítio do mesmo).

O Globo só deu a mão à palmatória em 31/08/2013 (vide aqui), mas, pelo menos, o fez ostensivamente.

Já a Folha, torcendo para que passasse o mais despercebido possível, inseriu este texto num caderno comemorativo do seu 90º aniversário, acrescentado à edição de 19/02/2011, mais como álibi para quando alguém a acusasse de jamais ter feito a indispensável autocrítica. 

Passaria despercebido em meio ao auê louvaminhas para si própria, caso a ombudsman não tivesse aludido a ele na sua coluna dominical, frustrando a matreirice. Eis o que o jornal sorrateiramente admitiu, entre outros pecados:
"...A partir de 1969, a 'Folha da Tarde' alinhou-se ao esquema de repressão à luta armada, publicando manchetes que exaltavam as operações militares.
A entrega da Redação da 'Folha da Tarde' a jornalistas entusiasmados com a linha dura militar (vários deles eram policiais) foi uma reação da empresa à atuação clandestina, na Redação, de militantes da Ação Libertadora Nacional, de Carlos Marighella... 
...Segundo relato depois divulgado por militantes presos na época, caminhonetes de entrega do jornal teriam sido usados por agentes da repressão, para acompanhar sob disfarce a movimentação de guerrilheiros. A direção da Folha sempre negou ter conhecimento do uso de seus carros para tais fins".
A última frase é daquelas que outrora, invariavelmente, despertavam o comentário "acredite quem quiser!".

Então, faz todo sentido que a Folha, mais de quatro décadas depois, continue tentando relativizar o que não passou de mais um capítulo da eterna luta da civilização contra a barbárie. Como então se alinhou com os bárbaros, está pisando em ovos até agora.

Mas, abstendo-se de informar aos seus leitores que nesta questão não é parte isenta, mas sim interessada, deveria ao menos ser um pouquinho mais discreta. Está dando na vista.
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