terça-feira, 30 de dezembro de 2008

ISRAEL COMETE "GENOCÍDIO" E "CRIME CONTRA A HUMANIDADE"

Não espero para ver como os outros se posicionam quando há acontecimentos do tipo das agressões brutais de Israel à população civil palestina. Emito minha opinião, pelo que ela possa valer, de bate-pronto.

O que conta, para mim, são sempre os princípios.

Como combatente da resistência à ditadura, aos 18 anos de idade eu já acreditava que guerras se travam entre os nelas engajados, não devendo estender-se aos civis. É uma covardia e uma infâmia atingir (ou criar situações que levem a ser atingidos) crianças, mulheres, velhos e outros cidadãos alheios ao conflito.

Então, sem ser nenhum anti-sionista furibundo (até porque reconheço a extraordinária contribuição de grandes judeus aos movimentos libertários dos séculos passados e ao humanismo através dos tempos), não tive nenhuma dúvida de que ocorria uma carnificina na faixa de Gaza e de que eu deveria repudiá-la da forma mais veemente.

Hoje, com satisfação, constato que minha avaliação estava correta. Editorial, noticiário e espaços opinativos da edição de 30/12 da Folha de S. Paulo vêm ao encontro do que afirmei desde o primeiro momento.

E, como o verdadeiro jornalismo anda em baixa, vale a pena reproduzir os trechos mais marcantes desses textos exemplares:

"Merecem repúdio os ataques do grupo extremista palestino Hamas contra o território israelense. Mas a brutal reação de Israel, que abusou do legítimo direito de defesa e provocou uma crise humanitária na faixa de Gaza, tampouco pode deixar de ser condenada.

"...Não se esperava (...) um contra-ataque tão maciço das forças israelenses, surpresa que está assentada em motivações não apenas militares, mas também políticas.

"...A ofensiva contra o Hamas, em Gaza, soa como uma cartada da coalizão governista para evitar a vitória de Binyamin Netanyahu na eleição do novo gabinete, em fevereiro. O ex-premiê de direita radical, crítico do que chama de tolerância excessiva com grupos palestinos hostis a Israel, lidera as pesquisas de opinião.

"A inclinação do eleitorado israelense para a direita também parece uma reação à política anunciada para o Oriente Médio por Barack Obama. O presidente eleito dos EUA promete uma diplomacia abrangente e não descarta negociar com o Irã, considerado em Israel a maior ameaça estratégica ao Estado judaico.

"A plataforma linha-dura que emerge dessa confluência de fatores contém armadilhas conhecidas. Por mais que o Exército de Israel imponha danos importantes aos extremistas, os bombardeios dificilmente vão tirar do Hamas o controle político de Gaza...

"Se optar pela invasão terrestre, o governo israelense vai incorrer no mesmo risco da operação realizada no Líbano. O Exército de Israel poderá até ocupar os prédios do governo e capturar lideranças do Hamas, mas isso não vai aniquilar o extremismo naquela estreita faixa litorânea.

"De vício parecido padece o bloqueio econômico e à circulação imposto pelos israelenses contra 1,5 milhão de palestinos que vivem na empobrecida região de Gaza. Trata-se de uma medida desumana, que só faz aumentar o ressentimento contra Israel.

"Sem uma solução política que dê autonomia de fato e viabilidade econômica para um Estado palestino no Oriente Médio, o substrato que favorece as espirais de hostilidades permanecerá intacto. O importante agora, contudo, é obter um cessar-fogo imediato entre Hamas e Israel." (editorial "Cessar-fogo imediato")

"No terceiro dia consecutivo de bombardeios israelenses, além de terem de contornar a escassez de medicamentos, energia elétrica, gás de cozinha, combustíveis e alimentos, os habitantes da faixa de Gaza evidenciavam temor de ir aos templos muçulmanos da região.

"'Os hospitais e as mesquitas eram os lugares mais seguros. Mas, hoje [ontem], notei que as pessoas estão preocupadas e com medo de ir às mesquitas para fazer suas orações, porque os israelenses as atingiram na ofensiva", disse Hazem Balousha, que reporta para o jornal britânico 'Guardian', de Gaza.

"Ele relatou ao menos cinco templos bombardeados na região. Uma das mesquitas atingidas é próxima do hospital Shifa, o principal de Gaza." (notícia "Ofensiva não poupa nem mesquitas de Gaza")

"Não se trata de desprezar os riscos que Israel corre, seja pelo terrorismo praticado pelos fundamentalistas, seja pelos ataques com foguetes disparados desde Gaza. Mas adotar punição coletiva é intolerável, além de ineficaz. Acaba apenas jogando mais jovens no desespero que é, em parte, a estufa em que se incubam terroristas.

"Não adianta também tentar asfixiar o Hamas, que governa Gaza e é uma das raríssimas administrações no mundo árabe nascida de eleições que a comunidade internacional aceitou como justa e livre. A menos que se acredite que o Hamas ganhou porque todos os palestinos de Gaza são terroristas. Quem acredita nessa hipótese vai acabar propondo a 'solução final' para o gueto de Gaza." (Clovis Rossi, colunista)

"O que ocorre na Faixa de Gaza é extermínio de civis. Deliberado, como demonstram os bombardeios a acampamentos de refugiados, colunas de fugitivos e tantos outros alvos. Esse extermínio tem nome técnico e jurídico: é genocídio. Pelas leis internacionais, é crime de guerra e crime contra a humanidade." (Jânio de Freitas, colunista)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

LEI FOI APLICADA RETROATIVAMENTE PARA CONDENAR CESARE BATTISTI

Uma legislação de exceção promulgada na Itália em 1981, a chamada Lei Cossiga, serviu para condenar o escritor e preso político Cesare Battisti por crimes ocorridos em 1978 e 1979, dos quais se declara inocente. "A Lei Cossiga retroage no tempo para me condenar à revelia, contrariando todas as doutrinas do direito democrático", afirma Battisti.

Em carta escrita no próprio dia de Natal, Battisti, prisioneiro no Brasil como consequência de pedido de extradição apresentado pela Itália, conclamou os brasileiros solidários à sua causa a insistirem junto ao Judiciário e Legislativo, no sentido de que lhe seja assegurado amplo direito de defesa, possibilitando que sua versão dos fatos "seja conhecida por todos", como contraponto às distorções do governo direitista italiano.

Battisti acusa a embaixada italiana de ter feito uma armação contra ele, daí a importância de, com provas documentais, mostrar-se "ao ministro da Justiça, ao STF e à mídia em geral que as que as informações prestadas e apresentadas a Justiça brasileira, pela embaixada e governo italiano, são carentes de fundamentos legais e distorcem a realidade dos fatos".

Como a tradição brasileira é de conceder refúgio humanitário aos perseguidos políticos, a embaixada italiana chegou ao absurdo de alegar que os atos imputados a Battisti seriam crimes comuns, motivados por vingança pessoal, numa grotesta tentativa de embaralhar os fatos.

Foram, isto sim, ações cometidas e assumidas pelo grupo político Proletários Armados para o Comunismo, ao qual Battisti pertencia. Tanto que ele foi enquadrado numa lei criada para regulamentar a luta contra o terrorismo, recebendo pena de prisão perpétua; para crimes comuns, a pena máxima na Itália é de 30 anos.

Battisti também ressaltou ter sido condenado por uma lei visivelmente inspirada no código de Mussolini, que o acusou de insurreição contra o poder do Estado. "Esta doutrina totalitária e fascista aparece dezenas de vezes ao longo das mil páginas do documento de acusação."

Finalmente, o escritor destacou o quanto há de paradoxal na sua situação: "Cabe ao judiciário brasileiro julgar se devo ser extraditado e punido por fatos originários de minha militância político-ideológica de 30 anos atrás. O que não deixa de ser irônico, já que, no Brasil, todos que se envolveram em atividades desta natureza foram beneficiados pela anistia, enquanto eu continuo sendo perseguido e correndo o risco de ser punido de forma arbitrária".

domingo, 28 de dezembro de 2008

CARNIFICINA FOI O PRESENTE DE ISRAEL AOS PALESTINOS

Cerca de mil palestinos, incluindo mulheres e crianças, foram atingidos pelas bombas que Israel disparou na faixa de Gaza.

Não houve, sequer, a preocupação de escolher horários em que houvesse menos pessoas nas ruas.

Foi uma agressão bestial, repulsiva, inominável.

Todo indivíduo, grupo ou nação que, sofrendo ataques de inimigos identificados, retalia indiscriminadamente em civis inocentes, é um réprobo aos olhos da civilização.

Os judeus parecem um triste exemplo de vítimas que, ao tornarem-se poderosas, acabaram reproduzindo as piores práticas dos seus carrascos.

Tudo que havia de belo e nobre no sonho da nação judaica virou uma caricatura grotesca:
* os kibutzim cada vez mais deixam de ser comunidades coletivas voluntárias, de inspiração socialista, para assemelharem-se às empresas capitalistas, inclusive contratando trabalhadores em regime assalariado;
* a perspectiva de viver em harmonia com os vizinhos cedeu lugar à mentalidade de bunker, com todas as distorções decorrentes (a absoluta falta de compaixão pelos não-judeus, encarados como não-pessoas, em primeiro lugar);
* e a milenar tradição humanista do povo judeu hoje está em frangalhos, depois de décadas de carnificinas cometidas contra os povos árabes, sobejamente incapazes de resistir à superioridade militar israelense.

Israel é mais uma utopia que virou distopia, um 1917 que se tornou 1984 orwelliano. Lamento profundamente.

Mas, nunca deixarei de registrar minha indignação e meu protesto contra matanças como esta que os israelenses, emblematicamente, cometeram dois dias após o Natal.

sábado, 27 de dezembro de 2008

ERROS COMPROMETEM INVESTIGAÇÃO DO CASO ISABELLE

George Sanguinetti, respeitadíssimo médico legista (foi quem estabeleceu que P.C. Farias e amante foram vítimas de duplo homicídio, não tendo matado um ao outro, como se tentou fazer crer) contratado pelos advogados Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, concedeu longa entrevista à revista Época, reforçando a impressão de que a espetacularização do caso Isabelle levou a uma investigação eivada de erros, em que a pressão da opinião pública, açulada pela mídia, sobrepôs-se à consistência técnica.

Não possuo conhecimento específico para concluir se ambos são ou não culpados. Mas, mantenho o que disse na época: o direito de defesa foi atropelado por um rolo compressor midiático. Concordo inteiramente com a posição do legista, de que a investigação terá de ser retomada (eufemismo para refeita), num clima mais sereno, sem holofotes e maltas ululantes.

Eis um trecho interessante da entrevista de Sanguinetti:

"...tecnicamente, há muitas falhas no arrazoado de imputação de culpa a eles. Não há nem nunca houve marca de esganadura em redor do pescoço e eu, um professor de medicina legal com 35 anos de profissão, tive que ouvir de um perito de São Paulo que pode haver esganadura sem lesões externas e internas. Está nos autos e foi dito frente ao excelentíssimo juiz. Isso é um absurdo, não pode acontecer. Tenho gravada uma entrevista de TV que mostra um perito dizendo que não houve esganadura. O atrapalho que houve foi interpretativo. Queriam mostrar, além do fato de a menina ser jogada, uma cena de selvageria da pior qualidade, que não tem consistência. É o caso da agressão dentro do carro, em que está descrito que o ferimento teria sido produzido “possivelmente” com uma chave. Que chave? Cadê a prova técnica? Para citar a existência, tem que mostrar o instrumento. Cadê o instrumento que fez aquela lesão? Se não apresentou nenhum, apresente como mais uma conseqüência da queda, do politraumatismo. Também não aceito o fato de que não houve fraturas da queda porque havia chovido, a terra não estava compactada e havia um gramado de dez centímetros. Tenha paciência! Isso é cartesiano e atinge o meu raciocínio. Colocaram que houve duas mortes, a primeira, de esganadura por asfixia mecânica. Nunca. E, depois, o politraumatismo. São erros. Além disso, colocam no laudo que foi uma “morte violenta”. Isso é redundância. Toda morte que vai para o IML não é natural, é violenta. Para colocar uma pena maior, também colocam “houve uso de violência devido à esganadura”. A violência foi feita em se jogar a criança do sexto andar."

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

CANALHA

O presidente da Vale, Roger Agnelli, defendeu recentemente a volta à ditadura, pelo menos na economia. Trata-se do remédio que ele propõe para a crise cíclica capitalista em curso: "Olha, estamos vivendo uma situação de exceção. Para lidar com ela, precisamos tomar medidas de exceção"

Deu o exemplo, demitindo 1,3 mil funcionários, colocando 5,5 mil em férias coletivas e desativando algumas minas.

Evidentemente, poderia ter deixado essas medidas para janeiro, evitando estragar o Natal de 6,8 mil seres humanos. Mas, preferiu iniciar o quanto antes as pressões para arrancar regalias e favorecimentos do Governo. Os funcionários que se danem!

Interlocutor assíduo do presidente Lula, ele tem sugerido iniciativas "no sentido de flexibilizar um pouco as leis trabalhistas".

Ciente do fedor pestilento que sua posição exala, Agnelli tenta dourar a pílula: "Seria algo temporário, para ajudar a ganhar tempo enquanto essa fase difícil não passa".

O que ele propõe, afinal? "Suspensão de contrato de trabalho, redução da jornada com redução de salário, coisas assim, em caráter temporário."

Na noite de Natal, vi um exemplo de onde os Agnellis da vida nos querem conduzir.

Hóspede do meu sogro num prédio de apartamentos de Praia Grande (SP), ficamos sabendo que todos os serviçais, terceirizados, não haviam recebido o salário de novembro, nem a 2ª parcela do 13º salário, apesar do condomínio estar com as contas em dia.

Para o pobre porteiro que nos ajudava a armar o cenário para a ceia comum dos condôminos, não haveria Natal. Papai Noel não passaria em sua casa. O almoço seria o de sempre, depois do exaustivo plantão da véspera.

E os Agnellis ainda querem que os pobres trabalhadores sejam mais sacrificados ainda, pagando a conta da recessão de que não foram eles os causadores.

Não sei por que, não me sai da cabeça uma composição do criativo Walter Franco: "Canalha".

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

UM NATAL ENTRE O ABISMO E A ESPERANÇA

O que o mundo realmente celebra no Natal? A saga de um carpinteiro que trouxe esperança a pescadores e outras pessoas simples de um país subjugado ao maior império da época.

Os primeiros cristãos eram triplamente injustiçados: economicamente, porque pobres; socialmente, porque insignificantes; e politicamente, porque tiranizados.

Jesus Cristo nasceu três décadas depois da maior revolta de escravos enfrentada pelo Império Romano em toda a sua existência.

As mais de seis mil cruzes fincadas ao longo da Via Ápia foram o desfecho da epopéia de Spartacus, que, à sua maneira rústica, acenou com a única possibilidade então existente de revitalização do império: o fim da escravidão. Roma ganharia novo impulso caso passasse a alicerçar-se sobre o trabalho de homens livres, não sobre a captura e o chicote.

Vencido Spartacus, não havia mais quem encarnasse (ou pudesse encarnar) a promessa de igualdade na Terra.

Jesus Cristo a transferiu, portanto, para o plano místico: todos os seres humanos seriam iguais aos olhos de Deus, devendo receber a compensação por seus infortúnios num reino para além deste mundo.

Este foi o cristianismo das catacumbas: a resistência dos espíritos a uma realidade dilacerante, avivando o ideal da fraternidade entre os homens.

Hoje há enormes diferenças e uma grande semelhança com os tempos bíblicos: o império igualmente conseguiu neutralizar as forças que poderiam conduzir a humanidade a um estágio superior de civilização.

A revolução é mais necessária do que nunca, mas inexiste uma classe capaz de assumi-la e concretizá-la, como o fez a burguesia, ao estabelecer o capitalismo; e como se supunha que o proletariado industrial fizesse, edificando o socialismo.

O fantasma a nos assombrar é o do fim do Império Romano: que este impasse nos leve à decadência extrema e, enfim, nos sujeite à destruição cega.

O capitalismo hoje produz legiões de excluídos em muito semelhantes aos bárbaros que deram fim a Roma; não só os que vivem na periferia do progresso, mas também os miseráveis existentes nos próprios países abastados, vítimas do desemprego crônico.

E as agressões ao meio ambiente, decorrentes da ganância exacerbada, estão atraindo sobre nós a fúria dos elementos, com conseqüências avassaladoras. Décadas de catástrofes serão o preço de nossa incúria.

No entanto, como disse o grande jornalista Alberto Dines, “criaturas e nações cometem muitos desatinos, mas na beira do abismo recuam e escolhem viver”.

Se a combinação do progresso material com a influência mesmerizante da indústria cultural tornou o capitalismo avançado praticamente imune ao pensamento crítico e à gestação/concretização de projetos alternativos de organização da vida econômica, política e social, tudo muda durante as grandes crises, quando abrem-se brechas para evoluções históricas diferentes.

Temos pela frente não só uma recessão mundial (que ninguém, em sã consciência, pode garantir que não desemboque numa depressão tão terrível como a da década de 1930), como a sucessão de emergências e mazelas decorrentes das alterações climáticas.

O sofrimento e a devastação serão infinitamente maiores se os homens enfrentarem desunidos esses desafios. Caso as nações e os indivíduos prósperos venham a priorizar a si próprios, voltando as costas aos excluídos, estes morrerão como moscas.

O desprendimento, substituindo a ganância; a cooperação, em lugar da competição; e a solidariedade, ao invés do egoísmo, terão de dar a tônica do comportamento humano nas próximas décadas, se as criaturas e nações escolherem mesmo viver.

E há sempre a esperança de que os mutirões criados ao sabor dos acontecimentos acabem apontando um novo caminho para os cidadãos: o de que mobilizando-se e organizando-se para o bem comum aproveitam muito melhor suas próprias potencialidades e os recursos finitos do planeta.

Então, para além deste Natal transformado na própria celebração do templo e de seus vendilhões, vislumbra-se outro, o verdadeiro. Se frutificarem os esforços dos homens de boa vontade.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

NÃO DESVIAREI DA ROTA

Minha Carta Aberta ao Governador José Serra ( http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/2008/10/carta-aberta-ao-governador-jos-serra.html ), pedindo a extinção da unidade-símbolo da violência policial em São Paulo provocou uma reação coordenada dos defensores da lei do mais forte.

Estão endereçando dezenas de mensagens de críticas, insultos e ameaças ao meu e-mail e à minha página do Orkut, além de postá-los nos comentários de meus blogs.

Então, minha resposta é esta:

1) Não retiro uma única palavra que escrevi a respeito da Rota;

2) Sempre que houver possibilidade de trazer o assunto novamente à baila, voltarei a pedir sua extinção;

3) Assumo o risco de sofrer retaliações e deixo aqui um registro, para a eventualidade de algo me acontecer;

4) Depois de ter ousado enfrentar o Exército, não serão aqueles que então atuaram como seus serviçais insignificantes que vão me intimidar;

5) Finalmente, aconselho a Rota a apagar do seu site as loas a operações por ela desenvolvidas durante a ditadura, as quais, em todo o mundo civilizado, hoje têm uma imagem tão negativa quanto as chacinas da Gestapo.

PROFISSÃO: REPÓRTER?

No início da década passada, trabalhando na Agência Estado, eu era escalado semana sim, semana não, para o plantão dominical.

Naquele tempo em que inexistia TV por assinatura e não se permitia que a televisão transmitisse o jogo para a mesma praça em que era disputado, a única forma de acompanharmos a partida de futebol da própria capital paulista era a transmissão radiofônica.

Os clientes da agência pressionavam: queriam receber o quanto antes a notícia sobre o clássico de domingo, para fecharem suas edições de 2ª feira.

Então, não dava para esperarmos que os repórteres de O Estado de S. Paulo e do Jornal da Tarde voltassem do estádio e redigissem suas matérias.

O jeito era colarmos o ouvido no rádio e criarmos um texto a partir do que conseguíamos depreender do blablablá de locutores e comentaristas.

É claro que, vez por outra, caíamos feio do cavalo, escrevendo algo bem distante do que realmente havia acontecido.

E ficávamos amaldiçoando as gambiarras que éramos obrigados a executar, ao invés de exercermos nossa função de jornalistas como manda o figurino.

Isto me veio à lembrança ao ler a matéria da Folha de S. Paulo de domingo sobre a luta de boxe cujo resultado foi anunciado no início da madrugada.

Evidentemente, deve ter sido o último texto a entrar naquela edição. E o redator, claro, o escreveu assistindo à luta pela TV.

Devido ao apuro de tempo, ele deve ter preparado previamente alguns parágrafos que poderiam ser utilizados, como este:

"Com o resultado de ontem, 'Big' George Foreman, deixou de ser o mais velho campeão dos pesos-pesados de todos os tempos. Aos 45 anos, nocauteara o compatriota americano Michael Moorer para se tornar campeão da FIB e da AMB".

Só serviria, claro, no caso de Evander Holyfield ser o vencedor, arrancando tal primazia de Foreman. Não foi o que ocorreu.

Mas, na correria de fechamento, o coitado do repórter acabou colando-o por engano, o que tornou sua matéria um verdadeiro samba do crioulo doido.

É o padrão Folha de qualidade, versão 2008...

domingo, 21 de dezembro de 2008

FILME ERRADO

Evander Holyfield, pugilista de boa técnica mas que teve sua carreira prejudicada pela falta de potência nos golpes, acreditou que viveria na madrugada de domingo seu Rocky IV, derrotando um gigante russo.

Só que o filme era outro: Rocky Balboa, sobre o veterano que volta da aposentadoria e consegue não ser nocauteado pelo campeão, perdendo só por pontos.

O resultado mais justo teria sido um empate, o que daria exatamente no mesmo, com Nikolai Value conservando o título de pesos-pesados.

Para quem ligou a tevê pensando que assistiria a outra batalha épica de Davi contra Golias, a luta foi uma decepção só.

Davi passou a luta inteira fugindo e dando sopapos que nem de longe abalavam o adversário.

E Golias parecia estar com preguiça de cercar e liquidar o fracote, contentando-se em tonteá-lo duas vezes.

Então, estamos conversados: a grande luta Davi x Golias continua sendo aquela em que o extraordinário Muhammad Ali mandou à lona o terrível George Foreman.

E o homem mais idoso a conquistar o título peso-pesado ainda é o mesmo George Foreman, que, aos 45 anos, surpreendeu um bisonho campeão de entressafra (Michael Moorer) com seu demolidor cruzado de direita.

Quanto a Holyfield, será lembrado mesmo é por haver tido parte de sua orelha arrancada por Mick Tyson, num dos repentes mais grotescos da história da boxe.

"EXÍMIO ATIRADOR"?

Excelente resposta do ministro Franklin Martins (Comunicação Social) a jornalista que lhe indagou sobre a qualificação de "exímio atirador" nas fichas policiais da ditadura militar:

"Estava lutando contra um regime que, de arma na mão, derrubou o presidente constitucional, fechou os sindicatos, instituiu a censura, acabou com os partidos políticos, prendeu gente até dizer chega, tirou um grande número de parlamentares do Congresso, prendeu, torturou, matou... não sei por que eu teria uma relação de 'eu só luto até certo ponto contra a ditadura'. Não. Felizmente, nunca tive de atirar em ninguém."

sábado, 20 de dezembro de 2008

CONTESTAÇÃO ARMADA: ALEMANHA ENTERRA DE VEZ O PASSADO

Libertada na Alemanha a último pessoa presa por haver integrado a Fração do Exército Vermelho na década de 1970: Christian Klar. A Justiça alemã considera que Klar já não possa trazer perigo à sociedade.

Hoje com 56 anos, ela foi condenada à prisão perpétua por nove assassinatos.

Ou seja, mesmo no caso de uma ex-militante sobre a qual não paira dúvida de que foi culpada de homicídios, o Judiciário alemão leva em conta que seus delitos pertencem a uma página definitivamente virada da história européia.

Já no caso de Cesare Battisti -- cujo julgamento foi uma aberração jurídica tal que o declararam culpado de dois assassinatos cometidos simultaneamente em cidades tão distantes que seria impossível ele estar presente nas duas ações -- a intransigência beira o absurdo.

Para qualquer observador isento, fica evidente haver motivação política na sanha vingativa de Berlusconi.

Será a suprema ignomínia se o Brasil se prestar ao papel de capitão-do-mato para o novo Duce...

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

O ABISMO E A ESPERANÇA

"...nunca tivemos uma posse na Casa Branca cercada por tanta esperança, mesmo sabendo que não haverá mágicas. Consolo é saber que a humanidade não é suicida, ela se move sempre na direção ditada pelo seu instinto de sobrevivência.

"Foi assim há 70 anos, quando começou a Segunda Guerra Mundial, considerada a maior catástrofe dos últimos 500 anos, e assim será agora. Criaturas e nações cometem muitos desatinos, mas na beira do abismo recuam e escolhem viver."

O arauto da esperança é uma lenda viva do jornalismo brasileiro: Alberto Dines.

Foi com textos como este que Dines nos ajudou a manter o moral elevado, quando as trevas da ditadura pareciam não ter mais fim.

E agora, diante da ameaça imediata de uma recessão que ninguém sabe como e quando terminará, bem como da certeza de que as próximas décadas serão marcadas pela vingança da natureza contra nossa incúria e nossa ganância, Dines encontra novamente as palavras certas para fortalecer-nos o ânimo.

Faltou acrescentar que, na beira do abismo, criaturas e nações terão de perceber o óbvio: só priorizando o bem comum e cooperando irmanamente entre si conseguirão sobreviver.

Eu também acredito que recuarão, recusando-se a morrer juntamente com o capitalismo.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

PROFISSÃO: REPÓRTER

É o título de um filme extraordinário de Michelangelo Antonioni, com Jack Nicholson no papel de um jornalista que, cansado da vida e da carreira, resolve trocar seu destino com o de um sujeito parecido com ele, morto no quarto ao lado do hotel.

Deixa seus documentos com o defunto e passa a usar os dele, inclusive comparecendo a encontros anotados da agenda do falecido... sem saber que se tratava de um traficante de armas.

Hoje há uma bobagem na grade da Globo em que tiveram a infeliz idéia de utilizar o mesmo nome. Será que pretendiam homenagear o grande cineasta italiano? Ele deve estar é se revirando na cova...

Mas, o meu tema é mesmo o ofício de jornalista, ultimamente exercido por muita gente que não tem a menor afinidade com ele.

Lembro-me de um episódio emblemático.

Certa vez, um colega da Folha de S. Paulo noticiou que, segundo um pesquisador da Faculdade de Economia e Administração da USP, a economia informal estava gerando xis por cento do PIB brasileiro.

Curto demais para a complexidade do assunto e, portanto, confuso, o texto dele não teve a menor repercussão.

Esperei umas duas semanas, procurei o mesmo acadêmico e conversei duas horas com ele, até entender direitinho o trabalho que realizara e todas as suas implicações.

O principal erro do meu colega foi dar a impressão de que a economia informal gerava, digamos, 25% do PIB oficial. A conclusão do pesquisador era de que, se computada, a economia informal acrescentaria 25% ao PIB oficial.

Em vez de uma notícia de 20 linhas, como a da Folha, avaliei que o assunto valia umas 130. Tornei tudo bem didático e compreensível para os leigos.

Comercializado pela Agência Estado, meu texto foi publicado no Brasil inteiro. A Globo interessou-se pelo assunto, utilizando o despacho da AE como pauta para entrevistar o acadêmico -- que foi também chamado a Brasília, para apresentar pessoalmente seu estudo ao ministro da Fazenda.

Este caso me veio à lembrança quando percebi o erro cometido pela IstoÉ desta semana, ao noticiar a vinda da escritora Fred Vargas ao Brasil, trazendo provas de uma trama de advogado contra Cesare Battisti.

Num primeiro momento, acreditei no relato do colega e até escrevi meu próprio texto em cima da informação dada pela revista.

Logo em seguida, visitando o site Cesare Livre, tive minha atenção atraída por uma matéria antiga infinitamente mais bem apurada e redigida. E percebi que o reporter da IstoÉ trocara as bolas num detalhe crucial.

Felizmente, ainda estava em tempo de eu soltar uma matéria retificadora. Mas, por conta disso, avancei na madrugada reescrevendo o texto.

E só pude veiculá-lo quando o UOL fez a gentileza de me restituir o uso da Internet, após outra de suas habituais panes...

domingo, 14 de dezembro de 2008

ESCRITORA TRAZ PROVAS DE TRAMA CONTRA CESARE BATTISTI

Uma farsa desmascarada é o trunfo com que a escritora parisiense Fred Vargas conta para convencer o ministro da Justiça Tarso Genro a conceder refúgio humanitário a Cesare Battisti, preso no Brasil desde março/2007 e fortemente ameaçado de extradição para a Itália, onde teria de cumprir uma pena de 30 anos de prisão (*). Vargas espera ser recebida por Genro nos próximos dias, para apresentar-lhe pessoalmente as provas que trouxe em sua bagagem.

Acusado de atos violentos praticados por seu grupo (Proletários Armados para o Comunismo) na década de 1970, Cesare foi condenado à prisão perpétua na Itália quando estava foragido no exterior. Teria, teoricamente, o direito de pleitear novo julgamento, em que pudesse exercer seu escamoteado direito de defesa.

No entanto, três cartas supostamente enviadas por Battisti a um advogado serviram para atestar que ele estaria ciente da realização dos julgamentos e até orientando a defesa.

Ocorre que ele, ao fugir da Itália, deixara nas mãos desse advogado três folhas em branco com sua assinatura. E a perita grafológica do Tribunal de Recursos de Paris, Evelyne Marganne, atestou que a assinatura de Battisti é anterior em vários anos aos textos constantes nos documentos.

Ou seja, o advogado guardou as folhas e, quando foi conveniente, acrescentou-lhes dizeres extremamente lesivos aos interesses de Battisti.

O prejuízo foi total. O escritor acabou tendo sua extradição autorizada pelo Judiciário da França, país que o abrigava (fugiu de novo, dessa vez para o Brasil). E, na Itália, seu caso está definitivamente encerrado.

Fred Vargas explica que tal advogado representava outros réus no mesmo caso e assim agiu para favorecê-los processualmente, fazendo com que as acusações mais graves recaíssem sobre Battisti.

Um dado importante: o principal beneficiário da manobra é um militante que recorreu à delação premiada (acusou os antigos companheiros em troca da redução de sua pena). Então, faz todo sentido que utilizasse meios ilícitos, além dos imorais, para se livrar da prisão.

A escritora Fred também adverte que, se Battisti for extraditado para a Itália, os grupo de extrema-direita vão assassiná-lo na cadeia: "Ele não viverá".

Ânimo rancoroso - O certo é que o ânimo rancoroso da sociedade italiana, após o bárbaro assassinato de Aldo Moro, desequilibrou os pratos da Justiça.

No afã de desarticular os grupos armados de esquerda a qualquer preço, o Judiciário da Itália incorporou a prática ignóbil e extremamente questionável da delação premiada, que acaba sempre servindo como estímulo para oportunistas fugirem às próprias responsabilidades, atribuindo-as a outros.

Passada a tempestade, houve uma volta à sensatez e ao equilíbrio característicos de um povo herdeiro das tradições humanistas. Inclusive em razão das aberrações jurídicas que macularam seu processo, Cesare acabou sendo deixado em paz na França por longo tempo.

Até que, com a chegada da direita italiana ao poder, foi aberta a estação de caça ao símbolo. Cesare, culto e articulado, é o troféu que Silvio Berlusconi sonha ostentar na sua parede.

Esperamos que Tarso Genro tenha sabedoria para discernir de que lado está a verdade e grandeza para colocar o espírito de justiça acima de quaisquer outras considerações.

* Condenado à prisão perpétua pelo envolvimento em quatro homicídios para os quais jura não ter concorrido, Battisti só terá sua extradição concedida se a Itália aceitar reduzir a pena para, no máximo, 30 anos de detenção, conforme preceito brasileiro.

domingo, 7 de dezembro de 2008

COLUNISTA DENUNCIA "O BRASIL ESCONDIDO, QUE ALIMENTA A BARBÁRIE E SERVE À MORTE"

O colunista Jânio de Freitas denuncia na Folha de S. Paulo de hoje: o governo brasileiro ficou de fora do tratado contra fabricação, uso e venda de bombas de fragmentação, já assinado por 92 países.

Eis os trechos mais marcantes, que subscrevo, compartilhando em gênero, número e grau a indignação do velho jornalista:

"As bombas de fragmentação, como o nome indica, desmancham-se em numerosos artefatos que se espalham por vasta área, cada um deles capaz de explodir logo ou de aguardar no solo que, em dia incerto, alguém pise ou apanhe e assim o faça explodir. Não se trata então, por mais que os interessados o afirmem, de arma de defesa.

"Os estudos sobre os efeitos do emprego dessa bomba pelos Estados Unidos e por Israel, no Oriente conflagrado, atestam-na como armamento de ataque. Do contrário, as vítimas fatais e de mutilação não seriam populações civis, urbanas e rurais. Eis aí o tipo de armamento que o Brasil está produzindo, em pelo menos três indústrias bélicas, e vendendo sem limitações...

"Tudo isso, e muito mais e muito pior, passa-se às escuras, sem conhecimento da população, sem conhecimento do Senado e da Câmara, sem conhecimento do sentido presente na Constituição para a identidade do Brasil entre os países.

"O Brasil escondido, que alimenta a barbárie e serve à morte, justificaria, e no entanto não precisa temer, uma cruzada de Ministério Público, meios de comunicação, universidade, intelectuais e artistas, para trazê-lo à luz dos dias. E confrontá-lo, para confirmação ou recusa, com o tipo de país que se pretende ter.

"Na recusa ao banimento das bombas de fragmentação, que teriam feito o gozo dos exércitos nazistas, o Brasil alinhou-se a Estados Unidos, Israel, Rússia e aos outra vez atritados Índia e Paquistão."

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

GABEIRA: QUEM TE VIU, QUEM TE VÊ!

Acontecimentos dos últimos dias nos morros cariocas:

"O menino Matheus Rodrigues Carvalho, de 8 anos, morreu na porta de casa com um tiro na Favela Baixa do Sapateiro, no Complexo da Maré, por volta das 8h desta quinta-feira. Ele estava saindo para comprar pão quando foi atingido por um tiro de fuzil. De acordo com os moradores, o menino foi atingido por um policial que estava perseguindo um homem, supostamente do tráfico, com um rádio transmissor. Não houve troca de tiros. O tenente coronel Rogério Seixas do 22º BPM (Complexo da Maré) não quis falar sobre o assunto. Revoltados, moradores iniciaram um protesto. Alguns tentaram invadir o Destacamento de Policiamento Comunitário e atiraram ovos no Caveirão."

"Em uma atividade cultural organizado pelo Grupo Educação Popular, que seria realizada para os moradores do Morro da Providência, na praça Américo Brum foi interrompidas a tiros por policiais do GPAE (Grupamento de Policiamento em Áreas Especiais). A violenta ação da policia deixou uma jovem de 27 anos ferida por um tiro nas costas. Por volta das 17 horas, durantes os preparativos para o evento, um efetivo policial chegou no morro fortemente armado, cercando o local da atividade e as várias vielas próximas ao local, afastando os moradores que estavam no local. Com uma clara intenção a intimar os moradores a não participar do evento. Às 20 horas quando as luzes do local começavam a ser acessas para dar início ao evento, os policiais, sem nenhuma justificativa, iniciaram um tiroteio, causando um clima de terror e dispersando a população que estava no local para a atividade."

Coluna de hoje ("As novidades no front") de Fernando Gabeira na Folha de S. Paulo:

"A polícia conseguiu expulsar os traficantes do morro Dona Marta, na zona sul do Rio. (...) Uma das razões do sucesso inicial no Dona Marta foi o número de homens empregados: 70. Alguns postos policiais com apenas 25 homens, distribuídos em turnos, sofrem com a inferioridade tática diante dos traficantes. (...) Não é impossível impedir o domínio territorial armado nos morros do Rio. Nunca se tentou seriamente, com um plano articulado que pudesse ser avaliado em seus detalhes e tivesse um calendário verificável... tanto o tráfico como as milícias ocupam, militarmente, o território, privando milhares de pessoas de seus direitos elementares. O pior é que já sabemos como fazer, mas nunca reunimos todas condições necessárias."

COMENTÁRIO: O NOVO GABEIRA, EM VERSÃO PALATÁVEL PARA A GRANDE IMPRENSA E PARA OS CONSERVADORES & REACIONÁRIOS EM GERAL, PREOCUPA-SE SOMENTE COM A PRIVAÇÃO DOS DIREITOS ELEMENTARES DOS FAVELADOS POR PARTE DOS TRAFICANTES. NADA TEM A DIZER SOBRE A ATUAÇÃO DE UMA POLÍCIA QUE SE COMPORTA MAIS COMO TROPA DE OCUPAÇÃO NAZISTA, PRIVANDO OS FAVELADOS DE ATIVIDADES CULTURAIS E ATÉ DA PRÓPRIA VIDA. SE PERSISTIR TAL MENTALIDADE, O "PLANO ARTICULADO" QUE ELE PROPÕE, PRESUMIVELMENTE COM SUPERIORIDADE TÁTICA DOS POLICIAIS DIANTE DOS TRAFICANTES, ACABARÁ SENDO UM PLANO DE EXTERMÍNIO.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

PMDB: QUEM TE VIU, QUEM TE VÊ!

"Hoje a gente nem se fala mas a festa continua
Suas noites são de gala, nosso samba ainda é na rua
Hoje o samba saiu lá lalaiá, procurando você
Quem te viu, quem te vê
Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais esquece não pode reconhecer"
(Chico Buarque, "Quem te viu, quem te vê")

O PMDB é a mala sem alça que os governos estão sendo obrigados a carregar, para conseguirem aprovar seus projetos no Congresso. Recebe cargos, dá apoio. Quem não aceita tal barganha acaba derrubado, como Collor.

Esquecido do seu desempenho marcante na luta pela redemocratização do País, esse partido se tornou um antro de negocistas e/ou reacionários.

Assim, não faz nem dois meses, o ministro de Minas e Energia Edison Lobão deitou falação defendendo a ditadura militar como "um momento em que o Brasil reencontrou seu futuro, sua vocação para o desenvolvimento".

Chegou ao cúmulo de afirmar que o regime militar não era uma verdadeira ditadura, como a de Getúlio Vargas, mas sim "um regime de exceção, autoritário, com Constituição democrática, que fazia eleições regularmente".

Ontem, outro ministro peemedebista de Lula mostrou a que veio.

Aliado a parlamentares ruralistas, o titular da Agricultura Reinhold Stephanes apresentou proposta para alterar o Código Florestal, liberando o plantio de dendê e outras espécies exóticas em áreas destinadas à recuperação de floresta nativa na Amazônia.

E mais: quer anistiar os produtores de todo o País que plantaram em áreas de preservação permanente até julho de 2007!

Como justificativa, a chantagem de sempre: os ruralistas dizem que, se o Código Florestal atual for respeitado, o agronegócio acabará.

Um especialista do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, André Lima, manifestou sua perplexidade pelo fato de um ministro da Agricultura estar fazendo proposta que anula a base legal para o combate ao desmatamento exatamente um dia depois de o governo apresentar o Plano Nacional de Mudanças Climáticas e admitir metas internas de redução da devastação.

Não deveria surpreender-se, afinal Stephanes só usa tal título porque a sinceridade passa distante dos círculos do poder. Se a terminologia coincidisse com a atuação concreta, ele seria o Ministro do Fomento do Agronegócio.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

CARTA DE CESARE BATTISTI...

...AO CONARE, QUE, CEGO E SURDO, IGNOROU-A E TOMOU UMA DECISÃO INCOMPATÍVEL COM A TRADIÇÃO BRASILEIRA DE DAR ABRIGO AOS PERSEGUIDOS POLÍTICOS DE OUTRAS NAÇÕES:

"São muitos os anos de perseguição política que sofro. Confesso que estou cansado. Após minha fuga da Itália, a minha militância deu-se como escritor, usando o espaço que me deram as editoras francesas e italianas para criticas a época política italiana dos anos de chumbo.

"Fui membro do PAC, mas nunca pratiquei atos de violência. Me abriguei em solo francês, pois a doutrina Mitterand protegia os militantes que renunciassem à prática de atos de violência. A verdade é que eu já havia publicamente renunciado à luta armada quando da morte de Aldo Moro. Tão logo percebi o caminho pelo qual a esquerda radical italiana poderia estar indo, fui radicalmente contra e cheguei mesmo a dizer a meus companheiros minha discordância.

"Fugi para a França, e da França para o México, e do México para a França, e da França para o Brasil. A pé, de ônibus, de avião, de carro, enfim, da forma que fosse possível. Fugi cruzando territórios e fronteiras, que nem sempre eram a minha destinação original. Fugi muitas vezes pensando que nunca mais veria minhas duas filhas, meus amigos, minhas referências de vida.

"Hoje estou cansado. Se volto para a Itália sei que vou morrer. Embora nunca tenha matado ninguém, me acusaram de ter matado policiais com base em um depoimento de um "arrependido" por delação premiada, que jogou a culpa por muitos atos praticados por ele próprio em mim. Sei que será difícil convencer as pessoas da verdade, pois mentiras contra mim foram repetidas mais de mil vezes.

"Nunca pratiquei atos de violência contra quem quer que seja, e não há testemunha presencial que me acuse de tal prática.

"Sei que tenho condições de viver o fim de meus dias com dignidades nesta terra maravilhosa, como outros militantes políticos de esquerda da época o estão fazendo. Sei que posso continuar minha carreira de escritor e tradutor sem interferir em assuntos internos.

"Vim para o Brasil pois sabia do calor e do acolhimento que aqui receberia. Sabia também que o Brasil acolhe perseguidos políticos. Hoje tenho certeza que reúno condições de aqui trabalhar, de trazer minha família para perto, de estar ao lado de meus amigos que mesmo vivendo do outro lado do Atlântico nunca me deixaram só.

"Recebi com muita alegria a mudança de orientação do governo francês, que decidiu não mais extraditar Marina Petrella. Ela não merecia a morte, e Mitterand havia dado a todas nós a palavra de que não seriamos extraditados. Sarkozy procura o caminho dos grandes estadistas quando dá a mesma palavra para as FARCs e quando protege Marina da morte que seria certa. A verdade é que tudo isso me dá no mínimo o direito de sonhar que serei aceito como refugiado político nesta terra maravilhosa chamada Brasil e que um dia poderei ver a verdade restabelecida também na França e na Itália."

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

"NÃO ACREDITO QUE O GOVERNO LULA EXTRADITE CESARE BATTISTA PARA AGRADAR BERLUSCONI, SARKOZY E A GRANDE IMPRENSA BRASILEIRA"

Um jornalista brasileiro que ainda conserva o senso de justiça e a coragem para afrontar os poderosos é Ruy Martins, hoje vivendo na Suíça e colaborando com jornais portugueses, além do site Direto da Redação ( http://www.diretodaredacao.com/ ).

Batalhador incansável para que o caso de Cesare Battisti tenha uma solução civilizada, Martins comentou com justa indignação a negativa do Conare em conceder refúgio para o escritor italiano. Eis os trechos mais marcantes:

"Quando se sabe que muitos atuais parlamentares e gente do governo lutou contra a ditadura militar, parece estranho que concordem em punir o militante italiano dos anos 60, Cesare Battisti, que nega mesmo ser autor dos crimes dos quais vem sendo acusado. Não acredito que o governo Lula extradite Cesare Battisti para agradar Berlusconi, Sarkozy e a grande imprensa brasileira, que nesta questão conta com o estranho apoio da revista Carta Capital.

"Battisti é acusado de ter cometido crimes, quando jovem, em nome de um movimento de extrema-esquerda italiano. Há quase trinta anos, Battisti vive como foragido. Na França, no governo de Mitterrand, tinha encontrado abrigo, pois o presidente socialista francês havia dado refúgio aos italianos envolvidos nas agitações da época da Brigada Vermelha.

"Durante a campanha eleitoral, o atual presidente francês, com o objetivo de agradar os eleitores de direita, decidiu entregar Battisti à Itália, onde está condenado à prisão perpétua, num julgamento à revelia. Battisti conseguiu fugir mais uma vez e se escondeu no Brasil, onde foi localizado quando alguém de Paris ia lhe entregar algum dinheiro para sobreviver.

"Ao mesmo tempo, outra militante daquela época, Marina Petrella, que vivia normalmente na França, foi presa e ia ser extraditada para a Itália. Entretanto, ao ser separada de sua filha e de sua família para ser enviada à Itália, Marina entrou num processo depressivo e estava perto da morte quando, por intervenção da cunhada do presidente Sarkozi, foi suspensa definitivamente sua extradição para a Itália, onde deveria cumprir prisão perpétua.

"Cesare Battisti é o último dos italianos que a Itália quer recuperar para deixar apodrecer na prisão. Além de negar ter praticado crimes de morte, Battisti se tornou escritor no exílio forçado, quando vivia no México, casou, tem duas filhas e sua extradição, por acusações de atos cometidos há trinta nos, não seria um ato de justiça mas de vingança da Itália berlusconiana.

"Hoje, no Brasil, diversas personalidades que lutaram contra a ditadura fazem parte do governo e seria um absurdo extraditarem alguém que, na juventude, também lutou contra o que acreditava ser um Estado totalitário.

"(...) É hora de se passar a esponja nos excessos políticos da juventude italiana de há 30 anos. Fernando Gabeira, o senador Suplicy já se pronunciaram em favor do asilo a Cesare Battisti no Brasil, porque se trata de um foragido político e não um autor de crime comum.

"O Brasil deve dar a Cesare Battisti o asilo para que possa trazer a esposa e filhas. E iniciar, em terra brasileira, uma outra fase de sua vida, num país de justiça e liberdade.

"A negativa da Conare constitui um retrocesso em matéria de direito internacional, por considerar como acusado de crime comum um notório militante de um grupo politico italiano. É uma inexplicável concessão do Brasil ao pedido de dois presidentes europeus, em detrimento de uma tradição do asilo do governo brasileiro a todos os perseguidos e de uma independência que o Brasil fazia questão de manter nessa matéria."

PEÕES DE OBRAS, OS ESCRAVOS MODERNOS

“Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
(...) E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”
(“Construção”, Chico Buarque)

Os peões da construção civil têm de trabalhar em situações que sabem ser perigosas, contraem parasitas bebendo água impura nos canteiros de obras e sofrem distúrbios auditivos em razão dos ruídos excessivamente altos a que são expostos sem proteção adequada.

É o que se depreende de uma pesquisa realizada com 2.428 trabalhadores do setor, em 41 empreendimentos da Grande São Paulo, Baixada Santista e Vale do Paraíba.

Eis algumas das constatações:
· 54,7% apresentam parasitas (protozoários e vermes);
· 3,4% têm perda auditiva relacionada ao trabalho;
· 24,3% sofrem irritação quando expostos a sons intensos;
· 11,5% relatam dores de ouvido;
· 43,2% dizem ter perda de equilíbrio (sintoma de labirintite);
· 43,4% precisam de intervenção médica para aliviar dores assim que possível e 25,5%, imediatamente;
· 38,6% acreditam que correm perigo sempre ou com freqüência, na fase de estrutura e alvenaria da obra.

Tais dados constam do Manual de Segurança e Saúde no Trabalho: Indústria da Construção Civil - Edificações, que será lançado hoje na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo.

O capitalismo continua tão selvagem para os peões de obras no Brasil como o era para as crianças que trabalhavam até 12 horas diárias nas minas de carvão européias.

Haruo Ishikawa, um dos vice-presidentes do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo, não hesitou em culpar esses escravos modernos pela condição subumana a que foram reduzidos: “Os médicos têm orientado em relação ao banho e às necessidades fisiológicas -- lavar as mãos, p. ex.".

Não disse uma palavra sobre a água imunda que são obrigados a beber nos canteiros de obras, por falta de outra.

Já Antônio Pereira, superintendente do Ministério do Trabalho e Emprego, diz que a culpa por esses números "graves" é também da "falta de planejamento das empresas".

Discordo. O planejamento das empresas é perfeito para obterem o que almejam, a maximização dos lucros, pouco lhes importando os danos criminosamente infligidos à saúde e à vida dos trabalhadores.

domingo, 30 de novembro de 2008

O BLEFE DOS GORILAS E O GOVERNO ACOVARDADO

Às vezes outros jornalistas dizem coisas muito interessantes a respeito de um assunto que eu também costumo abordar. Como nunca perdi a humildade, faço questão de reproduzir tais textos.

É o caso do artigo "Lula vai mal nos direitos humanos e no acesso à informação" ( http://www1.folha.uol.com.br/folha/colunas/brasiliaonline/ult2307u473280.shtml ), do colunista da Folha OnLine Kennedy Alencar.

Recomendando a leitura do texto integral, reproduzo os parágrafos referentes aos direitos humanos, minha praia:

"O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega à segunda metade do segundo mandato devedor em duas áreas importantes e correlatas: direitos humanos e direito à informação.

"Seria infantil negar avanços na primeira delas. O secretário nacional de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, tem feito um bom trabalho. Lançado em agosto do ano passado, o livro "Direito à Memória e à Verdade" foi o primeiro documento do governo federal a acusar claramente a ditadura militar de 1964 de atos cruéis contra opositores que não podiam mais reagir -- como decapitação, esquartejamento, estupro, tortura de modo geral, ocultação de cadáveres e execução.

"O livro relatou os 11 anos de trabalho da Comissão Especial dos Mortos e Desaparecidos Políticos, instância que integra a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, órgão comandado por Vannuchi, ele próprio um ex-preso político.

"Mas Lula parou por aí. A entrada de Nelson Jobim no Ministério da Defesa teve o mérito de resolver a crise área, mas o demérito de levar para o centro do poder uma figura que tem sido muito conservadora, exercendo uma influência nesse sentido sobre Lula e colegas de ministério.

"Jobim é da turma dos que acham que questionar se a Lei de Anistia (1979) perdoou crimes de tortura geraria uma crise militar. Ora, crise militar? As Forças Armadas hoje são profissionais e não têm o menor espaço para se intrometer na vida política. Alimentar o fantasma de crise militar quando se defende que tortura é crime imprescritível soa anacrônico, para ser elegante. No fundo, é uma reação corporativa e conservadora. Pena que essa visão tenha sido aceita na cúpula do governo por ministros que participaram da luta armada e que foram perseguidos pela ditadura.

"Lula assumiu uma posição vexatória, algo acovardada. A AGU (Advocacia Geral da União) acha que a Lei de Anistia perdoou os crimes de tortura. O presidente poderia mudar essa opinião - um parecer jurídico, mas também político. No entanto, o presidente preferiu fingir que não é com ele, deixando a decisão para o STF (Supremo Tribunal Federal).

"O fato de a decisão caber à Justiça não significa que Lula não possa ter opinião. Seu governo representado pela AGU, poderia e deveria defender uma posição mais progressista."

COMENTÁRIO: KENNEDY ESTÁ SENDO CONDESCENDENTE EM DEMASIA COM VANNUCHI, QUE NÃO REAGIU BEM QUANDO ELE E TARSO GENRO PERDERAM A DISPUTA COM NELSON JOBIM NO SEIO DO GOVERNO. AMEAÇOU ENTREGAR O CARGO SE A AGU NÃO VOLTASSE ATRÁS NO SEU PARECER, DEPOIS DEIXOU O DITO POR NÃO DITO. QUANTO À POSIÇÃO DE LULA, É "VEXATÓRIA" MESMO E NÃO APENAS "ALGO ACOVARDADA", MAS SIM TOTALMENTE ACOVARDADA. E CONCORDO INTEIRAMENTE COM A AFIRMAÇÃO DE QUE OS VELHOS GORILAS MILITARES ESTÃO APENAS BLEFANDO E NÃO CONSEGUIRIAM LEVANTAR AS TROPAS CONTRA O GOVERNO, CASO ESTE DECIDISSE FAZER O QUE É CERTO.

sábado, 29 de novembro de 2008

SÓ TARSO GENRO PODE SALVAR CESARE BATTISTI

O Conselho Nacional para Refugiados Políticos não considerou como tal o italiano Cesare Battisti, deixando o caminho desimpedido para o Supremo Tribunal Federal determinar sua extradição, o que dificilmente deixará de fazer.

Bem vistas as coisas, entre ele e a pena de 30 anos de detenção – praticamente uma condenação a morrer na prisão, para um homem que está chegando aos 53 anos de idade e tem levado uma vida de muita dor e sofrimento – só existe, agora, uma possibilidade de salvação: a decisão final do ministro da Justiça Tarso Genro, a quem Cesare Battisti tem o direito de (e tudo indica que vá) apelar.

É um caso em que a frieza da Lei conflita com o espírito de Justiça, que inspira ou deveria inspirar nossas ações neste sofrido planeta.

Com vinte e poucos anos, Cesare Battisti pertenceu a um grupelho de esquerda radical na Itália, versão em miniatura das famosas Brigadas Vermelhas.

Havia uma imensa frustração entre os idealistas que tentaram e não conseguiram mudar o mundo, em 1968 e anos subseqüentes.

Nos países prósperos da Europa, parecia mesmo que, como o filósofo Herbert Marcuse escrevera, a combinação de uma situação de conforto material com a atuação atordoante dos meios de comunicação de massa fechara totalmente as brechas através dos quais os homens poderiam chegar ao pensamento crítico.

Então, na segunda metade da década de 1970, uns poucos tentaram abrir novas brechas com dinamite.

Foi um terrível e trágico erro histórico.

Por mais impermeáveis às mudanças que se apresentem em determinado momento, as democracias dão espaço a quem quer convencer a cidadania de que a realidade pode ser alterada para melhor.

O jeito é, pacientemente, perseverar no trabalho de formiguinha, até que a situação mude.

A teoria do homem unidimensional de Marcuse (bem como a do fim da História de Fukuyama, que veio depois) dissecava com precisão cirúrgica o momento que a produziu, mas não levava em conta a dinâmica da História, que teima em direcionar-se para novos e surpreendentes caminhos.

P. ex., a recessão que fustigará a economia mundial em 2009 (e sabe-se lá mais quanto tempo) e as catastróficas conseqüências das alterações climáticas (que já começam a nos assolar) ensejam novas possibilidades de atuação aos que querem despertar a consciência coletiva para o fato de que o capitalismo hoje ameaça a própria sobrevivência da espécie humana.

A sofreguidão, entretanto, tornou-se uma tendência avassaladora no mundo moderno.

Muito mais entre os jovens.

E mais ainda entre os idealistas, que exasperam-se por terem uma visão muito nítida das mazelas do seu tempo e de como poderiam ser erradicadas, mas se chocam com a indiferença e o egoísmo da maioria bovinizada.

Battisti, jovem e idealista, acreditou que devesse trilhar um desses atalhos para a transformação da sociedade, já que a estrada principal estava bloqueada. Pagou caríssimo por isto.

Depois que as Brigadas Vermelhas tomaram a decisão inaceitável e inqualificável de executar Aldo Moro, criou-se um estado de ânimo fascistóide na Itália.

Semelhante, p. ex., aos que levaram os EUA a lincharem pelas vias legais tanto Sacco e Vanzetti quanto o casal Rosemberg, cujas inocências saltavam aos olhos e clamavam aos céus.

Foi em processo deste tipo, no qual se registraram verdadeiras aberrações jurídicas em detrimento dos réus, que Cesare Battisti acabou condenado por quatro homicídios cuja autoria ele nega.

Fugiu e leva existência de judeu errante há quase três décadas, perseguido, acossado, finalmente preso.

Constituiu família, escreveu livros, reconstruiu-se, bem ao contrário dos que preferiram seguir o rumo insensato até o mais amargo fim, como Carlos, o Chacal.

Hoje, é um homem que, livre, não faria mal a uma mosca. Poderia, finalmente, viver em paz com seus entes queridos e continuar exercendo brilhantemente sua atividade literária.

Que verdadeiro benefício a sociedade tirará do seu encarceramento por 30 anos, ou até a morte? Nenhum. O olho por olho, dente por dente pertence à pré-História da humanidade.

Mas, Battisti se debate numa dessas armadilhas da História, sem saída pelos caminhos legais.

Não cabe ao Brasil questionar a lisura da Justiça italiana ou o rancor vingativo com que a direita de lá, ao assumir o poder, exumou um caso esquecido e passou a perseguir implacavelmente um homem que não incomodava mais ninguém.

É em nome da clemência, dos sentimentos humanitários e do seu próprio passado idealista que Tarso Genro terá de agir, para salvar Cesare Battisti.

Quando Salvador Allende assumiu o poder no Chile, afirmou à militância que, para ela, jamais seria Sua Excelência, o Presidente, mas sim o Companheiro Presidente. Morreu cumprindo a palavra.

Que Tarso Genro agora decida o que é mais importante para ele: ser Sua Excelência, o Ministro ou o Companheiro Ministro.

Nem sequer precisará sacrificar a vida para tomar a única decisão digna no seu caso. Só arriscará o cargo.

P.S.: O COMPETENTE JORNALISTA RUY MARTINS, QUANDO ESTE ARTIGO JÁ ESTAVA ESCRITO E DIVULGADO, LEMBROU QUE HÁ UMA POSSIBILIDADE A MAIS PARA CESARE BATTISTI, QUAL SEJA O APELO AO PRESIDENTE LULA, DEPOIS DA PROVÁVEL DECISÃO NEGATIVA DO STF. FAÇO O REGISTRO. MAS, SERÁ MUITA INGENUIDADE ACREDITARMOS QUE LULA POSSA VIR A CORRIGIR UMA INJUSTIÇA DO SUPREMO NUM ASSUNTO EM QUE SEU VIÉS TEM SIDO (POR CONVICÇÃO, OPORTUNISMO OU PAÚRA) DOS MAIS REACIONÁRIOS.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

HOJE SE DECIDE O DESTINO DE CESARE BATTISTI

Sairá ainda hoje a decisão do Conselho Nacional para os Refugiados (Conare) sobre o companheiro italiano Cesare Battisti. Se lhe for concedido asilo político, poderá residir em liberdade no Brasil, juntamente com sua família.

Caso contrário, é possível que sua extradição seja mesmo concedida pelo Supremo Tribunal Federal, até porque há o péssimo precedente da deportação forçada dos pugilistas cubanos, que agora está servindo como argumento para a panfletagem reacionária.

Sou inteiramente solidário a Battisti, pelos motivos já expressos no meu artigo de quatro meses atrás ( http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/2008/07/brasil-pode-entregar-escritor-italiano.html ):

"...o momento do combate ao terrorismo italiano passou e o tempo das punições, também. Battisti é outro homem, neste outro tempo em que vivemos. Seria uma crueldade inútil encarcerarem-no agora, pelo resto da vida ou pelos próximos 30 anos (dispositivo da legislação brasileira que tende a prevalecer, como condicionante da extradição), o que dá no mesmo: dificilmente deixaria de morrer na prisão.

"A prescrição das penas é uma das práticas mais nobres da nossa civilização".

JULGADO À REVELIA - Registro, ainda, minha total concordância com o artigo de ontem do excelente jornalista Rui Martins, "Battisti deve ficar no Brasil" ( http://www.diretodaredacao.com/site/noticias/index.php?not=4233 ), cujas palavras faço minhas.

Eis os trechos principais:

"A comissão encarregada de julgar os pedidos de asilo no Brasil, Conare, decide (...) quanto ao italiano Cesare Battisti, preso há quase dois anos no Brasil, a pedido da França e da Itália, que querem sua extradição.

"Battisti é acusado de ter cometido crimes, quando jovem, em nome de um movimento de extrema-esquerda italiano. Há quase trinta anos, Battisti vive como foragido. Na França, no governo de Mitterrand, tinha encontrado abrigo, pois o presidente socialista francês havia dado refúgio aos italianos envolvidos nas agitações da época da Brigada Vermelha.

"Durante a campanha eleitoral, o atual presidente francês, com o objetivo de agradar os eleitores de direita, decidiu entregar Battisti à Itália, onde está condenado à prisão perpétua, num julgamento à revelia. Battisti conseguiu fugir mais uma vez e se escondeu no Brasil, onde foi localizado quando alguém de Paris ia lhe entregar algum dinheiro para sobreviver.

",,,Cesare Battisti é o último dos italianos que a Itália quer recuperar para deixar apodrecer na prisão. Além de negar ter praticados crimes de morte, Battisti se tornou escritor no exílio forçado, quando vivia no México, casou, tem duas filhas e sua extradição, por acusações de atos cometidos há trinta nos, não seria um ato de justiça mas de vingança da Itália berlusconiana.

"Hoje, no Brasil, diversas personalidades que lutaram contra a ditadura fazem parte do governo e seria um absurdo extraditarem alguém que, na juventude, também lutou contra o que acreditava ser um Estado totalitário.

"...É hora de se passar a esponja nos excessos políticos da juventude italiana de há 30 anos. Fernando Gabeira, o senador Suplicy já se pronunciaram em favor do asilo a Cesare Battisti no Brasil, porque se trata de um foragido político e não um autor de crime comum.

"O Brasil deve dar a Cesare Battisti o asilo para que possa trazer a esposa e filhas. E iniciar, em terra brasileira, uma outra fase de sua vida, num país de justiça e liberdade."

"MEUS PRINCÍPIOS E VALORES SÃO OS DA MINHA GERAÇÃO"

Comecei a lutar por ideais políticos em 1967; aprendi algumas coisinhas nessas quatro décadas.

Talvez a principal seja a seguinte: enquanto um revolucionário mantém a coerência com seus princípios e valores, tem força íntima para suportar qualquer injustiça.

Só não podemos, mesmo, trair aquilo em que acreditamos: de concessão em concessão, acabaremos perdendo o respeito por nós mesmos. E aí não existirá mais salvação.

Meus princípios e valores são os da minha geração. Servem-me até hoje como baliza.

Então, na eleição de 2006, defendi a posição de que tanto dava a vitória de Lula como a de Alckmin, pois eram dois candidatos do sistema. Isto me valeu uma avalanche de ataques na comunidade Botequim Socialista do Orkut. Como não tinha intenção de travar diálogos de surdos (as pessoas ignoravam minhas refutações e ficavam sempre batendo nas mesmas teclas), saí de lá.

Mas, não me senti nem um pouco abalado, pois, de acordo com as convicções da minha geração, eu estava certo.

Para nós, o que definia governos era sua política econômica; e, no caso, ambos os candidatos se mantinham firmemente ancorados no neoliberalismo.

Além disto, sempre fomos visceralmente contrários ao reformismo, às pequenas concessões que minoram o sofrimento das massas e as anestesiam, tangendo-as para a acomodação com o capitalismo.

O primeiro texto mais ambicioso que escrevi na minha vida política, em 1968, foi exatamente uma crítica que fiz a meus adversários no movimento secundarista, aplicando os conceitos expostos por Rosa Luxemburgo em Reforma ou Revolução. Defendi a posição do meu grupo como revolucionária e critiquei a dos rivais como reformista.

Ora, o que diferenciava Lula dos adversários tucanos eram tão-somente as migalhas que distribuía às massas, com programas tipo Bolsa-Família. Se isto sempre foi avaliado negativamente por mim, não havia motivo nenhum para eu considerar o primeiro como merecedor do voto útil.

Mais recentemente, tive o mesmo problema em dois grupos do Yahoo: o Eskuerra e O Quinto Poder. Desta vez, por não tomar partido pela Polícia Federal, contra Daniel Dantas. Acabei também saindo de ambos.

No entanto, havia seguido fielmente, de novo, os valores da minha geração:

1) Nunca estabelecemos distinções entre banqueiros.
Para quem acredita nos valores do sistema, Daniel Dantas é um banqueiro contraventor e o finado Olavo Setubal, p. ex., era um banqueiro honesto.
Para um revolucionário, tanto dá Dantas como Setúbal, pois não passam de baluartes da fase mais repulsiva do capitalismo, em que predomina o parasitário e inútil capital financeiro.
Banqueiros não passam dos agiotas modernos. Não é um que precisa ser tirado de cena, são todos.
Foi o raciocínio que aplicamos outrora, quando o jornal O Estado de S. Paulo fazia campanha contra "o mau patrão" J. J. Abdalla. Nós, da esquerda, contrapúnhamos que maus patrões eram todos os patrões. Se nos associássemos às criticas àquele patrão em particular, estaríamos concedendo que maus patrões seriam a exceção, e não a regra. Não entramos nessa.

2) Nunca apoiávamos a Polícia.
Víamos a repressão e seus agentes como antípodas da revolução. Serviam para manter o status quo. Nós vivíamos para revolucionar o status quo. Não havia nada que nos aproximasse, em circunstância nenhuma. Ponto final.
Nunca vocês me verão do mesmo lado da Abin (sucessora dos nossos inimigos do SNI) e da PF.

3) Aprendemos a prezar institutos como o habeas corpus e o asilo político, pois, nas situações mais agudas, podiam até significar a diferença entre a vida e a morte de um revolucionário.
Então, quando o juiz De Sanctis emitiu um segundo mandado de prisão para Dantas, avaliei que o fundamentel, para nós, era preservarmos a integridade do instituto do habeas corpus.
Durante a ditadura, os habeas corpus ainda puderam ser concedidos durante mais de quatro anos, até o momento em que o AI-5 os proibiu para casos de segurança nacional.
Salvaram muitos companheiros de torturas atrozes. E fizeram imensa falta depois de dezembro/1968, quando o terrorismo de estado atingiu seu ápice.
Mesmo entre 1964 e 1968, entretanto, os habeas corpus não eram integralmente respeitados. Às vezes a repressão ficava transferindo companheiros de delegacia para delegacia, de forma que o oficial de justiça nunca conseguia encontrá-los para fazer cumprir o HC.
Se a jogada do De Sanctis desse certo, corríamos o risco de ressuscitar essas práticas de avacalhação do HC, características de estado policial. Negativo. Era um preço alto demais para manter-se enjaulado Dantas por uns tempos (o que nada mudaria em essência, não passando de aparência).

4) Nós nos agrupávamos a partir das concordâncias estratégicas, tendo total direito de divergir nas questões táticas. A estratégia era fechada, mas a tática estava aberta a discussões.
Entrávamos no partido ou organização que defendia o caminho revolucionário em que acreditávamos (p. ex., os que críamos que a revolução seria socialista, militávamos em agrupamentos que colocavam o proletariado como o sujeito da revolução e fazíamos frentes com os agrupamentos afins, não colaborando com os agrupamentos que defendiam a revolução popular e, como consequência, buscavam alianças com a burguesia nacional e com os camponeses).
Os objetivos estratégicos eram divisores de água. Mas, os objetivos táticos podiam ser livremente discutidos dentro do respectivo agrupamento. Ninguém seria taxado de "burguês" apenas por discordar de algo secundário como o apoio que parte da esquerda deu ao Protógenes, De Sanctis e Lacerda. Nesse nível, podíamos divergir à vontade, sem que nossa condição de revolucionários fosse colocada em xeque.

Acredito que, tanto em relação a Lula quanto à Operação Satiagraha, a evolução dos acontecimentos provou que eu estava certo.

Ninguém está imune a incompreensões. Mas, quem sempre defende seus princípios -- os MESMOS princípios, em toda e qualquer circunstância -- acaba conquistando o respeito das pessoas sérias.

Um caso lapidar foi o da deportação forçada dos pugilistas cubanos. Desde o primeiro momento eu afirmei que havia sido um erro, mesmo que os prejudicados fossem pessoas sem grande valor comos seres humanos (dois mercenários). O PRECEDENTE aberto, entretanto, acabaria sendo usado contra nós e prejudicando companheiros realmente importantes para nossa causa.

Agora, aquele episódio está servindo de argumento para os que defendem a entrega de Cesare Battisti à Justiça italiana. Os reacionários cobram a repetição da mesma postura por parte do Governo brasileiro.

Eu tenho moral para defender uma solução favorável a Battisti, pois não compactuei com a agressão que o Governo Lula cometeu contra o direito de asilo. O Suplicy, idem. E poucos mais.

Já os esquerdistas que colocaram uma conveniência momentânea à frente de valores maiores não têm uma resposta consistente para dar, agora que os fascistas os estão chamando de hipócritas.

Obs.: trechos de resposta que dei num grupo de discussão virtual. Como acabou se tornando uma espécie de profissão de fé, resolvi postar aqui.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A RIMA ESTÁ FEDENDO

Paulo Lacerda dirigia a Polícia Federal e, aparentemente, estava fazendo um bom trabalho.

Designaram-no para assumir o comando da Agência Brasileira de Inteligência, tendo um desafeto seu sido escolhido para substitui-lo à frente da PF.

Inconformado, resolveu mostrar que era ele quem ainda mandava no pedaço: utilizando os préstimos de um delegado da PF que se-lhe conservou fiel (Protógenes Queiroz), Lacerda comandou, por baixo dos panos, a Operação Satiagraha.

Quando aquela substância que rima com seu sobrenome foi para o ventilador, Paulo Lacerda tentou canhestramente negar que havia invadido seara alheia, apesar das evidências gritantes em contrário (começando pela cessão de dezenas de agentes da Abin para ajudarem o Protógenes).

Mentiu à CPI das Escutas Clandestinas da Câmara Federal, ao afirmar que nada sabia sobre os grampos telefônicos efetuados por seus comandados da Abin que participaram irregularmente da Satiagraha.

Agora, um agente da Abin chamado Marcio Seltz revelou, em depoimento à CPI, que Lacerda teve acesso, sim, ao conteúdo de parte daqueles grampos: ele recebeu das mãos de Protógenes um pen-drive com áudios dos investigados e o entregou pessoalmente a Lacerda.

O presidente da CPI, Marcelo Itagiba, defende o indiciamento do dito cujo por falso testemunho à comissão: "Não tenho dúvidas de que o Paulo Lacerda foi cabalmente desmentido".

A situação de Protógenes se complica ainda mais, face a esta nova evidência de que conspirava com o chefe antigo contra o chefe novo.

E, graças a esse festival de incompetência e de irregularidades flagradas, os advogados de Daniel Dantas têm agora todos os trunfos legais de que precisam para livrar a cara do seu (obviamente culpado) cliente.

Resumo da opereta: por mais que desnorteados de esquerda insistam em heroicizar esses policiais (esquecendo que a repressão é sempre antípoda da revolução), ambos não passam, na melhor das hipóteses, de trapalhões que cometeram erros crassos na luta interna que travavam contra outra facção planaltina.

Na pior das hipóteses, seriam lambaris a soldo de tubarões com interesses a defender na negociata da Brasil Telecom.

O certo é que, quanto mais distante a esquerda ficar da rima, melhor.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

ANOS DE CHUMBO: OS MORTOS CONVENIENTES... E OS OUTROS

Meu ex-colega de ECA/USP, Augusto Nunes, escreveu sobre um militante da ALN executado por seus companheiros em 1971: http://jbonline.terra.com.br/leiajb/noticias/2008/11/19/temadodia/coisas_da_politica_as_travessuras_do_jovem_combatente.html

Foi um erro terrível? Foi, claro. Nenhum verdadeiro revolucionário pode admitir que, mesmo durante uma luta de resistência à tirania, decisão tão extrema seja tomada enquanto perdurar a mínima dúvida sobre a culpa do acusado.

Quanto a justiçamentos em regime democrático, são simplesmente inconcebíveis e inaceitáveis. Ponto final.

Chocou-me, principalmente, saber que Márcio Leite de Toledo não teve o direito de se defender no tribunal revolucionário convocado para julgar o seu caso. Continuou cumprindo normalmente suas tarefas de militante, alheio ao que estava ocorrendo. Depois, foi emboscado e morto.

É óbvio que poderiam tê-lo convocado para o julgamento, dando-lhe a oportunidade de pronunciar-se sobre as suspeitas (não certezas) que havia contra ele. É como minha organização, a VPR, certamente procederia.

Mas, não se pode omitir, como Nunes faz, a situação catastrófica que a ALN vivia nos estertores da luta armada, tendo seus quadros dizimados dia a dia, já que a ditadura partira para o extermínio sistemático dos quadros da resistência.

A VPR não quis acreditar que o cabo Anselmo fosse espião e pagou um preço altíssimo por isto.

A ALN executou quem não era espião, mas parecia ser (acreditava-se que ele tivesse entregado à repressão Joaquim Câmara Ferreira, causando sua morte).

Trata-se de ocorrências deploráveis, mas recorrentes, nas lutas travadas em circunstâncias dramáticas, contra inimigos muito mais poderosos, como foram os casos da resistência ao nazi-fascismo na Europa e ao totalitarismo de direita no Brasil.

Márcio Leite de Toledo indubitavelmente merece as lágrimas por ele derramadas.

Mas também as merecem os revolucionários que sofreram torturas atrozes e depois foram abatidos como cães, em aparelhos clandestinos da repressão como a Casa da Morte de Petrópolis (RJ). Foi onde evaporaram meus queridos companheiros José Raimundo da Costa e Heleny Ferreira Telles Guariba.

E é repulsivo perceber que as tribunas da grande imprensa estão escancaradas para artigos como esse, mas blindadas contra os que evocam os episódios igualmente dramáticos dos companheiros que foram martirizados pelo regime militar.

A mídia anda burguesa como nunca. Recebendo, às vezes, uma pequena ajuda de esquerdistas que não tiveram coragem de pegar em armas quando esta era a única opção que restava, sob o festival de horrores do AI-5.

Continuam despeitados até hoje, por não terem ousado ir até onde fomos. E tudo fazem para desmerecer nossa luta.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

PAULO FRANCIS E O INFERNO PAMONHA

Comemorando o cinqüentenário do seu caderno de variedades, a Folha de S. Paulo está disponibilizando on-line os textos que escolheu como os mais importantes nele publicados.

Há tantos necrológios de artistas famosos que a seleção parece ter sido feita pelo Zé do Caixão.

O de John Lennon, assassinado por um tal de Mark Chapman (um zé-ninguém que tentava tornar-se alguém), leva a assinatura de Paulo Francis.

Há um parágrafo que, sozinho, vale mais do que todo o conteúdo de uma Folha dos dias atuais:

"A polícia chamada ao local apreendeu facilmente Chapman, (...) sorrindo, certo (e está certíssimo) que do anonimato se tornará, como Lennon, uma celebridade. Esse o motivo aparente do crime. O canibalismo de celebridades que é rotina neste país (e no Brasil e todo o mundo ocidental), graças a um sistema de comunicações que evita assuntos sérios, mas que fornece um 'circo' permanente, obsessivo, avassalador, sobre a vida dos bem-sucedidos e ricos, excitando sentimentos contraditórios da adoração bocó dos fãs, à frustração homicida que às vezes se manifesta à la Chapman".

Não sei se antes ou depois, Francis encontrou a definição ideal para essa canibalesca sociedade consumidora do circo permanente, obsessivo e avassalador fornecido pelo sistema de comunicações: inferno pamonha.

Hoje a Folha não critica mais o inferno pamonha, pois assumiu tranquilamente o papel que nele lhe cabe: como se direciona para um público um tantinho mais sofisticado, não evita os assuntos sérios, mas lhes dá tratamento circense, com indisfarçável pendor para as provocações pueris e sólida blindagem contra o pensamento verdadeiramente crítico.

Não há mais espaço para o contraditório, nem para a negação dos valores do capitalismo e do consumismo. A porta fechada com que tenho me chocado nas tentativas de restabelecer verdades históricas, o próprio Francis encontraria se tentasse publicar na Folha de hoje análises como a acima citada.

De resto, aproveito o gancho para disponibilizar neste blog o artigo que escrevi quando do 10º aniversário da morte de Paulo Francis - até como reação ao injusto esquecimento a que são relegados personagens marcantes no inferno bocó, com os videotas sendo compelidos a desconhecer as lições do passado e olvidar seu compromisso com o futuro, graças à imposição permanente, obsessiva e avassaladora do presente como a única realidade possível. (Marcuse explica...)

========= HOUVE UMA VEZ UM PAULO FRANCIS =========

Foi um tanto melancólico o material produzido pela imprensa produziu para marcar a passagem dos 10 anos da morte do mais influente jornalista brasileiro do final do século passado: o analista político e crítico de cultura Franz Paul Trannin da Matta Heilborn, mais conhecido como Paulo Francis, que morreu no dia 4 de fevereiro de 1997, de enfarte, aos 66 anos de idade.

Mesmo os veículos em que ele pontificava com uma página dominical, a Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, não lhe dedicaram espaço condizente com a importância a ele conferida enquanto vivo, nem foram capazes de criar textos com abrangência e espírito crítico à altura dos que o próprio Francis escrevia.

Ele, que sempre lamentou a derrubada de árvores para a fabricação do papel-jornal desperdiçado com tolices e bajulações, talvez franzisse a testa diante de alguns disparates, como a desproporcional relevância que o Estadão acabou dando à participação do Francis na nada lendária revista Diners, em detrimento, por exemplo, do fenômeno Pasquim. Talvez repetisse uma daquelas inesquecíveis frases ferinas, características do seu jeito carioca de ser. Por exemplo: "A sociedade de massas é, por definição, o fim da civilização. Bolsões de vida inteligente sobrevivem a duras penas."

Depois de estudar em colégios de jesuítas e beneditinos, Francis cursou por uns tempos a Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil, trocada por uma pós-graduação em Literatura Dramática na Universidade de Columbia (Nova York), que também não concluiu.

Chegou a ser ator e diretor teatral, mas acabou no nicho tradicional dos que são melhores para escrever sobre suas paixões artísticas do que para personificá-las: a crítica, a partir de 1959, no Diário Carioca. Paralelamente, colaborava com a revista Senhor (que mais tarde viria a editar) e escrevia sobre política no jornal Última Hora, de Samuel Wainer.

Relatou, mais tarde, um episódio pitoresco do seu noviciado. Entregou uma crítica teatral toda pomposa, repleta de termos pernósticos, ao seu editor. Ao recebê-la de volta, viu um grosso traço vermelho circundando a expressão “via de regra”. E o comentário: “Via de regra é a vagina”. [Para os jovens que desconhecem o linguajar de outrora, esclareço que “regras” era um eufemismo para menstruação. E, claro, a palavra usada para designar o órgão genital feminino foi outra, chula.]

Francis disse que essa foi a primeira e única lição aproveitável de jornalismo que recebeu: escrever com simplicidade e clareza, em vez de pavonear-se com exibições desnecessárias de erudição. Também comentou que tudo que há para se aprender de jornalismo, aprende-se em 15 dias numa redação. Daí sua avaliação de que o fundamental para o exercício dessa profissão é uma formação cultural sólida, humanística e universalizante. Quanto às técnicas, poderiam ser ensinadas em meros liceus de artes e ofícios. [Concordo plenamente: se a especialização é castradora em outras atividades, muito mais no jornalismo, que tem tudo a ver com história, sociologia, psicologia, antropologia, política, economia, literatura. Quem não consegue refletir sobre o mundo em que vive, melhor faria direcionando-se para administração de empresas.]

NA TRINCHEIRA DAS PALAVRAS – Embora não deixasse de perceber os erros e limitações das esquerdas brasileiras, tão distantes da grandeza histórica e intelectual do seu ídolo de então – Trotsky, o teórico da revolução permanente e mártir da oposição de esquerda ao stalinismo –, Francis considerava que a prioridade era combater as forças de direita. Foi o que fez no conturbado período da renúncia de Jânio Quadros, da tentativa de golpe para impedir a posse do vice-presidente eleito e do ziguezagueante governo de João Goulart.

Não desistiu depois do golpe militar. No Correio da Manhã, na Tribuna da Imprensa e na revista Realidade, continuou manifestando seu inconformismo com o país da ordem unida.

O lançamento do semanário O Pasquim, em junho de 1969, lhe deu projeção nacional. A Senhor e a Realidade já o haviam tornado conhecido em outros estados, mas num circulo restrito de intelectuais e pessoas sofisticadas. O Pasquim sensibilizou o público jovem, atingindo tiragens mirabolantes para um veículo alternativo. E o Francis era o guru da turma em todos os assuntos referentes à política nacional e internacional, bem como à visão de esquerda da cultura. Com seus conhecimentos vastíssimos, dominava qualquer discussão.

Leitor assíduo de um sem-número de publicações estrangeiras, tinha sempre algo novo a dizer sobre a intervenção estadunidense no Vietnã, um dos grandes temas da época; era também um crítico implacável da postura israelense de impor sua vontade pela força no Oriente Médio. Disponibilizava as informações que a grande imprensa, por ideologia, covardia ou incompetência, sonegava dos leitores.

E, sendo um dos críticos mais contundentes do reacionarismo dos EUA, também não poupava a URSS, que colocava praticamente no mesmo plano, como grande potência que priorizava sempre seus interesses (e não os da revolução). Isso só fazia aumentar o seu prestígio aos olhos de uma geração que se decepcionara terrivelmente com o esmagamento da Primavera de Praga.

Cansado de ser preso e censurado pela ditadura, mudou em 1971 para Nova York, de onde mandava seus textos para o próprio Pasquim, a Tribuna da Imprensa, a revista Status e a Folha de S. Paulo (à qual chegou pelas mãos do diretor de redação Cláudio Abramo, também de formação trotskista).

Continuava, basicamente, um homem de esquerda, mas travava polêmicas azedas com o que ele considerava “esquerdistas de salão”, como a feminista Irede Cardoso. [Ela sofreu um dos maiores massacres intelectuais a que já assisti.]

SOB OS HOLOFOTES GLOBAIS – Paulo Francis está entre os muitos intelectuais brasileiros que foram perdendo o pique à medida que a ditadura ia deixando de exibir suas garras.

A partir de seu posto de observação privilegiado, captou bem a tendência desestatizante do final do século passado, ajudando a impulsioná-la com seus escritos em O Estado de S. Paulo e suas participações no jornalismo da Rede Globo, bem como no programa de TV a cabo Manhattan Connection.

Mas, se estava certo quanto à falta de pujança da economia soviética e o parasitismo das estatais brasileiras, não percebeu que o mundo engendrado pela globalização viria a ser uma versão mais desumanizada ainda do capitalismo selvagem. Mesmo porque todos aqueles avanços científicos e tecnológicos que estavam ocorrendo simultaneamente (informática, biotecnologia, engenharia genética, novos materiais e processos) pareciam augurar um futuro bem melhor.

Acabou como um daqueles medalhões midiáticos que antes ridicularizava, aclamado mais por ter se tornado celebridade do sistema do que pela real qualidade do seu trabalho – como suas incursões pela literatura, em que a racionalidade e a mordacidade excessivas deixam tudo com um jeitão artificial, de tramas concebidas para provar teses e ridicularizar comportamentos e desafetos.

Morreu na hora certa, antes que o admirável mundo novo erguido sobre os escombros do muro de Berlim mostrasse suas feições mais monstruosas.

Ou, pelo contrário, talvez tenha perdido a chance de constatar que o fim do socialismo real não significava o fim da História, com o status quo se tornando tão opressivo que os homens estão sendo obrigados a buscar uma nova utopia.

O certo é que, independentemente de haver caído numa armadilha do destino em sua última fase, foi um intelectual articulado e consistente como dificilmente se vê nestes tristes trópicos, deixando o legado de uma atuação memorável na segunda metade dos anos 60 e ao longo de toda a década de 1970.

Talvez o melhor epitáfio para Paulo Francis seja outra de suas frases célebres: "Não há quem não cometa erros e grandes homens cometem grandes erros".

domingo, 23 de novembro de 2008

O QUE OS TOLOS POMPOSOS TÊM A DIZER AGORA?

Quando os discípulos do reacionário Ali Kamel acreditaram que o brilho de suas assinaturas seria suficiente para barrar as ações afirmativas em benefício dos negros, lancei o artigo As Cotas Raciais e os 113 Tolos Pomposos ( http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/search/label/cotas%20raciais ), no qual os aconselhei a baixarem a bola, adotando uma postura menos beligerante:

"...para os seres humanos justos e solidários, pouco importa se os negros estão em desvantagem por causa da escravidão passada ou por encontrarem-se hoje sob o fogo cruzado do capitalismo e de um racismo dissimulado, mas não menos real. Merecem, sim, que os pratos da balança sejam reequilibrados em seu favor.

"Quanto à eficácia das políticas compensatórias, ela só poderá ser realmente aferida depois de um período razoável de implementação. Por que, afinal, abortarmos essa tentativa no nascedouro?"

Também destaquei o fato de que os 113 tolos pomposos trombeteavam um problema menor e esqueciam o pior de todos, incidindo naquele velho erro de fixarem-se numa única árvore (no caso, as cotas raciais) e ignorarem a floresta inteira (a mercantilização do ensino) por trás dela:

"...em meio às terríveis distorções que o ensino superior vem sofrendo em função de seu atrelamento aos interesses capitalistas – começando por sua ênfase na especialização castradora que forja meros profissionais, desprezando a formação crítica e universalizante que engendra verdadeiros cidadãos –, eles magnificaram um problema menor, em detrimento, exatamente, 'dos desafios imensos' que dizem existir".

Foram observações decorrentes apenas da visão geral que eu tenho da sociedade e das injustiças que o homem comete contra o homem. Não sou particularmente interessado nesse assunto nem nunca me dediquei a esmiuçá-lo em profundidade. Longe de mim a empáfia de me pretender experto na totalidade dos temas em destaque no noticiário.

Mas, a julgar pelo que Élio Gaspari escreveu na sua coluna de hoje (24/11), parece que andei certo (ou erramos os dois, avaliem e decidam vocês mesmos):

"No dia da Consciência Negra, as bancadas do governo e da oposição na Câmara dos Deputados aprovaram o projeto de lei que estabelece cotas sociais e raciais (...) para o preenchimento de vagas nas universidades públicas federais. O projeto foi mandado ao Senado.

"...Nada melhor do que o encaminhamento dessa questão na rotina das instituições republicanas. Quando a Casa Grande falava sozinha e a Senzala não votava, o Brasil tornou-se o último país livre das Américas a abolir a escravatura.

"As políticas de ação afirmativa foram condenadas porque acordariam o gênio do racismo. Não acordaram. (...) As cotas criariam constrangimentos, levando alunos negros mal preparados para os cursos universitários. Não criaram.

"...Entre 2001 e 2008, 52 mil vagas foram oferecidas em 48 escolas que adotaram políticas de ações afirmativas em benefício de alunos da rede pública, negros e índios. Passaram-se sete anos e até hoje não apareceu um só episódio ou estudo relevante capaz de desqualificar essas políticas."

O certo é que continuarei me guiando pelos meus princípios, amadurecidos em mais de quatro décadas de luta pela liberdade e justiça social. O que disse naquele artigo de seis meses atrás, repito agora, com orgulho:

"Entre os partidários da competição insensível entre seres humanos movidos pela ganância e os cidadãos decentes que procuram minorar as mazelas do capitalismo, eu me alinharei sempre com estes últimos. Mas, sem ilusões: as injustiças só serão realmente erradicadas quando o bem comum prevalecer sobre os interesses individuais, numa nova forma de organização social."

sábado, 22 de novembro de 2008

NILMÁRIO EXPLICA

"O que está em causa não é a revisão da Lei de Anistia. Nunca ninguém propôs isso, até porque não teria votos no Congresso. Essa não é uma demanda da sociedade que atingiu o Congresso, é uma demanda da cidadania ativa e de círculos com alto poder moral que são altruístas, ligados aos direitos humanos e ao processo civilizatório." (Nilmário Miranda, ex-secretário especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, em entrevista ao Vermelho)

Aí está o xis da questão.

Não se trilha o caminho certo, a revogação da anistia imposta pelos tiranos em 1979 e a sua substituição por uma Lei de Anistia decidida em liberdade, porque o Executivo e o Legislativo relutam e a sociedade não os pressiona neste sentido.

Então se toma um atalho que levará fatalmente à impunidade dos mandantes (porque não praticaram pessoalmente as torturas) e também dos executantes (porque são idosos e acabarão morrendo antes que a letárgica Justiça brasileira emita sentenças definitivas).

Mas, os cidadãos no Poder, como Tarso Genro e Paulo Vannuchi, tudo fazem para manter a discussão confinada aos círculos do Poder.

Semeiam esperanças vãs e colhem humilhações terríveis, como as sucessivas tomadas de posição do Governo Lula em favor dos torturadores.

Não seria melhor mobilizarmos a sociedade, fora do Poder, para pressionar Executivo, Legislativo e Judiciário, no sentido de que se faça verdadeira Justiça?

Talvez nem assim houvesse tempo hábil para se punir os responsáveis pelas atrocidades cometidas pela ditadura de 1964/85.

Mas, pelo menos, legar-se-ia às futuras gerações um conjunto de princípios que nortearia as ações do Estado brasileiro, as preventivas e as posteriores, em caso de recaídas autoritárias.

Como o de que nada justifica, em hipótese nenhuma, a derrubada de um presidente legítimo, o fechamento do Congresso e a intimidação do Judiciário. Não existem contragolpes preventivos. O que existiu (e poderá existir de novo se não nos acautelarmos) é, unica e simplesmente, usurpação do poder.

E o de que, face à instauração do arbítrio, com o desrespeito à ordem constitucional e a anulação do estado do direito, todo cidadão tem o direito, e até o dever, de resistir à tirania, pelos meios que se fizerem necessários.

CALA-TE, BOCA!

A ministra da Casa Civil Dilma Roussef, advogando em causa própria, trombeteia que está na hora de uma mulher ser presidente da República no Brasil:

"Acho que a participação das mulheres no mundo está na hora. E aí está na hora de presidente, de presidente das empresas. E isso está sendo cada vez mais reconhecido. Foi-se a época em que a mulher era considerada cidadã de segunda qualidade, que só podia participar de algumas atividades."

Discordo. Não ESTÁ na hora, PASSOU da hora. A ideal teria sido quando Heloísa Helena, em nome dos ideais históricos do PT, enfrentou Lula, em 2006.

Não exageremos: com HH no poder, o Brasil não mudaria instantaneamente da água para o vinho.

Mas, tenho certeza, ela não assinaria documentos de idolatria deslumbrada do capitalismo, como Lula acaba de fazer na reunião do G-20.

Nem deixaria a Advocacia Geral de União emitir pareceres falaciosos para inocentar Brilhante Ustra.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

ME ENGANA QUE EU GOSTO

"Chegou o momento que nós queríamos: é a Justiça que vai decidir. Do ponto de vista do governo, o debate está terminado."

A frase é de Tarso Genro, referindo-se à punição dos responsáveis pelas atrocidades da ditadura de 1964/85.

Na condição de ministro da Justiça, ele convocou uma audiência pública em julho último para a discussão de como se poderiam punir os carrascos e seus mandantes.

Foi em seguida desautorizado pelo presidente Lula, que mandou entregar a batata quente ao Judiciário.

Passou os últimos meses esperneando, principalmente depois que a Advocacia Geral da União alinhou-se com os torturadores.

Finalmente, rendeu-se à evidência dos fatos e resolveu fazer o que Lula mandou.

Só que não teve a honestidade de admitir a derrota. Preferiu subestimar nossa inteligência, apresentando-a como triunfo.

No fundo, tratou-se de uma desculpa para não fazer o que um homem digno faz quando sua honra está em jogo: renuncia a cargos, riquezas e honrarias, mas mantém os princípios.

E a deglutição de batráquios ainda não terminou, pois vem aí um novo parecer da AGU, respondendo a questionamento da OAB.

Como a AGU não pode simplesmente responder que, "do ponto de vista do governo, o debate está terminado", alguma posição terá de tomar. Tudo leva a crer que reiterará sua convicção de que a anistia de 1979 colocou uma pedra sobre o assunto.

Contraditoriamente, Tarso dá o debate por encerrado mas não pára de emitir opiniões a respeito.

A última foi elogiando a avaliação de um especialista da ONU em assuntos relacionados à tortura, o austríaco Manfred Nowak, para quem as atrocidades cometidas pelos militares brasileiros constituem crime contra a humanidade e, por isso, não estão cobertos pela Lei de Anistia.

Tarso bateu palmas: "Essa é uma visão universal. Todos os juristas sérios do Direito internacional, que analisam isso com sobriedade, entendem desta forma".

Mas, torcedores devem ser os que não estão investidos de autoridade.

Dos ministros esperamos que corporifiquem suas convicções em atos.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

FICHA DA DITADURA É MUNIÇÃO PARA ATAQUE VIRTUAL A DILMA ROUSSEF

A internet foi infestada nesta semana por e-mails trazendo a reprodução de uma ficha policial dos tempos já longínquos em que a atual chefe da Casa Civil da Presidência da República militava na resistência à ditadura militar; Dilma Roussef era apontada como “terrorista/assaltante de bancos”.

Trata-se de um verdadeiro samba do crioulo doido. A repressão política conseguia ignorar até o nome do marido de Dilma, pois, no item estado civil, colocou “casada (Lobato?)”.

Davam-na como responsável por seis assaltos e o planejamento de um assassinato.

Imediatamente coloquei em circulação uma mensagem de repúdio ao uso de difamação e calúnia para prejudicar a provável candidatura de Dilma à Presidência da República (a qual, ressaltei, não tem minha simpatia nem terá meu voto, havendo, no entanto, “princípios a defendermos, mais importantes do que as pessoas”).

Esclareci que, das sete ações armadas imputadas a Dilma na tal ficha, eu não tinha elementos suficientes para me pronunciar sobre três, mas as outras quatro, seguramente, nada tinham a ver com ela, pois foram executadas pela Vanguarda Popular Revolucionária, então atuante apenas em São Paulo, ao longo de 1968 e em janeiro/1969.

A mineira Dilma, por sua vez, militava na Política Operária (Polop) do seu Estado, só se transferindo para o Rio de Janeiro após a promulgação do AI-5, em dezembro/1968. Foi quando aderiu à luta armada, nas fileiras do Comando de Libertação Nacional (Colina).

A VPR e o Colina eram, então, duas organizações totalmente distintas e que não mantinham nenhuma forma de parceria ou colaboração.

A aproximação entre ambas só se deu a partir de uma decisão que a VPR tomou, neste sentido, no seu congresso de abril/1969, realizado em Mongaguá (SP). Falo com total conhecimento de causa, pois fui um dos participantes.

Iniciaram-se, então, as conversações que desembocariam na fusão entre ambas, formando a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), em julho/1969.

E, por conta de Dilma Roussef haver se tornado militante da VAR-Palmares em meados de 69, os órgãos de segurança da ditadura confundiram bisonhamente seu passado com o da VPR.

O ENTULHO AUTORITÁRIO – Este é mais um exemplo da absoluta falta de confiabilidade das informações sobre as organizações e os militantes de esquerda constantes dos Inquéritos Policiais-Militares da ditadura – as quais, hoje, continuam sendo utilizadas na propaganda enganosa da extrema-direita, servindo para a elaboração dos textos panfletários disponibilizados nos seus sites e espalhados por correntes de e-mails.

O pior é que até historiadores bebem nessa fonte espúria, como ficou evidenciado quando Élio Gaspari andou lançando acusações contra inocentes, baseado tão-somente no que retirou dos nauseabundos IPMs.

Naquela ocasião, aproveitei para esclarecer o porquê da existência de tanta imprecisão nas versões da ditadura a nosso respeito:

“O que são os IPMs do regime militar, do ponto-de-vista jurídico? Nada. Uma ignomínia que pertence à lata de lixo da História, já que tudo neles contido tem origem viciada: foram informações arrancadas mediante torturas as mais brutais, que várias vezes causaram a morte dos supliciados, como no caso de Vladimir Herzog.

”E era muito comum os torturados simplesmente admitirem o que os torturadores pensavam ser verdade, ganhando, assim, uma pausa para respirar. Então, ao ler a versão dos algozes, eu sempre noto que, em cada ação da Resistência, são relacionados muito mais autores do que os necessários para tal operação.

”Para alguém que estava pendurado num pau-de-arara, recebendo choques insuportáveis, é desculpável que respondesse ‘sim’ quando os carrascos perguntavam se fulano ou sicrano participara de determinado assalto a banco. Fazíamos o humanamente possível para evitar a prisão e/ou morte dos companheiros, mas não estávamos nem aí para o enquadramento penal nos julgamentos de cartas marcadas da ditadura.

”O Projeto Orvil, o chamado ‘livro negro da repressão’ (síntese do acervo ensangüentado dos IPMs), cita-me como um dos três juízes no julgamento de um militante caído em desgraça com a VPR; no entanto, além de não haver jamais julgado companheiro nenhum, nem mesmo tomei conhecimento da convocação desse tribunal, se é que ele realmente existiu.

”Daí a impropriedade, a imoralidade e, até, a ilegalidade de se utilizar esse entulho autoritário como argumento contra quem quer que seja.” ( http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/2008/03/o-gaspari-de-2008-tambm-no-mais-o-de.html )

E é mesmo impróprio, imoral e ilegal que a antiga ficha policial de Dilma esteja sendo enviada a Deus e todo mundo, juntamente com comentários os mais depreciativos: “E essa peste é Ministra do Lula! E quer ser Presidente? Nós não merecemos! Acaba sendo indenizada pelos crimes cometidos”.

Está mais do que na hora do Ministério Público Federal coibir a prática de outros crimes virtuais além da pedofilia e do estelionato.

Difamação, calúnia e exortações golpistas não podem ser tranqüilamente relevadas, principalmente quando provêm de cidadãos que organizam-se para atuar sistematicamente junto à opinião pública, no melhor estilo de Goebbels.
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