sábado, 23 de setembro de 2017

HÁ MAIS COISAS ENTRE O 'FICA, TEMER!' E O 'FORA, TEMER!' DO QUE PODE IMAGINAR VOSSA VÃ FILOSOFIA

Entre os cidadãos de classe média com quem eu alguns bons amigos trocamos ideias por aí, há muitos que rezam pela cartilha do Fora, Temer!, mas existem também os que fazem uma análise pragmática, concluindo que a hora de derrubar o Amigo da Onça passou e um impeachment tardio causaria novos problemas ao invés de resolver os existentes.

Trapalhadas, tendenciosidades e golpismo incrustados nas denúncias do Rodrigo Janot também são percebidos por não poucos. Ao despir a toga de procurador e vestir o disfarce de provocador, ele prejudicou sobremaneira a bandeira da luta contra a corrupção, que, vale lembrar, só passou a empunhar bem depois que policiais federais e procuradores a ergueram. Os devotos da Lava-Jato deveriam é encará-lo como um vilão oportunista...

Enfim, a adesão estridente ao Fora, Temer! nas redes sociais não significa necessariamente que a classe média em peso a acompanhe; nem que os dela distanciados sejam todos antipetistas furibundos ou reacionários com carteirinha assinada. Trata-se de simplificações que cumprem uma finalidade utilitária na conservação/atração de prosélitos, mas não ajudam a entendermos o que está se passando.

André Singer, que foi porta-voz do Lula quando este era presidente, preferiu atribuir as sete vidas do Temer à ignorância dos pobretões, fazendo lembrar as discussões pós-golpe de 1964, sobre se a culpa do desastre era ou não do povo. Sua análise não deixa de ser esclarecedora, apesar desse tanto de preconceito que contém:
"A narrativa [de que Temer comanda um quadrilhão peemedebista], contudo, parece não comover a maioria dos parlamentares. Tal como na primeira ocasião, o presidente da República caminha impávido para a absolvição no plenário da Casa. 
Em 2 de agosto passado, obteve facilmente os sufrágios suficientes para bloquear as acusações oriundas do gravador-geral da República. Não apenas conseguiu o mínimo de 171 deputados contra a continuidade do processo como colocou 263 parlamentares a seu favor (contra 227). Mostrou, portanto, que dispõe de maioria (simples, é verdade) para prosseguir o desmonte do Estado.
De que maneira explicar tantos detentores de representação pública dispostos a arriscar a reeleição para sustentar um governo com 5% de popularidade? Um especialista conhecedor da política real me escreve dizendo que não arriscam nada. Nos rincões do país, o eleitor não sabe quem é o candidato a deputado no qual votará em 2018. Receberá do prefeito um número, digitará na urna, apertará o confirma e acabou. Está reeleito mais um dos que sustentou o quadrilhão.
Acrescento que os rincões são mais importantes na política do Brasil do que se costuma pensar. De acordo com o IBGE, 43% da população vive espalhada em 5.260 municípios com até 100 mil habitantes. Em particular, 16% se encontra em quase 4.000 municípios de apenas 20 mil moradores. 
E, além das características próprias do território continental, o cientista político Jairo Nicolau (Representantes de quem?, 2017), assinala que 'a história das regras de distribuição de cadeiras no Brasil é marcada, desde a Constituição de 1891, com normas que favoreceram os Estados menos populosos'. 
Talvez não seja a missa inteira, mas ajuda a entender parte do mistério da salvação".
Roraima, com 522,6 mil habitantes, tem 8 deputados federais. São Paulo, com 45,1 milhões, só 70.
Finalmente, até por eu mesmo fazer parte de tal contingente, ressalto que há também esquerdistas autênticos que são totalmente céticos com relação à democracia burguesa e aos presidentes eleitos segundo suas regras viciadas e viciosas, para quem a derrubada ou não de Temer é irrelevante, já que inexiste hoje o nível de organização popular necessário para a esquerda se apresentar como alternativa de poder.

Somos poucos, eu sei. E há quem nos considere fora da realidade, ao pretendermos a retomada da luta de classes nos moldes marxistas e anarquistas, com a revolução como objetivo supremo (estratégico) e a participação em eleições legislativas e executivas condicionada às conveniências táticas de cada momento (no atual, p. ex., a decadência e desmoralização desses Poderes é tamanha que mais vale ficarmos fora desse mar de lama, pregando o voto nulo).

Já que estamos no ano do centenário da revolução russa, vale lembrar que, quando os bolcheviques ainda eram bem minoritários na composição do Soviete de Petrogrado, um orador menchevique ou socialista-revolucionário indagou, num arroubo retórico, se havia algum partido apto para efetuar a tomada revolucionária do poder naquele instante. 

Lênin declarou que o seu estava pronto para isto e a aparente pretensão descabida foi recebida com uma explosão de gargalhadas. Alguns meses depois, os bolcheviques fariam valer a palavra do líder.
O Soviete de Petrogrado tinha mais de 3 mil membros

Ou seja, a História às vezes se arrasta com irritante lerdeza, às vezes avança aos saltos. O importante é sabermos discernir para onde ela aponta. 

E são cada vez mais evidentes os indícios de que a fase da conciliação de classes está esgotada no Brasil. Finalmente. Felizmente!

Aqueles cujos corações e mentes estão sintonizados com os ideais de liberdade e justiça social têm mais é de rejubilar-se com a perspectiva de as disputas políticas voltarem a ser decididas na praça que é do povo, como o céu é do condor.

E não na famigerada Praça dos Três (podres)  Poderes, perdida na solidão do Planalto Central.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

É UM ERRO SUPERDIMENSIONARMOS A INCONTINÊNCIA VERBAL DE UM GENERAL SEM TROPAS NA IMINÊNCIA DA RESERVA

Um excelente livro de Dino Buzzati, que foi levado às telas (*) magnificamente por Valerio Zurlini em 1976, ajuda bem mais a entendermos a mentalidade militar do que a montoeira de textos alarmistas em circulação nas redes sociais desde que um general sem tropas desembestou a falar inconveniências golpistas para os maçons. Trata-se de O deserto dos tártaros.

Começa com um jovem oficial indo iniciar sua carreira numa fortaleza perdida no meio do nada, cuja única utilidade é servir como primeira linha de defesa contra uma invasão dos tártaros que ninguém sabe ao certo se um dia será tentada ou não.

Mostra aqueles infelizes consumindo suas vidas numa espera sem fim, sonhando com a aparição dos inimigos que daria sentido ao seu sacrifício e procurando preencher o tempo da melhor forma possível. 

Quando chega o momento de trocarem posto tão sem atrativos por alguma unidade melhor, quase todos preferem ficar, sempre na esperança de que os tártaros e o fragor das batalhas estejam próximos. Fazem planos, tomam medidas na suposição de que um dia venham a se justificar e esperam. Esperam. Esperam.

Os altos escalões privam cada vez mais a fortaleza de recursos e homens, mas não a ousam desativar por completo. A jornada dos efetivos remanescentes se torna cada vez mais penosa, cada um cumprindo as tarefas de dois ou três. Ainda assim, esperam.

Até que, quando os tártaros finalmente surgem, o outrora jovem oficial está sendo conduzido numa ambulância de volta para a civilização, doente e envelhecido. Desperdiçara sua vida adulta inteira e a miragem que perseguia, dissipou-se no momento em que estava prestes a alcançá-la.
Num país que não trava guerras desde que seus pracinhas foram servir de bucha de canhão na luta contra o nazifascismo nos campos de batalha da Itália, o que faz o Alto Comando do Exército? Uma infinidade de planos de contingência para invasões de tártaros, tipo como reagir a uma incursão paraguaia ou o que fazer se a Venezuela se esfarelar.

No meio de tudo isso, certamente terão estudado linhas de ação para o caso de ocorrer um vazio de poder em nosso país, o que não passaria de outra invasão de tártaros a lhes ocupar o tempo ocioso. Nada indica que haja uma verdadeira articulação golpista em curso, como havia no início dos anos 60, quando o golpe foi tentado já na renúncia do Jânio Quadros (25 de agosto de 1961), fracassou mas deixou lições valiosas para os conspiradores melhorarem seu desempenho na chance seguinte, o 1º de abril de 1964 (a pior mentira já socada goela dos brasileiros adentro!).

A seis meses de trocar a farda pelo pijama, relegado a uma atividade burocrática para não contaminar a tropa com seus delírios, o general Antonio Hamilton Mourão recebeu finalmente alguma atenção, graças a um convite da Maçonaria com todas as característica de provocação. E, claro, desandou a falar o que deveria estar entalado na sua garganta há quase dois anos.

O sensato seria os civis não o levarmos a sério, pois na caserna também ele está longe de representar o sentimento das fileiras, tanto que sua punição no final de 2015 suscitou um pouco de blablablá  e nenhuma reação efetiva.

Mas, os que querem exatamente criar um clima golpista, estão investindo na tempestade em copo d'água.

Outros, paradoxalmente, temem uma quartelada, querem alertar contra ela, colocam suas apreensões em artigos... mas acabam cumprindo o papel de inocentes úteis, ao darem quilometragem a uma pseudo-crise que tem, isto sim, de ser esvaziada. Já se falou nela muito mais do que o justificável.

As pressões dos paisanos por punição são praticamente a única possibilidade de o general Antonio Hamilton Mourão tornar-se influente na caserna, pois a corporação tende sempre a ser solidária com os seus que estão sob fogo externo.  

Deixarmos as coisas como o comandante do Exército decidiu, com a anuência do ministro da Defesa, fará com que o factoide seja rapidamente superado, sem maiores consequências.

A insistência em superdimensionar-se a incontinência do veterano ultradireitista pode gerar uma crise militar onde até agora não havia nenhuma.

As coisas já andam suficientemente ruins, por que piorá-las em função de fantasmas tão remotos quanto os tártaros do livro do Buzzati?
para quem quiser conhecer o filme do Buzzati, recomendo este link.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

MAIS PERSONAGENS BIZARROS: UNS LAVAM AS MÃOS, OUTROS FECHAM A CARA E HÁ INSENSATOS BRINCANDO COM FOGO.

Pilatos, fugindo da sua responsabilidade. Fez escola.
Os Pilatos do Supremo Tribunal Federal transferiram para a Câmara Federal o ônus da impopularidade de rejeitar a denúncia-peneira (cheia de furos) de Rodrigo Janot contra Temer. 

O resultado final vai ser exatamente o mesmo: ela ficará na gaveta até o dito cujo concluir o mandato, perdendo então a imunidade. Só que as indefinições se prolongarão inutilmente e ninguém vai ganhar nada, exceto aqueles parlamentares que receberão seus regalos natalinos já em outubro. 

Brasileiro adora satanizar vilões reais ou supostos, lançar diatribes exaltadas contra os poderosos e posar de rebelde sem o ser. Ir à luta que é bom, pouquíssimos vão. 

Quando me lembro de que as manifestações contra a ditadura em 1968 seguramente reuniram, no Brasil inteiro, pelo menos 500 mil pessoas, mas nem 5 mil continuaram firmes na resistência depois da assinatura do AI-5 (quando os milicos desembestaram o terrorismo de Estado), dá vontade de chorar. 
Só nesta passeata éramos 100 mil. Aí a barra pesou e... 
 UM POR CENTO, no máximo, esteve à altura do momento. Verás que um filho teu não foge à luta... acredite quem quiser!

Quantos imprescindíveis morreram! Quantos prescindíveis se preservaram, para depois ajudarem a tirar a esquerda dos trilhos revolucionários e conduzi-la à conciliação de classes!

Mesma coisa agora: malhar no teclado o insignificante Temer como se fosse um Judas em sábado de Aleluia é simples, cômodo e dá prestígio. 

Ir travar as lutas do povo e organizá-lo para a luta contra o poder econômico do qual Temer e todos os presidentes da República brasileiros são mero serviçais, isto quase ninguém vai. É complicado, incômodo e corre-se o risco de sangrar ou ser preso.

*  *  *

Carrancas nunca mais!
Quanto mais leio os exaltados pedidos de punição para o general sem tropa que está a um semestre de trocar a farda pelo pijama, que passa a vida falando besteiras golpistas e não é levado a sério por quase ninguém na caserna, mais me vem à lembrança o discurso-bravata do deputado Márcio Moreira Alves em 1964. Ele o proferiu com o plenário vazio, apenas para constar das atas e poder mostrá-lo aos seus eleitores na campanha eleitoral seguinte ("Vejam como fui macho!").

Deu zebra. Um jornalista de direita alertou os golpistas e estes, à cata de pretextos para o fechamento político, fingiram-se escandalizados, exigindo que o Congresso lhes entregasse a cabeça do deputado fanfarrão. Os parlamentares, gatos escaldados, resolveram não aceitar a imposição, temerosos de que, na sequência, muitas outras cabeças rolassem. Estava criada a justificativa para a virada de mesa.

Como as lições da História são facilmente esquecidas por aqui, muitos fazem estardalhaço sobre o que melhor seria minimizar. O que o Mourão-que-queria-ser-Olympio-mas-não-é disse normalmente teria pouca repercussão entre os fardados de hoje, mais preocupados em subir na carreira do que em brincar de salvadores da Pátria. Já uma punição a ele, ainda mais se for decorrente de pressões dos paisanos, vai angariar-lhe solidariedade.

Quem é burro, pede a Deus que o mate e ao diabo que o carregue.
  
*  *  *

As quarteladas no Brasil são decididas pelos grandes capitalistas e executadas pelos militares. No momento, os donos do PIB não têm motivo nenhum para darem o sinal verde, daí a desnecessidade de alguma medida mais drástica por parte do Exército. 

Seria possível resolver-se tudo internamente, sem criar-se um desnecessário clima de confronto. Até porque a estabilidade brasileira é muito precária e os cenários mudam rapidamente. Essas crises podem começar num momento em que não são perigosas e o desfecho ocorrer num momento em que se terão tornado perigosas. Malandro que é malandro não dá sopa pro azar. 

Ou, dito de outra forma, é uma má hora para se brincar com fogo. Pode-se sair queimado ou, pior ainda, botar fogo no circo.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

HEY, MISTER, QUER COMPRAR BANANA? BANANA VERY GOOD, MISTER!

Constatei, na coluna do Nelson de Sá, que os gringos continuam viajando na maionese quando se metem a analisar as perspectivas políticas brasileiras.
"O Financial Times avisa, em vídeo e longa análise, que 'as grandes esperanças dos investidores para o Brasil provavelmente não passarão de um sonho'. Explica: 
— Mesmo que Mr. Temer sobreviva, seu mandato termina no próximo ano. Se as pesquisas estiverem certas, seu mais provável sucessor, Jair Bolsonaro, é um populista de extrema-direita que pensa que a polícia deva ter licença para matar. As perspectivas de reforma liberal são sombrias".
Quando eu trabalhava em editorias de economia, ocorria de ter de traduzir e copidescar artigos desse intragável jornal internacional de língua inglesa. Ficava pensando nos prejuízos que os investidores, seu público-alvo, sofreriam se acreditassem piamente naquelas análises...

Desta vez o FT começa acertando ao escrever que os investidores não devem ter grandes esperanças para o Brasil, mas não explica satisfatoriamente o porquê. Faço-o eu.

É que o capitalismo, cada vez mais próximo de sua fase terminal, já não consegue assegurar prosperidade duradoura para a maioria das nações ao mesmo tempo.

Sobrevive transferindo sua crise crônica de uns países para outros, já em plena contagem regressiva para a chegada da depressão generalizada que o fulminará (esta não tem data marcada para acontecer, mas dificilmente deixará de ser nas duas próximas décadas). 

Isto, contudo, não impedirá que as tais reformas liberais sejam enfiadas goela dos brasileiros abaixo, ou ainda por Temer, ou pelo seu sucessor, pois não se vislumbra força política nenhuma, com chance de vitória em 2018, que tenha cojones para desobedecer às imposições dos amos e senhores. Dilma só não as implantou por falta de competência, mas tentar, bem que tentou... 

Nem tampouco impedirá que o Brasil, depois de vários anos de recessão, venha a registrar algum aquecimento da economia em 2018, primeiramente porque a dita cuja estava contraída demais em função das políticas econômicas desastrosas dos governos de Dilma Rousseff; e depois porque os donos do PIB continuam tendo poder de fogo suficiente para gerarem um pequeno boom no ano eleitoral e, com isto, elegerem os serviçais... quer dizer, os candidatos de sua preferência (foi o que fizeram em 1970, quando fabricaram o milagre brasileiro para que a ditadura militar se consolidasse).

Para os especuladores interessados em grandes negócios de curto prazo, o Brasil deverá ser um prato cheio no ano que vem. Aí, eleições findas, a virada da maré será só questão de tempo. Tudo indica que um eventual milagrezinho brasileiro durará bem menos do que os aproximadamente quatro anos do anterior.
O milagre original: só restaram os débitos.
Pelo mesmo motivo (a perspectiva de que as eleições transcorrerão com os eleitores contentinhos por finalmente terem uns trocados no bolso), as chances dos candidatos que se beneficiariam da insatisfação popular serão ínfimas. 

Jair Bolsonaro, nem pensar! Ultradireitistas nunca se elegem presidentes no Brasil, só chegam ao poder quando as baionetas e os tanques substituem as urnas.

E o Lula (supondo que lhe permitissem disputar o pleito, o que se torna cada dia mais improvável) tem índice de rejeição tão acentuado que só venceria se a alternativa no 2º turno fosse um espantalho tipo Bolsonaro. Tal polarização poderia ocorrer se as eleições fossem em outubro próximo, contudo dentro de mais de um ano tudo estará mudado. 

Para fechar com chave de ouro este post, recomendo a audição de uma magnífica canção de festival da qual poucos se recordam: Hey, mister, de Ary Toledo e Francisco de Assis, que participou sem destaque do V Festival da Record, em novembro de 1969. Parece ter sido feita exatamente para os analistas metidos a bestas do Financial Times...

Mostra um pegajoso malandro brasileiro tudo fazendo para empurrar qualquer souvenir ou atração local a um turista; entre servil e zombeteiro, ele deixa perceber seu desprezo pelo bobalhão (Quer comprar banana, mister? Banana very good!). 

Era exatamente esta a visão que tínhamos então dos estadunidenses, como os que foram fazer proselitismo da Aliança para o Progresso no meu ginásio, com suas camisas brancas de manga curta, sua calças bege e cintos grossos, suas caras redondas de bebês Johnson, numa época em que todos nós vestíamos roupas coloridas e deixávamos cabelo/barba crescerem livres e soltos ...

PERSONAGENS BIZARROS DO NOSSO TEMPO: O HITLER EM MINIATURA E O MIQUINHO AMESTRADO DO PODER ECONÔMICO

Rodrigo Janot, que muitos pateticamente ainda exaltam e defendem nas redes sociais, pisou feio na bola ao denunciar um presidente da República a partir de uma delação premiada repleta de ilegalidades e como parte de uma trama golpista orquestrada com a Globo.

Como consequência, o processo de impeachment não vingou e a denúncia tecnicamente medíocre poderá até salvar o Temer quando ele tiver de responder por ela, terminado seu mandato.

De quebra, tivemos a convulsão inútil nos mercados e a fase mais aguda da recessão se prolongou desnecessariamente por mais alguns meses, sacrificando o povo brasileiro.

Eu diria que, traçando um paralelo com os sinistros de veículos, o seu destrambelhado final de mandato pode ser sintetizado em duas palavras: perda total.

E que é chocante tudo isso ter decorrido do inconformismo com a derrota que sofreu uma reles disputa interna pelo poder num ente do Estado. 

O sujeito é um Hitler em miniatura: sua megalomania virou o país de pernas pro ar.
*  *  *
Michel Temer não passa de um político profissional de horizontes limitados e voos rasteiros, serviçal do poder econômico como todos os presidentes anteriores e que chafurdou na mesma lama de vários deles. 

Enquanto perdermos tempo questionando os presidentes individualmente, não estaremos cumprindo nosso dever de abrir os olhos do povo para o fato de que os Poderes da democracia burguesa são meros biombos que encobrem a dominação de classe e a exploração do homem pelo homem. 

Já passou da hora de a esquerda desencanar da luta política estéril que se trava em Brasília, um jogo de cartas marcadas no qual o grande capital é o carteador, e voltar a priorizar as lutas sociais e a travá-las em escala nacional, acumulando forças para a ruptura revolucionária e a superação do capitalismo. 

Resumindo: "Fora, Temer!" é palavra de ordem que serve apenas para deixar tudo como está, trocando o seis parecido com o Amigo da Onça e com o homem que ri do cinema mudo por outro meia-dúzia qualquer, tão nefasto quanto ele ou pior ainda (Bolsonaro). 

A palavra de ordem correta é "Fora, capitalismo!"

terça-feira, 19 de setembro de 2017

O FIM DA IRRACIONALIDADE CAPITALISTA ENSEJARÁ UM MODO DE RELAÇÃO SOCIAL QUE POSITIVE AS REAIS VIRTUDES HUMANAS

"A pobreza não é um acidente. Assim como a escravização e o apartheid, a pobreza foi criada
pelo homem e pode ser removida pelas ações
dos seres humanos" (Nelson Mandela) 
Sabemos que o comportamento de ser humano está condicionado às circunstâncias do meio e do tempo no qual está inserido. São os valores morais, convenções éticas, domínio do saber, relações familiares, mas, principalmente o modo de relação social de produção, os fatores mais determinantes do comportamento humano. 

A indução moral e ética causada pelo modo de produção social determina as relações interpessoais e a forma de organização social. A interação entre o modo de produção social adotado pelos indivíduos ou a eles impostos por determinados segmentos sociais dominantes e as relações dele decorrentes é o que formata e conceitua o caráter social.   

Assim, caso esse modo de produção social seja injusto na sua essência constitutiva, criam-se conceitos de valores e de comportamentos que, embora negativos, são socialmente positivados, gerando um resultado social catastrófico e conflitos pessoais irresolúveis, ainda que sua causa permaneça imperceptível para suas vítimas, os mesmos indivíduos sociais que o criaram.   

Numa sociedade escravista, a segregação social praticada por uns poucos privilegiados contra os muitos subjugados e empobrecidos cria uma situação de tensão social permanente; todos os indivíduos sociais terminam como perdedores e adversários entre si de um modo ou de outro, o que levou Karl Marx a afirmar que “o povo que subjuga outro, cria a sua própria cadeia”. 

A mediação social pela forma-valor, que cria o capital e o capitalismo, é uma forma de relação social reificada, ou seja, uma absurda interposição numérica de mensuração econômica (o dinheiro como expressão do valor, riqueza abstrata) para objetos sensíveis de consumo social e serviços, bem como para a própria atividade humana de esforço físico e mental de produção que transforma tudo em mercadorias, com o desiderato vazio de sentido social virtuoso, propiciando a acumulação da riqueza abstrata (e, como consequência, a verdadeira riqueza, a material) por castas sociais. Isto, claro, provoca um desequilíbrio social destrutivo. 

Não é apenas a desigualdade social o cerne do problema no capitalismo, mas, também e em igual intensidade, a indução comportamental negativa marcada pela positivação desses comportamentos.

Tudo no capitalismo inverte o conceito das verdadeiras virtudes. É que, no capitalismo, todos se tornam adversários de todos na sofrida luta pela vida, na qual prepondera a destrutiva disputa de dinheiro e poder ao invés da solidariedade construtiva.     

Não é o cientista dedicado que descobre a vacina contra endemias o herói social, mas sim o grande empresário que financia as pesquisas e patenteia a vacina para vendê-la mundialmente, com isso detendo o verdadeiro poder social – o econômico.

O filho do operário honesto que vê seu pai chegar à idade madura com dentes estragados e sem assistência médica, morando na favela ou numa habitação precária em ruas esburacadas e com dificuldade de transporte diário de casa para o trabalho, aprende cedo (por observação empírica) quem são os vencedores sociais e como e porque o são. 

Esse menino pobre depreende cedo que a maioria dos vencedores sociais, nada mais é do que seus algozes sociais hipócritas que se corporificam nos seguintes modelos sociais:
— os insensíveis homens de negócios que obedecem fielmente a lógica ditatorial da administração empresarial e que não hesitam no tráfico de relações com o poder político ou na predação ecológica como forma de manutenção do poder econômico que os teleguia, ainda assim querendo ser vistos pela comunidade como benfeitores sociais que geram empregos (os mesmos empregos que os fazem ricos); 
— os políticos corruptos e os que, mesmo não o sendo, reforçam a opressão sistêmica;  
— os homens que traficam drogas a armas ou bancam jogos de azar e outras atividades econômicas ilícitas correlatas;  
— aqueles que, obtendo as benesses sociais do poder em cargos públicos com vencimentos desproporcionais ao salário do seu pai empobrecido, e que fingem defender a isonomia de direitos sociais a partir das leis. 
O caldo de cultura da miséria social que se agrava mundo afora, mais a inversão de valores verdadeiramente virtuosos, provoca a introjeção mental social generalizada da vitória do ruim em detrimento da afirmação do bom. 
Antes da casa cair, Joesley era tido como empresário-modelo.

E isto vale também, e mais perceptivelmente, para a arte e a cultura, num processo de interação entre o fazer artístico e o mercado.

Entretanto, como não há mal que sempre dure, a forma de relação social segregacionista patrocinada pelo capital está atingindo o seu limite existencial, inclusive como consequência da contradição na concorrência de mercado entre o saber tecnológico que conspira contra a escravização pelo trabalho abstrato produtor de valor e a própria predação ecológica que ameaça a todos indistintamente.

Devemos acreditar na superação da irracionalidade capitalista e apostar num modo de relação social que positive as verdadeiras virtudes humanas, induzindo o ser humano a tais virtudes em cada gesto e atitude, num reencontro com aquilo que nos fez sobreviver, nos primórdios, ao enfrentamento das grandes feras irracionais, e que nos proporcione os melhores atributos da racionalidade: a solidariedade e o sentido social gregário. 

O MELHOR ESTÁGIO RACIONAL QUE DEVEMOS BUSCAR

O ser humano está num estágio de evolução, embora haja retrocessos bárbaros como os que ora ocorrem, além de permanecerem presentes os resquícios perigosos da sua primeira natureza animal irracional. 

Vivemos a fase da segunda natureza humana, marcada pelo ganho da racionalidade, na qual despontou o interesse em compreender o sentido da própria existência humana e a busca da compreensão da sua própria efemeridade de vida (daí a crença na vida espiritual extracorpórea e nas divindades), que deve dar lugar a uma terceira natureza, superior. 

[Isto se não se extinguir de moto próprio, via hecatombe nuclear ou por conta de catastróficas mudanças na natureza, provocadas por ele mesmo ou não.]

Mas devemos reconhecer urgentemente que o processo evolutivo da racionalidade encontra-se travado pela exaustão de um modelo social tornado anacrônico e isto provoca distorções comportamentais que assumem ares de involução civilizatória. 

Exemplo disso são os conflitos étnicos e religiosos que se acentuam, como resultantes da miséria social causada por um modelo social que se exaure por suas contradições internas.

Caso do que ora ocorre em Myanmar (antiga Birmânia), mais um dentre os terríveis dramas sociais em curso mundo afora, com o espetáculo habitual de centenas de milhares de refugiados perseguidos pela insensatez humana  e isto num país cujo governo tem uma representante laureada com o prêmio Nobel da Paz, numa prova de que os governantes não governam, mas obedecem ao comando cego de uma ordem social econômica subjacente e dominante, que avassala o poder político.     

É imperativo fazermos as opções corretas neste momento crucial da história da humanidade. 
Por Dalton Rosado

Uma das quais é superarmos a irracionalidade da mediação social pela forma-valor, gênese do capitalismo, e adotarmos um modo de produção social que nos condicione às melhores virtudes humanas de modo crescente, ao invés da involução civilizatória que ora observamos.

AGORA SÃO OS PORTUGUESES QUE FAZEM PIADAS SOBRE NÓS: "NO BRASIL, OS JUÍZES SÃO OS PRIMEIROS A IGNORAREM AS LEIS".

Ele exibe o código eleitoral. Deveria estar lendo a Constituição!
É assustador que um juiz de 1ª instância desconheça o art. 5º da Constituição Federal e cometa um indiscutível abuso de poder. Mas, foi o que fez Luiz Antonio de Campos Jr., titular da 1ª Vara Cível de Jundiaí (SP), ao anular por conta própria os seguintes preceitos dos direitos e deveres individuais e coletivos dos brasileiros:
II - ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei;
IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença.
O meritíssimo, como qualquer cidadão comum, não concordou com o tema da peça que estrearia no Sesc daquela cidade, O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, que reconta a história bíblica tornando Cristo uma mulher transgênero.

E, como autoridade judicial, decidiu que ninguém a assistiria, alegando que figuras religiosas e sagradas não podem ser expostas ao ridículo. Fixou uma multa de mil reais por dia caso sua determinação ilegal fosse descumprida.
Ora, o cidadão comum tinha o pleno direito de fazer campanha contra a peça como bem entendesse, desde que não transgredisse as leis do País. Já a autoridade judicial estava obrigado a cumprir tais leis, que vedam toda e qualquer forma de censura prévia.

Como não consegue conciliar estas duas esferas, ele deveria abandonar a toga. Seria a atitude mais honesta da sua parte.

Caso contrário, os prejudicados devem acionar o Conselho Nacional de Justiça, pois o furor censório do meritíssimo se enquadra perfeitamente nesta atribuição do CNJ: "realizar sindicâncias, inspeções e correições, quando houver fatos graves ou relevantes que as justifiquem".

É difícil imaginarmos algo mais grave e relevante do que a grotesca tentativa de fazer o Brasil regredir aos anos terríveis da ditadura militar, com sua medonha censura prévia.

Quanto à atrabiliária e, repito, ilegal proibição da peça, poderá facilmente ser revertida por habeas corpus, afinal já faz um tempinho que o Brasil é um estado laico: nada menos que 127 anos (por força do Decreto nº 119-A, de 07/01/1890, de autoria de Ruy Barbosa)

E, em estados laicos, as figuras religiosas e sagradas podem ser, sim, expostas ao ridículo em representações teatrais, assim como os espectadores indignados podem depois acionar os tribunais para que os responsáveis sejam eventualmente punidos. 

Depois, não antes – este detalhe faz toda a diferença. 

De resto, quem não é militante da TFP e demais grupúsculos ultraconservadores, certamente preferirá a opção mais simples de... não ir ao teatro.

Em casos assim, quando a 1ª instância toma decisões estapafúrdias, as superiores inevitavelmente corrigem a besteira. Os responsáveis pelo espetáculo poderão inclusive ser ressarcidos pelos prejuízos que lhes foram arbitrariamente causados.

No mais, está certo o Hélio Schwartsman ao enfocar de maneira diferente a forma como o banco Santander se vergou às mesmíssimas pressões obscurantistas noutro episódio recente:
"Embora tenha sido profundamente lamentável, a decisão do Santander de cancelar a exposição Queermuseu não constituiu tecnicamente um caso de censura. O banco se acovardou diante dos protestos dos supostos liberais e resolveu suspender o patrocínio, o que é um direito seu".
Como é direito dos civilizados encerrarem suas contas em bancos que, por convicção ou oportunismo, fazem média com os nostálgicos da Idade Média.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

PT PODERÁ BOICOTAR ELEIÇÕES DE 2018. PREGAR O VOTO NULO SERIA OPÇÃO MAIS ALTANEIRA E ARREGIMENTADORA.

Notícia desta 2ª feira, 18, da BBC Brasil, assinada pela repórter Mariana Sanches:
"Pressionado pela constatação de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva dificilmente poderá ser candidato a presidente, o PT trabalha com um plano C [o B seria lançar outro nome] para as eleições de 2018: o boicote.
Nesse caso, além de não disputar a Presidência, um dos maiores partidos brasileiros também não lançaria candidatos ao Senado ou à Câmara dos Deputados e se dedicaria a uma corrida internacional para propalar o que considera mais uma rachadura na democracia do país.
'O que estamos denunciando é que o impedimento de Lula seria uma fraude nas eleições. (O boicote) é uma coisa que não está sendo oficialmente discutida ainda, mas vai caminhar para isso se ele for impedido de ser candidato. É um processo que não tem base jurídica', afirmou à BBC Brasil a presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann".
A minha avaliação é de que o PT, assim agindo, estaria acertando e errando ao mesmo tempo.

Acertando em, na prática, alinhar-se com a campanha pelo voto nulo.

Errando ao acreditar que os estrangeiros farão por nós o que nós mesmos não fizermos; e ao justificar sua postura com chororô em relação ao afastamento de Dilma, lamentando o leite derramado e as possíveis rachaduras numa democracia que, verdadeiramente, já está em cacos há muito tempo, pois não passa do biombo que encobre a ditadura do capital.

Deveria é efetuar o boicote e pregar o voto nulo, marcando o abandono das ilusões eleitoreiras e o ingresso numa nova etapa da trajetória do PT: a da retomada dos ideais revolucionários, com a priorização das lutas dos explorados e de sua organização para o combate em escala nacional ao capitalismo. 

Afinal, que mais lhe resta fazer depois do impeachment, quando ficou provado que o dono da bola, sempre que estiver insatisfeito com o rumo da peleja, vai encerrá-la e levar a redonda consigo, ante os olhares impotentes dos atletas?! 

Se o PT quiser renascer das cinzas, precisa apontar caminhos para a construção do futuro que todos os idealistas almejamos; só assim reconquistará os jovens e os formadores  de opinião, que tanto lhe têm feito falta ultimamente. 

SABEM QUAIS SÃO AS CRÔNICAS MAIS BELAS? AS CANÇÕES!

Crônica, o que é? É jogar conversa fora. 

Ah, esses homens e mulheres tocados pelo gênio e seu maravilhoso jogar conversa fora, punhados delas,  embebidas de arte, emoção, paixão. A revirar o fundo das nossas almas. 

Gentes agraciadas pela divindade, esses cronistas! Trilham por todos os mais escondidos caminhos do planeta azul. Pena não chegarem até nós todas as suas delirantes mensagens. Elas se perderão nas noites do tempo.

Na  macia alcova de seus sentimentos, esses seres especiais celebram casamentos. Contraem núpcias um punhado de  palavras de mãos dadas com  ricas melodias e seus intérpretes.  E assim nascem as mais belas crônicas, as canções, puras rezas dos corações cheios de ais.  

O cronista põe a letra.

O compositor empresta a música.

O cantor passa o recado.

Mistura explosiva, essa.

Esqueça-se a aborrecida história da crônica, quando em seu berço era aquela montanha de letras em rede, cansativamente apinhadas no papel jornal, um martelar enfastiante de pseudo saber político.

Então, canções. São elas:

Um: conversas fiadas em torno da mesmice chorosa de amores perdidos. Dois: pranto repetitivo  da paixão que não deu certo, por isso mesmo paixão eterna, viva para sempre. Três: corações a chorar.

Atenção: um bando de linhas, mais música, mais  intérprete e dá-lhe gemidos de amor.  É a conjugação do verbo doer, do inflamante verbo querer. Eu, tu ele, nós vós, eles, queremos, gememos. 

A crônica musical é o hino do fechar do peito pelos golpes da traição, o bambolear das pernas com a separação, a aflição do abandono, as lágrimas do ir embora, a pancada na alma do não te quero mais. Ela já não gosta mais de mim. A aflição dos rejeitados. 

A seguir, alguns escassos exemplos de  incendiadas conversas fiadas. 

[Antes de seguir, miserável homem sou eu, a cometer  injustiça aos cronistas musicais e seus intérpretes habitantes de todos as esquinas deste nosso, por enquanto, ainda planeta azul, por não poder alinhar todas as suas preciosas conversas jogadas fora,  tantas, tantas, recheadas de amor, graça, paixão, gemidos, gritos por justiça, anseios por um mundo melhor.]

Seguindo.
— gemidos de amor, a começar pelo homem dono de mais de mil mulheres sem aquela que ele tem no coração. Esse homem não é ninguém. Ele está na crônica-samba de Ataufo Alves: mulher a gente encontra em toda a parte, mas não encontra a mulher que a gente tem no coração

— o choro do tudo perdido: ela já não gosta mais de mim, mas eu gosto dela mesmo assim. Que pena, Jorge Ben Jor, cronista, músico, intérprete. 

— perdido na vida: buscando um novo rumo que faça sentido nesse mundo louco. Charles Brown Jr. 

— o estigma do querer: não sei porque insisto tanto em te querer se você sempre faz de mim o que quer. Fagner 

— o sufoco da ausência: não vejo mais você faz tanto tempo, que vontade que eu sinto de olhar em seus olhos, ganhar seus abraços. Caetano Veloso.

— amarga é a aproximação do adeus: me dê motivo para ir embora, estou vendo a hora de te perder. Tim Maia. 

— e a malvada faca do ciúme, a furar a nossa alma: me sentindo enamorado e saber que outro ao teu lado pronto pronto te falará de amor. Carlos Gardel.

— não há ponto final numa história de amor: tudo entre nós terminou, a vida não continuou para nós dois, caminhemos, talvez nos vejamos depois. Francisco Alves.
— o jovem sonhador com sua pequenina crônica Imagine, pequenina no tamanho, a imaginar grandiosamente um novo mundo: eu espero que algum dia você se junte a nós e o mundo será um só. John Lennon.

Continha de somar: palavras, mais música mais intérprete, igual a três professores a registrar a História. Se não vejamos: 

— ah, aquelas pranteadas conversas fiadas ecológicas, benditas defensoras do planeta, temerosas por sua destruição: Será que no futuro haverá flores? Será que os peixes vão estar no mar? Será que os arco-íris terão cores? E os passarinhos vão poder voar? Toquinho.
— ah, aquelas rezas encharcadas de ais contra a tirania: Morte, vela, sentinela sou do corpo desse meu irmão que já se foi. Revejo nessa hora tudo que aprendi, memória não morrerá. Longe, longe, ouço essa voz que o tempo não vai levar. Fernando Brant. 

— letras, músicas e intérpretes de autoria de combatentes da liberdade e da justiça, a alimentar revoluções: Todo jornal que eu leio me diz que a gente já era, que já não é mais primavera. Oh baby, oh baby, a gente ainda nem começou. Raul Seixas.

— o recado falado e cantado a tirar o sossego dos usurpadores da vida: Seu moço, tenha cuidado com sua exploração, se não lhe dou de presente a sua cova no chão. Gilberto Gil. 
— o poder de cantar abate o poder das ditadura: Tanta vida pra viver, tanta vida a se acabar. Com tanto pra se fazer, com tanto pra se salvar. Você que não me entendeu, não perde por esperar. Geraldo Vandré.

Tal é a espada afiada da crônica musical.

Ah,  pudéssemos ouvir, cantar, rezar todas as canções nascidas nos mais ocultos cantos e  recantos da nossa morada terrestre, brotadas em mil e um corações dedicados a falar o idioma da emoção. (por Apollo Natali)
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