quarta-feira, 30 de junho de 2010

É HORA DE SE REPENSAR A GREVE NA USP

Quando uma revolução é identificada com cravos, como a portuguesa de 1974, torna-se simpática aos olhos do mundo inteiro.

Minha primeira participação concreta na Vanguarda Popular Revolucionária se deu em abril de 1969, quando meu grupo de oito secundaristas foi convidado a enviar um representante ao congresso da Organização, numa casa de praia de Mongaguá (SP).
Foi quando Carlos Lamarca e outros revolucionários egressos do Exército e da Marinha (homens duros, portanto), avaliaram que, embora estivéssemos enfrentando uma tirania atroz, não podíamos nos dar ao luxo de agir como bem entendêssemos.

No ano anterior, houvera três ações armadas questionáveis: duas explosões de bombas que deveriam ser meramente simbólicas, mas acabaram atingindo uma dupla de incautos; e o justiçamento de alguém que aparentava ser agente da CIA.

A posição do congresso foi a de que dali em diante seria evitado ao máximo o derramamento de sangue.

As ações armadas passariam a ser planejadas exaustivamente, no sentido de evitar-se a ocorrência de tiroteios; e executadas por um número maior de militantes do que o estritamente necessário, para facilitar a administração de algum imprevisto.

E não atingiríamos mais nenhum inimigo que só fosse identificado como tal por nós, não pelas massas.

Ou seja, por pior que fosse o sujeito, mesmo um brutal carrasco, não o justiçaríamos para depois explicarmos à população quem era e o que fizera para merecer tal destino. Se não era visto pela coletividade como torturador e assassino, paciência. Não levantaríamos a mão contra ele.

Enfim, ficou decidido que nossa atuação seria sempre no sentido da propaganda armada -- a utilização das armas para apresentar e tornar simpáticos os nossos ideais para a população -- e não do enfrentamento militar puro e simples.

Neste sentido, estabelecemos como metas o sequestro de grandes empresários, que seriam libertados em troca da distribuição maciça de víveres em favelas e bairros pobres; e a tomada de supermercados e magazines de locais onde o povo fosse particularmente carente, para que os excluídos os saqueassem.

Acabamos não conseguindo concretizar tais objetivos, pois exigiam recursos humanos e infraestruturais dos quais logo deixamos de dispor, como consequência do agravamento da repressão e das sucessivas baixas em nossas fileiras.

Mas, o que eu quero destacar é: mesmo sendo guerrilheiros em luta contra uma ditadura sanguinária, demos um passo atrás quando percebemos que certos excessos só ajudavam o inimigo, que tinha os recursos de comunicação para explorá-los e capitalizá-los ao máximo.

Embora estivéssemos vendo, dia após dia, companheiros estimados sofrerem as piores torturas e serem abatidos como cães, manteríamos a serenidade, priorizando a imagem política de nossa luta e não a contundência militar.

Gostaria que este exemplo fosse tomado em consideração pelos grevistas da Universidade de São Paulo, que estão levando em conta exclusivamente a repercussão dos seus atos no universo estrito da Cidade Universitária, sem atentarem para o efeito devastador da maneira como eles são apresentados ao restante da população.

Reivindicações imediatas, mesmo que justas, não devem prevalecer sobre valores e objetivos maiores. Alguns excessos na greve atual estão dando pretexto a uma arregimentação de forças reacionárias, no sentido da imposição de graves retrocessos -- e não só na USP.

É a hora daquele famoso passo atrás, para se poder depois dar dois passos adiante.

terça-feira, 29 de junho de 2010

A VERDADE SOBRE A CAMPANHA CONTRA AS REPARAÇÕES AOS ANISTIADOS

Por três dias seguidos, o vetusto jornalão O Estado de S. Paulo faz lobby descarado contra o programa de reparações às vítimas da ditadura de 1964/85, pressionando o Tribunal de Contas da União a acatar uma proposta de redução de benefícios identificada com as posições das viúvas da ditadura, dos sites goebbelianos e das correntes virtuais de extrema-direita.

É a velha tabelinha entre uma determinada autoridade e a imprensa afinada com sua ideologia, tentando empurrar os acontecimentos na direção que agrada a ambos.

Não se trata nem da repetição da História como farsa, embora o Estadão já tenha feito idêntica tentativa de detonar a anistia federal em 2004, daquela vez acompanhado em alto estilo pela imprensa burguesa.

Só que já era uma cruzada farsesca, pois distorcia totalmente os fatos para encaixarem-se na imagem demagógica que se queria passar ao público. Então, o que temos agora é, isto sim, a repetição da farsa como encenação de mafuá.

A campanha começou com o destaque exageradíssimo dado ao assunto no domingo (27/06): matéria de capa, com direito a página inteira e nada menos do que cinco retrancas.

No texto principal, ficamos sabendo que Marinus Marsico, procurador do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas, quer que sejam revistos, "por ora", 9.371 benefícios já concedidos desde a promulgação da lei respectiva em 2002.

Por quê?

Porque "a revisão poderá gerar uma economia de milhões de reais aos cofres públicos", diz o procurador.

Ora, isto não é nem nunca foi argumento aceitável numa democracia. Reduzem-se benefícios quando são injustificados, não para amenizar problemas de caixa dos governos. E em nenhum dos textos do Estadão são honestamente apresentados os critérios do programa.

Tratou-se de uma iniciativa pioneira no Brasil, seguindo as recomendações da Organização das Nações Unidas para países que saem de ditaduras.

A Comissão de Anistia foi constituída em 2002 para identificar os cidadãos que sofreram graves danos de ordem física, psicológica, moral e profissional como consequência do arbítrio instaurado no Brasil entre 1964 e 1985, recomendando ao ministro da Justiça a reparação adequada em cada caso.

As regras do programa são as seguintes:
  • para quem comprova terem seus direitos sido atingidos apenas em termos físicos e/ou psicológicos e/ou morais, é concedida uma indenização em parcela única (que o procurador Marsico não questiona);
  • quem, ademais, teve sua trajetória profissional comprometida pelo estado de exceção, faz jus a uma pensão mensal e a uma indenização retroativa referente às décadas transcorridas entre a lesão a seus direitos e o início do recebimento da reparação.
Isto se aplica, principalmente, àqueles que foram afastados do serviço público, de instituições subordinadas ou vinculadas ao Estado e das Forças Armadas por terem opiniões diferentes das dos golpistas encastelados no poder. Tal caça às bruxas, inconcebível e inaceitável no século XX, privou dezenas de milhares de cidadãos do seu emprego legítimo.

E houve também casos de indivíduos que perderam seu trabalho na iniciativa privada em função de perseguições políticas, como o jornalista Carlos Heitor Cony (o Correio da Manhã foi obrigado a demiti-lo) e os também jornalistas Jaguar e Ziraldo, cujo Pasquim foi sufocado pela ditadura por meio de prisões arbitrárias dos integrantes da equipe, censura que atingia as raias do grotesco e terríveis pressões econômicas.

Por se referirem a cidadãos prósperos e famosos, estes três casos chocaram a opinião pública. Mas, a página virtual do programa está à disposição de todos e uma análise criteriosa das reparações já aprovadas permitirá a qualquer interessado verificar que os benefícios duvidosos nem de longe são 9.731. Não chegam sequer a uma centena.

O procurador Marsico e o Estadão pinçam casos isolados para dar a impressão de que os demais seguem todos o mesmo diapasão, O QUE NÃO É VERDADE.

Meu caso foi considerado, pelo então presidente da Comissão da Anistia, Marcello Lavènere, o mais dramático que o colegiado já havia julgado até aquele final de 2005. Exatamente por isto, tive de ficar conhecendo em profundidade o programa, pois não tinha como pagar advogado e travei minha luta sozinho.

Afirmo, com total conhecimento de causa, que houve distorções e equívocos, como em todas as ações humanas, mas numa escala imensamente inferior à que o procurador alega.

O QUE SE DIZ E O QUE SE OMITE
SOBRE A PENSÃO DA VIÚVA LAMARCA

O viés ideológico desse ataque ao programa salta aos olhos quando procurador e jornalão questionam o benefício concedido a Maria Pavan Lamarca, viúva do ex-capitão Carlos Lamarca, que "desertou do Exército, virou guerrilheiro e foi morto em 1971", segundo a reportagem.

Para os cidadãos civilizados, foi o Exército que desertou da democracia, passando a prestar serviços de jagunçada para os golpistas que usurparam o poder.

Ao voltar-se contra os que tornaram as Forças Armadas um instrumento do arbítrio, Lamarca honrou o compromisso que assumira, de defender a ordem constitucional do País. Foi preso e covardemente executado.

Está na reportagem:
"Lamarca foi promovido a coronel, quando a promoção correta seria a capitão, argumenta a representação. Os valores pagos à viúva equivalem ao vencimento de general, completa o texto. 'A remuneração mensal de R$ 11.444, bem como o pagamento retroativo de R$ 902,7 mil deveriam ser reduzidos', diz [o procurador Marsico]".
Ora, capitão ele já era. Caso as instituições não tivessem sido golpeadas em 1964, Lamarca, militar tão brilhante a ponto de haver sido escolhido para integrar a Força de Paz da ONU no canal de Suez, atingiria inevitavelmente as culminâncias do oficialato.

E, ao trombetear que haveria irregularidade nesse caso, um procurador jamais poderia omitir o que o presidente da Comissão de Anistia Paulo Abrão Pires Jr., esclareceu irrefutavelmente em 2007, respondendo à grita falaciosa da direita:
  • quem reconheceu a responsabilidade do Estado brasileiro pela morte de Carlos Lamarca foi a Comissão de Mortos e Desaparecidos, vinculada à Secretaria de Direitos Humanos, em 1996;
  • quem primeiramente reconheceu a condição de anistiado político a Lamarca, afastando a tese da deserção, foi a Justiça Federal de São Paulo, em decisão transitada em julgado e confirmada pelo Superior Tribunal de Justiça;
  • quem o promoveu a coronel foi a 7ª Vara Federal de São Paulo, em 2006; 
  • a Comissão de Anistia não acatou o pedido da viúva requerente, que solicitava a progressão para general-de-brigada, mantendo apenas a decisão proferida anteriormente pela Justiça, que concedeu a Lamarca o posto de coronel.
Então, o que realmente fez a Comissão de Anistia foi:
  • estender a Lamarca o privilégio de que desfrutam todos os oficiais ao passarem à reserva, de receber pensão equivalente ao soldo da patente imediatamente superior;
  • considerar Maria e seus filhos César e Cláudia também anistiados, concedendo a cada um deles uma indenização de R$ 100 mil, em parcela única.
Quem quiser saber mais, é só reler meu artigo de três anos atrás, Caso Lamarca: muito barulho por nada.

Mesmo assim, o editorial do Estadão de 3ª feira (29/06), A indústria da reparação, repete a desinformação da reportagem de dois atrás, até com as mesmas palavras:
"O procurador Marinus Marsico cita três exemplos de reparações claramente impróprias. O primeiro é o benefício pago à viúva do capitão Carlos Lamarca, que desertou do Exército para se tornar guerrilheiro e foi morto na Bahia em 1971. Depois da anistia, Lamarca foi promovido post-mortem a coronel, acima dos postos de major e tenente-coronel. Com isso, a viúva Maria Pavan Lamarca recebe o equivalente ao soldo de um general".
O jornal parece estar voltando aos idos de 1964, quando a família proprietária assumidamente conspirou para a derrubada do governo constitucional de João Goulart, ponto de partida do festival de horrores que a União agora está sendo obrigada a reparar.

Justiça seja feita, recuou quando a sucessão de abusos e atrocidades atingiu seu auge, passando a questionar aspectos do regime que ajudou a instaurar.

Mas, deveria reconhecer que sua posição no caso não é nem um pouco isenta.

E que não tem autoridade moral nenhuma para questionar a reparação das injustiças do passado.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

OS MILITANTES E O MUNDIAL DA ERA MÉDICI

O ano em que torci contra o Brasil na Copa do Mundo é o título de uma reportagem que trainees da Folha de S. Paulo fizeram com militantes de esquerda sobre suas lembranças da Copa do Mundo de 1970, no pior momento do terrorismo de estado em nosso país.
Os depoimentos são de José Genoíno, que aproveitou a confusão criada em São Paulo pela chegada do voo dos tricampeões para embarcar de ônibus rumo ao Araguaia; de Lidia Guerlenda, que entrou na clandestinidade exatamente durante o Mundial; de Aldyr Garcia Schlee, o companheiro que criara, em 1953, o uniforme canarinho; e deste que vos escreve, relatando a experiência de haver passado a fase da Copa como prisioneiro no DOI-Codi/RJ.

Além do texto jornalístico, há vídeos com trechos das entrevistas que os quatro concedemos.

Os jovens repórteres (ALINE PELLEGRINI, ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER, CAROLINA LEAL, ELTON BEZERRA, GUILHERME GENESTRETI, NÁDIA GUERLENDA CABRAL e THAIS BILENKY) estão de parabéns, fizeram um ótimo trabalho. Torço para que seja o início de uma carreira vitoriosa.

BRASIL VENCE SEM FAZER FORÇA; NAS QUARTAS TERÁ DE MOSTRAR BEM MAIS

Como eu previ, o bêbado foi devidamente surrado e o Brasil está nas quartas de final.

Fez 3x0 e poderia ter dobrado para dar sorte, se quisesse.

Mas, preferiu manter seu futebol calculista (enquanto o jogo não está decidido) e preguiçoso (quando estabelece placar inalcançável).

Contra o Chile, o Brasil atuou como quem sabe que fazer os gols é só questão de tempo.

Sem forçar muito, chegou ao primeiro num escanteio, aos 34' do 1º tempo. Jean e Luís Fabiano sobem sozinhos, o primeiro cabeceia forte.

Os chilenos se mandam para o ataque e desguarnecem a defesa; o Brasil não perdoa.

Em rápido contragolpe, Robinho toca para Kaká e este põe Luís Fabiano diante do goleiro. Foi só driblá-lo e empurrar para as redes, liquidando a partida, aos 37'.

Daí em diante, foi só a longa espera pelo apito final.

Um pouco menos entediado do que os demais, Ramires deu uma bela arrancada aos 14' do 2º tempo e serviu Robinho. Este chutou colocado, da entrada da área.

Se pudessem, os chilenos iriam logo para o hotel fazer as malas. Tiveram de fingir que ainda buscavam alguma coisa no jogo por mais meia hora.

Enquanto isto, o Brasil fingia que estava a partida levando a sério.

Foi tão fácil e
automático que nem deu para avaliarmos bem o conjunto e suas peças.

De qualquer forma, a ligação entre defesa e ataque ficou melhor com Ramires e Daniel Alves. Pena que o primeiro tomou um tolo cartão amarelo e não jogará contra a Holanda.

Daniel Alves não pode ficar de fora. Tem técnica e personalidade de titular.

Kaká continua sendo uma incógnita. Teve um ou outro lampejo, participou bem do gol de Luís Fabiano, mas ainda está muito longe do que necessitaremos doravante.

Que mais dizer? Foi como tirar doce de uma criança, definiu o Juca Kfouri.

Mas, fico pensando que o Brasil bem poderia aproveitar tal facilidade para impor uma goleada histórica aos chilenos e intimidar os próximos adversários. Preferiu cozinhar o galo.

Agora, acabou o recreio.

A Holanda, adversário de 6ª feira, joga igualzinho ao Brasil: marca muito, é calculista e tem um craque capaz de decidir qualquer partida, Robben. Hoje, contra a Eslováquia, ele só não fez chover.

Vale lembrar que as quartas de final têm sido duríssimas e decisivas para a sorte brasileira nos últimos Mundiais.

Em 2006, perdemos da França.

Em 2002, foi quando superamos nosso adversário mais perigoso de todos, a Inglaterra.

Em 1998, suamos sangue para vencer a Dinamarca por 3x2.

Idem em 1994, quando derrotamos a Holanda também por 3x2, conquistando nossa única vitória memorável daquela campanha.

Vamos ver o que o destino nos reserva desta vez.

HOJE É DIA PARA O BRASIL VENCER E CONVENCER

Se a tradição se mantiver, nossa tarefa
será apenas a de bater no cidadão ao lado...


Finda a 1ª fase, escrevi basicamente que francos favoritos para as oitavas eram Brasil, Paraguai e Uruguai.

Nos duelos que considerei mais equilibrados, a "ligeira superioridade" da Inglaterra talvez até prevalecesse, caso o árbitro não tivesse cometido grave equívoco ao ignorar o gol de empate contra a Alemanha.

O placar sonoro (4x1) confunde. Se os ingleses houvessem terminado o 1º tempo em igualdade no marcador, não seriam obrigados a expor-se como fizeram no 2º, propiciando os contragolpes mortais dos germânicos.

De qualquer forma, fez-se justiça histórica: a Inglaterra havia sido beneficiada em 1966 pela validação de um gol que não houve (a bola bateu no travessão e não ultrapassou a linha fatal), na proprrogação da final contra a Alemanha. Desta vez, o feitiço virou contra o feiticeiro.

O Uruguai não ganhou "fácil, fácil" da Coréia do Sul porque preferiu segurar resultado. Quando o empate coreano o obrigou a procurar novamente a vitória, chegou ao segundo gol rapidamente. Cautela demais atrapalha.

O espírito aguerrido dos estadunidenses não foi suficiente contra o futebol algo superior de Gana.

A Argentina abriu o placar graças a um erro grotesco da arbitragem, mas era mesmo muito melhor que o México. Principalmente por contar com craques capazes de decidir uma partida, como Tevez. E os tem em tal quantidade que é difícil um deles, pelo menos, não estar inspirado.

Hoje, é a vez do Brasil bater no seu bêbado de sempre, o Chile.

Embora nossa Seleção se ressinta da ausência de alguns craques que decerto aumentariam suas chances (como é frustrante vermos o que o Michel Bastos faz e ficarmos imaginando o que Roberto Carlos faria no seu lugar!), continua muito à frente da chilena em técnica e valores individuais, além de sua camisa inspirar óbvio temor aos adversários.

Então, tem a obrigação de não só vencer, mas também (finalmente...) convencer, para ganhar moral e deslanchar.

Pois, qualquer que seja o adversário das quartas-de-final, vai ser superior àqueles que o Brasil terá vencido (Portugal, o único que joga na mesma liga, não foi derrotado). Depois de hoje, não teremos mais galinhas mortas pela frente.

Vamos torcer para que , desta vez, faça direitinho a lição de casa.

domingo, 27 de junho de 2010

QUEREM DIMINUIR O VALOR DAS INDENIZAÇÕES A ANISTIADOS

A matéria de capa de O Estado de S. Paulo neste domingo (27) é Ministério Público quer reduzir indenizações já pagas a anistiados.

Remete para a pág. 4, cuja principal retranca é Procurador quer que Comissão de Anistia corte valor de indenizações. Eis a abertura:
"Pelo menos R$ 4 bilhões de indenizações a perseguidos políticos já pagas ou aprovadas pela Comissão da Anistia poderão ter os valores revistos pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Proposta em análise no tribunal prevê a possibilidade de reduzir os benefícios concedidos aos anistiados.

"A revisão poderá gerar uma economia de milhões de reais aos cofres públicos", defende Marinus Marsico, procurador do Ministério Público junto ao TCU, autor da representação que está para ser votada.

"Não contesto a condição de anistiado político, mas os valores das indenizações concedidas a título de reparação econômica", disse o procurador ao Estado.

"São alvo da representação, por ora, 9.371 benefícios já concedidos com base em uma lei de 2002".
Sendo um dos pensionistas que podem ser atingidos por tal decisão, considero-me moralmente impedido, como parte interessada, de comentar o assunto.

Mas, claro, estarei ao lado dos que lutarem contra a medida. E recomendo que todos tomem conhecimento, avaliem, repassem e se mobilizem.

SOBRE ABELHUDOS E JORNALISTAS

Quando o técnico Dunga e alguns jogadores pediram aos repórteres incumbidos da cobertura da Seleção que omitissem algumas informações por patriotismo, fui o primeiro a contestar: aquilo que tem REAL INTERESSE para os leitores deve ser divulgado. É este o papel da imprensa.

Mas, jornalista que é jornalista não publica tudo que fica sabendo. Analisa cuidadosamente antes, para separar o joio do trigo.
Então, por não ver INTERESSE NENHUM em que se tornasse público o fato de o goleiro Júlio Cesar estar usando uma proteção proibida pela Fifa, quero manifestar meu repúdio a quem reportou (Sílvio Barsetti) e quem aprovou a publicação (o editor de Esportes é Antero Greco, a ele cabendo, portanto, a decisão final).

Causou-me a mais profunda indignação a abertura da notícia Júlio Cesar revela uso de proteção irregular:
"O colete lombar utilizado pelo goleiro Julio Cesar no jogo de ontem continha placas de metal, o que não é permitido pela Fifa. Além das imagens do material, notadas depois de um choque de Julio com Raul Meireles, durante o segundo tempo de Brasil x Portugal, o próprio goleiro, num ato falho, confirmou que usou a proteção inadequada.

"'Tem um negócio de ferro ali, mas não vai escrever isso, por causa da Fifa, senão você vai me ferrar', disse ele a um repórter, já no final da área de entrevista. Na hora da confidência, Julio não percebeu que era observado pela reportagem do
Estado".
OK, o repórter ignora o que seja ato falho (Freud não lhe explicou...), mas sabe ficar antenado na conversa alheia.

A pergunta que não quer calar é: qual o prejuízo concreto para o futebol que a tal proteção causava?

Os velhinhos da Fifa decerto temem que o jogador arranque o colete e o utilize para agredir adversário, juiz ou bandeirinha.

Vocês dois, honestamente, creem que o Júlio Cesar fosse capaz de agir dessa maneira?

Tenho certeza de que não.

Então, por que botaram a boca no trombone?

Pensam que vão ganhar algum prêmio de jornalismo?

Posso garantir que inexiste troféu para quem fala pelos cotovelos e diz o que não deve.

Como consequência dessa incontinência, poderá, talvez, ser proibido que um jogador digno, corajoso e exemplar se proteja adequadamente na próxima partida.

Caso o Júlio Cesar receba um chute nas costas e tenha sua contusão agravada por haver ficado mais exposto, vocês dois serão os culpados.

A troco de quê, meu Deus?!


sábado, 26 de junho de 2010

O NOVO ABUSO DAS 'OTORIDADE'

Já vão longe os tempos em que os contraventores eram bandidos românticos como Meneghetti.

Italiano radicado no Brasil, Gino Amleto Meneghetti roubava apenas dos ricos, jamais recorria à violência e era um mestre
em escapar dos perseguidores tal qual um gato dos telhados, bem como em evadir-se dos presídios.

Virou personagem obrigatório dos pasquins criminais. Meu pai me relatava amiúde a vez em que o viu sendo preso.

Novelistas europeus como Auguste Le Breton e Jose Giovanni escreveram belas páginas sobre esses criminosos com código de honra, que levavam a vida quase como se fossem profissionais de um ofício inusual, é verdade, mas exercido com a mesma integridade.


Hoje, infelizmente, o que há do lado de lá são as bestas-feras engendradas nas últimas décadas, algumas das quais adquiriram muito poder graças ao rentabílíssimo tráfico de drogas pesadas.


Mesmo assim, a sociedade não as pode combater com armas de criminosos, caso contrário nada mais restará que valha a pena defendermos.


É intolerável a continuidade, em pleno século XXI, da ignóbil prática das torturas, que continuam correndo soltas e sendo até implicitamente defendidas em doentias monstruosidades cinematográficas como Tropa de Elite.


E é também intolerável que o Estado pisoteie direitos civilizados como o do sigilo nas comunicações entre advogados e seus clientes, instalando equipamentos para gravar som e imagens nos parlatórios dos presídios de segurança máxima que constrói.


Mesmo porque tais presos têm o dia inteiro para ficarem bolando códigos no sentido de driblar aqueles que os espionam ILEGALMENTE.


Então, esse abuso grotesco que as otoridade estão cometendo produzirá o máximo de prejuízo (ao fazer-nos regredir diretamente para a Idade das Trevas) sem gerar benefício nenhum na luta contra o crime.

POLÊMICA: CELSO LUNGARETTI x OLAVO DE CARVALHO

POMO DA DISCÓRDIA: hoje está bem claro que o Foro de São Paulo nunca foi uma ação concertada para comunizar o continente, como alardeava a extrema-direita,

Uma particularidade da internet é que os textos ficam sendo acessados muito tempo depois de escritos, quando os fios da meada já não são mais evidentes, dando ensejo a equívocos e distorções.

Isto, p. ex., ajuda a extrema-direita a disseminar sua propaganda enganosa sobre os acontecimentos históricos e difamatória/caluniosa contra os personagens que resistiram ao arbítrio neste país.


Sites como o Ternuma, Mídia Sem Máscara e
A Verdade Sufocada são verdadeiras fábricas de artigos falaciosos, geralmente recheados com informações teoricamente sigilosas dos centros de tortura -- material que os antigos torturadores surrupiaram dos arquivos oficiais antes que a legalidade fosse restabelecida no Brasil.

Gerada nos sites ultradireitistas, tal gosma fedorenta se irradia por toda a internet, veiculada por correntes de e-mails e postada pelos discípulos reacionários numa infinidade de tribunas e espaços virtuais.


Essa máquina de propaganda goebbeliana é tão eficiente que consegue obscurecer até a verdade sobre acontecimentos recentes, como a polêmica por mim travada com um dos principais porta-vozes da extrema-direita, Olavo de Carvalho, em 2007.


É comum eu encontrar na web comentários de fascistinhas repetindo as afirmações do primeiro artigo de OC contra mim (tão desatinadas que tiveram o efeito de um bumerangue para seu mestre) e ignorando todo o resto: minhas três intervenções e as outras duas de OC.


Aliás, ele se saiu tão mal no debate que, depois de espalhar seu primeiro ataque contra mim em todas as direções, ficou tão assustado com o contragolpe que passou a sustentar a polêmica apenas no espaço que tinha, ou tem, no
Diário do Comércio.

Nem no seu próprio site publicou mais suas intervenções, visivelmente empenhado em diminuir a repercussão do confronto que lhe era amplamente desfavorável.


Então, para deixar disponível um registro do que realmente ocorreu, estou colando aqui todos os textos da polêmica. O segundo deles, por sinal, não aparece mais nem mesmo nas buscas virtuais (ou na do Diário do Comércio, que o publicou).


Creio ter sido um marco importante, num momento de forte atuação dos reacionários na web, quando eles tentavam fixar a imagem de que seriam superiores a nós na argumentação.


Desde o primeiro momento, vi nessa refrega a possibilidade de provar, mais uma vez, que nenhum reacionário, possua quantos títulos acadêmicos possuir, é páreo para um militante revolucionário bem formado da minha geração.


A polêmica começou quando fiz a seguinte referência a Olavo de Carvalho, em meu artigo Goebbels inspira direita e esquerda na internet, de 27/09/2007:

"...Na falta de coisa melhor, os sites fascistas hoje alardeiam a periculosidade do Foro de São Paulo, por eles apresentado como a 'organização revolucionária que está influenciando de maneira decisiva os destinos políticos da América Latina, em especial a América do Sul'.

"(...) Olavo de Carvalho, misto de (péssimo) jornalista, (eficiente) propagandista e (pretenso) filósofo, descreve o Foro de São Paulo de forma tão delirante que parece Ian Fleming introduzindo a Spectre numa novela de James Bond".
Eis a íntegra dos seis artigos da polêmica:

OLAVO DE CARVALHO
INUTILIDADE CONFESSA
(24/10/2007)

Celso Lungaretti, que entrou para os anais da História Universal como prefeito de Pariquera-Açu, SP, demonstrou sua lealdade à esquerda revolucionária indo à TV delatar seus companheiros de ideologia durante o regime militar. Agora ele prova sua fidelidade aos princípios da democracia e da livre expressão exigindo o fechamento judicial dos sites conservadores na internet.

Isso é que é inteireza de caráter.

Aproveita a ocasião para classificar o jornal eletrônico Mídia Sem Máscara entre “os sites financiados por facções políticas”, mas, como não informa qual é a facção, o jornal continua sem meios de acesso ao tal financiamento, que espero seja substantivo e duradouro. Se o misterioso subsídio não aparecer logo, vou cobrá-lo do próprio Lungaretti, que como dono da Geração Editorial, editora da primorosa “História Crítica” de Mário Schmidt, tem prosperado muito no ramo da propaganda comunista, a indústria mais pujante deste país.

Que um sujeito se arrependa, depois se arrependa de ter-se arrependido, e por fim se arrependa de ambas as coisas, faz parte da miséria usual da humanidade. O que diferencia Lungaretti é que seus arrependimentos sempre o colocam a favor do lado mais vantajoso no momento, primeiro como serviçal da direita militar e agora como delator de direitistas. Por isso mesmo, ele não está de todo errado ao posar de superior a todas as ideologias. No fundo ele não serve a nenhuma: serve-se delas e nunca sai perdendo.

Com similar idoneidade, ele classifica de ficção conspiratória a minha afirmação de que os partidos membros do Foro de São Paulo dominam atualmente os governos de vários países da América Latina. Fique pois o leitor sabendo que os partidos de Lula, Kirschner, Chávez, Morales e tutti quanti não governam nada ou então não pertencem ao Foro de São Paulo, embora eles próprios digam o contrário em ambos os casos.

Normalmente, o que quer que um tipo como Lungaretti diga ou faça é inócuo como um pum de mosquito, mas, como a nota foi publicada no site do prof. Roberto Romano, que tem mais de três leitores, um deles me enviou uma cópia da coisinha, perguntando o que acho dela. Não acho nada, apenas noto que o prof. Romano, quanto mais apanha de comunistas, mais solicitamente os lisonjeia, rebaixando-se ao ponto de se fazer de megafone para o ex-prefeito de Pariqüera-Açu. É o que normalmente se chamaria de fim de carreira, mas, no caso, parece ser apenas o preço de um emprego na Unicamp. Ou talvez acumulação de méritos para uma vaga no Senado.

CELSO LUNGARETTI
O SAMBA DO OLAVO DOIDO
( 30/10/2007)

Em 1968, o grande Sérgio Porto não suportava mais os sambas-enredos sobre figuras históricas, que passaram a predominar a partir da turistização do carnaval carioca. Tratava-se de uma opção esperta para se agradar aos gringos e evitar atritos com a ditadura, mas que resultou catastrófica do ponto-de-vista artístico: os episódios eram narrados de forma simplista, oficialesca e, muitas vezes, equivocada.

A resposta de Sérgio Porto foi o genial
Samba do Crioulo Doido, que, dizia a introdução, “tinha sido criado” por um compositor de escola-de-samba cuja cuca fundira de tanto lidar com os eventos da História, levando-o a fazer uma salada de épocas, fatos e personagens:
“Joaquim José,/ que também é/ da Silva Xavier,/ queria ser dono do mundo/ e se elegeu Pedro II./ Das estradas de Minas,/ seguiu para São Paulo/ e falou com Anchieta./ O vigário dos índios/ aliou-se a D. Pedro/ e acabou com a falseta./ Da união deles dois/ ficou resolvida a questão/ e foi proclamada a escravidão...”
Olavo de Carvalho, que se apresenta como “jornalista, ensaísta e professor de filosofia”, também compõe seus sambas do crioulo doido. E o pior é que não se trata de sátira: ele acredita nas bobagens que escreve.

Assim, pretendendo me agredir (artigo “Inutilidade Confessa”,
Diário do Comércio, 24/10/2007), ele já começa viajando na maionese: “Celso Lungaretti, que entrou para os anais da História Universal como prefeito de Pariquera-Açu, SP...”

Repetindo a mesma ladainha num programa radiofônico, ele deixou ainda mais evidenciado seu desprezo por esse município, ao acrescentar que sua população se limitava a três pessoas: eu, meu pai e minha mãe.

Mas, da mesma forma que o Tiradentes nunca falou com Anchieta, eu também jamais fui prefeito de Pariquera-Açu ou de qualquer outra cidade. Nunca disputei eleições para o Executivo ou o Legislativo. Sou paulistano e – com exceção do período em que participei da resistência à ditadura militar – sempre residi na Capital.

Parece que o rigor factual anda meio ausente das aulas do professor OC.

O festival de besteiras não pára

OC, em seguida, se refere a mim como “dono da Geração Editorial”. E diz que eu tenho “prosperado muito no ramo da propaganda comunista, a indústria mais pujante deste país”.

Uma passada de olhos pelo site da Geração seria suficiente para ele ficar sabendo que o dono da editora é o respeitado jornalista e escritor Fernando Emediato. E que eu sou apenas um entre dezenas de autores que compõem o cast da Geração.

Será que as aulas de filosofia de OC incluem o ensino da responsabilidade ética? Dificilmente. Afinal, ele me acusa de infidelidade aos princípios da democracia e da livre-expressão por exigir o fechamento judicial “dos sites conservadores na internet”.

E qual foi, realmente, minha proposta? “Reunir provas dos delitos que estão sendo cometidos (exortação à rebelião contra os Poderes da Nação, calúnia e difamação, principalmente), encaminhando-as às autoridades (a equipe que o Ministério Público Federal criou para combater os crimes virtuais ou, nas cidades menores, a Polícia Federal), à imprensa e às entidades de defesa dos direitos humanos”.

Ou seja, defendi e defendo a tomada de providências judiciais contra os sites extremistas de direita (não os meramente conservadores) que estejam pregando a derrubada do governo constitucionalmente eleito ou cometendo os crimes de calúnia e difamação, entre outros.

O que há de errado em pedir que as autoridades apurem crimes virtuais? O que as pregações golpistas e o uso de mentiras para satanizar-se cidadãos respeitáveis têm a ver com a democracia e a liberdade de expressão?


Moscou Contra 007 ou O Rato Que Ruge?

O principal motivo desse tiro que OC tentou dar em mim (e saiu pela culatra) foi a crítica que eu fiz, no meu artigo Goebbels Inspira Direita e Esquerda na Internet, à seguinte afirmação dele, OC, referindo-se ao Foro de São Paulo, em artigo de 15/01/2007: “...a entidade que já domina os governos de nove países não admite, não suporta, não tolera que parcela alguma de poder, por mais mínima que seja, esteja fora de suas mãos… o Foro de São Paulo, com a aprovação risonha do nosso partido governante, reivindica o poder ditatorial sobre todo o continente”.

Eu esclareci que o Foro se trata “apenas de um encontro bianual de partidos políticos e organizações sociais contrárias às políticas neoliberais”. E comentei que OC, com suas teorias conspiratórias, mais parecia “Ian Fleming introduzindo a Spectre numa novela de James Bond”.

A isso responde agora OC: “Fique pois o leitor sabendo que os partidos de Lula, Kirschner, Chávez, Morales e tutti quanti não governam nada ou então não pertencem ao Foro de São Paulo, embora eles próprios digam o contrário em ambos os casos”.

Qualquer cidadão sensato percebe quão delirante é a hipótese de que Brasil e Argentina, juntamente com cinco nações não especificadas, a Venezuela e a Bolívia, participem de uma tramóia para implantar ditaduras de esquerda em todo o continente americano (o que incluiria os Estados Unidos).

Quem crê ou tenta fazer os outros crerem que o populismo autoritário de Chávez determinará o destino de grandes nações como o Brasil e a Argentina, já foi além até das fantasias de 007. Isso está mais para
O Rato Que Ruge, aquela ótima comédia com Peter Sellers...

Como o rigor geográfico também passa longe do pomposo professor de filosofia, ficamos sem saber exatamente quais os países em risco de se tornarem ditaduras. Mas, com toda certeza, a verdadeira ameaça é representada por quem já transformou a América Latina numa constelação de ditaduras e generalizou a prática de assassinatos e torturas nas décadas de 1960 e 1970: os companheiros de ideais de OC.


Grosserias e baixo calão: a linguagem dos becos

De resto, ele também nada tem a ensinar em termos de comportamento. No texto escrito, diz que “o que quer que um tipo como Lungaretti diga ou faça é inócuo como um pum de mosquito”. No falado, apela para grosserias ainda mais explícitas e palavras de baixo calão, atingindo inclusive minha mãe octogenária. A isso darei a resposta cabível de um homem civilizado, não a dos becos em que se originaram o nazismo e o fascismo.

Como não reconheço a mínima autoridade moral de OC para julgar meu comportamento, não perderei muito tempo com seus devaneios sobre episódios já esclarecidos.

Acusa-me de oportunista por, após 65 dias de incomunicabilidade e torturas, logo depois de sofrer uma lesão permanente e sob ameaça de morte, haver aceitado participar de uma farsa de arrependimento forçado, articulada pela Inteligência do Exército.

Quem pode avaliar uma atitude tomada em situação tão extrema são os outros combatentes, que também assumiram o risco de enfrentar a tirania, apesar da enorme disparidade de forças. Os iguais podem me julgar. Os carrascos, seus defensores e seus discípulos, não.

OC falta novamente com a verdade ao dizer que mudei de posição agora, por ser mais vantajoso para mim. Desde a primeira vez que fui procurado pela imprensa – entrevista concedida à
IstoÉ em 1978 – sempre relatei as torturas sofridas e as circunstâncias dramáticas em que se deu aquele episódio.

Reiterei isso, na década seguinte, em entrevistas ao jornal
Zero Hora e à revista Veja. E voltei a falar sobre as torturas durante a polêmica com Marcelo Paiva, em 1994. Além de haver travado uma luta dramática para salvar da morte quatro militantes que faziam greve de fome em 1986.

Felizmente, minhas palavras e atitudes estão registradas de diversas formas, tornando inócuas essas tentativas de desmerecer uma vida inteira dedicada à defesa da liberdade e da justiça social. Os leitores poderão facilmente encontrar elementos para decidirem de que lado está a verdade.

Finalizando: o samba do crioulo doido de OC toma ao pé da letra uma afirmação que o saudoso Lalau fez como blague. Quer que seja proclamada a escravidão e voltemos todos a viver debaixo das botas. Mas, o amadurecimento do povo brasileiro é bem maior do que supõe sua vã filosofia.

Ditaduras – todas as ditaduras – foram para a lata de lixo da História. E dela não sairão, por mais que suas viúvas esperneiem.


OLAVO DE CARVALHO
BELLA ROBBA
( 7/11/2007)

Lungaretti esbraveja, rasga as vestes, bate no peito, e acaba por confirmar tudo.

Em nota publicada no seu blog (http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com), Celso Lungaretti afirma que cometi gravíssimo deslize ético: disse que ele foi prefeito de Pariquera-Açu. Que os caros leitores me desculpem. Errei mesmo. Lungaretti não foi nem isso. Também não é diretor da Geração Editorial, como imaginei que fosse; é apenas, como ele mesmo diz, membro do cast dessa editora. Quanto ao conteúdo essencial do meu artigo, Lungaretti esbraveja, rasga as vestes, bate no peito, e acaba por confirmar tudo: no tempo da ditadura, foi à TV denunciar seus companheiros de esquerda, e agora, sob um governo de esquerda, pede ação policial contra os sites liberais e conservadores.

As desculpas que ele apresenta para a sua conduta nessas duas ocasiões são tão comoventes quanto previsíveis: tortura, no primeiro caso; zelo pelas liberdades, no segundo. Acredite quem quiser. Só por uma curiosidade, lembro ao leitor que os soldados americanos da Guerra da Coréia, que apareceram na TV comunista fazendo discursos contra a “agressão imperialista”, foram induzidos a isso mediante intermináveis sessões de lavagem cerebral. Os casos estão documentados no livro do próprio médico que tratou desses prisioneiros depois de libertados (William Sargant, The Battle for the Mind, Penguin Books, 1961).

Lungaretti, segundo ele mesmo conta, mal saiu da prisão e na primeira entrevista já começou a falar grosso contra a ditadura que supostamente o havia persuadido a fazer aquilo que os demais torturados, submetidos a idêntico tratamento, não puderam ser induzidos a fazer. Se tudo isso é de uma incongruência psicológica patética, a explicação que Lungaretti oferece para o seu apelo à perseguição judicial dos direitistas é tão cínica que não precisa ser respondida: o ex-renegado e agora queridinho da esquerda diz que não quer fazer o mal aos conservadores em geral, mas só àqueles que “pregam a rebelião contra os poderes da Nação”.

Em vez de responder, pergunto: se é certo, justo e moralmente elevado pedir castigo judicial para supostos pregadores de rebeliões virtuais, que é que pode ter havido de tão errado em denunciar uma rebelião armada já em marcha, ao ponto de Lungaretti, para justificar essa denúncia, precisar alegar que só a fez mediante tortura? E o sujeito ainda acha que cabeça confusa é a minha! Quanto ao que ele diz do Foro de São Paulo, que é uma trama inverossímil, devo recordar, como autor de livros de lógica, que fatos documentalmente comprovados, reiterados até pela confissão direta de seu personagem principal, não têm satisfações a prestar ao critério de verossimilhança, o qual, por definição, é um mero julgamento de aparências, útil apenas quando não se tem acesso aos fatos.

CELSO LUNGARETTI
BELLA CIAO
(12/11/2007
)

Ao intitular de “Bella Robba” (Diário do Comércio, 07/11/2007) sua tentativa de resposta ao meu artigo “O Samba do Olavo Doido”, Olavo de Carvalho faz uma óbvia e grosseira alusão à minha ascendência italiana.

Não é de estranhar-se, pois OC não perde ocasião de manifestar seu desprezo pelos
seres inferiores, como os brasileiros que residem nos pequenos municípios interioranos. Talvez os italianos também não mereçam o apreço do filósofo campineiro que se radicou na Virgínia, EUA, para sentir-se entre iguais.

Eu, pelo contrário, orgulho-me não só de ser herdeiro da tradição humanística dos povos latinos, como também (e muito!) de haver seguido os passos dos partisans que enfrentaram o nazi-fascismo. Bella por bella, fico com “Bella Ciao”, a canção-símbolo da Resistência italiana.

Mas, minhas raízes também estão neste sofrido Brasil, em que os Lungarettis lutam contra as injustiças praticamente desde sua chegada, na imigração italiana: meu antepassado Angelo não hesitou em balear o irmão do presidente da República Campos Salles para defender a honra da família contra os desmandos dos barões da terra.

Meus iguais são as vítimas do capitalismo – no Brasil, em primeiro lugar. OC foi em busca dos seus na Meca do capitalismo. Questão de gosto... ou de caráter.

OC pede desculpas aos leitores por suas afirmações estapafúrdias anteriores, de que eu seria ex-prefeito de Pariquera-Açu e atual dono da Geração Editorial. No primeiro caso, diz que “Lungaretti não foi nem isso”, como se eu devesse me considerar uma nulidade por ter
apenas lutado aos 17 anos contra uma ditadura sanguinária e, depois, feito uma honesta carreira de jornalista, ao mesmo tempo em que continuava a defender os ideais de liberdade e justiça social.

No essencial, ele novamente tergiversa e calunia, pois são as opções que restam a quem defende o indefensável.


O espantalho inverossímil – Esta polêmica começou quando toquei num calo dolorido dos profissionais do anticomunismo. Em 1964 eles usaram a “conspiração comunista internacional” como bicho-papão para assustarem a classe média e conseguirem êxito em sua segunda tentativa de usurpação do poder, depois que a resistência legalista fez abortar o golpe de 1961.

Não há espantalho igualmente apropriado nos dias de hoje. Então, para suprir a lacuna, eles tiveram de satanizar uma inexpressiva reunião de partidos e organizações de esquerda da América Latina, o Foro de São Paulo, apresentando-a como uma sinistra articulação para, nas palavras de OC, reivindicar “o poder ditatorial sobre todo o continente”.

Ou seja, Chávez e Morales estariam em vias de hastear a bandeira bolivariana em Wall Street, privando OC da segunda pátria que é a primeira no seu coração...

Evidentemente, eu só poderia comparar um disparate desses a fantasias cinematográficas como
Moscou Contra 007 e O Rato Que Ruge.

Cônscio do ridículo, OC refugia-se agora na autoridade acadêmica: “Devo recordar, como autor de livros de lógica, que fatos documentalmente comprovados, reiterados até pela confissão direta de seu personagem principal, não têm satisfações a prestar ao critério de verossimilhança, o qual, por definição, é um mero julgamento de aparências, útil apenas quando não se tem acesso aos fatos”.

Leiam e releiam! Nada que eu pudesse dizer seria mais ruinoso para a reputação intelectual de OC do que ter apelado para essa embromação doutoral, subestimando a inteligência de quantos tomariam conhecimento do seu artigo. Para os vigaristas saírem-se bem, é preciso que existam otários. Eu não sou. Quem acompanha polêmicas políticas, também não. Então, noves fora, acaba sobrando apenas... um malandro-otário.

Onde está a comprovação documental de que Brasil e Argentina, as nações com peso decisivo na América do Sul, estejam sendo teleguiadas pelo Foro de São Paulo, em vez de perseguirem seus próprios objetivos geopolíticos? Em lugar nenhum, claro!

Os saraus da esquerda sempre produziram um blablablá triunfalista que nada tem a ver com a correlação real de forças. Aí vem um OC da vida, pinça meia-dúzia de arroubos retóricos, junta com uma interpretação distorcida dos fatos e sai trombeteando que o continente americano inteiro está a caminho de se tornar uma constelação de ditaduras esquerdistas.

Se tivesse um mínimo de honestidade intelectual, ele esclareceria que existem apenas alguns candidatos a caudilhos com projetos populistas-autoritários de perpetuação no poder, sem ruptura real com o capitalismo. Nem de longe a perspectiva de novos regimes castristas; quanto muito, tentativas de bisar o PRI mexicano.

Mas, claro, nunca se pode esperar sinceridade dos manipuladores políticos. E menos ainda daqueles que servem de gurus para os medíocres e ressentidos, fornecendo-lhes explicações simplistas para seus fracassos cotidianos. “A culpa é do Governo Lula!” “O Governo Lula é de esquerda!” “Então, a culpa é da esquerda!”

Embora se pavoneie como autoridade em lógica, OC só parece ter verdadeira afinidade com os sofismas.
Propaganda enganosa – Em sua cruzada contra a verossimilhança, OC volta a bater na tecla de que eu teria pedido “ação policial contra os sites liberais e conservadores”. Como se o cidadão de um país democrático não tivesse o direito de requerer o cumprimento das leis que coíbem crimes como incitação à rebelião, difamação e calúnia.

E como se os sites extremistas de direita – jamais citei qualquer outro além do
Ternuma, do Mídia Sem Máscara, do Usina de Letras e do A Verdade Sufocada – fossem apenas “liberais e conservadores” e “supostos pregadores de rebeliões virtuais”, segundo afirma OC.

O Brasil padeceu 36 anos, no século passado, sob duas intermináveis ditaduras. Isto já é motivo suficiente para não sermos condescendentes com o Grupo Guararapes, integrado por oficiais aposentados das Forças Armadas que passam a vida incitando seus colegas da ativa a sublevarem-se contra ministros e presidentes, por meio de manifestos bombásticos que trazem exclamações do tipo “a honra ou a morte!”; ou com o tal Partido Vergonha na Cara, que exige “militares no poder já!”.

Se permanecessem como sociedades secretas, endereçando suas mensagens apenas a outros fanáticos, não estariam infringindo a lei. O caso muda de figura quando recorrem à comunicação de massa (Internet). E o acesso à Web lhes é propiciado exatamente pelos quatro sites da direita radical, veículos de propagação de suas exortações golpistas.

Além disso, tais sites mantêm permanentemente no ar centenas de artigos de propaganda enganosa, para denegrir os movimentos de resistência à ditadura militar de 1964/85 e seus participantes.

Trata-se de uma mistura infame de mentiras, meias-verdades e interpretação distorcida dos fatos, bem ao estilo do guru OC. E têm como matéria-prima os Inquéritos Policiais-Militares da ditadura, ou seja, informações arrancadas de seres humanos mediante torturas terríveis, a ponto de muitos (como Vladimir Herzog) terem morrido durante os interrogatórios.

Na Europa, um historiador que ousou negar a existência do Holocausto foi condenado à prisão. Algo deveria ser feito pelo Estado brasileiro para impedir que abutres continuem revirando o lixo ensangüentado da ditadura brasileira, no afã de caluniarem vivos e mortos. Por respeito à lei e por dever de gratidão para com aqueles que sacrificaram tudo em nome da liberdade.


Pontapé na virilha - Finalmente, o filósofo OC não tem pejo de recorrer aos golpes baixos: “Lungaretti, segundo ele mesmo conta, mal saiu da prisão e na primeira entrevista já começou a falar grosso contra a ditadura que supostamente o havia persuadido a fazer aquilo que os demais torturados, submetidos a idêntico tratamento, não puderam ser induzidos a fazer”.

Ou seja, mal saí da prisão em 1971 e já em 1978 comecei a falar grosso contra a ditadura que me havia persuadido a fazer aquilo que mais de 30 companheiros também foram induzidos a fazer.

Sintomaticamente, OC comete ato falho e deixa aflorar a verdade dos fatos, ao admitir que fui submetido “a idêntico tratamento” dos “demais torturados”.

Desde a Santa Inquisição se vem comprovando que há limites para a resistência do ser humano à tortura prolongada. Alguns dos revolucionários mais ilustres do seu tempo foram reduzidos à condição de confessar absurdos e balbuciar lamúrias nos julgamentos stalinistas.

Então, ninguém jamais conseguirá intimidar-me ao evocar aquele episódio em que, já sem forças para reagir depois de dois meses e meio de maus tratos, tendo sido mantido incomunicável à mercê dos carrascos muito mais do que os 30 dias que as próprias leis de exceção facultavam, com o tímpano recém-estourado ainda gotejando pus e sangue, manchas roxas no rosto e o corpo esquelético como o dos sobreviventes dos campos de concentração nazistas, fui conduzido a uma TV de madrugada e, sob ameaça de ser torturado até à morte, recomendei aos jovens que não ingressassem numa guerra já perdida.

O que OC supõe servir-lhe de defesa é a mais veemente acusação da desumanidade que ele defende no passado e tenta reviver no presente.

OLAVO DE CARVALHO
BELLA ROBA, O RETORNO
(16/11/2007)

Ao comentar a resposta inócua dada pelo sr. Celso Lungaretti às minhas observações sobre o seu sucesso na carreira do arrependimento lucrativo, qualifiquei-a com a velha expressão Bella roba (bela coisa), de uso corrente no Cambuci da minha infância, para designar um nada que pretendesse ser alguma coisa.

Não tendo algo mais substantivo de que se queixar, Lungaretti optou por torcer o sentido das minhas palavras até o extremo limite da sua mania de perseguição, fingindo interpretá-las como alusão pejorativa às suas origens itálicas, como se fosse muito natural a um humilde portuga como eu olhar desde cima a nação de Dante, Leonardo, Michelangelo, Vico e Manzoni.

Dessa premissa manifestamente psicótica o referido foi tirando aquelas conclusões que os senhores podem imaginar, das quais emergi com as feições estereotipadas do quatrocentão racista – adequadíssimas a um neto de imigrantes e pai de filhos mulatos!! -, ampliadas por sua vez às dimensões de um virtual assassino em massa de seres inferiores, entre os quais, pobrezinho, o Lungaretti.

Depois de fazer da sua vida uma dupla palhaçada, o cidadão só pode mesmo encontrar refúgio na autovitimização teatral.

Mas desta vez, confesso, o sujeito foi tão longe no fingimento histriônico, que me tocou o coração. Senti-lhe o drama. O mal que ele faz a si mesmo é tão profundo, tão irreparável, que eu jamais lhe negaria o consolo derradeiro de lançar a culpa nos outros, mesmo que um deles seja eu.

Pode dizer de mim o que quiser, Lungaretti. Prometo não voltar a falar mal de você. Pode até dizer que fugi da raia. Não ligo não. Não faço questão de mostrar valentia onde ela é desnecessária e inconveniente.

Uma vez até saí correndo de um enfezado cãozinho Yorkshire para não carregar na consciência o pecado de dar um pontapé em criatura tão indefesa.

CELSO LUNGARETTI 
ENTRADA DE LEÃO,
SAÍDA DE CÃO...
(16/11/2007)


No dia 16/11/2007, o "Diário do Comércio" publicou a intervenção final de Olavo de Carvalho em sua polêmica comigo ( http://www.dcomercio.com.br/noticias_online/938750.htm ).

Inapelavelmente derrotado nos três focos principais da discussão (o Foro de São Paulo, os sites fascistas e as acusações levianas que fez ao meu comportamento como preso político), OC bateu em retirada, limitando-se a negar que tenha preconceito contra italianos e a fazer análises psicológicas irrelevantes, pois não possui credenciais acadêmicas nem morais para tanto.

Já que OC gosta tanto de expressões em desuso, há uma ótima para encerrar este debate: "entrada de leão, saída de cão".

SELEÇÕES AMERICANAS DEITAM E ROLAM NO MUNDIAL

A 1ª fase do Mundial 2010 teve os americanos e asiáticos indo além do esperado, os europeus ficando aquém de suas tradições e os filhos da Mãe África dando vexame em casa.

Dos seis países africanos, sobrou apenas Gana (16,6%).

Dos três da América do Norte e Central, dois seguem adiante: EUA e México (66,6%).

A América do Sul conseguiu o notável aproveitamento de 100%, com a classificação de Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai.

A Ásia também surpreendeu, com 50% de suas quatro seleções conquistando a vaga: Coréia do Sul e Japão.

A Oceania é caso à parte, continente que futebolisticamente inexiste. Sua única força, a Nova Zelândia, parecia figurante fazendo papel de índio em bangue-bangue convencional: estava lá para morrer logo de cara.

E a Europa ficou no prejuízo, com seis dentro e sete fora. Estatística chinfrim (46,1%) e desclassificação precoce da França e Itália.

Para piorar, a sorte caprichosa obrigou os europeus salvos do incêndio a entredevorarem-se nos mata-matas: Alemanha x Inglaterra, Espanha x Portugal e Eslováquia x Holanda.

Assim, das quatro campeãs mundiais da Europa, duas já caíram e só uma superará o obstáculo seguinte. Qual? Parece haver ligeira superioridade da Inglaterra.

Já nos outros clássicos europeus, o favoritismo é mais acentuado, da Espanha e da Holanda, mas pode haver surpresa(s).

O Uruguai de Diego Forlan despachará a Coréia do Sul. Fácil, fácil.

O Paraguai também vai bater em bêbado, o Japão.

Os estadunidenses, quem diria, estão mostrando mais alma de vencedores do que os guerreiros de Gana. Devem, portanto, prevalecer.

A Argentina, maior candidata ao título, não terá vida fácil contra o México, mas tende a vencer, caso não ocorra um imponderável igual ao que quase alijou a Espanha, por conta da dificuldade em romper-se uma retranca férrea.

Finalmente, o Chile, para o Brasil, é como o Peru: morre na véspera.


sexta-feira, 25 de junho de 2010

PLACAR: 0x0. NOTA: IDEM.

O Brasil entrou em campo contra Portugal já classificado para a próxima fase e com três desfalques: Kaká, cumprindo suspensão; Elano, machucado; e Robinho, talvez poupado, talvez preservado por problema físico.

Portugal abdicou do ataque, armou bem sua retranca e tentou contra-atacar.

Resultado: o Brasil sem criatividade e Portugal sem coragem fizeram um dos jogos mais monótonos deste Mundial. 0x0 não foi placar, foi nota. As vaias se justificaram plenamente.

Ficou provado que, ausentes Kaká e Robinho, nossa seleção só fica trocando bolas na intermediária, quase sem produzir lances agudos.

Todas as tentativas de entrar pelo meio deram em nada.

Dois cruzamentos da direita, no 1º tempo, levaram perigo.

O de Luís Fabiano obrigou o goleiro Eduardo a uma excepcional intervenção, desviando o chute de Nilmar, que ainda tocou o travessão.

O de Maicom propiciou cabeceada de Luís Fabiano que passou rente à trave.

O 2º tempo brasileiro foi pior ainda. A única ameaça de gol se deveu ao desvio da zaga num chute longo de Ramires. Eduardo conseguiu se voltar em tempo e espalmar.

O adversário teve duas chances que exigiram saídas arrojadas de Júlio César aos pés dos atacantes lusos.

Mais nada. Só tédio e bocejos.

Dos substitutos, Júlio Baptista confirmou o que se sabia: só está ocupando lugar no banco. Quando entra, deixa o Brasil com 10.

E Michel Bastos é uma negação no apoio ao ataque. Não avançou bem em lance nenhum e ainda deixou atrás de si uma avenida para Cristiano Ronaldo desfilar (por sorte, ele não estava inspirado...).

Não há mais dúvida nenhuma: estava certo quem pediu a convocação de Roberto Carlos e Ronaldinho Gaúcho ou Paulo Henrique Ganso.

O desempenho de Nilmar foi prejudicado por ser mal servido (tanto quanto Luís Fabiano, que também teve atuação apagada, mas não por sua culpa). De qualquer forma, continua sendo boa opção para quando precisarmos de rapidez e habilidade.

Daniel Alves e Ramires são outros que não queimaram seu filme. O primeiro deveria ser titular.

Por último: os torcedores sul-africanos, órfãos de quem os represente, dificilmente ficarão ao nosso lado, a menos que mostremos muito mais futebol a partir das oitavas.

Por enquanto, estamos devendo.


P.S. 1 - Na coletiva, Dunga confirmou o que eu intui: Robinho não entrou por sentir dores musculares.
P.S. 2 - Quem disse que internauta não entende de futebol? Na enquete do UOL, tendo como opções três brasileiros e dois portugueses, Júlio Baptista aparece como o pior da partida, com quase 50% dos votos, seguido por Michel Bastos e Felipe Melo.

MICHAEL JACKSON: ESPREMIDO, JOGADO FORA, REAPROVEITADO

Hoje é dia de se derramar lágrimas por Michael Jackson. As da indústria cultural, claro, são lágrimas de crocodilo. As dos fãs, sinceras.

Mas, daí a sentir-me obrigado a acompanhá-los na superestimação dos talentos do seu ídolo vai uma grande distância.

Então, também vou embarcar na onda nostálgica. Só que minha evocação é outra: do período em que exerci a crítica roqueira, tentando ir além da superficialidade dominante e evitando fazer média com o sucesso comercial.

Foi imbuído do mesmo espírito que, 25 anos depois, escrevi o artigo abaixo, tão execrado pelos fãs do artista -- que não entenderam patavina...


MICHAEL JACKSON (1958 - 2009)
Do boi só se perde o berro, diziam os antigos. Foi o que me veio à cabeça ao assistir à overdose de Michael Jackson em jornais, revistas, rádios e tevês.

A mesma indústria cultural que deu projeção exageradíssima a quem tinha talento, é verdade, mas nunca foi um revolucionário da música como os Beatles; que tanto glamourizou suas esquisitices de adulto malresolvido, como se fosse desejável que quarentões se comportassem à maneira de impúberes; que foi de uma crueldade ímpar ao expor o que me pareceu ser mais uma atração platônica pelos jovens do que pedofilia propriamente dita (ou seja, ele continuaria estacionado na sexualidade infantil, impotente para chegar às vias de fato); e que o relegou ao ostracismo quando sua imagem se tornou politicamente incorreta - agora transforma sua morte num repulsivo espetáculo de canonização midiática.

Nunca apreciei a música do Jacksons 5, nem a que ele fez depois na sua carreira-solo. Comercial demais para o meu gosto de rockeiro apegado às origens bluesísticas.

Ademais, os malditos videoclips, de quem Jackson foi o rei, marcam a retomada do controle por parte da indústria cultural, depois de ter sido obrigada a submeter-se à explosão roqueira durante alguns anos gloriosos, entre o final dos '60 e o início dos '70.

Nunca esquecerei de Joe Cocker, depois de um animado passeio por São Paulo, entrando diretamente no palco, com a roupa que vestia. Para arrasar, com sua entrega incondicional à música.

Nunca esquecerei da temporada do Cream em que os fulgurantes improvisos de Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker faziam com que, noite após noite, os números tivessem duração diferente.

Nunca esquecerei de Jimi Hendrix, com sua beleza selvagem, implodindo o hino estadunidense em Woodstock.

Os clips dos anos 70 significaram a substituição do talento bruto pela produção onerosa, da paixão pelo ensaio, da arte pelo espetáculo. E Michael Jackson acabou simbolizando essa domesticação.

Mas, seu destino como ser humano vitimado por essa engrenagem perversa sempre me inspirou compaixão. É triste vermos como um menino bonito, simpático e espontâneo, após receber o toque de Sadim (Midas às avessas) do sistema, tornou-se um adulto descaracterizado e sofredor.

Até sua cor quis negar, ao invés de orgulhar-se dela como o grande Muhammad Ali. Acabou ficando com imagem idêntica à dos vampiros mutantes de um clássico do terror,
A Última Esperança da Terra (d. Boris Sagal, 1971), como se castigado pelos deuses.

Foi sugado, espremido e jogado fora. Aí a comoção causada por sua morte deu chance a um reaproveitamento do bagaço, para faturarem mais um pouquinho.

A indústria cultural é um dos componentes mais doentios e malignos do capitalismo putrefato. Casos como o de Michael Jackson dão uma dimensão total de sua capacidade de destruir seres humanos para saciar a curiosidade mórbida de seus públicos, movida pelo amoralismo do lucro.


A música que o sistema não conseguia domesticar: Joe Cocker em Woodstock.

LUNGARZO: CASO BATTISTI MARCHA PARA O DESFECHO JUSTO

O destaque dado pela imprensa escrita a uma entrevista radiofônica de Dilma Rousseff provocou inquietação infundada entre os apoiadores do escritor Cesare Battisti.
Vale, então, reproduzir, em primeira mão e na íntegra, o novo artigo de Carlos Lungarzo (da Anistia Internacional), As declarações da candidata sobre o Caso Battisti, que tem minha total concordância:
Na edição desta 5ª feira (24), o jornal O Estado de S. Paulo repercutiu com destaque uma entrevista radiofônica concedida pela candidata presidencial Dilma Rousseff, sobre a decisão de extraditar ou não o escritor italiano Cesare Battisti. Vide retranca 1, retranca 2 e retranca 3.

Segundo o jornal, ela "evitou hoje qualquer tipo de confronto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com os defensores da permanência no Brasil do ex-ativista de esquerda Cesare Battisti” (...), limitando-se a dizer que "se eleita presidente e se tiver de tomar a decisão sobre extraditar ou não Battisti, cumprirá a decisão do Supremo Tribunal Federal".


O jornal ainda afirma que “Dilma foi tão ambígua quanto a decisão de STF”. Esta afirmação contém um erro de redator, talvez porque ele queria usar uma forma retórica e não teve uma boa ideia.


Com efeito, Dilma foi, de fato, muito ambígua; aí ele está certo.


Mas o STF não foi nada ambíguo, e aí o redator se engana. Na última
rodada do processo, em dezembro, o tribunal aprovou, por 5 contra 4, que o presidente não está vinculado ao acórdão desde que se mantenha compatível com o tratado de extradição existente entre o Brasil e a Itália.

Isto não é nada ambíguo, é claríssimo. Se alguém duvida de que 5 é maior que 4, por favor, pergunte a seu filho ou sobrinho de quatro anos...


Quando o ministro Cézar Peluso disse que a decisão era confusa e não sabia como redigi-la (
coitado, quanto problema!), estava criando um clima de animosidade e tentando convencer a opinião pública de que Lula não tinha recebido do STF pleno direito de decisão, desde que compatível com o tratado.

Uma prova mais que evidente desta manobra é esta: apesar de ter “ameaçado” que a redação poderia durar
muuuuuito tempo, o acórdão acabou saindo quatro meses depois, o que está mais ou menos na média da Justiça brasileira.

Ou seja, a proclamação do resultado do STF era bem clara e Peluso não precisou se angustiar tanto como pensava. Todo mundo entendeu muito bem o que tinha dito Eros Grau.


O sempre brilhante Marco Aurélio de Mello fez uma ironia forte: disse que era necessário fazer um simpósio para discutir como se proclamam os resultados. Ele já tinha dito que essa reunião de dezembro era uma manobra da Itália para “virar a mesa”


Não sei, nem acho relevante saber por que a rádio
Band AM de Campinas insistiu neste assunto, sobre o qual a candidata Dilma disse algo exatamente igual há várias semanas, nem por que o Estadão dá tanta relevância a esta banalidade.

Seja qual for o motivo, quero tranquilizar os milhares de amigos de Cesare. Digo “tranquilizar”, porque cá na América Latina justiça e política são misturadas e dominadas por interesses de nível moral nada elogiável.


É natural, então, que a gente não possa confiar nem na própria sombra.


A declaração da candidata

Não sou analista político, e não posso me imaginar em qualquer função da política oficial do establishment. Mas, como o assunto é muito óbvio, vou fazer um esforço e imaginar-me no papel de consultor da candidata para política interna.

Eu diria para ela:
“Dilma, você não fale nada sobre Battisti. Lembre que seu concorrente já se manifestou a favor da extradição. Se você dizer que não extraditará, ele dirá: ‘tão vendo? Eles são malandros defensores de criminosos...

“Se alguém lhe perguntar (o que, com certeza, acontecerá), você diga que não sabe qual será a decisão de Lula, mas que você é obediente ao Judiciário. Você nunca será cobrada porque Battisti será liberado antes de você tomar posse, caso seja eleita”.
Claro que minha ética pessoal e meus valores sociais nunca me permitiria dar um conselho como este, mas não importa. Tampouco sou assessor de ninguém. Mas, que o raio de Júpiter me fulmine se ela não recebeu um conselho como este!

Por que o Presidente extraditaria

O Presidente não tem nenhum motivo para extraditar Battisti. É um assunto irrelevante para os planos pragmáticos do governo de erigir o Brasil em potência mundial. Nem ajuda nem atrapalha. Então, não há nenhum motivo para extraditar.

Ora, pareceria tampouco inexistir motivo para salvar a vida de Battisti. Mas, existe sim.

Primeiro, extraditar Battisti seria uma maldade inútil, uma perversidade desnecessária. Nada se ganharia fornecendo um troféu a esse bando de desvairados por vendetta, que se arrancam os olhos numa briga pelo butim do estado, em meio aos escândalos de corrupção mais escrachados da Europa. Se Lula mandasse Battisti à tortura e à morte, o que ganharia em troca? A Itália não pode dar-lhe o assento permanente na ONU, porque nem para ela própria conseguiria, se tentasse.

Segundo, entregar Battisti aumentaria a já negativa folha corrida do estado brasileiro (não digo “o governo”, digo o estado em geral, desde há muito tempo) como violador dos direitos humanos em todos os departamentos: brutalidade prisional, tortura, trabalho escravo, pedofilia, violência contra mulher, massacres de fazendeiros contra camponeses, etc. (a lista é interminável!).

O leitor pode pensar: e acaso o governo se importa com os Direitos Humanos? Bom, há membros do governo que sim se importam, e eles têm algum peso. Se assim não fosse, o PNDH-3 que é uma obra teoricamente magnífica, não teria sido nem mesmo publicado.

O que o Presidente pode argumentar

O Estadão, na matéria mencionada, se refere também à posição do senador Eduardo Suplicy, segundo quem a condenação à prisão perpétua é um obstáculo para a deportação. Como sempre, ponderado e agudo, Suplicy tocou no ponto sensível.

Há pelos menos quatro itens do tratado italo-brasileiro que permitem negar a extradição de Battisti (1).

Entretanto, o assunto da prisão perpétua é o mais claro. Como já disse o ilustre Dalmo Dallari (Extradição inconstitucional), trata-se de uma questão de soberania nacional.

Nenhum tratado está acima da Constituição Federal. E, no mesmo nível, estão apenas os tratados sobre Direitos Humanos.

Ora, a Constituição brasileira proíbe a prisão perpétua.

Claro que os italianos pensaram numa “jogada mestra”: o boquirroto ex-ministro Mastella disse lá, pensando que não ficaríamos sabendo aqui, que nos prometeria reduzir a prisão ao que é aceitável para nossas leis, mas apenas para “enganar os brasileiros”.

Há um fato que Dallari já denunciou, mas deve ser repetido tantas vezes quantas a questão seja provocada: a Itália não pode modificar uma sentença que já transitou em juízo.

Eu acrescento, por minha parte, que, mesmo que a intenção italiana fosse boa (e, obviamente, não é), ela deveria violar suas próprias leis para alterar uma sentença judicial que já é definitiva. E por que os italianos fariam isso? Após 31 anos perseguindo uma pessoa por todo o planeta, eles iriam violar leis para beneficiar sua presa? Ridículo.

Conclusões

O governo não extraditará Battisti. Isso seria tão irracional que nem vale a pena discutirmos.

É certo, entretanto, a decisão do Presidente está demorando demais. A condição de prisioneiro não é brincadeira, mesmo que recebendo tratamento relativamente humano (dentro do que pode ser um cárcere na América Latina). O Presidente e a candidata à Presidência, que foram ambos perseguidos, embora com diferente grau de sofrimento, devem saber disso.

Portanto, está na hora de libertar Battisti.

Não há nada que temer. Os que montaram em janeiro de 2009 uma petição para extraditar Battisti, reuniram, num ano e meio, 307 míseras assinaturas, algumas das quais parecem forjadas. E isto contando com todo o apoio da mídia, dos militares, da oposição política, de parte do Judiciário e da diplomacia.

O jornalista italiano Giuseppe Cruciani, autor do último grito de ódio contra Battisti, reconhece, quando lhe perguntam se Battisti será extraditado: “Io non credo”.

Até o mais soturno inimigo dos ultraesquerdistas de mais de 30 anos atrás, o procurador Spataro, não disse nemhuma palavra contra Battisti numa entrevista num programa superfamoso que durou uma hora, pela TV italiana.

Faço, então, um apelo ao valoroso grupo de parlamentares, juristas, advogados e ativistas dos DH: redijam uma petição precisa e fundamentada, pedindo ao Presidente que agilize sua decisão.

(1) No caso de Battisti, paradoxalmente, o tratado não é um inimigo. Por milagre, ele contribui conosco!

Ele possui três artigos (o 3º, 4º e 5º) que estabelecem motivos para a recusa de extradição. Destes, o 4º não é aplicável, pois se refere a pena de morte, uma punição que não existe na Itália. Entretanto, o artigo 3º se aplica perfeitamente em seu inciso “f”. Já o artigo 5º é aplicável em sua totalidade


O inciso “f” visa proteger o extraditando de riscos de perseguição e discriminação ponderáveis. Ora, um risco é uma probabilidade de que aconteça um fato negativo. Já uma certeza é um risco cuja probabilidade é 100%. Uma certeza de perseguição é, portanto, uma forma máxima de risco. E, no caso de Cesare, existe certeza.


Battisti já foi condenado. Deve notar-se que a maioria das extradições passivas é requerida em casos de fugitivos que aguardam processamento, embora haja algumas também para aplicação da pena.


Entretanto, Cesare foi condenado à revelia, sem provas, sem testemunhas e até sem advogados. De toda essa fraude saiu nada menos que uma prisão para a vida toda. Isto é considerado perseguição no Manual do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados e contraria os acordos da União Européia, segundo os quais
QUALQUER PESSOA JULGADA À REVELIA DEVE TER DIREITO A NOVO JULGAMENTO.

Também Battisti corre risco de vida e de integridade física, pois: (1) o ministro La Russa manifestou seu interesse em torturá-lo; (2) o sindicato de carcereiros disse que quer "vingar Santoro"; (3) o chefe dos sindicato dos policiais disse que a Itália deveria declarar guerra ao Brasil (por causa de Battisti); e (4) pessoas menos procuradas que Battisti têm sido assassinadas nas prisões italianas, tanto que nelas ocorrem quase mil mortes violentas por ano e entre 55 e 65 suicídios induzidos.
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