terça-feira, 29 de abril de 2014

AO CONTRÁRIO DO SEAN CONNERY, LULA NUNCA DIZ "NUNCA MAIS!"

Ora é uma jornalista que priva da intimidade de muitos figurões garantindo que Lula começou no último fim de semana a comunicar aos amigos íntimos a decisão de candidatar-se à Presidência da República.

Ora são deputados da base aliada a atuarem como porta-estandartes do volta, Lula!

Enquanto isto, o próprio diz à imprensa portuguesa que vai humildemente servir de cabo eleitoral para Dilma, mas se recusa a afirmar que nunca, em circunstância nenhuma, será candidato, deixando aberta a possibilidade de, para o bem de todos e felicidade geral da nação petista, dispor-se ao sacrifício... de fazer aquilo que sempre quis fazer, aquilo que mais quer fazer neste instante. Me engana que eu gosto. 

Fez-me lembrar a relutância de Sean Connery em continuar estrelando a série 007. Depois da quinta missão decidiu parar, mas o fracasso do seu substituto George Lazenby levou os produtores a lhe fazerem uma proposta irrecusável: se voltasse a empunhar a pistola Aston Martin em Os diamantes são eternos, dar-lhe-iam a chance de protagonizar cinco filmes cujas histórias e cujos diretores escolhesse a bel prazer (o ideal para ele provar, como pretendia, não ser ator de um personagem só).

Pacto cumprido de parte a parte, jurou de pés juntos que nunca mais seria James Bond. Só que a dupla de produtores se desfez e um deles resolveu refilmar a única novela de Ian Fleming cujos direitos detinha. Ofereceu um caminhão de grana a Connery e eis que ele, 12 anos depois, já cinquentão, com peruca e uma faixa espremendo a barriga, reapareceu em Nunca mais outra vez. O título (Never say never again no original) foi uma alusão bem humorada a suas duas promessas descumpridas.

Lula é mais precavido do que Connery. Talvez porque, no seu caso, não vá se tratar de uma reconsideração, mas sim da concretização do projeto que acalentava desde que escalou Dilma para tomar conta da cadeira presidencial na sua ausência.

Assim, não causa nenhuma estranheza suas declarações à Rádio e Televisão de Portugal soarem como discurso de candidato.

Só me surpreendeu ele ter deixado o Zé Dirceu, o José Genoíno, o Delúbio Soares e o João Paulo Cunha na rua da amargura: no afã de distanciar-se o máximo possível de qualquer envolvimento com o mensalão, foi ao cúmulo de afirmar que os petistas condenados não eram pessoas de sua confiança.

Ou seja, a responsabilidade pelos 20% do processo juridicamente consistentes caberia a outros, esses inconfiáveis, não a ele. Talvez pretenda apresentar-se ao eleitorado como Lula, o imaculado.

Tendo conseguido tornar-se até doutor honoris causa de universidades, deve estar de olho nos últimos troféus que lhe faltam: o Prêmio Nobel e a canonização. 

Aguardemos os próximos e emocionantes capítulos. Nós, livres. Os quatro companheiros históricos do Lula, na Papuda ou em prisão domiciliar.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

HOLLYWOOD CONTRA O RACISMO

Os movimentos para que fossem respeitados os direitos civis dos negros estadunidenses tiveram a simpatia de Hollywood que,  nas décadas de 1950 e 1960, produziu muitos filmes contrários ao racismo ou que abordavam criticamente algumas de suas facetas. 

Era um momento de esperanças ingênuas (John Kennedy não ascendeu ao poder por acaso!), em que se acreditava numa fácil erradicação de mazelas há muito arraigadas na sociedade. Os assassinatos de Martin Luther King e Malcon X reentronizariam o princípio da realidade, mas é impossível não simpatizarmos com aqueles esforços bem intencionados... e nem sempre bem concretizados cinematograficamente.

Eis alguns desses filmes: Sementes de violência (d. Richard Brooks, 1955), Um homem tem três metros de altura (d. Martin Ritt, 1957), Acorrentados (d. Stanley Kramer, 1958), O sol é para todos (d. Robert Mulligan, 1962), Ao mestre, com carinho (d. James Clavell, 1967), Adivinhe quem vem para jantar (d. Stanley Kramer, 1967) e A libertação de L. B. Jones (d. William Wyler, 1970).

Um magnífico exemplar do filão é o filme para ver no blogue abaixo disponibilizado: No calor da noite (1967), que consegue passar sua mensagem edificante sem ranço didático nem pieguice. Começa com o sofisticado policial Virgil (Sidney Poitier) numa saia justa, pois, de passagem por uma cidadezinha da Filadelfia, é preso como suspeito do assassinato de um figurão, unicamente por ter sido o negro encontrado mais próximo do palco do crime.

Desfeita a confusão, o xerife Gillespie (Rod Steiger), que o destratara, se vê obrigado a pedir sua colaboração, pois é inexperiente em episódios de tal gravidade e os cidadãos não lhe perdoarão um fracasso, ainda mais sabendo que ele tinha um especialista à mão.

A Virgil também não agrada a ideia, mas seu superior ordena que dê uma força aos atarantados caipiras.

Então, mais do que o esclarecimento do crime, o filme vale mesmo é pelos choques de personalidade entre Gillespie e Virgil, e pela reação da comunidade preconceituosa à ascendência que o policial negro adquire (e o xerife branco, ainda que a contragosto, faz ser respeitada). 

A trilha musical de Quincy Jones é um arraso, com destaque para o tema principal, interpretado pelo inesquecível Ray Charles.

Jewison tentou repetir a dose em 1984 com A história de um soldado, cuja história tem muitos pontos de contato com No calor da noite. Como o racismo perdera a contundência, o filme, embora correto, não impactou muito. Batia em cachorro morto.

Também não funcionaram as duas sequências com Poitier novamente no papel de Virgil: Noite sem fim (d. Gordon Douglas, 1970) e A Organização (d. Don Medford, 1971). Tentaram fazer dele um personagem de fitas policiais convencionais, mas, nesta linha, perdeu de goleada para Shaft (d. Gordon Parks, 1971).

Iniciada a reprodução, ative as legendas clicando no 4º ícone da dir. p/ a esq.

domingo, 27 de abril de 2014

VEJA NO BLOGUE UM FILME SABOTADO E MALDITO SOBRE A GUERRA AO TERROR

Quando o Governo Bush aproveitou o atentado ao WTC para desencadear uma repulsiva escalada totalitária no território estadunidense e para estuprar direitos humanos em várias outras nações (com a conivência das mesmas ou à sua revelia, no arrogante exercício do direito do mais forte), sempre praticando o terrorismo de estado a pretexto de combater o terrorismo artesanal, o grande Sidney Lumet (12 homens e uma sentença, O homem do prego, O veredicto) foi dos primeiros cineastas a reagir.

Ele dirigiu para a BBC um filme devastador de 120 minutos, que mecanismos indiretos de censura acabaram por reduzir a 55', extirpando mais da metade da sua duração e tornando-o menos atrativo para os espectadores comuns (o interesse pelos media-metragens é muito inferior ao que os longas despertam).

Os cortes devem ter diminuído o impacto do filme, mas não o desfiguraram. E o que se salvou do incêndio ainda é contundente ao extremo. 

Começando pela sequência antológica em que um professor indaga de seus alunos por quanto tempo eles aceitariam ser privados de seus direitos, para os EUA se livrarem definitivamente da ameaça da Al Qaeda. Um dia? Uma semana? Um mês? Um ano? Para sempre?

Inspeção geral (2004) é um daqueles filmes que não poderia deixar de ser disponibilizado neste blogue. Mostra em paralelo, como praticamente idênticos, dois interrogatórios de estudantes presos não em função de acusações específicas, mas sim na suposição de que, sob pressões ilícitas e imorais, acabem por incriminar a si próprios, fornecendo a posteriori um motivo para sua detenção.

Um desses episódios se passa nos EUA, o outro na China. Dá para imaginarmos a histeria dos estadunidenses ao se perceberem como irmãos siameses de contumazes violadores dos DH. Parafraseando Oscar Wilde, foi "a raiva de Calibã ao ver seu rosto no espelho".  

Simplesmente obrigatório.

sábado, 26 de abril de 2014

COMO UM ANTIGO TORTURADOR COMETERIA O CRIME PERFEITO

Vamos supor que um torturador de outrora quisesse eliminar dois dos seus congêneres, de tal forma que o assassinato não viesse a ser imputado nem a ele, nem a outros veteranos da repressão ditatorial.

Um dos alvos, porque estava próximo da morte e mantinha um minucioso arquivo sobre agentes do Estado que cometeram crimes contra a humanidade, como os cometeram, quem foram suas vítimas, que fim tiveram os respectivos restos mortais, etc. Sabia-se lá quem ficaria com tal arquivo quando ocorresse sua morte natural e qual o destino que a ele daria. Daí a conveniência de antecipar o desfecho, para o poder administrar convenientemente, só permitindo que viessem a público informações tornadas inócuas pelo passar das décadas.

Outro, porque dera com a língua nos dentes num palco iluminado e, mesmo que não voltasse a fazê-lo (deixara de identificar comparsas vivos, mas poderia mudar de ideia), constituía-se num péssimo exemplo. Quantos pés na cova com os mesmos antecedentes não estariam queimando de inveja da notoriedade que ele alcançara? Para certo tipo de pessoas, serem relegadas ao esquecimento incomoda muito mais do que serem lembradas como ogros...

Assassinados: o 1º colecionador de armas...
Como dizia o Dadá Maravilha, para toda problemática existe uma solucionática

O hipotético torturador de outrora certamente conheceria bem um universo contíguo, o da contravenção, nele sentindo-se como um peixe dentro da água. Lembrem-se: 
  • o famoso delegado Sérgio Fleury, nos tempos em que chefiava o famigerado Esquadrão da Morte, estava a serviço de um grande traficante, liquidando apenas seus concorrentes, enquanto fingia exterminar os bandidos em geral;
  • os torturadores da PE da Vila Militar (RJ), oficiais inclusos, quando começaram a escassear os proventos da repressão à guerrilha (as recompensas recebidas de grandes empresários e a rapinagem dos bens apreendidos com militantes), não só se tornaram parceiros de contrabandistas da região como tentaram passar-lhes a perna, tomando sua muamba à bala;
  • um destes oficiais, o Capitão Guimarães, não se conformou de, desmascarado, haverem aliviado para ele no sentido de salvar as aparências mas ter-se tornado um pária na caserna --optou por dar baixa e iniciar uma bem sucedida carreira como bicheiro de Niterói, acabando por se tornar um dos maiores chefões do crime organizado.
...e o 2º colecionador de armas. Ambos quando mais convinha.
Então, para alguém da laia de um antigo torturador da ditadura militar, nada mais fácil do que encontrar ladrões homicidas aptos para tais missões e passar-lhes a dica de que os oficiais da reserva em questão possuíam bens valiosos, como coleções de armas, estando praticamente indefesos.

Com a recomendação expressa de que os mesmos deveriam ser assassinados, e ninguém mais.

Com a advertência expressa de que, se caíssem presos, não deveriam de forma nenhuma incriminá-lo, caso contrário sua rede (de veteranos dos porões e novos fanáticos do extremismo) cuidaria para que fossem mortos no cárcere.

Foi assim que as coisas se passaram? Se non è vero, è ben trovato, como dizem os italianos...

SÃO PAULO: O MUNDIAL DE NOSSA SECA E DA NOSSA DESESPERANÇA

DENTRO DO

ITAQUERÃO

É ASSIM: 

PADRÃO FIFA.




FORA É

ASSIM:

PADRÃO 

ALCKMIN.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

6ª FEIRA É DIA DE SESSÃO DUPLA NO CINE "VERITAS"




MORTE

PARA

UM

MONSTRO





QUEIMA

DE

ARQUIVO




P.S.: como a abordagem irônica deste episódio pareceu encucar leitores, esclareço que, independentemente dos sentimentos que tal cidadão nos inspirasse, a Comissão Nacional da Verdade (daí a alusão ao cine Veritas...) jamais poderia ter deixado desprotegido alguém que fizera revelações tão contundentes. Haja sido retaliação, intimidação, queima de arquivo (hipóteses bem mais plausíveis) ou latrocínio, tal desfecho, extremamente indesejável, foi propiciado pela incúria do Estado, que não estava zelando por quem tinha a obrigação de zelar. Nota zero para a CNV, até porque 
enfrentará agora dificuldades bem maiores para obter depoimentos sinceros.

MAIS UM CANDIDATO DO PT PAPARICA O MALUF. É PRA RIR OU PRA CHORAR?

Deu no Painel da Folha de S. Paulo, conforme vocês podem conferir aqui
“Alô, doutor Paulo? Aqui é o Padilha. Sabe onde eu estou?”
Eram quase 13h30 desta quinta-feira (24) quando o pré-candidato do PT ao governo de São Paulo, Alexandre Padilha, tirou o celular do bolso e telefonou para o deputado federal Paulo Maluf (SP), presidente estadual do PP paulista...
Padilha informou ao deputado que estava a bordo de um barco na eclusa de Barra Bonita, que (...) foi construída sob o comando do deputado em 1973, quando era secretário de Transportes do Estado.
“Perguntei por aqui quem tinha feito a obra da eclusa e todo mundo acertou de cara. E está tudo ótimo, viu? Estou muito animado”, disse o petista ao telefone.
 A corte foi feita a Maluf em momento estratégico. O PT começa a fechar o apoio dos partidos que irão compor a chapa de Padilha na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes.
Talvez o Maluf volte a exigir que Lula e o poste da vez compareçam à sua mansão nos Jardins para beijarem-lhe a mão na presença da imprensa escrita, falada e televisada.

Afinal, apesar da repercussão pra lá de negativa daquelas imagens vergonhosas, o Fernando Haddad acabou sendo eleito prefeito de São Paulo em 2012, atestando que a imoralidade e o oportunismo político podem triunfar sobre a virtude.

Não tenho dúvidas de que, se tal condição for colocada, o PT novamente avaliará a promiscuidade com os filhotes da ditadura como um preço justo a pagar pelo apoio eleitoral dos ditos cujos (ou será sujos?).

O Padilha poderá até sentir-se mais à vontade no papel do que o Haddad, cujo constrangimento era visível. Afinal, segundo o noticiário, ele parece manter ótimas relações com outros criminosos do colarinho branco.

Viver envilece, sentenciou o escritor francês Maurice Druon. E como!

quinta-feira, 24 de abril de 2014

TRIBUTO ÀS CHUTEIRAS IMORTAIS - 5: FELIPÃO ROUBA A CENA (2002)

Em 1998 o Brasil perdeu o Mundial da França por causa de uma lambança de enfermeiro, da divisão do elenco e da pusilanimidade do técnico Zagallo.

Não vinha mesmo fazendo campanha brilhante: perdera da Noruega (1x2) na 1ª fase e necessitara dos pênaltis para despachar a Holanda nas semifinais (1x1 e 4x2).

Pior: a liderança do grupo era disputada por Dunga (apoiado pelos veteranos de 1994) e Bebeto (o preferido dos novatos), com direito a uma cabeçada do brucutu no bebê chorão durante a partida contra o Marrocos.

Poucas horas antes da final contra os anfitriãos, Ronaldo Fenômeno recebe uma rotineira infiltração de xilocaína para diminuir as dores no seu joelho. Mal aplicada: atingiu uma veia e espalhou-se na corrente sanguínea, fazendo com que, 10 minutos depois, ele entrasse em convulsão.

Zagallo, acertadamente, pretendeu substitui-lo por Edmundo. Mas, o inacreditável Ricardo Teixeira, presidente da CBF, impôs uma mudança de escalação na enésima hora, em benefício do garoto-propaganda da Nike, que voltava sonado do tratamento de emergência.

Dunga ainda tentou dar força a Zagalo, para que mantivesse a decisão sensata. Mas, Bebeto usou sua influência no sentido oposto, favorecendo a aceitação do ultimato de Teixeira.

Inexistindo unanimidade no grupo, Zagallo ficou com as mãos livres... para submeter-se ao cartola-mor, como sempre.

Os jogadores levaram para o campo os rancores do vestiário, fazendo exibição das mais apáticas no 1º tempo. Era tudo de que Zidaine precisava para praticamente liquidar o Brasil: 0x2.

Quando acordaram, já era tarde. A França resistiu à pressão brasileira, marcou outro gol em contra-ataque e poderia ter feito mais. A goleada por 0x3 saiu barata.

A frustração por haver deixado escapar uma Copa tida como ganha ainda se fazia sentir nas eliminatórias para o Mundial seguinte.

Em suas 18 partidas o Brasil foi dirigido por nada menos do que quatro técnicos: Luxemburgo, Candinho, Leão e Felipão. Acabou por garantir sua vaga apenas na última rodada, ficando 13 pontos atrás da Argentina e só três à frente do Uruguai (repescagem) e da Colômbia (desclassificada).

Luiz Felipe Scolari, técnico de conceitos rústicos e alguma força de caráter, era malvisto pela cartolagem, pois não tinha perfil de títere.

Assombrados pelo fantasma da desclassificação, os dirigentes, entretanto, acabaram cedendo à pressão dos torcedores, para quem, depois do fracasso de Luxemburgo, Felipão se tornara unanimidade -- como consequência, principalmente, de seu ótimo currículo nos mata-matas da Copa Libertadores da América.

Não foi nada além de razoável (três vitórias e três derrotas), mas segurou o rojão num momento crítico, bem de acordo com sua imagem de homem forte.

De quebra indispôs-se com Romário, por suposta ou real má vontade do baixinho para com o escrete. Afastou-o definitivamente, apesar do seu pedido de desculpas público e do lobby de cartolas & imprensa esportiva.

Situação paradoxal: queda de braço entre um técnico que era preferência nacional e um jogador, idem.

Para dar a volta por cima, Felipão fez uma jogada arriscadíssima, contrapondo um mito a outro mito: escolheu Ronaldo Fenômeno como seu artilheiro, embora viesse em maré de fracassos, contusões graves e longos períodos de convalescença, desde a fatídica final contra a França em 1998.

Com seu carisma e extrema habilidade motivacional, aproveitou as críticas à Seleção para fechar o grupo em torno de si. Era a Família Scolari  lutando contra tudo e contra todos.

E a sorte o bafejou: não só Ronaldo renasceu das cinzas na Copa da Coréia do Sul/Japão, como a Seleção teve a tarefa facilitada por enfrentar as galinhas mortas que pediu a Deus.

Treinou contra a China (4x0), Costa Rica (5x2) e desperdiçou duas vezes a oportunidade de golear a incipiente Turquia, vencendo-a apenas por 2x1 na 1ª fase e 1x0 na semifinal (gol de Ronaldo, em bela arrancada pela meia-esquerda).

Nas oitavas-de-final, a Bélgica chegou a dar algum trabalho a são Marcos (um dos destaques da campanha), mas Rivaldo e Ronaldo resolveram. 2x0.

O único adversário de verdade foi o das quartas-de-final: a Inglaterra de Beckham, Owen e Campbell, que sobrevivera ao grupo da morte na 1ª fase (vencendo a Argentina, empatando com Suécia e Nigéria) e vinha de golear a Dinamarca. Não havia favorito.

Uma rara falha de Lúcio propiciou gol a Owen, mas o personagem do jogo seria Ronaldinho Gaúcho:
  • carregando a bola do meio-de-campo até a entrada da área, serviu Rivaldo livre, para este empatar;
  • cobrando falta da zona morta (na intermediária, junto à lateral), acertou chute primoroso, encobrindo o goleiro David Seaman, que esperava um cruzamento; e
  • foi expulso logo em seguida por causa de uma solada, mas os dez restantes souberam segurar o 2x1.
Melhores momentos de Brasil 2x1 Inglaterra. Para ver o jogo inteiro, clique aqui.

Depois de fazer a lição de casa contra a Turquia, teve pela frente uma Alemanha que nem sequer cogitava chegar à final: seu objetivo era preparar o time para a Copa seguinte, que iria disputar em casa.

Vitória, com autoridade, do Brasil de Marcos; Cafu, Lúcio, Edmilson, Roque Jr. e Roberto Carlos; Gilberto Silva, Kleberson e Ronaldinho Gaúcho (Juninho Paulista); Rivaldo e Ronaldo (Denilson).

Já criara mais chances no 1º tempo, quando Kleberson acertou o travessão e Oliver Kahn, o melhor goleiro do Mundial, andou fazendo defesas difíceis.

Decidiu no 2º. A tarefa foi facilitada por uma inusitada falha de Khan, que bateu roupa num chute forte mas defensável de Rivaldo, deixando Ronaldo à vontade para abrir o marcador.

A Alemanha saiu para o jogo e, em rápido contra-ataque pela direita, Kleberson cruzou, Rivaldo deixou passar e Ronaldo colocou no canto: 2x0.

Terminou a campanha com estatísticas invejáveis:
  • só vitórias, como em 1970 (quando um campeão jogava seis vezes, e não as atuais sete);
  • melhor ataque (18 gols);
  • artilheiro (Ronaldo, 8);
  • um dos vice-artilheiros (Rivaldo, 5, na companhia de Miroslav Klose, da Alemanha);
  • uma das melhores defesas (4 gols sofridos, atrás apenas da Alemanha, 3); e
  • melhor saldo de gols (14) de um campeão nos 18 Mundiais até hoje disputados.
Sem ser um esquadrão dos sonhos, como os de 1958, 1970 e 1982, soube fazer valer a experiência e a qualidade técnica do seu elenco.

Melhores momentos da final contra a Alemanha. Para ver o jogo inteiro, clique aqui.

EPÍLOGO

Como sabia Napoleão Bonaparte, a sorte é fundamental, seja para oficiais numa guerra ou para técnicos num Mundial.


Felipão gastou toda que tinha --e se viu abandonado pela fortuna nos 10 anos seguintes, os piores de sua carreira como técnico.

Isto porque não ganhou nada à frente da seleção portuguesa, chegando ao cúmulo de perder uma decisão da Eurocopa em casa para a poderosa Grécia.
Volta dos mortos-vivos: o filhote da ditadura e o ultrapassado.

Passou em branco pelo Chelsea, sendo demitido após míseros sete meses.

Foi o técnico campeão uzbeque (?!) de futebol de 2009.

Fracassou no Palmeiras, conquistando, em 26 meses, tão somente uma esvaziada Copa do Brasil e colocando o time no rumo da série B do Brasileirão. Até seu maior talento, o motivacional, pareceu evaporar: fez chegar às maltas organizadas os nomes dos baladeiros do elenco, estes tomaram conhecimento da trairagem e, em meio à divisão e desavenças que se instalaram no vestiário, teve de sair pela porta dos fundos.

Tido unanimemente como ultrapassado, tirou a sorte grande no final de 2012, quando o filhote da ditadura José Maria Marin assumiu a presidência da CBF, depois que Ricardo Teixeira teve de largar o osso, acuado por denúncias de corrupção.
Sai Pra frente, Brasil!, entra Protesta, Brasil!

A conquista da Copa das Confederações (à qual os europeus jamais deram importância) consolidou sua posição, calando os defensores de treinadores atualizados.

Tentará provar que os fatores campo e torcida ainda ganham Mundial, exumando a velha mística da pátria em chuteiras.

Bem mais provável é que prevaleça alguma seleção forte com um estrategista competente no banco --óbvio diferencial em relação a Felipão (nulo neste quesito) e ao grilo falante Carlos Alberto Parreira (que, carente de inventividade, não passa de um imitador aplicado de estratégias alheias).

E pensar que pessoa ligada a Pep Guardiola lançou um balão de ensaio em nossa direção, ao revelar que agradaria ao melhor técnico do mundo conduzir a Seleção Brasileira ao hexa! 

Marin, tão nefasto agora como antes, o descartou...

quarta-feira, 23 de abril de 2014

UM DOS MELHORES E MENOS RECONHECIDOS FILMES NACIONAIS DE TODOS OS TEMPOS...

...é Sagarana, o duelo (1974), que tenho enorme satisfação em (graças ao Youtube) disponibilizar neste espaço, contribuindo para que mais pessoas travem contato com uma indiscutível obra-prima. 

Por que os apreciadores do cinema brasileiro, na sua grande maioria, passaram batidos por esta que é a melhor transposição para as telas do universo riquíssimo de João Guimarães Rosa? Por não ser uma produção cara (embora a precariedade não transpareça nem tenha prejudicado o resultado final)? Porque Paulo Thiago não era diretor-estrela como Glauber Rocha? Porque não havia entre os atores nenhum grande chamariz de bilheteria? Porque quase não se investiu no lançamento? Porque muitos críticos destacavam e favoreciam os produtos da Embrafilme (com a qual tinham, digamos, comunhão de interesses)? Provavelmente, por estes fatores e mais alguns que não me tenham ocorrido.

O certo é que se tratou de uma enorme injustiça. Eu não hesitaria em colocar este Sagarana, o duelo como um dos dez mais do cinema nacional (ao lado de outra preciosidade que as novas gerações precisam igualmente descobrir, A margem, de Ozualdo Candeias).

O filme se baseia num rápido conto de Guimarães, sobre a interminável perseguição que um antigo policial (Milton Moraes) move contra um tocaieiro (Joel Barcellos) duplamente azarado: primeiramente, porque sua mulher (Ítala Nandi) o traía; depois, por ter errado de pessoa ao disparar o tiro da vingança, matando o irmão do seu temível alvo. Nessas questões de amor e honra no sertão, "Deus mesmo, quando vier, que venha armado"...

O roteiro de Thiago é maravilhoso, entrelaçando com esta pequena saga os personagens e situações de outras histórias de Guimarães, com tal perfeição que nenhum incauto percebe tratar-se de uma colcha de retalhos. Duvido que o filme ficasse tão bom atendo-se ao conto "O desafio", que só respaldaria a realização de um curta-metragem.

A visão que ele lança sobre o grande sertão e as veredas de Minas Gerais, seus personagens e suas lendas, é inesquecível. Mostra, p. ex.:
  • a disputa de poder entre o coronelão à moda antiga (Jofre Soares) e a versão mais urbanizada (Sadi Cabral); 
  • um chefe de jagunços que garante ter visto uma santa no meio da batalha e, noutra situação, enfrenta o próprio demônio; 
  • um pistoleiro que tem pacto com o capeta (Paulo Villaça); 
  • um rezador e contador de histórias errante  (Paulo Cesar Pereio); 
  • uma caravana de ciganos (incluindo Wilson Grey e a bela Ana Maria Miranda); 
  • um circo mambembe e sua tosca encenação de O Conde de Monte Cristo;
  • um macumbeiro cujo feitiço poderoso impede que caçador e caça se vejam frente a frente;  
  • um barqueiro que depois se torna cobrador de trem, "continuando a levar as pessoas ao seu destino", etc.
É uma variante brasileira dos westerns outonais estadunidenses e italianos, pois fica sempre evidente que o progresso implacável está expulsando de cena aquelas figuras tão interessantes e pitorescas. O enterro do velho coronel nas águas do rio dá bem a ideia do que é tudo aquilo: um magnífico canto do cisne.

E bota magnífico nisto! Recomendo com entusiasmo.


Antes do filme há um interminável trailer. Tenham paciência...

terça-feira, 22 de abril de 2014

"ERA UMA VEZ NO OESTE": SIMPLESMENTE IMPERDÍVEL!

Quarto bangue-bangue de Sergio Leone, Era uma vez no Oeste (1968), abaixo disponibilizado graças ao Youtube, é um filme lento, virtuosístico, inusitado e belíssimo, com atuações inesquecíveis de Charles Bronson, Henry Fonda, Jason Robards e Claudia Cardinale; outra trilha musical superlativa de Ennio Morricone; e a colaboração de ninguém menos que Bernardo Bertolucci e Dario Argento na concepção da história. 

Destaque também para a singela homenagem que Leone presta ao grande John Ford, ao incluir no elenco um de seus atores favoritos, Woody Stroode (como um dos pistoleiros que esperam a chegada do Harmônica na estação de trem).

Nas quase três horas de espetáculo, o italiano Leone evoca um dos temas clássicos dos faroestes estadunidenses, a vingança -buscada por um homem misterioso (Bronson) que toca gaita de forma agônica e parece ter contas a ajustar com Frank (Fonda), o capanga do sr. Morton (Gabriele Ferzetti), capitalista selvagem que implanta a ferro e fogo a primeira ferrovia daquelas bandas.

Outro traço nostálgico, provável lembrança de muitas matinês, é a amizade que surge entre o Harmônica e o bandoleiro Cheyenne (Robards), começando pelo respeito mútuo e evoluindo para a simpatia e para uma aliança cheia de riscos enfrentados em conjunto.

E há também o primeiro grande personagem feminino da filmografia de Leone, a prostituta Jill (Cardinale), que resolve iniciar nova vida com um viajante que atendera no bordel -mais mitologia do gênero!

De um sem-número de westerns outonais a que assisti, é um dos mais reverentes e românticos, emocionado e emocionante.

Mas, Leone não se permite o simplismo de apenas colocar na tela uma magistral sistematização das ilusões cinematográficas sobre o velho Oeste. Ele introduz também o contraponto da realidade, que se evidencia na sequência do tão aguardado duelo final.

Depois que o mocinho e o bandido finalmente se defrontam, a câmara vai se distanciando do confronto solitário para mostrar, logo ao lado, as centenas de trabalhadores construindo a estrada de ferro, que transformaria radicalmente a realidade econômica e social da região.

Breve não haveria mais lugar para os Harmônicas, os Cheyennes e os Franks. As individualidades lendárias estavam condenadas pelo desenvolvimento das forças produtivas; breve só existiriam... no celuloide.

O indutor do progresso também não é poupado por Leone. Ele o apresenta de forma mais contundente ainda do que Orson Welles retratou o Cidadão Kane, aliás William Randolph Hearst. 

Se Kane vê sua humanidade se dissipar entre o mundaréu de quinquilharias que acumula no final de sua trajetória, Morton vai morrendo enquanto sua ferrovia ganha vida.

Combalido, reduzido a cadeirante, só se movimenta com rapidez quando está no vagão do trem; Frank, aliás, sarcasticamente o compara a uma lesma que, por onde passa, deixa um rastro de gosma, na forma de trilhos.  

Um clássico absoluto. Imperdível!

segunda-feira, 21 de abril de 2014

RÉQUIEM PARA UM GLADIADOR

(artigo que escrevi sob a emoção da morte de Ayrton Senna;
foi publicado em 04/05/94 pelo finado Jornal da Tarde)
São indignas de Senna as lágrimas de crocodilo que jorram da mídia, reduzindo uma morte épica à banalidade das telenovelas. Não foi vítima de um destino traiçoeiro nem assassinado pela incúria dos dirigentes do automobilismo mundial. O muro que se agigantou à sua frente o perseguia desde os primórdios da carreira: está nos pesadelos de todos os pilotos. Não existe segurança a 300 quilômetros por hora.

O fascínio da Fórmula 1 tem tudo a ver com o instinto de morte, que Freud detectou como sendo um dos componentes essenciais de nossa psique e de nossa cultura. O herói do volante desafia o perigo a cada curva e o público junto com ele, numa identificação tão mágica quanto cômoda.

São os gladiadores do século XX, correndo riscos em nosso lugar, para que tenhamos uma boa catarse (aliás, até seus trajes e os autódromos -- principalmente os circulares da Fórmula Indy -- lembram o visual das arenas romanas).

Mas, na era da propaganda, tudo isso deve ficar implícito. Galvões e Lucianos se limitam a dissecar pequenos detalhes técnicos que reduziriam ou aumentariam as probabilidades de sobrevivência dos pilotos. Já os próprios, em rasgos de sinceridade, admitem que a linha separando acidentes superficiais dos fatais é tão tênue quanto um fio de cabelo.

Muitos poderiam ter morrido nos oito anos em que a F-1 não registrou óbitos, mas aqueles ínfimos milímetros que decidem a sina do acidentado foram favoráveis. Em Ímola, os deuses não estavam complacentes e tudo saiu da pior maneira possível.

Como Christian Fittipaldi ressaltou, descartando uma maior periculosidade em função da retirada do controle de tração e suspensão ativa: "Ano passado tinha tudo que vimos aqui mas, graças a Deus, ninguém se machucou. (...) O Berger, no GP de Portugal da última temporada, não se matou por milagre. (...) É relativo dizer que hoje o risco é maior".

Eles, os pilotos, sabem. Mesmo assim, entram naquelas estranhas máquinas e, em posições cujo desconforto beira a tortura, percorrem o fio da navalha em velocidades estonteantes, conscientes de que a mínima falha -- sua, dos outros ou do equipamento -- poderá ser fatal.

Pior: sua condição de ídolos depende não apenas de receberem a bandeirada na frente, mas de guiarem com arrojo e agressividade. Os fãs cobram esta atitude temerária. Ai dos Prosts que pensam antes na autopreservação, colocando a vitória em segundo plano! São tidos como covardes.

Senna era um típico gladiador. Assumia todos os riscos e jamais refugava nas ultrapassagens difíceis, nos duelos insensatos. Os mesmos que denunciam a insegurança de Ímola eram os que aclamavam Senna quando ele realizava brilhantes -- e perigosíssimas -- corridas em pista molhada. O muro esteve sempre muito perto dele, até que o alcançou.

Tímido, pouco à vontade no papel de celebridade, jamais aparentando satisfação maior com as coisas simples da vida, Senna atingia a plenitude na arena de suas conquistas e no pódio triunfal. É difícil imaginá-lo aposentado, remoendo o passado e amaldiçoando o presente.

Parafraseando os roqueiros Pete Townshend e Neil Young, talvez no caso de Senna fosse mesmo preferível morrer antes de envelhecer, consumir-se em chamas do que definhar aos poucos. Foi até o fim no rumo que escolheu: gladiador altaneiro, merece respeito e não lamúrias.

ESPECIAL TIRADENTES: 5 TÓPICOS

MÁRTIR DA INDEPENDÊNCIA OU HERÓI REVOLUCIONÁRIO?

“Brecht cantou: ‘Feliz é o povo
que não tem heróis’. Concordo.
Porém nós não somos um povo
feliz. Por isso precisamos de
heróis. Precisamos de Tiradentes.”
(Augusto Boal, Quixotes e Heróis)

Será que os brasileiros sentem mesmo necessidade de heróis, salvo como temas dos intermináveis e intragáveis sambas-enredo? É discutível.

Os heróis são a personificação das virtudes de um povo que alcançou ou está buscando sua afirmação. Encarnam a vontade nacional.

Já os brasileiros, parafraseando o que Marx disse sobre camponeses, constituem tanto um povo quanto as batatas reunidas num saco constituem um saco de batatas...

O traço mais característico da nossa formação é a subserviência face aos poderosos de plantão. Os episódios de resistência à tirania foram isolados e trágicos, já que nunca obtiveram adesões numericamente expressivas.

Demoramos mais de três séculos para nos livrar do jugo de uma nação minúscula, como um Gulliver imobilizado por um único liliputiano.

E o fizemos da forma mais vexatória, recorrendo ao príncipe estrangeiro para que tirasse as castanhas do fogo em nosso lugar; e à nação economicamente mais poderosa da época, para nos proteger de reações dos antigos colonizadores.

Isto depois de assistirmos impassíveis à execução e esquartejamento de nosso maior libertário.

Da mesma forma, o fim da escravidão só se deu por graça palaciana e quando se tornara economicamente desvantajosa.

Antes, os valorosos guerreiros de Palmares haviam sucumbido à guerra de extermínio movida pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, que merecidamente passou à História como um dos maiores assassinos do Brasil.

E foi também pela porta dos fundos que nosso país entrou na era republicana e saiu das duas ditaduras do século passado (a de Vargas terminou por pressões estadunidenses e a dos militares, por esgotamento do modelo político-econômico).

Todas as grandes mudanças positivas acabaram se processando via pactos firmados no seio das elites, com a população excluída ou reduzida ao papel de coadjuvante que aplaude.

É verdade que houve fugazes despertares da cidadania:
  •  em 1961, quando a resistência encabeçada por Leonel Brizola conseguiu frustrar o golpe de estado tentado pelas mesmas forças que seriam bem-sucedidas três anos mais tarde;
  • em 1984, com a inesquecível campanha das diretas-já, infelizmente desmobilizada depois da rejeição da Emenda Dante de Oliveira, com o poder de decisão voltando para os gabinetes e colégios eleitorais; e
  • em 1992, quando os  caras-pintadas  foram à luta para forçar o afastamento do presidente Fernando Collor.
Nessas três ocasiões, a vontade das ruas alterou momentaneamente o rumo dos acontecimentos, mas os poderosos realizaram manobras hábeis para retomar o controle da situação. Rupturas abertas, entre nós, só vingaram as negativas.

Vai daí que, em vez de heróis altaneiros, os infantilizados brasileiros são carentes mesmo é de figuras protetoras, dos coronéis nordestinos aos  padins Ciços   da vida, passando por   pais dos pobres   tipo Getúlio Vargas.

Então, Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Frei Caneca, Carlos Marighella, Carlos Lamarca e outros dessa estirpe jamais serão unanimidade nacional, como Giuseppe Garibaldi na Itália ou Simon Bolívar para os hermanos sul-americanos.

O 21 de abril é um dos menos festejados de nossos feriados. E o próprio conteúdo revolucionário de Tiradentes é escamoteado pela  História Oficial, que o apresenta mais como um Cristo (começando pelas imagens falseadas de sua execução, já que não estava barbudo e cabeludo ao marchar para o cadafalso) do que como transformador da realidade.

Então, vale mais uma citação do artigo que Boal escreveu quando do lançamento da antológica peça Arena Conta Tiradentes, em 1967:
Tiradentes foi revolucionário no seu momento como o seria em outros momentos, inclusive no nosso. Pretendia, ainda que romanticamente, a derrubada de um regime de opressão e desejava substitui-lo por outro, mais capaz de promover a felicidade do seu povo. 
...No entanto, este comportamento essencial ao herói é esbatido e, em seu lugar, prioritariamente, surge o sofrimento na forca, a aceitação da culpa, a singeleza com que beijava o crucifixo na caminhada pelas ruas com baraço e pregação
 ...O mito está mistificado.
Quando o povo brasileiro estiver suficientemente amadurecido para tomar em mãos seu destino, decerto encontrará no revolucionário Tiradentes uma das maiores inspirações.

POR QUE TIRADENTES?

Quando menino, compartilhava o enfado de meus colegas de classe diante da obrigação de escrever, ano após ano, qualquer bobagem sobre o Mártir da Independência, mera repetição, com outras palavras, do que estava nos manuais escolares.

De quebra, tínhamos de enfeitar esses trabalhos com bandeirinhas brasileiras que desenhávamos ou decalcomanias adquiridas nas papelarias; às vezes, fitinhas verde-amarelas. Mais brega e mais tedioso, impossível.

Então, Tiradentes caía naquela vala comum a que intimamente relegávamos tudo que fosse oficialesco. Fingíamos respeitá-lo, porque era esta a reação que os adultos de nós esperavam. Nada significava para nós.

Foi a peça Arena Conta Tiradentes que me reconciliou com a figura do herói, quando eu tinha 17 anos e já me interessava pela política de esquerda.

Porque ela fez a tragédia histórica ganhar vida diante dos meus olhos. E também me levou a perceber Tiradentes como o único conspirador que falava a linguagem do povo e tentou engajá-lo na trama urdida pelos notáveis da capitania.

Foi com o fervor revolucionário de Tiradentes que me identifiquei, não com seu martírio. Pois, ao falar aos quatro ventos aquilo que os demais inconfidentes só cochichavam, ele se parecia muito conosco, jovens secundaristas que, com idêntico entusiasmo, começávamos a trilhar os caminhos das lutas sociais.

Também nós sentíamos imenso prazer ao proclamar em alto e bom som nossos ideais, ao invés de calá-los por motivo de segurança (as precauções viriam mais tarde!).

E, em nosso otimismo ingênuo, eu e meus companheiros nos entusiasmávamos mesmo era com a primeira parte da peça, em que a conspiração vai sendo engendrada, até culminar numa reunião apoteótica na qual cada um relata o papel que desempenhará no dia do levante.

Nosso 1968 foi mesmo assim, esperançoso e apoteótico.

Mas, a segunda parte de Arena Conta Tiradentes -- a da delação, prisão, inquérito e punição -- também estava inscrita em nosso futuro, sem que o percebêssemos ou quiséssemos perceber.

Foi quando alguns sentimo-nos, como Tiradentes, os  patinhos feios  de um movimento capitaneado por pessoas mais importantes do que nós.

Pois, cada vez mais, a historiografia tende a interpretar Tiradentes da maneira magnificamente sintetizada pelo jornalista e professor Sílvio Anaz:
"Mestiço, pobre, falastrão, com o perfil adequado a bode expiatório, Tiradentes foi o único dos inconfidentes condenado e executado. (...) Já os principais mentores da Inconfidência Mineira, membros das castas mais altas da época, acabaram morrendo na prisão ou exilados na África. Como o levante fracassou, Tiradentes virou líder e mártir. Caso tivesse dado certo, ele provavelmente não ficaria com as principais benesses do novo regime, conforme comentou Machado de Assis".
Hoje, entretanto, essa identificação com quem viveu dramas semelhantes, bem como as mágoas por injustiças reais ou supostas, já não determinam minhas opções; ficaram para trás, dissipadas pelo amadurecimento que os anos trazem.

A minha decisão de enaltecer Tiradentes se deveu a uma avaliação racional: a de que a situação hoje é a mesma (ou pior ainda!) que levou Augusto Boal a escrever seu antológico ensaio Quixotes e Heróis, sobre o processo de manipulação de consciências por parte dos interesses dominantes.

Então, como ponto de chegada desta digressão, nada melhor do que repetir a lúcida argumentação de Boal, que reproduzo seletivamente, mas subscrevo inteiramente:
"...as classes dominantes têm por hábito a adaptação dos heróis de outras classes. A mitificação, nestes casos, é sempre mistificadora. E sempre é o mesmo processo: eliminar ou esbater, como se fosse apenas circunstância, o fato essencial, promovendo, por outro lado, características circunstancias à condição de essência.
Assim foi com Tiradentes. Nele, a importância maior dos atos que praticou reside no seu conteúdo revolucionário. Episodicamente, foi ele também um estoico.

Tiradentes foi revolucionário no seu momento como o seria em outros momentos, inclusive no nosso. Pretendia, ainda que romanticamente, a derrubada de um regime de opressão e desejava substitui-lo por outro, mais capaz de promover a felicidade do seu povo.
Isto ele pretendeu em nosso país, como certamente teria pretendido em qualquer outro.
No entanto, este comportamento essencial ao herói é esbatido e, em seu lugar, prioritariamente, surge o sofrimento na forca, a aceitação da culpa, a singeleza com que beijava o crucifixo na caminhada pelas ruas com baraço e pregação.

Hoje, costuma-se pensar em Tiradentes como o Mártir da Independência, e esquece-se de pensá-lo como herói revolucionário, transformador da sua realidade. O mito está mistificado.

Não é o mito que deve ser destruído, é a mistificação.

Não é o herói que deve ser empequenecido; é a sua luta que deve ser magnificada.

Brecht cantou: 'Feliz o povo que não tem heróis'. Concordo. Porém, nós não somos um povo feliz. Por isso precisamos de heróis. Precisamos de Tiradentes".

"SE EXISTISSEM MAIS BRASILEIROS COMO EU..."

"...à vista das fortíssimas instâncias com que me vejo atacado e já sabendo os juízes tudo quanto sabem, até meus pensamentos mais íntimos, não posso continuar negando, pois, se o fizesse, seria faltando clara e conhecidamente à verdade. Por isso, resolvo dizê-la, ingênua e livremente, como ela é.

É verdade que se premeditava o levante.

É verdade que me encontrei com Maciel no Rio e lhe disse que o Brasil não necessitava de domínio estrangeiro.

É verdade que a todos falava de um motim e sedição contra a Coroa portuguesa.

É verdade que o povo sofre e que induzi muita gente a combater em Vila Rica.

É verdade que o povo ignora que se pode libertar a si mesmo e que induzi muita gente a que armasse o povo para que se libertasse.

É verdade que eu queria para mim a ação de maior risco e é verdade que se existissem mais brasileiros como eu, o Brasil seria uma nação florente.

É verdade que eu desejava meu país livre, independente, republicano.

É verdade que eu confiei demais, e é verdade que abandonei aqueles para quem outros diziam querer a liberdade.

E é verdade que só os abandonados arriscam, que só os abandonados assumem, e que só com eles eu deveria tratar.

É verdade que eu tenho culpa e só eu tenho culpa."

Obs.: confissão de Tiradentes, conforme Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri a sintetizaram na magnífica peça "Arena Conta Tiradentes", juntando fragmentos de suas declarações nos "Autos de Devassa da Inconfidência Mineira" com trechos dos depoimentos de outros inconfidentes sobre ele.
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