sábado, 1 de novembro de 2008

VENTOS REFORMISTAS DEPOIS DO FURACÃO

A Cúpula Ibero-americana, encerrada nesta sexta-feira (31) em El Salvador, evidenciou ser conservadora a posição da maioria dos governantes da região (inclusive o nosso Lula) diante dos estragos causados pela mais recente crise cíclica do capitalismo.

Eles querem apenas reformar o capitalismo, oferecendo-se para "participar e contribuir ativamente para um processo de transformação profundo e amplo da arquitetura financeira internacional, que estabeleça instrumentos de prevenção e resposta imediata ante futuras crises e garanta uma regulação eficaz dos mercados de capitais".

Fizeram lembrar aquelas senhoras do Lion's e do Rotary elocubrando ingenuamente sobre a regeneração dos criminosos...

Já o presidente venezuelano Hugo Chávez, como o colunista Clóvis Rossi (Folha de S. Paulo) destacou, nem sequer foi à cúpula, preferindo ficar de fora e a pregar exatamente o contrário: "O sistema capitalista sob o impulso do império norte-americano se acabou, entrou em colapso, é preciso criar um novo".

O boliviano Evo Morales, cujas convicções são as mesmas, esteve presente ao encontro e deixou claro que não pretende ajudar a salvar o capitalismo.

Seria curioso garimpar o que se dizia em reuniões congêneres depois do colapso financeiro de 1929. Com certeza, os dirigentes das principais nações capitalistas também daquela vez prometeram "uma regulação eficaz dos mercados de capitais".

O certo é que, na alternativa Lula x Chávez, a melhor posição não está dada. Seria uma terceira.

O capitalismo não pode mesmo ser saneado, pois repousa sobre a competição e a ganância.

E, mais do que nunca, para sobreviver aos desafios que vai enfrentar (começando pelas alterações climáticas), a humanidade precisará priorizar a cooperação e o bem comum.

As reformas apenas dariam (darão?) sobrevida a um sistema que, hoje, constitui uma terrível ameaça à própria continuidade da espécie humana. Haverá um dia em que teremos de escolher entre morrer abraçados ao capitalismo ou sobreviver sem ele.

Quanto a criarmos um novo sistema, minha concordância com Chávez vai até certo ponto. Sim, temos mesmo de criá-lo, mas a tarefa compete a NÓS, O POVO. Não aos governos e governantes, que fazem parte do problema e não da solução.

Se as experiências do século passado nos ensinaram algo, foi que as tentativas de engendrarmos uma sociedade que concretize plenamente os ideais de liberdade e justiça social têm de ser empreendidas em escala maior, internacional. Socialismo em países isolados acaba se tornando uma aberração autoritária.

É hora de voltarmos a Marx, priorizando a união dos explorados de todos os países contra a iniquidade do capitalismo globalizado. Temos de reconstruir o internacionalismo revolucionário que o stalinismo solapou e desacreditou.

E é também mais do que tempo de recolocarmos o povo como sujeito (e não objeto) da revolução -- que deve fluir horizontalmente, a partir da livre associação dos seres humanos para concretizarem seus objetivos comuns, ao invés de ser imposta de cima para baixo.

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