domingo, 22 de janeiro de 2017

O PRIMEIRO GRANDE FILME SOBRE A GUERRILHA URBANA: "A BATALHA DE ARGEL".

O filme para ver no blogue deste domingo é A batalha de Argel (1966), um clássico indiscutível do cinema político, que o diretor italiano Gillo Pontecorvo realizou na melhor fase de sua carreira, três anos antes do igualmente superlativo Queimada (vide aqui). 

Rememora o movimento guerrilheiro que, embora sufocado a ferro e fogo pelos franceses (correram mundo as denúncias das brutais torturas ministradas pelos paraquedistas), acabou sendo o ponto de partida da independência argelina. 

Para variar um pouco a apresentação que faço dos filmes aqui disponibilizados, reproduzirei o que sobre ele escreveram dois ilustres companheiros.

O Mário Magalhães, biógrafo do Marighella, aprofundou o aspecto da guerrilha urbana:

"Tanto os repressores franceses, tropa de choque dos colonizadores, quanto os argelinos militantes da luta armada, combatentes anticolonialismo, influenciaram brasileiros, sobretudo na segunda metade dos anos 1960 e na primeira dos 1970.

Os guerrilheiros de lá, pró-independência, foram uma das inspirações dos guerrilheiros daqui. E os torturadores daqui, herdeiros do know-how dos castigos da escravidão, aprenderam as lições dos de lá, embora no final da história, em 1962, que o filme não alcança, o triunfo no Norte da África tenha sido dos argelinos, e não dos franceses.

A título de curiosidade, eis uma das muitas menções ao filme na biografia Marighella
'Os militares assistiam em sessões privadas nos quartéis a um filme de 1966 que a censura retirara dos cinemas, carimbando-o como subversivo. A batalha de Argel inspirava a luta armada, mas ensinava a sufocá-la — a obra se passa em 1957, a cinco anos da independência da Argélia. 
Um coronel francês compara os insurgentes às tênias, que se reproduzem pela cabeça: precisam cortar a organização revolucionária por cima. É o que fazem matando o guerrilheiro Ali La Pointe, líder da Frente de Libertação Nacional, cujo paradeiro descobriram torturando um companheiro seu. 
No Brasil, a lição argelina equivalia a abater Marighella. É o que a turma do Dops começaria a fazer na alameda Campinas'"
E o responsável pelo melhor blogue de cinema de Portugal, Francisco Rocha, dissecou os aspectos artísticos:

"Um filme comissionado pelo governo argelino, que mostra a revolução argelina dos dois lados. A Legião Francesa tinha deixado o Vietnã derrotada, e tinha algo a provar. Os argelinos procuram a independência, e dá-se o choque. Os franceses usam a tortura, e os argelinos respondem com o uso de bombas tradicionais. O filme traz um olhar desagradável sobre a guerra, e todos nela envolvidos.

Marco de Gillo Pontecorvo sobre o anticolonialismo, é provavelmente o mais famoso filme sem verdadeiros imitadores (Z e outros thrillers políticos são bem diferentes), em grande parte porque os países coloniais costumavam ser os países financiadores desses filmes. Aqui os financiadores eram o país que lutava pela independência, o que traz um ponto de vista totalmente diferente para o cinema político. 

Os argelinos são mesmo o centro das atenções do filme, mas mesmo isto não é o que nos faz simpatizar com eles. Pontecorvo faz-nos entender a podridão da guerra, que nenhum dos lados é inocente, pois os argelinos fazem explodir bombas em cafés que matam civis e os franceses, com a sua tecnologia massiva, também matam civis.

Antes das grandes revoluções serem televisionadas, o cinema político permitia que as grandes populações contemplassem a uma certa distância as maquinações e as consequências das agitações violentas. Em A Batalha de Argel, os avanços técnicos permitiram à narrativa fundir-se com a estética documental e formular um novo tipo de realismo. 

Pontecorvo mergulha nesta estética, no que pode ser o maior filme sobre a insurreição, perfilando a luta da Argélia pela independência em tal detalhe e agitação que muitas cenas parecem tiradas diretamente de um telejornal da atualidade. 

Pontecorvo desliga-se dos aspectos mais emocionais e adota a tática da câmara no ombro, não apenas para estabelecer o efeito documentário, mas também para fazer sobressair o impacto de cada tiroteio ou explosão como uma experiência profundamente pessoal. 

Ação e reação são inevitáveis, assim como a banda sonora memorável de Ennio Morricone, utilizando o mesmo tema para cada um dos lados, é perturbadora.  Três nomeações ao Oscar e três prêmios no festival de Veneza, incluindo o Leão de Ouro".
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sábado, 21 de janeiro de 2017

HÁ UM SÓ MINISTRO DO STF CUJA ESCOLHA PARA O PROCESSO DO 'PETROLÃO' PARECERÁ PLENAMENTE JUSTIFICADA: CELSO DE MELLO.

Mello e Zavacki já atuavam juntos no processo da Lava-Jato
O herdeiro do lote de processos do falecido ministro Teori Zavascki, segundo o regimento interno do Supremo Tribunal Federal, deverá ser o "ministro nomeado para a sua vaga". Ou seja, ficaria tudo parado à espera da indicação de Temer e aprovação do Senado.

Mas, face à óbvia premência da designação de um novo relator para o processo do petrolão, a presidente do STF, Carmen Lúcia, poderá optar por uma solução mais rápida, provavelmente (há precedente) um sorteio entre os quatro remanescentes da 2ª turma do tribunal, à qual pertencia Zavascki. São eles Celso de Mello, Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski. 

O jurista Luiz Flávio Gomes, em artigo publicado no Congresso em Foco, defende incisivamente o nome do decano, que tem 71 anos e é ministro do Supremo desde 1989:
"O Regimento do STF permite várias possibilidades. Cabe a Cármen Lúcia escolher. Celso de Mello era o revisor de Teori. É quem mais sabe da Lava Jato, depois de Teori. Qualquer outra escolha será uma afronta para a população. Um relator sem credibilidade para o caso vai gerar enorme insatisfação popular".
Ele fez de tudo para Battisti ser extraditado
Concordo plenamente. 

Como o nome do presidente Michel Temer tem aparecido em algumas delações, aquele que for seu indicado ficará sob suspeita de ter pactuado com ele.

E como alguns senadores também estão na berlinda, parecerá que deram sua aprovação a quem lhes prometeu boa vontade na apreciação de suas situações particulares.

Ricardo Lewandowski se desqualificou totalmente ao associar-se a Renan Calheiros numa manobra inconstitucional para evitar que Dilma Rousseff tivesse seus direitos políticos suspensos no apagar das luzes do processo de impeachment. Cesteiro que faz um casuísmo, faz um cesto de casuísmos.

E, se todos veriam Lewandowski mais como advogado de defesa do PT do que como relator isento, a mesma restrição deve ser feita a Gilmar Mendes, só que com o sinal trocado: tudo a crer que ele seria tão tendencioso contra o PT como o foi contra Cesare Battisti, quando produziu um relatório 100% alinhado com a posição italiana, não levando em consideração nenhuma das ponderações da defesa.

Quanto a Dias Toffoli, ainda está viva na lembrança dos bem informados que sua trajetória até 2009 vinha se dando principalmente na órbita do PT: consultor jurídico da CUT, assessor parlamentar na Assembléia Legislativa de SP, assessor jurídico da liderança do PT na Câmara Federal, advogado do PT em três campanhas presidenciais do Lula, sub-chefe da Casa Civil na gestão do Zé Dirceu, advogado geral da União nomeado por Lula...
Calheiros e Lewandowski: parceiros numa gambiarra judicial.  

Sua indicação para o STF causou estranheza, por falta de um currículo jurídico compatível com a magnitude do cargo e por seu passado sempre ligado ao partido que estava no poder. 

Gilmar Mendes, que dava sucessivas declarações à imprensa semeando desconfiança, de repente manteve longa reunião com ele e dela saiu diametralmente mudado: garantiu aos repórteres que Toffoli seria um bom ministro para o Supremo! Coincidência ou não, desde então há acentuada convergência das posições de ambos em assuntos importantes.

Eu não tenho nenhuma dúvida de que, num contexto tão carregado de inquietações e suspeitas, a escolha do Celso de Mello é a única que parecerá justificada aos olhos da Nação: 
  • por ter inegável saber jurídico e reputação ilibada; 
  • por ser o decano (nessas situações o cidadão comum tradicionalmente confia mais na experiência e sabedoria dos idosos); e 
  • porque já era o revisor de Zavascki no processo da Lava-Jato, o que sugere uma relação de continuidade e a perspectiva de que dará sequência imediata ao trabalho, sem ter de inteirar-se de tudo que consta daquela montanha de papelada.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

PARA QUE DIRETOR DE TRÂNSITO? BASTA UM JUIZ...

Eis porque a velocidade de lesma enfurece os motoristas
Um juiz de 1ª instância resolveu fazer as vezes de prefeito, ao proibir o prefeito de verdade da cidade de São Paulo, João Dória Jr., de aumentar o limite de velocidade nas marginais Pinheiros e Tietê.

Encampou integralmente as alegações contrárias, de uma Associação de Ciclistas, segundo a qual a medida careceria de "critérios técnicos". Ué, desde quando juiz tem conhecimentos técnicos suficientes para decidir o que carece ou não de critérios técnicos em matéria de engenharia de tráfego?

Ao conceder a limitar, ele opinou que a iniciativa do novo prefeito se constituiria em "um retrocesso social". Ou seja, posicionou-se antes de hora e com evidente viés ideológico.
São Paulo não pode parar? O prefeito anterior conseguiu. 

Isto foi noticiado no site da Folha de S. Paulo como se fosse coisa séria. E como se fosse coisa séria, o UOL também publicou. 

O índice de leitura foi alto. Quanta gente existe que desconhece gritantemente como funciona uma democracia! E como a imprensa cumpre mal o seu dever de transmitir tal conhecimento!

Pois não passa de um factoide: como o meritíssimo extrapolou flagrantemente suas atribuições, inexiste qualquer possibilidade de tais palpites administrativos subsistirem, caso ultrapassem as primeiras barreiras e cheguem às instâncias superiores do Judiciário. Simplesmente porque atentam contra os princípios constitucionais da independência e separação dos Poderes.

Como dizia o saudoso sambista Riachão, cada macaco no seu galho. Com a Justiça entulhada até o pescoço de processos da sua esfera específica de competência, seria um desatino invadir a praia do Executivo.

NERO TOCOU LIRA ENQUANTO ROMA QUEIMAVA. E TRUMP, TOCARÁ TROMPETE COM A ECONOMIA DOS EUA DESPENCANDO?

Por Celso Lungaretti
Por maiores que sejam meus esforços, não consigo levar o Donald Trump a sério. Até porque o próprio não se faz por respeitar. 

Quando penso nele, imediatamente me vêm à mente as imagens de outros bizarros da política oficial, como Silvio Berlusconi, Jânio Quadros, João Dória, Enéas Carneiro, Tiririca. Se tomar posse trajando uma toga e se dizendo o novo César, não me surpreenderá...

É óbvio que, por mais patético que seja o personagem, as decisões que tomará como presidente dos EUA terão importância. Mas, estas só saberemos de verdade quais sejam quando começar a governar. Por enquanto, tudo são conjecturas para preencher espaços do noticiário. 
 Famoso precursor do Trump

Cá no blogue não existe a obrigatoriedade de postar-se algo sobre o Trump neste dia em especial, mas, velho jornalista, eu me sentiria em falta se não o fizesse. É difícil , depois de uma longa carreira, abandonarmos os hábitos do ofício.

Por outro lado, não queria nada que o tornasse diferente do que é, pois abomino falsidades. PRESIDENTES DOS EUA como foram, p. ex., Roosevelt, Kennedy e Obama, ele jamais será. Trata-se apenas de mais uma prova eloquente da decadência do capitalismo e da democracia burguesa. Só num fim de feira como o atual os loucos assumem a direção do hospício.

Por sorte, o veterano jornalista e escritor Gilles Lapouge escreveu o artigo abaixo, encontrando o tom ideal para expressar seu estranhamento com relação a presidente tão insólito.

O Giles ainda foi um pouco condescendente, na minha opinião. Mas, ninguém é perfeito...
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ESPERAMOS O BUFÃO OU O CAUBÓI DURÃO
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Nasce um trouxa a cada minuto. E todos votaram nele...
Todos esperamos Trump, um pouco como as crianças no circo querem saber quando aparecerá o palhaço ou o leão no picadeiro. Esperamos fazendo graça, mas também com o coração um pouco acelerado..

Porque será tudo isso ao mesmo tempo: um número de teatro de variedades, um número com palhaços ou com animais ferozes, em que todas as figuras se misturam e se confundem. 

E a incapacidade de saber quem é o verdadeiro Trump: o bufão? O sujeito do teatro de variedades cercado por todas essas Barbies que compõem sua família? Ou o caubói, o durão, aquele que “é mais rápido no gatilho do que a própria sombra”?

Em poucas semanas, Trump tornou-se a personalidade de destaque absoluto. Até mesmo os que se sentem mais chocados com sua grosseria, obscenidade, prepotência e caprichos, o observam tremendo de medo.
É o último dos Velhinhos Transviados?

Reconheçamos que ele conseguiu uma façanha: de repente, temos todos esses políticos mundiais, esse espetáculo de exaustão total, esse desfile de marionetes parecidas, todas bem educadas, grisalhas, que se sucedem na ponta dos pés, com a mesma expressão, as mesmas ideias e a mesma insipidez. As mesmas mentiras. 

A principal força de Trump está exatamente nisso: num mundo desprovido de surpresas, ele se encarrega do imprevisível. Ele pode dizer branco hoje, preto amanhã e vermelho depois de amanhã. É aí que está sua capacidade de seduzir. É também sua terrível leviandade. Seu pecado.

Para avaliar quão inesperado é o fenômeno Trump, é preciso ir ao 47.º Fórum Econômico de Davos, onde se reúnem os políticos, os grandes responsáveis pelas decisões, os pensadores. Lá, tudo é chique, meias palavras, silêncios, meios silêncios, os oitavos de silêncio, ironias invisíveis e ceticismos discretos. Aqui respira-se a elite, que há alguns anos vem acumulando o repúdio e o ódio dos populistas e evidentemente dos broncos que levaram Trump às alturas.

Em Davos, os empreendedores até que simpatizam com Trump. Esperam maravilhas dele, para os próprios bolsos. Ao contrário, os políticos, os intelectuais, grande parte dos jornalistas pronunciam a palavra Trump como um palavrão. 
Se bobearmos, este aqui também virará presidente...
No fundo, Davos detesta Trump, porque ele pretende aplicar um programa que contradiz frontalmente o catecismo da elite universal: o liberalismo absoluto, eficaz e às vezes injusto.

Pessoalmente, espero que ele assuma as rédeas. Faço um esforço, mesmo que o personagem me desagrade bastante. Procuro ver se, apesar da vulgaridade, não haverá, num lugar ou em outro, alguma coisa de proveitoso. 

As sociedades avançam num corredor, de cada lado do qual há portas que, por um acordo tácito, ninguém jamais ousa abrir. O que há por trás dessas portas? Ninguém jamais viu. 

Fazer perguntas consideradas tabu: saber se a União Europeia não deveria ser totalmente refeita. Ou ainda, se o general De Gaulle não tinha razão quando optou por sair da Otan. E por que não lembrar também que, durante a guerra, EUA e Reino Unido não hesitaram em aliar-se aos comunistas soviéticos para vencer a infâmia nazista?

Certamente, grande parte das intenções de Trump é repugnante. Muitas das direções que aparentemente ele quer seguir são impasses. São muitos os motivos de alarme. E uma razão a mais para se tentar conhecê-lo sem falsear seu retrato com opiniões preconcebidas. 
(por Gilles Lapouge)


Frank Zappa foi profético. Como sempre...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

URGENTE! EXCLUSIVO! UM FURO DE REPORTAGEM! O 'NÁUFRAGO' APONTA QUEM MATOU ZAVASCKI: FOI A LEI DA GRAVIDADE!

Além dos bumbuns femininos, duas preferências nacionais são as novelas e as teorias da conspiração. Haverá muito de ambas nos próximos dias.

Teori Zavascki, o ministro do STF que era o relator da Operação Lava-Jato, morreu numa queda de avião, assim como ocorrera em agosto de 2014 com o Eduardo Campos (candidato do PSB-PPS-Rede à eleição presidencial daquele ano).

Da mesma forma, não parecia haver então força política que se beneficiasse tanto com a morte de Campos a ponto de envolver-se numa trama de assassinato. E continua em pé até hoje a conclusão oficial de que foi apenas acidente.

A menos que surjam evidências em contrário, agora também foi só acidente.

Zavascki era um ministro do Supremo que procurava agir sempre como ministro, tomando decisões técnicas e apresentando-as em arrazoados praticamente indestrutíveis, sem o estrelismo de um Marco Aurélio Mello nem a tendenciosidade de um Ricardo Lewandowski (ou, pior ainda, a exacerbação dos dois defeitos que se constata em Gilmar Mendes).

Com ele, era praticamente certo que, em algum momento do futuro, Lula seria condenado como corrupto, com o aval do STF . 

Em termos estritamente legais, ele está além de qualquer possibilidade de salvação; suas melhores chances de escapar das grades são uma prisão domiciliar ou um ato de clemência das autoridades, mas o Lula ainda não caiu na real e o PT dá sobejas mostras de preferir tê-lo como mártir trancafiado do que como um aposentado da política desfrutando a velhice ao lado da família. 
Bom negócio para o partido, que continuará tendo um agônico trunfo eleitoral; mau para o Lula, pois a cana é dura aos 71 anos.

Embora o PT tenha o esqueleto do Celso Daniel no seu armário, não acredito que o partido e os lulistas em geral sejam tão desatinados a ponto de correrem o risco de que o Gilmar Mendes se torne o relator da Lava-Jato. 

Pois, se a presidente do STF Carmen Lúcia seguir estritamente as regras, o novo relator vai ser quem Temer indicar para a vaga de Zavascki; e a alternativa, face à urgência da escolha, seria um sorteio entre os remanescentes da 2ª turma do tribunal,  à qual pertencia o falecido: Lewandowski, Mendes, Celso de Mello e Dias Toffoli. Ou seja, o primeiro simpático a Lula, o segundo francamente contrário a ele e os outros dois tendentes a condená-lo como Zavascki faria. 

Donde concluo: mão do PT no acidente, só se for de algum energúmeno como Gregório Fortunato, o guarda-costas de Getúlio Vargas que pensou em ajudar o patrão atentando contra a vida do Carlos Lacerda e acabou, isto sim, levando-o ao suicídio. Repito: não acredito.

Mão da direita também seria uma estupidez sem tamanho. O baralho estava exatamente do jeito que ela queria, mas agora surge a possibilidade de a cavalaria salvar o Lula no fim do filme. 

[Depois do casuísmo que Lewandowski inventou para evitar a perda dos direitos políticos da Dilma no apagar das luzes do impeachment, dele se pode esperar qualquer coisa. Direitista que não tenha QI de ameba preferiria Zavascki a 25% de chance de dar Lewandowski no sorteio.]

Os empresários mutreteiros? Difícil. Falta-lhes coragem para tanto.

Eu apostaria todas as minhas fichas em mero acidente. 

Quem viver, verá.

DEU A LOUCA NO MUNDO CAPITALISTA: EUA ADEREM AO PROTECIONISMO E CHINA DEFENDE LIBERDADE DE MERCADO.

GLOBALIZAÇÃO E PROTECIONISMO ECONÔMICO
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"Seguir o protecionismo é como se fechar num quarto 
escuro em que o vento e a chuva podem ficar
de fora, mas também não há luz e ar."
(Xi Jinping, presidente da China, no
Fórum Econômico Mundial)
O capital é expressão de uma relação social (valor acumulado) no seu estágio desenvolvido, quando os seres humanos se tornam meros instrumentos de viabilização de sua lógica abstrata. Eles não o sabem, mas o fazem (Marx). 

Por ser fruto uma lógica abstrata que serve como forma de relação social, tem regras próprias de existência e comportamento que, paradoxalmente, submetem os seus criadores (os seres humanos) a ditames absolutistas, o que independe da vontade dos ditos cujos.  

Qualquer movimento que contrarie as regras absolutistas da reprodução do capital somente apressa o seu encontro inexorável com a derrocada final, encurtando a contagem regressiva até tal desfecho. 

Nesse sentido, a globalização da economia é uma contingência natural e irreversível do seu processo de busca de reprodução. Como já disse neste artigo, o capital, tal qual a água face à lei da gravidade, procura locais para escoar o seu processo reprodutivo sem o qual ele não sobrevive.

A contradição inconciliável de tal processo de reprodução armou uma cilada para os seus beneficiários originais, as nações do Ocidente que primeiramente viveram a fase de surgimento e crescimento do capitalismo. É que o feitiço virou contra o feiticeiro. 

Antes, os países produtores de mercadorias consumidas no resto do mundo tudo produziam. Houve um tempo em que o cotidiano do brasileiro estava saturado de produtos estrangeiros: ao acordar, fazia a barba com Gillette; banhava-se com Lux, o sabonete de 9 entre 10 estrelas do cinema; guiava um carro Ford ou Chevrolet; abastecia num posto Esso; e assim por diante, até terminar a noite vendo o seriado estadunidense Os intocáveis numa tevê General Electric... 

Seguindo a trilha da busca do oxigênio vital e diante da concorrência de mercado que tudo determina na vida mercantil, as grandes empresas produtoras passaram a produzir em locais próximos do consumo, eliminando os custos da circulação que apenas reduzem a extração de mais-valia para os produtores pelo tempo alongado do ciclo de reprodução do capital. 

Além disto, passaram a buscar locais nos quais o trabalho abstrato permitisse a redução do quantitativo de trabalho necessário (leiam-se salários escravos, de mera subsistência) e oportunizar a existência de trabalho excedente, aquele não remunerado pelo capital e que produz mais-valia e reproduz o lucro, embolsado pelo capital, como única forma de sua reprodução aumentada. 

Ora, o protecionismo mercantil, que consiste em tarifar os produtos importados de modo a se priorizar a produção interna, nacional, coisa que parece muito justa e promissora, de fato não o é; isto porque o capital enquadrado nos limites nacionais reduz a sua capacidade de reprodução aumentada pela queda do volume global de negócios (ainda que apenas alguns produtores ganhem mais). 

Assim, o protecionismo mercantil cedo demonstra a sua incoerência de propósitos, pois contraria a rígida lógica expansionista necessária à dinâmica de reprodução do capital. 

Mas, a cilada que as contradições do capitalismo engendraram para os seus beneficiários originais, os países onde estavam sediadas as grandes empresas, consiste no fato de que, com a transferência das unidades fabris de seus territórios e sem produção mercantil, minguam os empregos e a arrecadação fiscal. 

O capital não é imperialista no sentido das nações, como sempre se propagou, mas o é numa dinâmica existencial própria, não admitindo que a vontade dos governantes se sobreponha à sua vontade (por isto absolutista).    

Esta é explicação racional para a aparente confusão que se observa no atual quadro capitalista internacional, com o novo mandatário de um país que sempre defendeu a liberdade mercantil planetária (a raposa e as galinhas livres num mesmo galinheiro...) agora pregando a reserva de mercado, enquanto o presidente de uma nação dita comunista, que sempre se fechou em suas fronteiras como modo de barrar a concorrência ditada pelo melhor nível de produtividade tecnológico ocidental, fazendo as vezes de arauto da liberdade de mercado. Refiro-me, evidentemente, a Donald Trump (EUA) e Xi Jinping (China). 

A perplexidade que tal situação causa à maioria das pessoas é apenas a resultante de uma lógica inexorável: o capital caminha para a própria destruição em face de suas contradições internas, aqui explicitadas pelo binômio da tecnologia de produção de mercadorias aliada aos salários escravos. O capital, enfim, expõe a sua carantonha. 

Mas a questão não é apenas de mudança de mãos dos países produtores de riqueza abstrata e que com isto se tornam economicamente poderosos (ainda que produzam cisão social interna). Tal mudança de mãos obedece a critérios lógicos e que têm efeitos colaterais, quais sejam:
— se forem aplicadas medidas protecionistas nas economias das grandes potências, sairá enfraquecido o já combalido mercado internacional e, ao invés de criar empregos internamente, apenas vai aumentar o desemprego estrutural;
— se não foram aplicadas medidas protecionistas o crescimento dos países emergentes, com seus baixos níveis de custos de produção de mercadorias, aprofundará a queda da massa global de valor da mais-valia planetária, aprofundando o desemprego estrutural, causa de debacle mundial. 
Ou seja, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.    

Aguardemos os próximos capítulos desta ópera bufa, na qual o povo é a grande vítima. 
                               (por Dalton Rosado)                                 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

MARCELO ODEBRECHT (ELE MESMO!) JÁ FOI UM QUERIDINHO DO FÓRUM DE DAVOS...

As campanhas de desarmamento diziam: hoje mocinho...
É o que informa o atento correspondente internacional Clóvis Rossi na sua coluna desta 4ª feira, 18:

"Reunião da elite empresarial mundial, o Fórum de Davos já viu em Marcelo Odebrecht, ex-presidente da empreiteira, um líder de expressão internacional.

Em 2006, ele foi indicado como um dos Jovens Líderes Globais, ou seja, uma das pessoas que no futuro próximo assumiriam funções de liderança e responsabilidade.

A escolha é feita pelos executivos das empresas que sustentam o Fórum Econômico Mundial, que tem status de organização internacional, similar, por exemplo, ao da Cruz Vermelha Internacional.
...amanhã bandido. Vale também para os criminosos do colarinho branco.
Até 2010, o nome de Marcelo Odebrecht permanecia na lista do Fórum, como jovem líder ainda ativo.

Quatro anos depois, contribuía para um relatório produzido pelo Fórum com o título Criando modelos inovadores de parcerias público-privadas.

Marcelo, 48, também chegou a ser co-presidente para a América Latina do Fórum..."

INIQUIDADE EXTREMA: NO BRASIL, O PATRIMÔNIO DE 100 MILHÕES DE POBRES EQUIVALE AO DE MEIA-DÚZIA DE NABABOS.

Os seis homens mais ricos do Brasil detêm uma fortuna de US$ 79,4 bilhões, equivalente ao patrimônio de 100 milhões de pobres do nosso país, segundo relatório que a ONG britânica Oxfam acaba de divulgar no Fórum Econômico Mundial. São eles: 
  • Jorge Paulo Lemann, Marcel Hemann Telles e Carlos Alberto Sicupira (Ambev);
  • Joseph Safra (Banco Safra);
  • Eduardo Saverin (Facebook) e
  • João Roberto Marinho (Grupo Globo).
Não precisamos nos aprofundar no estudo das contradições insolúveis do capitalismo para termos certeza de que ele está condenado. 

Bastam estes dados, pois iniquidade tão extrema não pode perdurar por muito tempo. 

Na matemática e na vida, não existe igualdade possível entre meia-dúzia e 100 milhões. 

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

PARA QUE SERVE MESMO O FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL?

"O único modo de descobrir os
limites do possível é ir além
deles, rumo ao impossível." 
(Arthur C. Clarke, escritor)
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Começa hoje (17) em Davos, na Suíça, a reunião das mais altas autoridades do mundo político e econômico mundial, que aprofundarão o tema repensando o capitalismo

Como o próprio nome do fórum deixa claro, participarão do encontro figurões comprometidos com o modo de produção capitalista e empenhados em salvá-lo da derrocada em curso. 

Daí sua esperança, expressa na escolha do tema, de que seja possível concertarem uma reforma do capitalismo decadente, para que tudo permaneça como sempre esteve. 

Se olharmos a agenda do representante brasileiro, o ministro da Fazenda Henrique Meirelles – ele se reunirá com empresários da OBS, Lloyd’s e AT&T, dentre outros, e com os ministros das finanças da Suíça e da Argentina, tudo sob o magnânimo patrocínio do Banco Itaú –, podemos deduzir o que se pretende com tal  repensar

A ênfase do encontro deste ano pretende ser “o povo”, e não mais “o mercado”, como tema principal, afirmam os organizadores. Mas não se trata, obviamente, de emancipar o povo do capital, e sim de mantê-lo inserido no processo de produção/exploração capitalista, uma vez que tal mecanismo histórico está fugindo do controle e se tornando inviável. Convenhamos que a tarefa deles não é fácil. 
Os filósofos conservadores como Francis Fukuyama – aquele que foi guru de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, elucubrando sobre um suposto fim da história, com a supremacia definitiva do mercado e da democracia como pilares de sustentação do progresso, desenvolvimento, liberdade e justiça social  se veem às voltas com uma realidade inesperada: depois de o capitalismo ocidental haver triunfado da Rússia oriental ao Leste Europeu, indo até a China e aos confins da Ásia e da África, eis que, no exato momento do seu apogeu, começou a emitir sinais pra lá de alarmantes, de que não é mais capaz de segurar a onda. Tem de ser repensado porque já não consegue servir minimamente como modo de mediação social viável...      

Os dirigentes e megaempresários insistem na retomada do desenvolvimento econômico e se reúnem para buscarem a solução milagrosa que mantenha o status quo mercantil mundial. Em desespero de causa, abandonam o neoliberalismo tradicional e admitem uma participação maior do Estado para conter eventuais descontroles. Os seus gurus de plantão são convocados.  

Neste contexto, o modelo chinês de capitalismo privado + autoritarismo político ganha força. Não por acaso, é o premiê chinês Xi Junping quem abrirá o encontro, falando sobre a necessidade de mecanismos de controles quanto a esta preocupação comum a todos esses capitalistas ali presentes.

Trocando em miúdos: um estado militar, totalitário, com economia de mercado, é o que está na pauta do dia, para conter a insatisfação crescente

Os movimentos da desintegração do capitalismo globalizado são evidentes. Eles vão desde a saída do Reino Unido da União Europeia, o Brexit, passando pela verborragia desconectada com a realidade de um Donald Trump, cujo discurso protecionista viaja na contramão do capitalismo one world.  Aliás, neste sentido, há uma tenebrosa semelhança da retórica trumpetista com as arengas de Hitler. 

Trump fala uma coisa e os seus ministros da área de segurança internacional e comercial dizem outra; tal qual Hitler, que mentia da mesmíssima forma, descaradamente. Fico a me indagar sobre qual a natureza de tal desencontro de opiniões governamentais na futura Casa Branca. Seriam falsidades estratégicas ou, meramente, irresponsáveis e inconsequentes?          

Mas, voltemos a Davos, que se tornou um encontro cada vez mais concorrido de homens de negócios em consonância com governantes e politicas econômicas governamentais, num mundo perplexo diante dos problemas cujas estruturas tradicionais de governo e da economia não são capazes de resolver. 

Os problemas da emigração, com a quantidade cada vez maior de pessoas que fogem da fome e da guerra causada pelo terror; da desintegração dos estados nacionais dominados por milícias; da renitente queda da economia mundial e do crescimento do desemprego estrutural, dentre outros, já não encontram soluções dentro da lógica de mercado, colocando em xeque os tradicionais discursos desenvolvimentistas repetidos anos após ano em Davos. 

A questão que se coloca não é repensar o capitalismo, mas sim superá-lo. De nada adianta insistirem num modo de produção de mercadorias que se tornou incompatível com o saber tecnológico aplicado irreversivelmente nesta produção e que deixou de produzir valor num volume necessário. 

A exploração capitalista chegou ao seu ponto de contradição inconciliável e os homens têm de se conscientizar disto, começando a pensar em produzir para dar, e não para vender. 

É evidente que esta conclusão é tão inaceitável para os homens de Davos, como seria para o conde Drácula viver sob o sol de Ipanema. Equivaleria à renúncia a sua condição de capitalistas e governantes políticos, e eles estão em Davos justamente para tramarem o contrário, ou seja, para discutirem como fazer para que os problemas possam ser minimamente contornados, permitindo que a opressão continue a ser exercida. 

A reunião de Davos não visa à emancipação do povo, como querem fazer crer, mas a uma forma de relação social na qual se possa amenizar a crise de extermínio que ora se abate sobre esse mesmo povo, de modo a que se possa continuar a extrair-lhe mais-valia. Mas, não está fácil de tal objetivo ser concretizado. 

O interessado, exatamente o povo, pretenso foco do encontro, não foi convidado para esta festa em que pratos sofisticados e bebidas caríssimas coexistem com discursos que buscam contornar a realidade, tudo isto sob os auspícios dos maiores bancos do sistema financeiro internacional e das grandes corporações industriais e comerciais. 

Só rematados ingênuos  acreditam que a emancipação do povo possa advir da boa vontade dos seus opressores. (por Dalton Rosado)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A TRAGÉDIA DA UNIÃO SOVIÉTICA: DO SONHO AO PESADELO (final).

(acesse a 1ª parte aqui)
1921: marinheiros do Kronstadt se revoltam contra o terror.
O partido que se permitia uma “espantosa liberdade de debate”, na frase do historiador (hostil) Robert V. Daniels, se fracionara de tal forma que ameaçava o próprio suicídio. Lênin sugeriu e todos aceitaram que fosse proibida a formação de facções, de que se valeria Stálin mais tarde para esmagar todas as oposições. 

Em 1921, o levante dos marinheiros da fortaleza Kronstadt foi impiedosamente esmagado por Trotski, mas, no comentário de Lênin, iluminou dramaticamente a cena de miséria e sofrimento do povo. 

Lênin criou a NEP, Nova Política Econômica, economia mista, em que as grandes (e falidas) companhias do Estado permaneceriam sob controle estatal, mas aos camponeses e donatários de indústrias médias se permitiria o capitalismo. Foi um período de conciliação de classes que se estendeu até 1929, o período mais pacífico da Revolução Soviética até a ascensão de Kruschev, depois da morte de Stalin, em 1953.

Novamente, Trotski se insurgiu, ainda que disciplinadamente, dentro das reuniões do Partido. Trotski propunha a acelerada industrialização do país, a militarização do trabalho, um regime draconiano de desenvolvimento da indústria pesada (elaborado pelo economista Preobrazhensky), que seria adotado ipsis litteris por Stalin, pós-1929, sem reconhecer a autoria, porque expulsara o autor do país nesse mesmo ano e o mandaria assassinar no México, em 1940. 

As explicações de trotskistas ilustres como Isaac Deutscher, de que o programa de Trotski era para ser adotado voluntariamente pelo povo, que excluiria a inacreditável brutalidade de Stalin ao coletivizar a agricultura, são especulações interessantes, impossíveis de provar ou desprovar.
Preobrazhensky: draconiano.
Lênin não aceitou a tese de Trotski. É uma questão aberta se ele considerava a NEP um fenômeno transitório, o que é, claro, religiosamente afirmado pela propaganda comunista, ou se voltara à concepção social-democrata, menchevique, de que a URSS precisava de um período de desenvolvimento capitalista antes de ingressar no socialismo. 

O bolchevique favorito de Lênin, o benjamim do aartido, Nikolai Bukharin, acreditava na segunda hipótese, tanto assim que se aliou a Stalin para destruir a facção radical de Trotski (enriquecida depois de 1926 por Zinoviev e Kamenev) e caiu em 1929, defendendo os princípios da NEP. Nunca saberemos o que Lênin pensava realmente, pois morreu em 1924, sem deixar explicação, ao menos que tenha vindo a público.

Deixou, porém, o famoso testamento. Se, de um lado, propõe a retirada de Stalin do todo-poderoso cargo de secretário-geral do Partido, prevendo o futuro tirano por implicação, de outro, embora reconhecendo a superioridade de Trotski sobre os demais, critica-o pela “excessiva atração” (sic) por “métodos administrativos” (sic), essa última expressão um eufemismo de imposições de programas ao povo a chicote, o que seria a especialidade do stalinismo. 

Fora da URSS, Trotski, sem nunca rejeitar a tese do partido único e exclusivista, tornou-se um apóstolo do comunismo libertário, mas não era obviamente essa a posição dele nos tempos de Lênin, o que o testamento do líder especifica.

A violência com que Stalin industrializou a URSS na década de 1930 é provavelmente responsável pela vitória da URSS sobre a Alemanha nazista e por sua conversão numa superpotência que só rivaliza com os EUA. 

O custo humano dessas realizações, porém, faz estremecer a mente. Cinco ou dez milhões (os dez milhões são de Stalin, ditos a Churchill) de camponeses assassinados na coletivização entre 1929 e 1932, o assassinato de 1 milhão de comunistas nos expurgos de 1934-1939. sem falar de suas respectivas famílias e amigos, elevando o total a 20 milhões de vítimas. 
Era para exterminar os kulaks como classe, mas...

A destruição da fina flor da cultura russa, de Mandelstam a Babel, e o estabelecimento de uma aridez burocrática na vida cultural do país, que permanece até hoje. Uma tirania policial que antes de sua morte, em 1953, superava a de Adolf Hitler. 

E, finalmente, para manter paridade em armas com os EUA, a submissão do povo a indizíveis sacrifícios em nível de vida que, hoje, 24 anos depois da morte do tirano, continua mais baixo do que o da Bélgica, que a URSS, militar, incineraria em meia hora. 

Muito se discutiu na polêmica Stalin-Trotski sobre a posição do primeiro em favor de socialismo num só país e a visão internacionalista de Trotski. Há exagero de parte a parte. Stalin nunca desistiu da revolução mundial, nem Trotski rejeitou a possibilidade de desenvolvimento autônomo da URSS. Trotski não pôde provar o que faria, porque derrubado e assassinado. Stalin, porém, forçado a fixar-se na URSS graças ao renascimento do capitalismo europeu reabastecido pelos EUA, transformou a política externa soviética num modelo de cinismo e oportunismo que desmoralizou o comunismo tanto quanto o corrupto papado na era de Lutero. 

Em 1927, sob os protestos de Trotski, inaudíveis fora do país, Stalin forçou os comunistas chineses a se aliarem a Chiang Kai-shek, pois temia que uma revolução comunista na China atraísse o ódio capitalista contra a URSS. Chiang massacrou os comunistas. Daí nasceu a revolta de Mao Tsé-tung à tutela soviética. No fim da Guerra de 1945, para aplacar os EUA, Stálin continuou traindo Mao e apoiando Chiang. 

Na Iugoslávia, pelos mesmos motivos, na 2ª Guerra, queria que Tito partilhasse o poder com a monarquia. 
Mao Tsé-tung cansou de ser traído por Stalin 
Em 1938, na Guerra Civil Espanhola, à parte mandar assassinar implacavelmente todos os grupos esquerdistas não comunistas que lutavam contra Franco, iniciou a redução do auxílio ao governo republicano porque já planejava o Pacto de Não Agressão, vis-à-vis Hitler, de agosto de 1939. 

Na Alemanha de 1933, insistiu em que o PC considerasse os sociais-democratas os “verdadeiros fascistas”, cindindo a classe operária, o que facilitou a ascensão de Hitler. 

Também no fim da 2ª Guerra fez os comunistas franceses e italianos baixarem armas em face dos EUA, porque queria preservar a esfera de influência que reservara para a URSS no Leste Europeu (apesar disso, essa esfera lhe foi negada pelos EUA até que a URSS desenvolvesse armas nucleares). 

É difícil imaginar política mais sórdida e estúpida. Sem a cisão da classe operária alemã, Hitler só chegaria ao poder mediante uma guerra civil e é quase certo que, em 1933, se o Exército derrotasse socialistas e comunistas, teria posto no poder uma alternativa menos perigosa e agressiva do que Hitler. 

Da mesma forma, o Pacto de Não Agressão nazicomunista de 1939 é julgado obra de gênio de Stalin, pois desviou as fúrias de Hitler para o Ocidente europeu, o qual tentava persuadir direta e indiretamente ao Führer que a URSS seria o alvo ideal de conquista alemã. 

Esse raciocínio tem algum mérito até a invasão da Polônia por Hitler. Nesse período, a Inglaterra já se comprometera a defender a Polônia.
Pacto entre Hitler e Stalin: uma abominação!

Se Stalin, em vez de acumpliciar-se com Hitler, abocanhando metade da Polônia, lhe tivesse dado combate, haveria sido mais fácil derrotar Hitler então, pois, sabemos hoje, a máquina de guerra alemã era mais mistificação tática do que realidade. 

Já em 1941, quando Hitler atacou a URSS, dominava completamente a Europa, seus recursos e tropas. Colocou 144 divisões de elite vis-à-vis Stalin e 3 milhões de homens. 

Stalin obteve, apesar de tudo, a maior vitória militar do século, mas ao preço de 20 milhões de soviéticos e de devastações no país maiores que as da guerra civil de 1918-1922. 

Milhões de pessoas, no entanto, se sacrificaram por Stalin, idealistas, muitas das quais morreram fuziladas nos campos de extermínio da URSS, bradando triunfalmente o nome do carrasco, no momento em que este as executava, o que prova que o comunismo é a religião secular do nosso tempo.

Resta da URSS de Stalin a superpotência. Seus efeitos benéficos são indiretos. Inexistisse a URSS, os EUA, no seu período de expansão imperialista, que terminou com a Guerra do Vietnã, teria transformado o resto do mundo numa coleção de Cingapuras. Todo movimento insurrecto, ou meramente nacionalista, lançou olhos esperançosos na direção de Moscou, talvez porque o único breque à superpotência americana, e não, certamente, porque Moscou fosse a meca do internacionalismo revolucionário.

É difícil imaginar um único movimento comunista fora da esfera de influência soviética no Leste Europeu que aceite e admire o modelo soviético. E mesmo nessa esfera a indocilidade e ânsias de libertação são sensíveis, não em loucos santos do tipo Soljenítsin, mas em novas gerações de reformistas comunistas, que anseiam por apagar a onerosa herança do stalinismo que lhes foi imposta. 
Múmia do Lênin: "ruborizado, com toda a razão".
E dentro da própria URSS, tensões nacionalistas, a inexistência de um padrão de vida civilizado, das mínimas liberdades individuais, provocam agonias de que temos meros relances. 

O stalinismo é um monumental leviatã militar e policial. Espiritualmente, é um cadáver. Seus decrépitos líderes não sabem sequer o que fazer. É uma ditadura caduca que se sustenta pela força da inércia e na ponta de mísseis nucleares e nos tentáculos da KGB. 

Não era esse o sonho de Lênin e Trotski e, talvez, nem do próprio Stalin, no início de sua carreira. Mas foi a nação e o movimento que os três construíram e que cabe a gerações futuras reformular, eliminando deformidades e, principalmente, para purgar a alma de um grande povo, contar-lhe a verdade sobre sua história nesses tumultuosos sessenta anos.

Diversas circunstâncias históricas, principalmente a destruição do mundo burguês capitalista em 1914, deram margem à Revolução Soviética. Disso não resta dúvida. A mim, porém, me parece igualmente certo que, se não fosse o gênio de Lênin, Trotski e Stalin, essa revolução teria seguido um rumo muito diferente. A paternidade da URSS moderna é inequivocamente deles. E o que restou, no país que erigiram do feudalismo de 85% de camponeses, o que restou de cada um?

Lênin, homem simples, materialista convicto, está hoje transformado em ícone, ridiculamente mumificado na praça Vermelha, onde me pareceu ruborizado. Tem toda a razão. Deve estar em rotação permanente na cova. 

Trotski não existe na URSS ou é rotineiramente atacado pelos escribas dos burocratas gagás que administram o patrimônio de Stalin. Um crime histórico que dispensa comentários.
Por Paulo Francis

E o próprio Stalin virou assunto que não se discute em casa de famíliaDepois da superficial revisão do período Kruschev, colocaram de novo a mortalha sobre o governo desse novo misto de Genghis Khan e Pedro, o Grande, que reformulou completamente a história do nosso tempo. 

Dizia-se que a revolução devora seus filhos. A soviética repete a máxima em farsa: fez deles objeto de ridículo para os desinformados, que permanecem 99% da humanidade.
. 
EPÍLOGO DO EDITOR
.
Profundo, brilhante e até profético, este texto do Paulo Francis não poderia ficar ausente das discussões que o centenário da Revolução Soviética suscitará ao longo deste ano, daí a minha decisão de resgatá-lo do injusto esquecimento.

E são muitas e muitas as lições que podemos extrair, a partir de tal pano de fundo. Destacarei duas:
  • a cisão do Partido Operário Social Democrata Russo, em 1903, se deu porque os fantasmas da destruição da frouxa Comuna de Paris tiravam o sono de Lênin, daí ele considerar imperativa a construção de um partido duro, de revolucionários profissionais submetidos a direção e disciplina rígidas, enquanto Trotski via nisto um ovo da serpente (primeiramente, o partido substituirá a classe operária, depois o Comitê Central substituirá o partido e, afinal, um tirano substituirá o Comitê Central). De certa forma, ambos estavam certos. Só um partido tipo jacobino, como o Bolchevique, conseguiria ter tomado o poder em 1917 e o sustentado nos anos seguintes contra a formidável coalizão de inimigos interno e externos. Mas, seu centralismo quase militar era mesmo terreno fértil para a tirania, como Stalin provaria.
  • Na inflamada discussão interna sobre se os bolcheviques deveriam ou não tomar o poder num país que nem de longe estava pronto para o socialismo, prevaleceu a tese de que a revolução soviética seria o estopim de uma sucessão de outras, começando pela alemã, cujo apoio permitiria construir o novo regime na Rússia em condições menos draconianas. Mas, abortada a sonhada sequência, a URSS contou apenas consigo mesma para superar seu acentuado atraso econômico, acabando por fazê-lo a ferro e fogo. Com isto, o chamado socialismo real soviético se tornou tão odioso e execrável que serviu como exemplo negativo para a máquina de propaganda burguesa dele afastar o proletariado das nações mais avançadas. E, embora a construção do socialismo em nações isoladas esteja completando um século de fracassos, até hoje a esquerda a continua tentando, em vão. Não seria o caso de voltar a apostar suas principais fichas na revolução mundial? Não é paradoxal a economia estar globalizada e os movimentos revolucionários terem praticamente abandonado o internacionalismo de outrora?
Por último, é impressionante como, em novembro de 1977, Paulo Francis já antevia (e ousava colocá-lo no papel!) o colapso do regime soviético. Quase ninguém o fazia na esquerda brasileira, que, depois da primavera de 1968, regredira ao mais tacanho maniqueísmo, com o consequente embotamento do espírito crítico.

Seria pedir demais que Paulo Francis, além disto, antecipasse que o leviatã sucumbiria principalmente por não conseguir incorporar os avanços tecnológicos da 3ª revolução industrial e começar a perder de goleada no front econômico, o que o forçou a optar entre a decadência irreversível ou a volta ao capitalismo. (por Celso Lungaretti)
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