domingo, 28 de agosto de 2016

FERREIRA GULLAR VIAJA NA MAIONESE. PRECISA TOMAR CUIDADO, OU VIRARÁ UM REINALDO AZEVEDO QUALQUER!

Gente desiludida é um bicho mais complicado ainda...
O poeta Ferreira Gullar, às vezes, é um observador sagaz da cena política. Mas, quando deita falação sobre assuntos sobre que ultrapassam em muito seus vãos conhecimentos, viaja (com fardão e tudo!) na maionese....

Um exemplo é esta conversa que ele diz ter mantido "com uma jovem universitária a propósito de um jornal que seu grupo editava na faculdade" e relembrou (mais uma vez!) em sua coluna dominical:
– O que esse jornal afirma –disse-lhe eu– dá a entender que o comunismo não acabou.
– E não acabou mesmo –respondeu ela. O que acabou não era o comunismo verdadeiro.
Ou seja, como ela necessitava acreditar no sonho marxista, tudo o que ocorreu, desde a revolução soviética de 1917 até hoje, era falso comunismo. Nem Lênin, nem Stalin, nem Mao Tsé-tung, nem Fidel Castro: nenhum deles era comunista de verdade. Só ela e seu pequeno grupo de universitários.
Por isso, digo que gente é bicho complicado. Claro que nem todo mundo chega ao exagero dessa jovem carioca, mas cada qual à sua maneira inventa uma realidade que só existe em sua mente.
Livros para principiantes há aos montes
Para encurtar o assunto:
  • Gullar ignora que, de acordo com Marx, comunismo seria a etapa final da edificação revolucionária, quando já não existiriam classes nem nações e os homens colaborariam fraternalmente para a felicidade geral, priorizando o bem comum. Então, comunistas de verdade só viriam a existir na sociedade comunista do futuro, não agora. Alguém que conhecesse o bê-a-bá do marxismo saberia que nem Lênin, nem Stalin, nem Mao, nem Fidel, nem o pequeno grupo de universitários a que pertencia a jovem carioca, nenhum deles seria considerado comunista de verdade pelo velho barbudo;
  • Gullar ignora que, de acordo com Marx, o socialismo (não o distante comunismo) chegaria com a superação do capitalismo, começando pelas nações economicamente mais desenvolvidas, que arrastariam as restantes na sua esteira, pois são as pujantes que determinam a direção para a qual se encaminham as demais. Então, longe de ser uma realidade que só existe na sua (da jovem carioca) cabeça, faz todo sentido falarmos que a URSS de Stalin, a China de Mao e a Cuba de Fidel não eram socialistas de verdade, pois nelas a revolução precisou cumprir uma etapa anterior (eram tão atrasadas que os revolucionários precisaram, antes, criar, ou tentar criar, a infra-estrutura básica de uma economia moderna), e tendo de fazê-lo sob ataques militares, bloqueios, embargos e ameaças terríveis dos gigantes capitalistas, acabaram por resvalar inexoravelmente para o totalitarismo.
Fiquemos por aqui, para não esticar demais o post (aos interessados num aprofundamento da questão, recomendo este texto). 

O certo é que o capitalismo teve a oportunidade de instalar-se plenamente e construir uma sociedade à sua imagem e semelhança: o inferno pamonha que está aí, na definição ferina do Paulo Francis.
Não se iguale aos anticomunistas profissionais, Gullar!

Até agora as tentativas de construção do socialismo se deram nos países que Marx considerava os mais inadequados para tanto, havendo um abismo entre o sonho marxista do advento do reino da liberdade, para além da necessidade e as toscas ditaduras que invocaram o nome do velho profeta em vão.

Recomendo ao Gullar que passe a opinar apenas sobre aquilo de que realmente entende. Se não, acabará se igualando a qualquer Reinaldo Azevedo da vida. 

[Aquele que já papagaiou centenas de vezes que os resistentes armados não queriam libertar o Brasil da ditadura, mas apenas instalar outra ditadura, como se tais intenções remotas tivessem qualquer importância no contexto das lutas contra o despotismo e o terrorismo de estado, nas quais a regra de ouro, segundo o entendimento civilizado, é que os cidadãos têm o direito e até o dever de pegarem em armas contra uma tirania, pouco importando qual o desenho de sociedade ideal que trazem nas mentes.]

PEDRO CARDOSO RECLAMA: MÍDIA FAZ POUCO CASO DO CIDADÃO COMUM.

Todo jornal e revista brasileiros deveriam criar espaço ou uma seção destinada exclusivamente para a opinião do denominado cidadão comum.

Alguns já possuem colunas, mas as matérias nelas veiculadas são restritas a pessoas renomadas, seja pelo destaque na sua área de atuação profissional, seja por terem seus rostos conhecidos na televisão.

Isso não diminui a importância dos seus posicionamentos, mas alimenta uma cadeia um tanto viciada: fica parecendo que só têm posições, opiniões e ideias relevantes as pessoas detentoras de notoriedade pública e que representam um segmento social já prevalecente sobre as demais camadas da sociedade. 

Essa falta de acesso também escancara o preconceito sobre pessoas pobres, por nunca se levar em conta suas capacidades interiores nem seus raciocínios, muito menos suas visões diversas sobre a humanidade. Enfim, tal camada da população fica impossibilitada de externar seus sentimentos e suas análises para que seus posicionamentos nas várias questões que envolvam o homem no mundo fiquem visíveis para todos.

Este pouco caso está presente na maioria dos meios de comunicação. Está presente no rádio, na televisão, nos blogs, nos sites e em qualquer espaço destinado às manifestações do cidadão.

Os espaços dos leitores só publicam comentários relativos às matérias publicadas nos veículos, forçando uma limitação de ideias e de espaço. Os maiores não passam de cinco metades de linhas, pois tais espaços têm como característica ficarem em cantos de páginas.

Claro que não se pode exigir que publiquem qualquer coisa, sem consistência, sem detalhamento, sem nexo ou sem uma análise do conteúdo por parte dos editores. Não é isso. Mas, após esta avaliação, muitos textos de pessoas simples darão uma contribuição muito grande. Ao menos as narrativas trariam análises mais realísticas, devido ao convívio diário, sobre como vivem, o que fazem e pensam milhões de pessoas.

Nesses tempos em que as pessoas passaram a jogar o jogo abertamente, em recente artigo numa revista, a excelente atriz Joana Fomm escancarou seu pedido de emprego. Devemos seguir-lhe o exemplo, reivindicando espaço em todos os meios de comunicação, reservado exclusivamente aos cidadãos comuns.
Os espaços destinados ao público externo não visam à divulgação de ideias inovadoras; apenas disfarçam uma pseudo abertura, pois só acolhem renomados ou famosos, servindo apenas para atrair público e aumentar o faturamento.

sábado, 27 de agosto de 2016

"SEM O ESTELIONATO ELEITORAL NÃO HAVERIA IMPEACHMENT", AVALIA MAGNOLI.

O recado do editor
Sei que soa antipático atirarmos na cara de alguém o conhecido "eu não disse?". Ofende a quem não escutou nossa advertência e também àqueles que gostam de tal pessoa e com os pertencentes ou simpatizantes da corrente à qual ela eventualmente pertença. Paciência. Desta vez  vou ser menos diplomático e mais verdadeiro. 

Em sua coluna semanal, Demétrio Magnoli, acertadamente, apontou o estelionato eleitoral da campanha de reeleição de Dilma como a principal causa de sua derrocada atual, pois desmascarou-a, aos olhos do povo, como alguém capaz até de mentir, prometer o que não pretendia cumprir e fazer os eleitores de otários para atingir seus fins.

Quero, então, lembrar que fui o primeiro a alertar os petistas de que não deveriam satanizar uma adversária do nosso campo, tratando-a como inimiga.
A verdade e a moral revolucionária atropeladas: Goebbels não faria melhor, nem diferente.  

Foi neste artigo de 15/08/2014, antes mesmo de os Goebbels tupiniquins partirem para o jogo pesado mais imundo de uma campanha eleitoral brasileira em todos os tempos, começando por trombetearem que uma simpatizante de Marina seria banqueira do Itaú (daí derivando a falsidade de que a tal Neca Setúbal lhe trazia o apoio daquele grupo financeiro), quando sabiam muito bem que ela jamais ocupara cargo nenhum no banco, não passando de uma herdeira ociosa à cata de belas cruzadas para preencher sua vida – tal como fizera em 2012, ao ajudar a eleger o petista Fernando Haddad para a prefeitura de São Paulo.

E, quanto mais o PT investia na desqualificação falaciosa, mais eu a desmascarava e denunciava. Não me escutaram e o resultado está aí. Nem sempre quem concorda com tudo, inclusive com práticas repulsivas como estas, são os que prestam o melhor serviço. (Celso Lungaretti)

Por Demétrio Magnoli
TORÇO PARA QUE DILMA EXAMINE 
AS CAUSAS DE SUA QUEDA
Presidenta Dilma Rousseff, lembro-me, como todos, de sua promessa de abril: "Se eu perder, estou fora do baralho". A derrota, sabemos, já aconteceu; o Senado apenas a oficializará. Torço para que, fora do baralho, examine as causas de sua queda.

Não culpe os outros (golpe das elites) ou as circunstâncias (crise internacional). Investigue seus erros, sobretudo um, que interessa ao futuro da convivência democrática no Brasil. Refiro-me ao sectarismo. Mais que às pedaladas fiscais ou ao escândalo na Petrobras, sua derrota final deve-se ao sectarismo.

O sectário, no sentido que aqui interessa, é o militante convicto, intolerante, de uma doutrina faccional. No fracasso de sua política econômica encontram-se as raízes do impeachment. Não lhe faltaram alertas: diversos economistas sérios avisaram que o voluntarismo estatal conduziria à inflação, ao déficit, à dívida, à erosão da produtividade e, finalmente, à depressão.


Sua resposta sistemática, e a dos seus, foi rotulá-los como agentes de interesses antipopulares: serviçais das altas finanças ou do imperialismo. Não teria sido apropriado enxergar aqueles economistas liberais como brasileiros tão bem-intencionados quanto os economistas desenvolvimentistas que a cercavam? Mas o sectário concentra-se nos motivos supostos, não nas ideias, dos que o criticam.

O sectário acalenta certezas fulgurantes, que acabam por cegá-lo: a divergência aparece a seus olhos como traição. Daí, num passo imperceptível, ele cruza o limite que separa o debate legítimo da difamação. Campanhas eleitorais são embates amargos, mas devem curvar-se a certas regras implícitas.

Recordo-lhe a peça publicitária de sua campanha que fazia de Marina Silva uma conspiradora associada aos banqueiros numa trama destinada a roubar a comida da mesa dos pobres. O castigo veio a galope, em sua peregrinação até o Bradesco para convidar Joaquim Levy a ocupar o cargo de czar econômico do governo. Sem o estelionato eleitoral, um espetáculo lancinante de desonestidade, não haveria impeachment.

Meu partido, certo ou errado! O sectário presta lealdade à sua seita, mesmo à custa da deslealdade com as leis e com o conjunto dos cidadãos. Sua tentativa de transferir para o STF as investigações judiciais sobre Lula, por meio da nomeação do investigado à Casa Civil, definiu seu destino. O mandato terminou ali, quando os brasileiros concluíram que, transformando o Palácio em santuário de um poderoso político às voltas com um juiz, a chefe de Estado rebaixava-se à condição de chefe de facção.
Na saga da resistência ao impeachment, difundiu-se a célebre fotografia da jovem Dilma, em novembro de 1970, perante os juízes de um tribunal militar. A estratégia de marketing, que empolgou seus fiéis, investe numa reiteração (o impeachment como reprodução da perseguição política da ditadura) e numa permanência (a Dilma do presente como extensão da Dilma do passado).

A reiteração é farsesca, pois borra a cisão entre ditadura e democracia. A permanência é verdadeira, num duplo sentido: se a coragem de antes não desapareceu, perenizou-se também a chama sectária inerente aos militantes da luta armada. No fim, a tal fotografia ilumina retrospectivamente sua presidência por um ângulo imprevisto, invisível aos olhos dos marqueteiros.

O sectário atribui significados transcendentais a seus caprichos – e, se puder, impõe obediência geral a eles. A circular que obrigava seus subordinados a usar a palavra "presidenta" jamais serviu à causa dos direitos das mulheres, mas criou uma fronteira de linguagem entre a militância petista e os demais cidadãos.

Nunca a tratei assim, enquanto sua assinatura tinha o peso do poder. Hoje, faço a concessão. Presidenta Dilma, fora do baralho, esqueça Getúlio Vargas e Jango: pense nos seus erros. 

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

DALTON ROSADO, SOBRE O IMPEACHMENT DE DILMA: "O PT JOGOU O JOGO DA CONCILIAÇÃO E PERDEU".

Por Dalton Rosado
Até agora vinha me mantendo à distância das démarches sobre o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Não por comodidade ou covardia de análise diante dos fatos políticos concretos, mas por achar que tal discussão se dá entre partes que defendem interesses que são, lato sensu, estranhos e contrários ao interesse do povo. 

É claro que, stricto sensu, tal discussão sempre reflete algum interesse mais imediato da população, uma vez que esta ou aquela decisão político-administrativa implica resultados práticos dentro da salve-se-quem puder da crise do capitalismo de fim-de-feira mundial, e que está também presente, e com força até maior, aqui no Brasil, país incluído historicamente na periferia dos ricos do mundo.

Sempre preferi fazer formulações teóricas baseadas em números concretos que ajudem à melhor compreensão da essência do que está em curso, e que nos ajudem a fugir da discussão politica estéril sobre quais medidas devam ser tomadas para remediar, por dentro, o irremediável (a crise econômica, a crise política, o combate à corrupção, quais as partes que devem ser cobertas pelo lençol curto das finanças públicas, as medidas eficazes para a retomada do desenvolvimento econômico, etc.). 

Foi em função de tal entendimento que me mantive equidistante desta discussão estéril, sem tomar partido na crise no topo entre iguais do gênero da política, embora os ditos cujos (PT, PSOL, Rede, PSTU, PSB, PDT, PMDB, PSDB, PSC e mais uma dezena) tenham variações conceituais de como conduzir o capitalismo, seja ele estatal ou liberal burguês.

A postura dos emancipacionistas revolucionários, antes de entrarem em discussão tão inconsequente, é rejeitar a política e as instituições que dão suporte ao capitalismo; daí eu ter-me mantido equidistante até agora.  
1987: Maria Luíza em greve de fome contra boicote da União.

Mas, decidi que não devo deixar de intervir neste tema, até porque tal intervenção pode contribuir para um raciocínio fora dos limites estreitos nos quais a política encarcera o pensar; talvez eu contribua para que o leitor venha a fazer uma reflexão alternativa sobre isso tudo.        

Como já foi relatei neste artigo, ajudei a fundar o PT na capital cearense e atuei na campanha eleitoral como um dos coordenadores de sua primeira vitória para um cargo executivo importante: a prefeitura de Fortaleza. 

Posteriormente, fui secretário de Finanças da Administração Popular e candidato à sucessão da prefeita Maria Luíza. Acabamos expulsos pela direção nacional e local do PT, por não seguirmos a política de conciliação com as estruturas do poder político e econômico existentes. 

Minha candidatura foi impedida, obrigando-me a disputar o pleito municipal por outro partido. Felizmente, perdemos; adiante, compreenderíamos que o combate ao capitalismo não pode ser travado por meio de suas instituições políticas.      

Pelo exposto, me posiciono. Mas, primeiramente, quero ressaltar dois aspectos fundamentais: 
– considero um equívoco conceitual que quem se proponha a combater o capitalismo queira participar de suas instituições legislativas e executivas. Principalmente na instância executiva, que tem a incumbência constitucional de manutenção do vigor financeiro-administrativo do Estado (que depende das atividades econômicas para sobreviver, pois é daí que retira o seu sustento, por meio dos impostos) como forma de funcionar como instrumento de regulamentação, indução financeira (controle monetário) e infra-estrutural (estradas, portos, aeroportos, etc.) do desenvolvimento econômico capitalista, e manutenção da ordem constitucional capitalista manu militari. O Estado moderno é filho do capital, e participar dele é uma contradição para quem diz combater o capital. 
– o sistema produtor de mercadorias sabe muito bem que os dirigentes políticos do Estado, ainda que se sintam anticapitalistas, quando enquadrados na camisa-de-força política, terminam sempre por se submeterem à lógica reificada de reprodução do capital, que lhes dá ordens ditatoriais. Afinal, eles não podem se voltar substancialmente contra aquilo de que fazem parte;    
O governo da presidenta Dilma Rousseff está sendo deposto pelos seguintes fatores:
– por conta da crise financeira que se abateu sobre o mais recente milagre brasileiro, quando se achava ilusoriamente que o Brasil era um oásis de sucesso num mundo em crise desde o estouro das bolhas financeiras de 2008/9 (que não era nenhuma marolinha). Evidenciou-se a incompatibilidade da continuidade do sistema produtor de mercadoria (leia-se capitalismo) sob a égide da terceira revolução industrial da microeletrônica;
– porque o crédito fácil obtido graças às taxas de juros altas que atraiu o capital financeiro internacional criou a falsa sensação de que seríamos exceção num mundo em crise e tal compreensão minou ou nossos fundamentos econômicos. Agora que a crise bateu à nossa porta, estamos encarando a realidade mundial e com sérias desvantagens macroeconômicas;  
– porque a conciliação de classes promovida pelos governos Lula e Dilma, numa tentativa de agradar ao grande empresariado industrial e financeiro e seus áulicos políticos, ao mesmo tempo em que admitia poder promover a melhora sustentável das condições de emprego e renda tanto da chamada classe média como dos trabalhadores de baixa renda, evidenciou-se insustentável;  
– porque se curvou ao alto custo do processo político de manutenção no poder político praticando e deixando praticar a corrupção como norma de conduta político-eleitoral. Acreditou que poderia enganar o diabo e com ele sentar se à mesa sem que isto representasse nenhuma contradição inconciliável; 
– Dilma Rousseff não me parece ter o perfil do político corrupto, pessoalmente, mas se encantou com a inesperada chegada ao posto mais alto do comando da nação, galgando sucessivamente altos cargos executivos no governo (e, neste sentido, usou e foi usada). A sua relação com o mundo político era impossível para alguém que tinha um perfil técnico e uma personalidade impaciente e inflexível. O canto de sereia do poder político é encantador para quem perdeu a têmpera revolucionaria;  
– a crise econômica é sempre o estopim que faz explodir a insatisfação popular, que tudo perdoa quando há prosperidade, mas que a todos condena quando lhe falta pão e lhe são oferecidos brioches à moda de Maria Antonieta (principalmente quando há o apoio do segmento formador de opinião pública, os 15% da chamada classe média, que já se vê parcialmente desempregada);
Os chamados crimes de responsabilidade, que, caso fosse aplicada com rigor a lei de responsabilidades fiscais, teriam o condão de defenestrar todos os governantes, somente são assim invocados quando se quer condenar e existe respaldo político que o alicerce. O que agora o alicerça são poderes fáticos (expressão mais utilizada na Argentina, à qual o jornalista Clóvis Rossi recorreu em artigo recente) instrumentalizados e usados pela sempre oportunista e subserviente elite política brasileira (da qual o Presidente Temerário é membro destacado), e que se apoia na baixa popularidade de Dilma Rousseff para depô-la do poder. Os políticos com seus argumentos são capazes de convencer aos ourives que uma pedra de sal é ouro, e tudo fica mais fácil quando esses mesmos ourives precisam obter o sal. 

O PT jogou o jogo da conciliação e perdeu, porque confiou na estabilidade do capitalismo e acreditou que poderia manter o poder acendendo uma vela para Deus e outra para o diabo. 

Ademais, a cúpula dirigente do PT (que tem histórico de abandonar seus companheiros quando caídos em desgraça, tal qual o fazem os políticos tradicionais) emite sinais significados de que, no que dela depender, o barco da Dilma Rousseff está entregue à própria sorte. O que mais podemos depreender da decisão de desautorizá-la na questão do plebiscito? Dilma para eles, já é página virada.

Quando será que vai existir a mesma força dos poderes fáticos para o povo superar o capitalismo?

LINDBERGH FARIAS (46 ANOS) FRUSTRA A PLATÉIA DO GRAND CIRCO DO SENADO: NÃO SAI NO TAPA COM O RONALDO CAIADO (66)!

Estou postando abaixo três vídeos de canções que competiram nos grandes festivais de MPB da década de 1960, não obtiveram maior destaque e hoje estão praticamente esquecidas. 

Mesmo assim têm lá seu valor e merecem ser ouvidas, daí eu recomendar aos leitores que aproveitem esta oportunidade para as conhecerem.

Outro motivo: ver se, à guisa de exemplo, elas inspiram o senador Lindbergh Farias a adotar uma postura menos pusilânime quando desafiado pelo antigo chefão dos jagunços da UDR.

Se um Caiado desses nos convida a ir lá fora para acertar as diferenças no tapa, temos mais é de agarrar rapidinho a oportunidade, antes que ele mude de ideia. Queixar-se à Justiça ou à comissão de ética é coisa de mariquinhas  choramingando 'fessôra, o Joãozinho me beliscou...

A coisa fica mais vexatória ainda quando se trata de um homem com 46 anos que vacila diante de um idoso de 66. Tenha dó!!!
.


UMA CRÔNICA MUY CALIENTE DE APOLLO NATALI: "A BALADA DOS VAGA-LUMES".

É a fêmea que caça o macho, como se vê na natureza e na espécie humana. É o macho que mais se enfeita, assume ares de fortão, valentão, se arrepia, se espicha todo para ser escolhido pela fêmea. O pavão vira um pirado como o personagem zé bonitinho da TV para atrair a pavoa. Algumas aves machos se transformam em levíssimos dançarinos russos para fazerem pose para as fêmeas. 

Macacos se pegam no tapa na disputa pela macaca. O que não brigam os machos na África, por uma fêmea! O gato, para ganhar a gata, solta a madrugada inteira aquele conhecido gemido, sofrido, prolongado, rouco, choroso. Eu te queeeeeeero, gatinha! 

Vi na TV certa vez dois passarinhos num galho, cada um procurando saltar mais alto, para agradar à passarinha, uma bela rapariga noutro galho, bem vestidinha, em compasso de espera, só olhando. Para cima, para baixo, para cima, para baixo, me escolheme escolhe! Meia hora pulando, os dois ficaram com a língua de fora, por assim dizer. Ela olhou para eles, cansados, balançou o bico em desaprovação e foi embora, parecendo dizer: são dois idiotas.

Exemplo de ciúmes entre os bichos presenciei quando eu morava na Mooca, em São Paulo. Tínhamos um galinheiro. A galinha saiu de fininho e foi para a rua, saltitando com seu provocante andar feminino. Nem chegou a aprontar. Voltou apanhando do galo. Ele tinha topetão, era grandão, valentão. Como elas gostam. 
Entre os machos humanos, ai daquele que não é o tipo que todas as moças gostam. Pobre, honesto, sem topete, está morto. As disputas do macho humano pela fêmea humana escrevem a própria história do mundo. 

Homem e mulher são dois animais que vivem se cheirando. Coitado de quem não entende as mulheres. Eu não entendo as mulheres. No máximo me espicho para entender apenas um ou outro mistério da vida.

Escrevo aqui um tipo especial de choradeira dos humanos quando são rejeitados pela fêmea. É uma música bem antiga, da dupla Benedito Lacerda/Darci de Oliveira.  O pobre do macho não escolhido chora assim:.
"Soltei meu primeiro pombo-correio,
com uma carta para a mulher
que me abandonou.
Soltei o segundo, o terceiro,
o meu pombal terminou.
Ela não veio e nem o pombo voltou.
Depois que aquela mulher
me abandonou,
não sei por quê,
minha vida desandou.
O canário morreu,
a roseira murchou,
o papagaio emudeceu
e o cano d'água furou.
E até o Sol, por pirraça,
invadiu a vidraça
e o retrato dela desbotou"
.
.
Derramar lágrimas mesmo é com estes outros chorões aqui, os compositores Waldir Rocha e Nelson Wederkind:
"Tu me mandaste embora, eu irei,
mas comigo também levarei
o orgulho de não mais voltar.
Mesmo que a vida se torne cruel,
se transforme numa taça de fel,
este trapo tu não mais verás.
Eu seguirei com o meu dissabor,
com a alma partida de dor,
procurando esquecer.
Deus sabe bem quem errou de nós dois
e dará o castigo depois,
o castigo a quem merecer"


Mas com os vaga-lumes do sudeste da Ásia não tem choro. A lua de mel deles é um evento. Nenhum é rejeitado. Vão direto ao assunto. Com a corda toda para ganhar suas mulheres – as vaga-lumas –, eles viram mágicos. 

Encenam um espetáculo que não se vê nem nos teatros e grandiosas casas de diversões de Nova York. Grupos de milhões e milhões de vaga-lumes casadoiros, dotados de uma montanha de bagagem erótica, mantêm-se apinhados em volta das árvores nas florestas e nas cidades; de repente, sem nenhum maestro a comandar, começam a acender e apagar suas luzes ao mesmo tempo, numa sincronia perfeita. 

O enxame global parece uma Lua cheia, vira uma luz pulsante, tremeluzente, visível a quilômetros de distância. Os vaga-lumes se iluminam coletivamente para avisar as fêmeas que a sua beleza e sua macheza estão à disposição. Elas entendem. As piscadelas das suas luzes libidinosas em forma de um gigantesco letreiro luminoso avisam onde vai ser realizada a balada. As vaga-lumas, ofuscadas pelo chamamento, abandonam pai e mãe e vão em desabalada carreira. Hora de ir para a cama para o ato mais gostoso do mundo.

Todos os vaga-lumes baladeiros pensam da seguinte maneira, se é que vaga-lume pensa: assim que meu vizinho ligar sua luz, vou também ligar a minha. Vamos atrair  mais fêmeas com nosso espetáculo de luzes extasiantes e assim nos reproduziremos mais do que os vaga-lumes comuns. Deixaremos muito mais descendentes que os outros. Para montar nosso painel eletrônico e atrair as fêmeas e com elas todas fazermos mais e mais amor, ficamos encostadinhos uns nos outros, nos conectando em rede, como os computadores na internet.
Isso foi descoberto pelos humanos em meio a estudos de um novo ramo da ciência humana, a nova ciência das redes de comunicação. 

Esta historinha foi por mim copiada e romanceada de reportagem do jornalista Alexandre Versignassi, no número de agosto de 2013 da revista Super Interessante

O resto, do começo ao fim, é invenção minha, o que inclusive pode também ser considerada choradeira de minha parte pela ingrata que me rejeitou. É invenção minha também o que acrescento com este meu desfecho. 

Desde o comecinho da criação do mundo, dois séculos antes de Benjamin Franklin ter descoberto a eletricidade e de Thomas Edson acender a primeira lâmpada ao custo de mais de cinco mil sofridas experiências, os vaga-lumes já acendiam sua luz. Foram os pioneiros da luminosidade, embora com finalidades escusas. Isto Alexandre Versignassi esqueceu de dizer. 

Não esqueceu de segredar que os vaga-lumes baladeiros são os mais bem dotados. Cada um tem duas luzes enormes na tomada elétrica. Resistir, quem há de? – se rendem as vaga-lumas. Eu também quero ser vaga-lume. (por Apollo Natali)

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

PT RETIRA A ESCADA E DEIXA DILMA PENDURADA NA BROCHA

O tiro de misericórdia no mandato de Dilma Rousseff acaba de ser dado pela executiva do PT, ao rechaçar por 14 votos a 2 sua proposta de realização de um plebiscito, visando à antecipação da próxima eleição presidencial.

Finalmente deve ter-lhe caído a ficha de que não existe um número suficiente de senadores dispostos a devolver-lhe as rédeas do governo. Então, tentando escapar da vergonha de ser impichada, Dilma agora se propõe, demagogicamente, a convocar um plebiscito que encurtaria seu mandato.

Como disse em 1958 o genial Garrincha, quando o técnico da Seleção Brasileira, Vicente Feola, desenhava no quadro-negro, nos mínimos detalhes, as jogadas que o nosso escrete deveria fazer para marcar gols e mais gols: "Mas, os adversários já concordaram com tudo isso?", indagou o Mané da perna torta. Pois, se eles não fizessem o que Feola esperava, do que serviriam todos aqueles rabiscos?

Da mesma força, sem a anuência do Judiciário e dos próprios adversários do PT, não existe possibilidade nenhuma de viabilizar tal plebiscito. Então, está certo o partido ao recusar-se a endossar o que não passa de uma proposta extemporânea e oportunística.

Chance de dar certo havia no mês de março, quando defendi pela primeira vez tal ideia. Mas, como eu queria honestamente evitar um governo Temer, não pugnando em causa própria como a afastada, acrescentei um ingrediente indigesto para ela, mas fundamental para o projeto vingar: a renúncia de Dilma. Caso contrário, as forças contrárias suspeitariam de tudo não passar de um pulo do gato para salvar o pescoço da dita cuja, e nada feito!

Enquanto havia uma (pequena) possibilidade de, com desprendimento pessoal, ela propiciar o desencadeamento de uma nova campanha por diretas-já, Dilma não admitiu de maneira nenhuma encurtar voluntariamente seu mandato. 

Azar dela, que poderia terminá-lo com um mínimo de dignidade, mas, como de hábito, tomou a decisão errada. 

Azar nosso, que vemos findar a fase dos governos petistas com perda total para a esquerda. Levaremos muito tempo para recuperar a credibilidade dilapidada nos últimos anos.
  
Eis o que sugeri no dia 11/03/2016 e voltei a propor em vários artigos seguintes, sempre clamando no deserto:.
Ele deu a vida para reagir ao inimigo. Ela, nem o mandato. 
"Como sou um homem generoso, vou dar à presidente uma dica de como ela ainda pode poupar-se de transpor a porta do fundo como cão escorraçado, mas, pelo contrário, sair atirando, não só para deixar uma última marca no bastião inimigo, como também, e principalmente, para prestar um serviço inestimável ao povo brasileiro, comparável ao suicídio e carta com que Vargas evitou que seu governo fosse herdado pelos ratos da época:

Dilma, convoque a imprensa para um pronunciamento decisivo e comunique ao País e ao mundo que você está disposta a abrir mão do seu mandato para o bem da Nação, desde que o Michel Temer faça o mesmo.

Argumente que a crise política, econômica e moral é tão profunda que os governantes atuais se deslegitimaram e é hora do poder voltar à fonte do qual emana, o povo.

Que o Brasil precisa novamente ser passado a limpo.

Que os brasileiros devem escolher livremente aquele(a) a quem querem delegar a difícil missão de tirá-los do fundo do poço, ao invés de serem obrigados a engolir um político que, por ação ou omissão, é co-responsável por tudo que tem sido feito de errado e desastroso pelo Governo federal desde 2011.
Ficaremos querendo: faltou desprendimento pessoal!

Exorte publicamente o Michel Temer a agir com o mesmo desapego pelo poder e a mesma disposição de colocar os interesses do povo sofrido acima dos cálculos mesquinhos da política e até das frustrações pessoais, por piores que elas sejam. Bote-o numa saia justa: ele merece!

Parafraseando uma afirmação que tanto nos empolgou lá no comecinho da nossa trajetória, a esta altura do campeonato você não tem mais nada a perder, Dilma, e um passado glorioso a honrar".

#VaiTerGolpe

Autor: Clóvis Rossi.
Lembra-se do não vai ter golpe, o grito com o qual se esgoelavam os adeptos do governo Dilma Rousseff? Ao que tudo indica, vai ter, sim.

O grito era um compreensível apelo à mobilização dos seus seguidores, mas, ao mesmo tempo, evidenciava uma desconexão da realidade.

Até eu, que não me orgulho da minha sapiência, escrevia, em março, bem antes do primeiro momento do impeachment na Câmara, que "o que os argentinos adoram chamar de poderes fácticos abandonaram Dilma Rousseff (ou nunca a adotaram)".

A queda final era, portanto, apenas uma questão de tempo.

Ficar gritando golpe não mudou nada. Até porque era uma narrativa frouxa. Como disse, faz pouco, o prefeito Fernando Haddad, um petista insuspeito de ser um traidor, "golpe é uma palavra um pouco dura, que lembra a ditadura militar. O uso da palavra golpe lembra armas e tanques na rua".
Golpe de verdade é assim

Lembro outros ingredientes inexistentes no golpe jabuticaba que se está dando no Brasil: não há um só preso político, não houve nem uma única e miserável linha censurada em qualquer tipo de mídia, inclusive na mídia chapa branca, ninguém teve que partir para o exílio, ninguém perdeu o emprego no governo federal, exceto os ocupantes do primeiro escalão.

Aliás, um deles, Gilberto Kassab, conseguiu a proeza inédita no planeta de ser ministro com os golpeados e ministro com os golpistas – demonstração de quão jabuticaba está sendo o golpe à brasileira.

Deu-se até o fato de que uma das mais estridentes adeptas dos golpeados ganhou uma coluna na página nobre de um jornal tido como golpista. Acho até bom que seja assim, mas que é jabuticaba (que só dá no Brasil), lá isso é.

Houve acadêmicos que incitaram as massas a tomarem as ruas para depor o novo governo. Pena que as massas faltaram ao encontro com a História, ocupadas demais que estão em sobreviver penosamente na terra arrasada legada pelos golpeados.
"a segunda maior queda da renda per capita em 116 anos"

Só faltou sugerir a ocupação do Palácio de Inverno de Campos de Jordão, como se fosse o de São Petersburgo, para reencenar a Gloriosa Revolução de Outubro. Aliás, faz tempo que São Petersburgo voltou a se chamar São Petersburgo, em vez de Leningrado, evidência no detalhe de que revoluções caíram de moda.

Houve também acadêmicos que juraram que os golpistas promoverão o maior retrocesso social da história. Pode até vir a ser verdade, mas um mínimo de honestidade intelectual obrigaria a dizer que os golpeados provocaram a segunda maior queda da renda per capita em 116 anos, no período 2014-2016.

Se isso não é retrocesso social, não sei o que seria.

Para reforçar o caráter jabuticabalesco do golpe, deu-se que um de seus ourives, um certo Eduardo Cunha, em vez de ser carregado nos ombros, caminha inexoravelmente para o cadafalso – o que, de resto, é uma boa notícia.

Da mesma forma, parte da elite empresarial, geralmente força-motriz em golpes, em vez de sair da cadeia nela continua, como praticantes de criminosa promiscuidade com golpistas e golpeados. É o Brasil..

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